2 Funding of the CoEs
2.2 Impact on resource allocation: comparisons with other Norwegian research
Eram ruas de terra e tempos difíceis, como relata Pe J. D., da Comunidade Maria Mãe dos Migrantes:
Eu sempre lembro as ruas sem asfalto e a gente subindo até a casa dos padres, a gente subia, quando chovia, era horrível. (ENTREVISTADA).
Nesse sentido também relata M. T., moradora do Jardim Carrãozinho, desde meados dos anos 1980:
Naquele tempo o ônibus não ia até onde hoje é o ponto final, não. A gente tinha que subir até a avenida Sapopemba se quisesse pegar a condução. E quando chovia? Era um barro só. (ENTREVISTADA).
No Parque São Rafael, a primeira iniciativa pública, ainda nos anos 1980 foi o asfalto nas vias principais, por onde os ônibus circulavam. Assim, a avenida Baronesa de Muritiba, a principal via do bairro, é uma das primeiras a ser asfaltada, facilitando o transporte de passageiros para o ABC paulista, pela antiga viação Santa Rita, e para o Parque Dom Pedro II, pela CMTC. No entanto, nessa época também surgiu uma iniciativa das próprias empresas do ABC que, devido à problemática do transporte de operários, passam a disponibilizar ônibus particulares. Ainda hoje, ônibus da Volkswagen, Ford, General Motors, Mercedes-Bens, entre outras, circulam, dia e noite pelo bairro levando e trazendo os trabalhadores. Nesse sentido, relata o Pe. J. D. “a maioria das pessoas que estavam naquele bairro trabalhavam (...) e iam saindo de manhã naqueles ônibus”.
No Jardim Carrãozinho, as iniciativas públicas tardaram, só vieram nos anos 1990, e, como no Parque São Rafael, as primeiras vias a serem asfaltadas foram as principais e o ônibus, os poucos, foram entrando nos bairros. No final dos anos 1990, muitos ônibus de empresas do ABC também passam a ir até o bairro, devido ao aumento no número de funcionários na região.
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Não era apenas a falta de asfalto que incomodava os moradores, só com o asfalto começam a ser resolvidas as questões de saneamento básico. No final dos anos 1970, nas ruas desses bairros o esgoto ainda corria a céu aberto.
As benfeitorias, nesse sentido, começam a aparecer apenas no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, período marcado por uma significativa mobilização popular.
3.4.1.2 A ausência de serviços de saúde
Hoje a questão da saúde pública é relativa à qualidade do serviço. As reclamações constantes dizem respeito à ausência de médicos, de aparelhos para realizar exames, remédios e etc. No entanto, durante muito tempo o problema foi a ausência do serviço de saúde como um todo, isto é, a ausência do próprio espaço físico.
Nos início dos anos 1980, o principal hospital da região, o Hospital São Mateus, ainda não existia e uma vacina rotineira, a que um recém nascido deve tomar, por exemplo, era um grande problema. Como não existia posto de saúde no Jardim Carrãozinho, os moradores procuravam nos postos mais próximos o serviço. O posto mais próximo era situado à aproximadamente um quilômetro do bairro, no centro de São Mateus, nas proximidades da avenida Mateo Bei. Contudo, o problema da qualidade do serviço não é um problema novo, se nesse posto não tivesse a vacina, o morador tinha que se dirigir para outro posto no Parque São Rafael, que no período contava com um que atendia todo o bairro e, conseqüentemente, seu entorno, não apresentando um serviço de qualidade, como relata M.T.:
Não existia o Hospital São Mateus apenas um posto aqui perto, na Mateo Bei que era onde as meninas eram atendidas. E isso era só para quem tinha INPS o resto não tinha direito à saúde. Para tomar uma simples vacina tinha que ir a uma unidade atrás das Casas Bahia. Se não tivesse lá você tinha que ir lá no Colorado – refere-se ao posto situado no Parque São Rafael. (ENTREVISTADA).
No Parque São Rafael, mesmo com o posto de saúde do Colorado, a situação não era diferente, pois esse atendia também o entorno; sem estrutura para
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tantos pacientes, o serviço era de péssima qualidade e ainda havia o problema da ausência de aparelhos e de funcionários; outro fator importante é o fato do posto não contar com pronto socorro.
A ausência de serviço público na área da saúde, a falta de saneamento básico, de informação e a situação de pobreza do trabalhador resultavam em uma trágica combinação que resultava em altos índices de mortalidade infantil, doenças etc.
3.4.1.3 A questão da educação
Em uma perspectiva histórica, o ideal da escola pública para todos é um ideal republicano. Desse modo, as primeiras iniciativas nesse sentido só começam a existir no Brasil a partir de 1889. No entanto, nos primeiros anos da república brasileira essas iniciativas ainda eram tímidas. Esse descaso dos governos republicanos estende-se por todo o século XIX com lentas iniciativas que resultam em uma explicita melhora em questão de educação.
