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Impact on Norwegian research

4   Added value and effects for the surroundings

4.2   Impact on Norwegian research

Na parte II de Natureza humana, Winnicott desenvolve o tema da fantasia, abordando especificamente a questão das excitações instintuais, sintetizando suas idéias a respeito do modo como elas colorem as excitações. Recorde-se que o autor não pensa a integração dos instintos em termos de progressão de libido, mas esclarece que existe a predominância de uma função a cada etapa do amadurecimento. Nesse sentido, “a elaboração imaginativa da função tende a ocorrer nos termos do instinto dominante; portanto, é característica da primeira fase do desenvolvimento o erotismo oral colorido por idéias de natureza oral” (Winnicott 1988, p. 58). Mesmo que ocorram excitações de toda ordem − de natureza genital, por exemplo −, não existem ainda, no início, fantasias de natureza genital (Winnicott 1988).

Nesse trabalho, o autor explicita sua insatisfação com relação à compreensão dos instintos pré-genitais só em termos de progressão instintual. Entende que, quando as idéias são colocadas dessa maneira, são transportados para realidade do bebê achados a respeito de crianças que já sabem andar. Para Winnicott, se uma fantasia acompanha um instinto, seja

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ele de natureza oral, anal, uretral, fálica ou genital, e colore uma relação, deve-se presumir que o bebê já é capaz de se relacionar com objetos externos ou internos. Entretanto, quando se trata das fantasias pré-genitais, nas etapas primitivas, o bebê só é capaz de se relacionar com objetos subjetivos. Esse fato exige que se pense sobre os primórdios da integração instintual no contexto da constituição do ego no bebê.

Nesse sentido, o autor retoma a classificação das etapas pré-genitais feita por Abraham82, para realizar as seguintes objeções:

As fantasias orais não devem ser descritas como pré-ambivalentes e depois ambivalentes, no sentido da progressão dos instintos, mas, sim, em termos das mudanças no ego do bebê: o bebê, de incompadecido (por imaturidade, pois não reconhece o objeto fora dele), torna-se concernido (quando já amadureceu a ponto de poder reconhecer e se preocupar com os possíveis estragos no corpo da mãe). Ou seja, desde o início, o amor primitivo já comporta elementos agressivos − que lhe são inerentes − e fantasias que os acompanham. Mas, inicialmente, o bebê não pode ter uma experiência sádica, o que implicaria encontrar um objeto – fora dele − de satisfação no topo da excitação, o que ainda não é possível nessa etapa.

No estudo do tema da fantasia como elaboração da função, em Winnicott, é preciso enfatizar que:

1) a origem da fantasia está na elaboração das excitações primitivas, 2) as fantasias são qualitativamente determinadas pela localização, no corpo, do instinto dominante, 3) o conteúdo da fantasia é alterado conforme o bebê se transforma, em termos de

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Abraham divide a fase pré-genital em oral, anal e uretral. A fase oral é subdividida em erótica (sugar) e sádica (morder). A fase anal, em erótica (defecar) e sádica (controlar); a fase anal se dá junto com a uretral erótica e sádica como alternativa variável (Winnicott 1988, p. 59).

crescimento físico e de amadurecimento pessoal83, e 4) finalmente, as fantasias são pessoais, no sentido não só da hereditariedade, mas também da experiência (Winnicott 1988).

As colocações do autor a respeito das fantasias anais ilustram parcialmente essas afirmações. Winnicott não discrimina uma etapa anal propriamente, em termos de predominância instintiva. Um bebê pode, conforme sua história, 1) associar defecação e excitação e vivenciar a experiência anal como erótica, 2) colorir a experiência anal com erotismo oral, receptivo ou 3) ter no controle o elemento central da experiência.

Além disso, quando se trata da experiência uretral ou anal, o bebê em algum momento se torna capaz de associar a saída dos alimentos a algo que foi ingerido e já esteve dentro e, portanto, já tem uma história. Quando isso acontece, pode-se dizer que as fantasias já podem ocorrer em termos da incorporação e excreção.

