A problemática do olhar – le regard – atravessa e constitui todo um capítulo a parte do pensamento francês no séc. XX. De certa forma, tal tema constitui uma linha privilegiada para a compreensão da tensão e ruptura existente entre a geração marcada pelo questionamento fenomenológico – Sartre e Merleau-Ponty – e aquela formada dentro da voga estruturalista. Justifica-se, então, uma pontual reconstrução de algumas posições teóricas sobre tal questão, com o intuito de melhor determinar a singularidade e importância de tal tema para o pensamento de Foucault.
Em Sartre há uma fina análise fenomenológica do olhar que nos é apresentada através de uma “cena” na seção intitulada “Olhar” de O ser e o nada37:
Eu estou em um jardim público. Não longe de mim há um gramado e, ao longo deste gramado, assentos. Um homem passa perto dos assentos. Vejo este homem e o capto ao mesmo tempo como um objeto e como um homem. Que significa isso? Que quero dizer quando afirmo que este objeto é um homem? (SARTRE, 2009, p.328)
Em um primeiro momento, o sujeito encontra-se sozinho em meio a um jardim francês. Solitude fundante, todo o parque dá-se à consciência que, centro do campo de
36Devo o paralelo entre Sartre e Lacan a Norman Bryson, The gaze in the expanded field, in. Visual and
Visuality (org. Hal Foster). Norman, contudo, não insere Foucault como terceiro elemento da série.
visão, é a senhora soberana da cena: sua luminosidade originária é o olho bem centrado do palco. Porém, tal campo luminoso e pleno é abruptamente quebrado, pois outra pessoa adentra o parque. Tal intrusão cria uma zona de opacidade no campo de visão do sujeito e, mais do que isso, o descentra de sua posição: agora, o espaço da visão constitui-se em relação a ambos. Ora, esse descentramento do sujeito reconfigura todo o campo subjetivo do olhar, tal como a disposição de um novo rosto em um espaço pictórico de um quadro: “O outro é, antes de tudo, a fuga permanente das coisas rumo a um termo que capto ao mesmo tempo como objeto a certa distância de mim e que me escapa na medida em que estende à sua volta suas próprias distâncias.” (SARTRE, 2009, p.329) O observador deixa de ser o ponto de fuga de todas as linhas do horizonte; a perspectiva se abre e as linhas fogem em direção ao outro. O gramado já não está apenas para-mim, a forma das estátuas ganha outra relação com o espaço, “os grandes castanheiros que ladeiam o caminho” reorganizam-se a partir da distância que o outro homem relança entre ele e as árvores: “é um espaço inteiro que se agrupa ao redor do outro, e este espaço é constituído com meu espaço; é um reagrupamento, ao qual assisto e que me escapa, de todos os objetos que povoam meu universo.” (SARTRE, 2009, p.330) A intrusão do outro faz com que o campo de visão do eu, antes central, se torne uma tangente da cena. Há uma inversão do campo e o mundo reconverge para esse outro em que o eu-não-é: “a aparição do outro no mundo corresponde, portanto, a um deslizamento fixo de todo universo, a uma descentralização do mundo que solapa por baixo a centralização que simultaneamente efetuo.” (SARTRE, 2009, p.330)
A análise de Sartre, entretanto, não para por aí. Pois, o homem que adentra o parque não apenas é objeto para mim como também me olha. Estabelece-se uma mediação dialética em que a intrusão do outro no campo de visão do sujeito o transforma em objeto. “Ser-visto-pelo-outro” é a relação originária que me permite ver aquele que adentra o parque como homem uma vez que, diferentemente das coisas, esse outro relança meu olhar - o devolve - invertendo a relação sujeito-objeto: “é este objeto do mundo que determina um escoamento interno do universo, uma hemorragia interna; é o sujeito que a mim se revela nesta fuga de mim mesmo rumo à objetivação.” (SARTRE, 2009, p.332) Tal olhar traz algo de mortificante, terror de quem pressente o aniquilamento de sua subjetividade na alteridade absoluta. Jogo do reconhecimento em que no mesmo movimento que o olhar do outro objetiva o sujeito, ele é objetivado pelo seu olhar. Porém, a astúcia dialética que coloca em relação termos opostos - sujeito e objeto - fazendo-os oscilar um em direção ao outro, no mesmo movimento conserva-os. Através da ameaça
do olhar do outro o sujeito não desaparece. A esse olhar o sujeito irá sobreviver, agora sabendo que sua exposição à alteridade não é capaz de aniquilá-lo plenamente, tomando consciência do significado, para-mim, de ser visto. Reconhecendo sua essência como não- essência através desse processo de nadificação mediado pela objetivação – crivo de um outro que “a cada instante sempre me olha” - a posição do sujeito é reconquistada e reafirmada.
