7 Conclusion
7.1 Implications for macro-meso-micro practice
O monitor Ives, evidencia um sentimento de insatisfação em relação ao meio onde vive: “Aqui, tudo demora a chegar, parece que tudo é parado no tempo”. Ao se analisar seu desabafo, num primeiro momento, pressupõe-se que esta afirmação estava relacionada ao subdesenvolvimento do município, à falta de escolhas, de lazer e entretenimento, quando comparados aos grandes centros urbanos.
Porém, no decorrer da entrevista, pôde-se perceber que este sentido, tinha relação com a falta de informações acerca de indicadores conjunturais da região
24 Em suma, o Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (DLIS) é uma denominação ampla para vários tipos de
processos de desenvolvimento local. Lançada institucionalmente em 1997, pelo Conselho da Comunidade Solidária, a expressão foi adotada pela maioria dos atores que se dedicam ao desenvolvimento local no Brasil. O DLIS também pode ser definido como uma estratégia complementar que vise melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem em unidades territoriais delimitadas, ou mais restritamente ainda, como uma estratégia de superação da pobreza concentrada em bolsões marginalizados do país.
25 Interferências dos processos de mundialização das economias, que agem em tempo real, intensificando e modificando as
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onde ele vive, gerando uma visão distorcida da realidade, e, consequentemente, uma rejeição à sua identidade social.
Sobre esse aspecto, convém elucidar Bourdieu (1979), quando considera que o mundo social se constitui num jogo de lutas, pois as representações que os grupos fazem deles mesmos, e de outros segmentos sociais contribuem no processo de formação dos próprios grupos:
A representação do mundo social não é um dado, ou o que quer dizer a mesma coisa, um registro, um reflexo, mas o produto de inúmeras ações de construção que são sempre feitas e sempre refeitas. Ela está colocada nas palavras comuns (ditados), termos performativos, que fazem o sentido do mundo social ao mesmo tempo em que registram palavras de ordem que contribuem para produzir a ordem social ao conformar o pensamento desse mundo, ao produzir grupos que elas designam e que elas mobilizam (BOURDIEU, 1979, p. 435).
Desta forma, Bourdieu (1979) conclui que os indivíduos não são seres autônomos e autoconscientes, nem mecanicamente determinados pelas forças objetivas. Eles agem orientados por uma estrutura incorporada que reflete as características da realidade social na qual foram anteriormente socializados.
Ou seja, a opinião do monitor Ives é influenciada pela percepção de um grupo em que se somam, além da falta de informações sobre os aspectos econômicos e sociais do seu meio, um conjunto de significações ideológicas, identitárias e culturais que justificam essa visão:
A Modernidade foi instituindo, aos poucos, pensamentos ideológicos generalizantes de urbanização e industrialização pautadas, não só nas teorias científicas, que influenciaram a elaboração de modelos de pacotes tecnológicos aplicados nos mais diversos contextos societários e, na medida em que as particularidades locais não se adequavam, ou resistiam às concepções generalizantes que eram consideradas atrasadas. (STROPASOLAS, 2006, p. 56).
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Atualmente, a visão do atraso vem sendo questionada por estudos científicos de pesquisadores como Graziano da Silva (1996), Gomes da Silva (2002), Sachs (2003), Eli da Veiga (2004), Abramovay (1995) e Wanderley (2001), que sem menosprezar os imensos desafios para combater os problemas pontuais do espaço rural, traçam perspectivas bem positivas que se distanciam da visão de decadência geral que o caracterizou por décadas.
A perspectiva exposta por Graziano da Silva (1996), que desenvolveu substanciais estudos empíricos no âmbito do Projeto Rurbano26, minimiza as mudanças de representabilidade do rural em nível das alterações na sua dinâmica produtiva, a partir do pressuposto que “não é importante na atualidade entender a diferença entre o rural e o urbano, já que o rural só pode ser entendido como um
continuum27 do urbano, do ponto de vista espacial e do ponto de vista econômico”. (GRAZIANO DA SILVA, 1996, p.1).
Em síntese, a visão decadente do “rural”, vem sendo ressignificada, não só em função das contradições do processo de internacionalização da economia, mas face à crise do atual modelo de vida urbano industrial. Desta forma, o rural passa a ser visto de uma forma mais valorizada. Ou seja, como uma representação mais positiva do papel e do espaço ocupado pela ruralidade na sociedade contemporânea.
Outra tese que justifica essa tendência é que a humanidade, cada vez mais, passe a valorizar a qualidade de vida. Desenvolva uma singular conscientização ecológica, consequência dos desastres ambientais que põem em risco a vida no planeta. As pessoas passam a buscar na natureza modelos e formas alternativas de gestão e sustentabilidade.
Portanto, o depoimento do monitor Ives, ao rejeitar o espaço social onde vive, revela uma visão equivocada, e um completo desconhecimento dos aspectos conjunturais desse “novo rural”. Todavia, compreende-se que nesta percepção está
26 Projeto temático “caracterização do Novo Rural Brasileiro, 1981/95”,” em que se pretendeu analisar as transformações
recentes no meio rural em onze unidades da federação (PI, RN, AL, BA, MG, RJ, SP, PR, SC, RS e DF).
27 Representa a integração entre os processos sociais rurais à sociedade englobante, na medida em que passa a ocorrer uma
maior interação entre o meio rural e o meio urbano, de tal modo que entre o urbano e a ruralidade não há uma ruptura e sim uma continuidade. O caráter inovador desta abordagem consiste no fato de que ela indica, claramente, o fim das formas tradicionais da dicotomia rural-urbano, as que são definidas pelo isolamento e pela oposição radical entre campo e cidade.
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intrinsecamente relacionado um conjunto de preceitos culturais e ideológicos, não notadamente pronunciados, construídos e enraizados pelo tempo, fruto da realidade social, na qual ele foi socializado.