Kant e Quine, no entanto, parecem insistir numa imagem dualista entre fatores endógenos e exógenos. Tal imagem já teria sido, pretensamente, refutada por Davidson. Mas qual é, no fundo, o principal apelo dessa imagem? Será que Davidson atingiu a raiz de suas motivações? Será que estamos autorizados a abandonar essa imagem seguindo os passos de Davidson?
O dualismo esquema-dado tinha como principal motivação a busca de uma coerção externa à liberdade do pensamento. A ideia era ver as justificações empíricas como fundadas, em última instância, sobre imposições vindas de fora da esfera conceitual. McDowell afirma que tal estratégia tornou o espaço das razões maior que o espaço dos conceitos.66 Ou seja,
elementos não-conceituais (dados sensíveis, porções do mundo) desempenhavam uma função racional, alargando o espaço das razões para além do espaço conceitual. Tal manobra tentou tornar nossas operações conceituais responsáveis diante do mundo, concebido como externo à nossa rede conceitual. O mundo controlaria, através de dados brutos, os movimentos no interior da estrutura conceitual.
O dualismo não surge, portanto, fundamentalmente, como um quadro mental que apresenta um dilema epistemológico. Seu problema mais profundo não é a justificação das crenças, mas sim a ideia mesma de conteúdo mental, ou conteúdo representacional. Tal noção parecia exigir, para ser possível, um jogo recíproco entre intuições e conceitos. Sem tal relação, não teríamos conceitos propriamente ditos, mas formas vazias, que não poderiam constituir pensamentos. Juízos empíricos, justificados ou não, devem possuir conteúdo para que possam, de forma inteligível, admitir uma justificação empírica.
Há algo de estranho na imagética dualista tal como ela aparece em Davidson. O dualismo nos apresenta uma abstração na qual podemos pensar em conceitos abstraídos de suas conexões com as entregas dos sentidos (deliverances of the senses). Assim abstraídos, os conceitos seriam, como afirmou Kant, vazios. Propriamente falando, não teríamos atitudes mentais. Não poderia haver qualquer pensamento acerca de como são as coisas no mundo. O outro lado do dualismo, o dado, tentava satisfazer exatamente essa exigência.
Mas se o conceito fica vazio quando lhe tiramos o conteúdo, então “qual pode ser o sentido de identificarmos esse lado do dualismo como o conceitual?”.67 Afinal de contas, ele não pode
se manter sobre suas próprias pernas, independentemente de uma relação com as entregas da sensibilidade. O que chamamos de conceito não é concebível independentemente da relação com o outro lado do dualismo.
Tal como aparece em Davidson, esquema e conteúdo são análogos à relação entre forma e matéria. Mas por que equacionar forma com conceito, se este seria vazio, ou impossível, sem sua matéria? A razão para tal distinção parece residir na visão de que as relações entre os conceitos são racionais, e, por isso, distintas das demais relações. Tal rede de relações racionais constitui o esquema, ou a estrutura dos conceitos. A matéria, dada pelos sentidos, está fora dessa rede de relações lógicas ou racionais. Visto dessa forma, só entenderemos a peculiaridade do aspecto conceitual, seu caráter formal, se o “despirmos do conteúdo”.68
Consideradas de maneira isolada, as atividades do esquema, ou os exercícios conceituais, são vazios. Enquanto tais, não podem constituir tomadas de partido (commitments) frente a como as coisas são no mundo. Não haveria responsabilidade, ou sensibilidade racional (responsiveness), em relação ao mundo. Movimentos no interior do esquema perderiam o controle externo, tornando ininteligível a ideia de intencionalidade das operações mentais.
Apesar dessa situação desconfortável à qual fica entregue o esquema conceitual, Davidson insiste em negar qualquer transação racional entre nossa vida mental e o mundo lá fora. Como na crítica de Sellars ao mito do dado, Davidson não hesita em proibir esse tipo de relação. As
67 McDowell (O dualismo esquema-conteúdo e empirismo / Scheme-Content Dualism and Empiricism, 1999:34/144 - “...
what can be the point of identifying this side of the dualism as the conceptual?”).
sensações não podem garantir a sensibilidade racional ao mundo da forma pretendida. Parafraseando Kant, McDowell afirma que “intuições sem conceitos são mudas”, não podendo passar veredictos nem controlar racionalmente, de nenhuma outra forma, o espaço dos conceitos.69
Tal posição de Davidson confunde-se com sua crítica ao dualismo, visto como o terceiro dogma do empirismo. O empirismo é entendido como a tese de que as entregas dos sentidos são epistemologicamente significativas. O empirismo é, basicamente, a tentativa de usar sensações para justificar crenças, ou para controlar nossa visão de mundo, racionalmente, de fora.