O problema do olhar em Sartre é, portanto, desenvolvido a partir do ponto de vista do sujeito - ainda que este sofra um descentramento com a intrusão da relação de alteridade - como ele próprio afirma: “chegamos ao fim desta descrição. (...) convém notar que tal descrição foi constituída integralmente no plano do cogito.” (SARTRE, 2009, p.344) Apesar do rigor dialético da análise, o sujeito sartriano é ainda por demais devedor do cogito cartesiano: ele é capaz de sofrer um amplo processo de nadificação, em que tudo se dissolve, exceto, a fundamental irredutibilidade da consciência. Movimento semelhante encontramos em sua reflexão sobre a liberdade: quando o sujeito compreende que não há códigos transcendentes absolutos capazes de assegurar suas escolhas morais, quando a indeterminação do mundo e a contingência dos acontecimentos nulificam o campo das formas éticas tradicionais (a conhecida litania: “se Deus morreu tudo é permitido”), o sujeito ressurge como polo doador de sentido, onde sua indeterminação torna-se o núcleo de uma escolha autêntica e livre. A passagem das formas éticas pelo campo da nadificação é capaz de nulificá-las, mas é incapaz de nulificar a consciência, pelo contrário, a devolve a sua posição originária. O mesmo em relação à cena do parque: mesmo que a análise de Sartre recupere a dialética senhor servo, o descentramento do sujeito nunca é absoluto. Ela se mantém, propositalmente, no plano do cogito.
Isso nos leva a outra “cena” de nossa série, de certa forma também devedora da problemática hegeliana-kojeviana do olhar e do desejo do desejo do outro. É em seu difícil seminário 11 – sobre “os quatros conceitos fundamentais da psicanálise” – que Jacques Lacan nos relata o ocorrido38:
Um dia estava eu num barquinho com algumas pessoas, membros de uma família de pescadores de um pequeno porto. Nessa ocasião, nossa Bretânia ainda não estava nas condições de grande indústria, nem da frota de pesca, o pescador pescava em sua casquinha de noz, com seus riscos e perigos. Eram esses riscos e perigos que eu gostava de partilhar, mas não era riscos e perigos o tempo todo, havia também dias de bom tempo. Um dia, então, em que
esperávamos o momento de puxar as redes (...) Joãozinho me mostra alguma coisa que boiava na superfície das ondas. Era uma latinha, e mesmo precisamente, uma lata de sardinhas. Ela boiava ali ao Sol, testemunha da indústria de conserva, que estávamos, aliás, encarregados de alimentar. Ela respelhava ao Sol. E Joãozinho me diz – “Tá vendo aquela lata? Tá vendo? Pois ela não tá te vendo não!” (LACAN, 2012, p.94)
Lacan não vê tanta graça nessa história. Ao contrário de seu colega de pesca que ri, a história o perturba. Isso porque ele sente que talvez “as coisas nos vejam”, que o mundo de objetos inanimados de certa forma devolva o nosso olhar. Mas como?
O que Lacan faz é deslocar a problemática de Sartre uma vez que agora não se trata de um sujeito que me olha, mas sim, do Significante39, deste Outro que captura a
visão. Pois quando o sujeito vê, é certo, ele coloca-se no centro do campo de visão, como um ponto de recepção dos raios luminosos desse mundo que não para de “respelhar” o Sol. Porém, tal descrição - ainda muito devedor de certa dióptrica cartesiana - esquece-se que “não sou simplesmente esse ser puntiforme que se refere ao ponto geometral desde onde é apreendida a perspectiva. Sem dúvida, no fundo do meu olho, o quadro se pinta. O quadro, certamente, está no meu olho. Mas eu, eu estou no quadro.”(LACAN, 2014, p.94) Quando vejo, a luz não se dá aos meus olhos de forma absolutamente espontânea, ao contrário, ela chega até mim dentro de “uma rede de significações como forma inteligível” (BRYSON, 1988, p.91). Meu olhar sempre está em relação ao olhar dos outros sujeitos, só vejo através do olhar de todos os outros, o que traz como consequência que apenas posso olhar porque antes sou olhado. Maneira lacaniana de nos lembrar que a visão é socializada e, exatamente por isso, a realidade visual pode ser nomeada, organizada, ou mesmo classificada como “alucinação, erro, ou ilusão”. Entre sujeito e objeto, entre o imaginário e o Real, uma teia discursiva se abre: um écran – como diz Lacan – de signos estrutura o campo de visibilidade. Como consequência, nunca temos a percepção pura do mundo, a forma humana originária de apresentação do fenômeno luminoso. O campo visual é construído, ganha uma espessura linguageira que me atravessa e olha através do meu olhar.
