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The impact of port call density in ECA

3.3 Test case

3.4.2 The impact of port call density in ECA

A crítica ao dualismo esquema-conteúdo iguala-se, num certo sentido, à crítica ao dualismo subjetivo-objetivo. Davidson é bastante consciente do fato de re-encenar um drama moderno. Ele abre seu artigo intitulado The Myth of the Subjective (1988) dizendo que “esse é um ensaio sobre um velho tópico: a relação entre a mente humana e o resto da natureza, o subjetivo e o objetivo”.151 Mais adiante, ele afirma que “este ensaio, ainda que claramente tendencioso, não

foi primariamente concebido para converter o cético; seu objetivo principal é descrever, de um ponto de vista, um desenvolvimento amplamente e justamente difundido no pensamento recente sobre os conteúdos da mente, e sugerir algumas das consequências que se seguem desse desenvolvimento”.152

O problema central da concepção moderna da mente e do conhecimento é, mais uma vez, o famigerado elemento não-conceitual. Esse “elemento não-conceitual” é o grande responsável pelos “problemas que a filosofia moderna pensou ter de resolver”.153 Davidson apresenta uma

lista de termos que já serviram para nomear esses “objetos de um tipo particular” (objects of a

special sort): “dados sensíveis, perceptos, impressões, sensações, ou aparências”.154

Proponho traçarmos alguns paralelos entre o chamado argumento da linguagem privada de Wittgenstein (lido como uma crítica geral ao dado) e o problema apontado por Davidson: 151 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:39 - “This is an essay on an old topic, the relation between the human mind

and the rest of nature, the subjective and the objective...”).

152 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:39 - “The present essay, while clearly tendentious, is not designed primarily

to convert the skeptic; its chief aim is to describe, from one point of view, a fairly widely recognized development in recent thinking about the contents of the mind, and to suggest some of the consequences that I think follow from this development”).

153 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:41- “... problems modern philosophy has thought it had to solve”). 154 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:41 - “... sense data, percepts, impressions, sensations, or appearances...”).

suas críticas aos dualismo esquema-conteúdo e subjetivo-objetivo são, no fundo, aspectos de uma mesma crítica ao mito do dado. Assim como em Wittgenstein, temos a rejeição de uma certa concepção do fenômeno mental.

Segundo Davidson, “os filósofos mostraram engenhosidade encontrando formas de colocar em palavras os conteúdos do dado; há essas estranhas sentenças sem verbo tais como ‘Vermelho aqui agora’, e as várias formulações das sentenças protocolares acerca das quais os positivistas lógicos discutiram”.155

Mesmo quando o projeto de achar palavras para expressar o conteúdo da experiência foi abandonado, ou concebido como impossível, o dualismo esquema-conteúdo pôde ainda sobreviver, na forma quineana de um grande sistema diante de uma massa de evidências sensórias a serem acomodadas.

Davidson afirma que, para Quine, “padrões de estimulação, como dados sensíveis, podem ser identificados e descritos sem qualquer referência ao que ‘acontece no nosso entorno’. Se nosso conhecimento do mundo deriva inteiramente de uma evidência desse tipo, então nossos sentidos podem não apenas nos enganar; é possível que estejamos sistematicamente enganados”.156

Falar de céticos de fato insinua uma preocupação epistemológica. Entretanto, a relação de Davidson com os céticos precisa ainda ser qualificada. A presença do cético como um inimigo constante é evidente em muitos de seus escritos. Quando o mundo se descola da linguagem, o primeiro sintoma visível é a impossibilidade de um conhecimento objetivo. Davidson insiste, porém, que esse é um sintoma, entre outros, de uma doença mais grave, que torna misteriosa, também, a possibilidade de vermos atitudes mentais se dirigindo ao mundo. Se lembrarmos que, além do ceticismo, o relativismo é outro sintoma dessa perspectiva, começaremos a vislumbrar o quão profunda pretende ser a abordagem davidsoniana.

155 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:41 - “Philosophers have shown ingenuity in finding ways of putting into

words the contents of the given; there are those strange, verbless sentences like ‘Red here now’, and the various formulations of protocol sentences over which the logical positivists quarreled”).