Mesmo com melhorias, o Parque São Rafael e o Jardim Carrãozinho ainda sofriam com a falta de escolas; para estudar, os migrantes de primeira e segunda geração enfrentavam uma situação semelhante à vivida em suas localidades de origem: tinham que andar quilômetros, enfrentar grandes filas em busca de vagas e, quando a vaga era garantida, não havia a garantia que o ensino fosse de qualidade dada a falta de profissionais na área de educação e a ausência de investimento público no setor.
No Parque São Rafael, a primeira escola, Cidade de Osaka, ligada ao município, atendia apenas o ensino fundamental; no término desse ciclo de estudos os alunos ou desistiam do ensino médio ou tinham que estudar em outros bairros, enfrentando longas caminhadas. No Jardim Carrãozinho, a situação ainda era pior; todas as escolas existentes no início dos anos 1980 estavam nos bairros vizinhos.
No final dos anos 1980, a situação começa a melhorar com a construção de duas escolas estaduais, uma em cada bairro; no entanto, a situação ainda era alarmante, pois a clientela só tendia a crescer e ainda faltavam creches e pré- escolas.
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3.4.1.4 Os resquícios do regime militar
A historiografia do regime militar caracteriza o período de surgimento dessas duas comunidades como um período mais brando em relação à repressão militar, porque o Brasil passava por um momento de liberalização política ou redemocratização. De fato, esse é um momento menos repressivo, marcado principalmente pela anistia política, pela lei de reforma partidária etc.
No entanto, mesmo nesse período, concebido como mais brando, ainda havia resquícios do abuso de poder e do autoritarismo das forças policiais. As Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA), ainda permeiam os casos de pessoas que viveram na região no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, histórias trágicas que, muitas vezes, lembram um romance policial, pessoas que perderam colegas e parentes, pessoas desaparecidas, violência física e psicológica.
A criminalidade, que hoje ainda assusta nessas regiões periféricas, já fazia-se presente nessa época, mas o problema era a distinção entre o chamado
bandido e o trabalhador. Como nos conta J.O antigo morador do Jardim
Carrãozinho:
Naquela época, a polícia, a ROTA matava você e ninguém sábia onde você estava, mais tarde ainda apareceram os chamados grupos de extermínio (ENTREVISTADO).
Além da polícia, a criminalidade, a insegurança e o medo. Assim viviam e, em alguns casos ainda vivem, muitos moradores dessas regiões. Os estereótipos de marginal, favelado, bandido, nordestino, negro, violências diárias vividas pelos moradores acrescidas com a ausência de serviços sociais, dão o quadro de opressão da região.
3.4.1.5 As condições de trabalho e o movimento operário do início dos anos 1980
Como já foi afirmado neste estudo, o Parque São Rafael e o Jardim Carrãozinho têm seu surgimento atrelado ao desenvolvimento industrial do ABC paulista e, possivelmente, vivenciaram de alguma maneira as greves e o movimento operário que marca a região em fins da década de 1970 e início de 1980.
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Entre os quatro entrevistados que trabalharam na região na década de 1980, apenas um vivenciou o ápice do movimento, como relata O. V:
Eu me lembro daquela época, eu ainda trabalhava na GM, eu não era sindicalista, e confesso para você que não sou muito a favor de greve, as era muito assustador ver a polícia na rua, como eu não havia entrado de greve em imediato ainda tinha que enfrentar os piquetes, a coisa não era fácil não... (ENTREVISTADO).
Os demais trabalhadores não vivenciaram esse período, mas participaram de outras greves a partir de meados de 1980. No entanto, uma dado que chama atenção é como esses trabalhadores relatam o período quanto à quantidade de vagas de trabalho:
Naquele tempo a gente chegava aqui e se empregava com muita facilidade, podia escolher entre as empresas: Ford, Volkswagen, GM hoje a coisa é mais difícil, a gente não tinha estudo e arrumava emprego, hoje tem um monte de pessoa com estudo, mas desempregada... (P.O. ENTREVISTADO).
Nesse sentido, também relata outro entrevistado:
Tinha muito emprego naquela quando eu cheguei em São Paulo (...) ganhei muito dinheiro, sem estudo quase que nenhum... (B.N. ENTREVISTADO).
Os entrevistados têm uma visão positiva do período quanto ao trabalho, principalmente os empregados nas empresas do ABC paulista, e não tiveram uma participação efetiva no sindicato ou em movimentos operários.
3.4.2 Década de 1990: precariedade de alguns serviços sociais e lutas