Aqui, reconhecemos a já debatida temática estruturalista da linguagem. Pois quando aprendo a falar, por exemplo, ajo dentro de um sistema de significação anterior a minha existência no mundo e que continua absolutamente indiferente à minha morte. É certo que a linguagem passe pela minha boca, mas o eu, o cogito, está na linguagem. O
39Aqui, sigo alguns apontamentos do já citado texto de Norman Bryson, The gaze in the expanded field,
mesmo acontece com nosso campo de visão culturalmente partilhado: ele vê o mundo antes de mim e continua a vê-lo após minha morte; rede de signos que me olha através de uma lata de sardinha. O écran, ou o Outro – não um sujeito, mas a ordem simbólica - lança uma opacidade sobre o olhar, mortificando-o. O campo visual do sujeito é determinado por um regime de signos que o atravessa e lhe é constitutivo. Com Lacan, o sujeito do olhar é radicalmente descentrado de sua posição soberana, uma vez que não é mais senhor em sua própria casa perceptiva. Distanciamo-nos do plano do cogito, ou melhor, aceitamos sua impossibilidade de evidência. Por isso, mesmo que a figura do sujeito não desapareça, ela não poderá mais fundar a perspectiva pela qual problematizo e investigo a questão do olhar. O olho deixa de ser uma morada para o homem. A experiência dada ao olho - à consciência - encontra-se crivada pela linguagem. Consequentemente, há sempre algo no olhar que escapa ao sujeito: “O olhar especifica- se como sendo inapreensível.” (LACAN, 1973, p.70)
Disso se segue que, ao invés de entrar nas mediações e impasses próprios à fenomenologia do olhar de Sartre, Lacan insista na busca por aquilo que não se reduz à aparição fenomênica, aquilo que não encontra lugar na relação entre sujeitos. Essa ordem do simbólico que arma o jogo da verdade de um olhar assinala como a equação entre sujeito e consciência é substituída em prol de uma subjetividade descentrada e clivada por uma estrutura que a objetifica. Daí esta estranha (unheimlich) experiência de que “do lado das coisas, há o olhar.” (LACAN, 1973, p.100) Experiência que ao colocar em suspeita a identidade e a presença evidente pressuposta em toda experiência subjetiva da visão, abre espaço para uma crítica do narcisismo inerente à constituição do sujeito moderno.
Podemos dizer, em primeira instância, que a posição de Foucault assemelha-se em alguns pontos a de Lacan, quanto ao contraste em relação a Sartre e a recusa de um primado da consciência na determinação do espaço da visão e de sua significação. Porém, seu campo de problematização é, sem dúvida, completamente outro: como um regime escópico, ou uma ordem de visibilidade, pode constituir um índice de verdade? Mais do que isso, qual a relação que tal campo de organização do olhar desenvolve com o campo discursivo na formação complexa de um saber? “Eu gostaria de fazer uma história da cena através da qual nós tentamos distinguir o verdadeiro e o falso (...) é o teatro da verdade que eu gostaria de descrever.” (FOUCAULT, 2001b, p.572). Talvez, um bom exemplo deste “teatro da verdade” de Foucault seja esta “cena” presente logo na introdução de O Nascimento da clínica:
Em meados do século XVIII, Pomme tratou e curou uma histérica fazendo-a tomar “banhos de 10 a 12 horas por dia, durante dez meses”. Ao término desta cura contra o ressecamento do sistema nervoso e o calor que a conservava, Pomme viu “porções membranosas semelhantes a pedaços de pergaminho
molhado... se desprenderem com pequenas dores e diariamente saírem da urina, o ureter do lado direito se despojar por sua vez e sair por inteiro pela
mesma via”. O mesmo ocorreu “com os intestinos que, em outro momento, se
despojaram de sua túnica interna, que vimos sair pelo reto. O esôfago, a tráqueia-artéria e a língua também se despojaram e a doente lançara vários
pedações por meio de vômito ou de expectoração.” (FOUCAULT, 2011a, VII,
grifo nosso)
Em Foucault, a problemática do olhar está inserida dentro de uma questão mais ampla: a do arquivo. Não se trata tanto, como em Sartre e Lacan, de questionar o papel do sujeito e seu processo de formação dentro do campo visual. O olhar em Foucault não se coaduna com uma teoria do sujeito. Obliquamente, é certo, veremos como o sujeito pode encontrar-se assujeitado pelo olhar. Mas essa não é a malha fina da análise de Foucault. As “cenas”, que se multiplicam por toda sua obra, fazem parte do arquivo de uma época e são retomadas dentro de uma análise dos discursos. A problemática do olhar surge como uma das dimensões de uma investigação histórico-crítica sobre a verdade. Exatamente por isso, é fácil ignorar por completo este caráter óptico das análises foucaltianas, tratando-as como meras exemplificações históricas, como um documento a ser lido, como pura expressão de uma linguagem antiga. Porém, o que Foucault sublinha nesta cena é exatamente o que Pomme “viu”, este conteúdo que não vemos, mas que desliza por baixo da linguagem do texto. É exatamente esta percepção que será contrastada na sequência:
E eis como, 100 anos depois, um médico percebe a lesão anatômica do encéfalo e seus invólucros: “trata-se das falsas membranas que frequentemente se
encontram nos indivíduos atingidos por meningite crônica. Sua superfície externa aplicada à lâmina aracnoide da dura-máter adere a esta lâmina, ora de modo muito frouxo, e então se pode separá-las facilmente, ora de modo firme e íntimo, e neste caso é difícil às vezes desprende-las. Sua superfície interna é contígua e aracnoide, com quem não contrai união. As falsas membranas são frequentemente transparentes, sobretudo quando muito delgadas; mas habitualmente apresentam uma cor esbranquiçada, acinzentada, avermelhada e, mais raramente, amarelada, acastanhada e enegrecida. (...) A organização das falsas membranas apresenta igualmente muitas diferenças; as delgadas são cobertas por uma crosta, semelhante às películas albuminosas dos ovos sem estrutura própria distinta. As outras, muitas vezes, apresentam, em uma de suas faces, vestígios de vasos sanguíneos
entrecruzados em vários sentidos e injetados.” (FOUCAULT, 2011a, p.VIII)
Ora, o que há entre o primeiro texto de Pomme, texto que exemplifica as superstições sobre a patologia nervosa de um século, e o texto de Bayle que descreve, em uma linguagem que ainda é a nossa, a anatomia e as lesões da paralisia encefálica? Entre elas,
dirá Foucault, “a diferença é ínfima e total.” Total para nós - modernos e contemporâneos de Bayle - pois seu texto desvela com precisão cirúrgica toda uma anatomia, todo um regime de visibilidade do organismo vivo através do qual nos reconhecemos. Ínfima, pois o texto de Pomme “fala a linguagem, sem suporte perceptivo, das fantasias”. (FOUCAULT, 2011a, p.VIII) Nesse caso, nos vemos reduzidos a duas linguagens diferentes, tateando aquilo que desliza e escapa às palavras. Ou seja, nessa comparação Foucault não se orienta apenas pelo regime discursivo que separa a medicina clássica da moderna, ele se questiona, ao mesmo tempo, por aquilo que a linguagem se esforça para capturar, a saber, a experiência perceptiva subjacente a tais discursos médicos. Ora, tal concepção de que o arquivo sempre fala de algo que não se subsumi completamente ao crivo dos enunciados abre espaço para a pergunta:
Mas, que experiência fundamental pode instaurar essa evidente separação aquém de nossas certezas, lá onde nascem e se justificam? Quem pode assegurar-nos que um médico do século XVIII não via o que via, mas que bastaram algumas dezenas de anos para que as figuras fantasmáticas se dissipassem e que o espaço liberto permitisse chegar aos olhos o contorno nítido das coisas? (FOUCAULT, 2011a, p. VIII)
Questão que expressa uma dupla recusa: (1) de um realismo ingênuo e do mito do dado que seria sua contraparte; (2) de uma redução completa do arquivo ao seu caráter de texto, de um idealismo linguístico em que - para falar de forma um pouco grosseira – “tudo é linguagem”. Exposição precisa de como em Foucault o “arquivo é audiovisual”, para retomar a graciosa expressão de seu amigo Gilles Deleuze. O que muda entre uma formação discursiva e outra, o que se altera entre as séries históricas dos acontecimentos, é exatamente “este espaço em que se cruzam os corpos e os olhares. O que mudou foi a configuração surda em que a linguagem se apóia, a relação de situação e de postura entre o que fala e aquilo de que se fala.” (FOUCAULT, 2001a, p.IX) Ou seja, através de qual ordem linguagem e experiência se articulam?
Trata-se, portanto, de descrever não a percepção pura de uma época, não a forma a priori da intuição ou da sensibilidade, tampouco o ser do sensível e seus modos de doação à consciência; pelo contrário, a análise do arquivo busca mostrar como as coisas foram feitas visíveis, como elas são mostradas, disponibilizadas, organizadas, produzidas, tanto pela ação de conhecer, como pela arte de governar e a dinâmica própria ao poder. O olho vê a partir da linguagem, sem dúvida. Mas fala-se, também, através de um espaço de visibilidade. A partir de qual ordem do olhar as coisas e a linguagem se entreolham?
Qual o palco de encenação de uma verdade? Que dinâmica é essa que Foucault visa estabelecer entre o ver e o falar?