156 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:42 - “... patterns of stimulation, like sense data, can be identified and

described without reference to ‘what goes on around us’. If our knowledge of the world derives entirely from evidence of this kind, then not only may our senses sometimes deceive us; it is possible that we are systematically deceived”).

A estratégia argumentativa de Davidson é, às vezes, hipotética: podemos mostrar que o ceticismo é questionável mesmo aceitando (para o bem do argumento) algumas de suas premissas (como a inteligibilidade mesma de uma visão de mundo descolada da realidade). Se, ainda assim, tivermos razões para vermos no ceticismo uma posição inaceitável, então teremos um argumento ainda mais forte.

Para Davidson, “o ceticismo geral sobre as entregas dos sentidos não pode nem mesmo ser formulado, pois os sentidos e suas entregas não desempenham nenhum papel teórico central na compreensão da crença, do significado, e do conhecimento”.157 Os céticos ocupam, no

pensamento de Davidson, uma posição menos relevante do que faz acreditar a leitura de McDowell. Ao profetizar as grandes mudanças que o novo entendimento da mente e do conhecimento promete gerar, Davidson não se refere exclusivamente a uma refutação do ceticismo, ou a uma solução dos problemas epistemológicos stricto sensu. Ele acredita que o questionamento desses dualismos (esquema-conteúdo ou subjetivo-objetivo) promete levar à “emergência de uma visão revista da relação entre mente e mundo”.158

Davidson defende que a forma como percebemos o mundo, linguisticamente, não deturpa em nada o que é percebido. Não podemos sair dos conceitos; e pensar necessariamente envolve o uso de conceitos. Isso, para Davidson, não quer dizer que ficamos, ao pensar ou perceber, sempre a um passo do mundo. Apenas se aceitarmos o dado, ou os intermediários, seremos levados a admitir que a linguagem distorce a realidade. Uma vez abandonado o dado, é difícil saber o que pode estar lá, esperando para ser conformado. O realismo direto é o outro lado da tese de que a linguagem não é uma interface entre pensamento e mundo.

“A linguagem não é um meio através do qual nós vemos; ela não faz a mediação entre nós e o mundo”.159 Davidson faz uma analogia entre ter olhos ou ouvidos e ter uma linguagem. “Não

vemos o mundo através da linguagem, assim como não vemos o mundo através dos olhos. Não

157 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:45 - “... general skepticism about the deliverances of the senses cannot even

be formulated, since the senses and their deliverances play no central theoretical role in the account of belief, meaning, and knowledge...”).

158 Davidson (The Myth of the Subjective, 1988:43 - “... the emergence of a revised view of the relation of mind and the

world”).

159 Davidson (Seeing Through Language, 1997:130 - “Language is not a medium through which we see; it does not mediate

olhamos através dos olhos, mas com eles”.160 Uma vez aprendida uma linguagem, ela funciona

como um “modo de percepção” (mode of perception), ou como “o órgão da percepção proposicional” (the organ of propositional perception).161 A proximidade entre tais imagens e o

pensamento de McDowell salta aos olhos: a percepção, uma vez que somos equipados linguisticamente, é qualitativamente distinta da percepção bruta, ou não-proposicional. Vista como um modo de percepção, a linguagem faz parte da nossa natureza. Para Davidson, “ver cenas e ouvir sons não exige pensamento com conteúdo proposicional; perceber como as coisas são exige, e essa habilidade se desenvolve junto com a linguagem. A percepção, uma vez que temos pensamento proposicional, é direta e não-mediada, no sentido de não haver intermediários epistêmicos sobre os quais as crenças perceptivas estão baseadas, nada que escore nosso conhecimento do mundo”.162

Os três dogmas do empirismo dependem da distinção entre linguístico e extralinguístico, subjetivo e objetivo.163 Uma das formas de se afirmar essas dicotomias é separando,

dualisticamente, conceitual e empírico. Não podemos, entretanto, ter um lado da dicotomia independentemente do outro, sendo inconcebível uma noção de conceitual sem o dualismo ele mesmo. Esse parece ser o objetivo de Davidson. Não precisamos mais ficar angustiados com nossa visão de mundo e a possibilidade de estarmos descolados da realidade, ou redondamente enganados acerca dela: não pode haver esquemas alternativos, não deturpamos o mundo com nossa linguagem, e nossos conceitos são tão mundanos quanto se pode ser.164