A elaboração das experiências excitadas é o forte elemento de constituição do ego corporal do bebê, ou da parceria psique-soma. Quando o ego ainda não tem bordas consistentes, o bebê não é capaz de incorporá-las a não ser em termos de elaboração imaginativa; conforme decorre o desenvolvimento, vai se delineando um esquema corporal e se compondo um mundo interno. O bebê começa, então, a poder “sustentar os riscos envolvidos e as frustrações experimentadas até o ponto em que a satisfação do id se torne um fato” (Winnicott 1965m, p. 129).

Em seu “Pediatria e psiquiatria”, de 1948, o autor assinalou que, mesmo com o amadurecimento e o desenvolvimento do bebê, quando passa a ter lugar a incorporação do objeto como um fenômeno tanto físico quanto

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Por exemplo, considere-se a diferença entre as fantasias muito próximas ao corpo, ou aquelas relacionadas ao amor primitivo imcompadecido, ou ainda relacionadas à elaboração dos estragos no corpo do outro, no concernimento, ou às fantasias edípicas etc.

psíquico, a questão do estabelecimento do contato inicial com a realidade continua sendo vital (Winnicott 1948b). Ε, em outro texto:

É interessante examinar a relação do indivíduo com os objetos no mundo de fantasia por ele criado. De fato, há toda uma gama de desenvolvimento e sofisticação nesse mundo assim criado, de acordo com a quantidade de ilusão experimentada [...] a fantasia é mais primária que a realidade, e o enriquecimento da fantasia com as riquezas do mundo depende da experiência da ilusão (Winnicott 1945d, p. 228).

Em escritos tardios, Winnicott situa a origem da fantasia inconsciente propriamente dita num momento específico do amadurecimento, quando da mudança do relacionamento para o uso do objeto. Para que essa etapa seja alcançada, o bebê precisa ser capaz de utilizar ao máximo seu potencial destrutivo, tanto em termos de função quanto de idéias. Quando isso acontece e a mãe sobrevive, descreveriam bem a situação as seguintes frases:

Alô, objeto! Destruí você. Amo você. Você tem valor para mim, por sobreviver à minha destruição de você. Enquanto estou amando você, estou o tempo todo destruindo você na fantasia (inconsciente) [...] aqui começa a fantasia para o indivíduo (Winnicott 1989i, p. 174).

Essa idéia se torna clara quando lembramos que esse é um primeiro momento em que se poderia supor um esquema corporal separado do ambiente.

Para Winnicott, um bom indicador da saúde de uma criança é sua capacidade de separar fantasia e realidade. Nos estágios primitivos, ou em situação de doença, “o objeto se comporta de acordo com leis mágicas, ou seja, existe quando desejado, aproxima-se quando nos aproximamos e fere

quando ferimos. Por fim, desaparece quando não mais o desejamos” (Winnicott 1945d, p. 228). Nesse sentido, acrescenta que, se o manejo não é bom durante a amamentação, a satisfação pode ser vivida como aterrorizante, pois não desejar pode significar aniquilar o objeto.

Assinala ainda que alguns pais − por imaturidade ou por não conseguirem tolerar certas idéias na educação dos filhos − se confundem no que tange à distinção entre fantasia e realidade, podendo “apresentar uma idéia como se fosse um fato ou reagir a uma idéia como se fosse um ato” (Winnicott 1988, p. 78).

Para o autor, a fantasia tem uma função liberadora. Sem ela, estaríamos todos escravizados às expressões de apetite, sexualidade e ódio em sua forma mais crua. Além disso, qualquer conceito de sistema social maduro exige a inclusão da tolerância às idéias. A liberdade de pensar, seja à maneira conceitual ou de qualquer outro modo − imaginar e navegar pelos matizes da fantasia − é um ingrediente de um funcionamento saudável, num indivíduo e num agrupamento social.