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A discussão sobre o ensino de língua portuguesa não é recente, prova disso é a proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que datam de 1998. O ensino de língua portuguesa no Brasil é regulamentando PCN, assim como todo o ensino brasileiro. Eles regem o ensino na Escola Internacional, relativo ao currículo brasileiro, apesar de a instituição incentivar uma abordagem em que se mescle, com adaptações, PCN e Commom Core31─ que

seria, grosso modo, os PCN propostos para a educação nos Estados Unidos, ou melhor, a BNCC americana.

Já na introdução do documento, fica evidente a preocupação com o ensino de língua portuguesa, pela dificuldade de se alfabetizar os alunos e de formar cidadãos verdadeiramente proficientes em sua língua materna, sobretudo na língua escrita. Na busca do caminho para a formação de bons leitores e eficientes produtores de textos escritos, a educação brasileira vem tentando encontrar um caminho de sucesso, e a implementação dos PCN de língua portuguesa é uma dessas tentativas.

Sua base teórica vai além da abordagem clássica do ensino de língua materna centrado em uma abordagem prescritiva, no qual se prioriza a gramática normativa. No documento, a linguagem é compreendida como meio de comunicação, de acesso à informação, de construção

31 São objetivos de aprendizagem que direcionam o ensino de Matemática e Língua Inglesa nos Estados Unidos. Segundo página oficial, The Common Core is a set of high-quality academic standards in mathematics and English language arts/literacy (ELA). These learning goals outline what a student should know and be able to do at the end of each grade. The standards were created to ensure that all students graduate from high school with the skills and knowledge necessary to succeed in college, career, and life, regardless of where they live. Forty-two states, the District of Columbia, four territories, and the Department of Defense Education Activity (DoDEA) have voluntarily adopted and are moving forward with the Common Core. Disponível em

de argumentos e de cultura. Já a língua é tida como um “sistema simbólico utilizado por uma comunidade linguística”. Os dois conceitos estão voltados para o mesmo caminho, que é a interação social e a forma de se relacionar com o mundo, pois isso se dá por meio da linguagem.

Um ensino que tem como base os conceitos de linguagem e de língua apresentados não está interessado apenas em ensinar as regras gramaticais e como se analisar a língua, mas sim está preocupado em formar cidadãos que saibam utilizar a linguagem no exercício de sua cidadania. Com isso, à escola cabe instrumentalizar os alunos para esse fim e formar cidadãos críticos e reflexivos, dando-lhes um ensino significativo e de qualidade, sobretudo no que diz respeito à disciplina Língua Portuguesa.

Os PCN consideram também que interagir pela linguagem é produzir discursos, pois é na comunicação que o uso da língua acontece, pressupostos também enfocados na base teórica desta pesquisa. Essa compreensão de língua e linguagem implica consequências sérias ao ensino de língua materna, pois o alvo não é mais a estrutura, e sim o contexto de uso, no qual as condições de produção de um texto, os interlocutores e o objetivo da comunicação têm tanta importância quanto à correção gramatical.

Uma das consequências para o ensino, gerada pela noção de língua adotada é a mudança na percepção de texto, já que a Teoria dos Gêneros Textuais propõe um ensino de redação diferente da noção tradicional na qual o aluno escreve um texto dissertativo sem um leitor real, e sem uma função social também real. Esse é um pequeno ponto das inovações propostas pelos PCN, em 1998, que demonstra a dificuldade de se perceber a linguagem sob a perspectiva do uso, com um viés interacional, tendo em vista que o encontrado em materiais didáticos e em salas de aula de língua portuguesa, ainda hoje, em 2015, não está alinhado, completamente, ao que propõe o documento.

Um ponto enfatizado pelos PCN e que ainda precisa ser aprimorado em materiais didáticos e práticas pedagógicas, ao menos entre o público enfocado nesta pesquisa, é o trabalho sistematizado com o texto oral. O documento propõe que os alunos analisem textos nessa modalidade para que percebam suas características, variações, funções sociais, estruturação e diferença entre essa e a modalidade escrita da língua. O quadro a seguir, retirado da página 49 do documento, indica o que se espera de um aluno em relação ao processo de escuta de textos orais. Assim é esperado que o aluno

Figura 12 ─ Brasil, 1998:49. O que se espera do aluno no processo de escuta de textos orais.

O documento defende um ensino de língua em que a gramática não seja apenas centrada na metalinguagem, com foco nos manuais prescritivos, como já foi mencionado, descontextualizada e sem sentido prático para a vida real do aluno. Nesse sentido, na página 29 dos PCN, tem-se que

O que deve ser ensinado não responde às imposições de organização clássica de conteúdos na gramática escolar, mas aos aspectos que precisam ser tematizados em função das necessidades apresentadas pelos alunos nas atividades de produção, leitura e escuta de textos.

Um dos princípios teóricos básicos sobre o ensino dos conteúdos de língua portuguesa que subsidiam as propostas dos PCN é o eixo Uso  Reflexão  Uso. Assim, todo o ensino seria pensado a partir do uso e para o uso da língua. Esse fundamento teórico se alinha à base epistemológica desta pesquisa, a UBL. Dessa forma, não há como praticar o ensino gramatical, mas, sim, realizar a análise linguística do português.

Segundo os PCN, a prática da análise linguística é fundamental em sala de aula, e não representa um novo nome para a mesma análise gramatical da língua. Ao contrário, propõem- se, nessa análise, o olhar a língua e sua estrutura, considerando-se o discurso na qual ela está sendo usada. Dessa forma, como já foi trabalhado no capítulo anterior, o texto seria o objeto de análise e a estrutura linguística seria ensinada com base no gênero textual, considerando-se os aspectos estruturais, pragmáticos e discursivos, conjuntamente. Isso significa trabalhar classes de palavras, mas não fazer o aluno decorar todos os substantivos epicenos e sobrecomuns, mas verificar como esses elementos estruturais são usados para a comunicação oral e escrita, formal e informal, sempre relacionando a estrutura linguística à língua em uso, ou seja, ao discurso.

O foco desta pesquisa é a produção textual, e sobre essa os PCN têm uma seção na qual se define o que se espera de um aluno nessa prática. Produzir um texto, como o próprio

documento defende, é uma tarefa complexa, em que se tem que coordenar várias ações, tais como: o que se vai informar, para quem, como, com qual linguagem e com qual registro. No sexto ano essa sincronia de ações é muito complexa, exigindo um professor que saiba guiar o aluno pelo fazer textual, definindo um percurso a ser seguido que pode passar pela paráfrase, por reescrever o que outro texto informa, por analisar seu texto e refazê-lo com o auxílio docente, entre outras ações construtoras de um bom texto escrito.

Os PCN propõem que a seleção dos conteúdos a serem trabalhados seja feita com base na capacidade e nas necessidades do aluno, e não no que a tradição escolar predetermina. Contudo, teoria e prática não se encontram na prática escolar, ainda hoje. O ensino continua organizado com base no que a tradição define, além das necessidades que a realidade social impõe como o clássico ensino voltado para o vestibular, ou, como pode ser observado em uma rede privada de ensino do Distrito Federal, a seleção de conteúdos com vistas a preparar os alunos para concursos públicos.

Em relação ao ensino de língua portuguesa, os PCN trazem propostas que redistribuem os papéis no contexto escolar e posicionam o aprendiz no centro da questão. Dessa forma, escola e professores devem planejar a organização e a sequenciação dos conteúdos conforme a figura seguinte apresenta. Nota-se a valorização do grau de autonomia do sujeito, o que propicia à escola seguir nessa direção.

Figura 13 ─ PCN página 39.

O ensino proposto pelos PCN em relação ao ensino de língua portuguesa demanda profissionais da educação, em todas as esferas, engajados à prática proposta. Só que esse engajamento passa por algumas questões prévias, como um professor capacitado para a prática da análise linguística, para o incentivo à leitura, com condições de ser também um pesquisador

em sua sala de aula, para, constantemente, monitorar o desenvolvimento e as necessidades de seus aprendizes, para organizar projetos integradores e motivadores, além de proporcionar uma gestão que apoie as iniciativas e propostas feitas por seus docentes.