A forma como Davidson entende o empirismo mostra-se, no entanto, pouco justa com suas motivações mais profundas. Há uma forma mais interessante de caracterizá-lo que passou despercebida. Um mínimo de empirismo, detectado em Quine e Kant, foi abandonado por Davidson por razões superficiais.
Davidson identifica o problema do empirismo na introdução de intermediários epistêmicos. As entradas dos sentidos, que pretendiam resolver um problema, acabaram criando outro: ficamos condenados a um ceticismo de tipo moderno. Para evitar tal destino, Davidson se livra das entregas sensórias entendidas como intermediários epistêmicos e dá-se por satisfeito. Basta eliminarmos o papel racional que cabia à experiência, adotarmos o coerentismo, e pronto. Não temos mais intermediários, nem dados, nem céticos a nos incomodar. Eliminamos o subjetivismo, as justificações privadas, e, dessa forma, eliminamos os problemas tipicamente modernos.
Mas, segundo McDowell, Davidson errou o alvo. O dualismo, tal como foi apresentado, de fato é insustentável. Mas seu problema não é epistemológico. O problema central, ou mais profundo, não é o ceticismo ou o subjetivismo. O problema maior do dualismo esquema-dado, afirma McDowell, é sua incoerência. Não podemos tornar inteligível um esquema por si só, como falando do mundo, e depois procurarmos um tribunal que controle seu funcionamento. Ao separarmos esquema e conteúdo, temos, na verdade, um pseudo-esquema, com conceitos 69 McDowell (O dualismo esquema-conteúdo e empirismo / Scheme-Content Dualism and Empiricism, 1999:35/145 - “...
vazios. O problema que o dualismo enfrenta, uma vez impossibilitado o trânsito racional com o mundo, é acerca da possibilidade mesma de termos um espaço conceitual, uma vida mental, um pensamento acerca do mundo ou do que quer que seja.
Davidson não acusa Quine de incoerência, mas sim de ser vulnerável ao ceticismo e ao subjetivismo. Sua crítica não atinge o ponto mais importante. Aí reside o seu erro de diagnóstico. Tudo é apresentado como se o problema dos veredictos fosse sua insuficiência para justificar nossa visão de mundo. Os sentidos seriam meros intermediários que não diriam o bastante, mantendo-nos suscetíveis ao ataque cético. Mas o problema mais profundo é que tais veredictos são ininteligíveis. Eles não podem dizer coisa alguma: são mudos.
Cito McDowell: “se não podemos ver nenhuma outra coisa, senão a sensibilidade a intuições, como podendo garantir que os pensamentos não são vazios, o desfecho é mais inquietante do que qualquer ceticismo convencional. O ceticismo convencional pressupõe que temos uma visão de mundo, e pergunta apenas se estamos autorizados a mantê-la. O dualismo, em minha [McDowell] leitura, gera uma angústia muito mais radical acerca de estarmos ou não em contato com a realidade; no dualismo, torna-se ininteligível que tenhamos uma visão de mundo, qualquer que seja ela”.70
A incoerência do dualismo, apontada por McDowell, pode ser assim resumida. O dualismo pressupõe que relações racionais são coextensivas ao domínio conceitual. Uma vez que as intuições são não-conceituais, elas não podem dizer nada, mostrar nada, julgar nada, nem justificar nada. Uma alternativa é estender o domínio racional para além do espaço conceitual, mas a crítica ao mito do dado proíbe tal manobra.
O erro de diagnóstico de Davidson fica particularmente evidente quando ele acusa Quine de ser vítima do subjetivismo.71 Se o problema é identificado na busca moderna de uma certeza
subjetiva que não consegue mais falar do mundo objetivo, tal acusação parece, no mínimo, estranha. Quine não parece vítima da tentação de interiorizar ou subjetivar as evidências para 70 McDowell (O dualismo esquema-conteúdo e empirismo / Scheme-Content Dualism and Empiricism, 1999:36/146 - “If
one cannot see how anything but answerability to intuitions could ensure that thoughts are not empty, the upshot is more unnerving than any standard skepticism. Standard skepticism takes for granted that we have a world view, and merely questions whether we are entitled to it. The dualism, on my reading, generates a much more radical anxiety about whether we are in touch with reality; within the dualism, it becomes unintelligible that we have a world view at all”).
71 Ver McDowell (O dualismo esquema-conteúdo e empirismo / Scheme-Content Dualism and Empiricism, 1999:38/147-
nossas visões de mundo. O que Quine busca, na percepção, não são evidências subjetivas. Ele procura o material a partir do qual visões de mundo são modeladas e remodeladas. Ele pretende encontrar algo que limite a extensão da soberania conceitual do homem. Em nenhum momento Quine é movido pela angústia epistemológica tipicamente moderna, nem procura garantir a “castidade” ou a “pureza” de nossas garantias, internalizando-as e purificando-as da “contaminação” do mundo.
Concluindo: aquilo que Davidson detecta como a fonte mesma do dualismo é insatisfatório. O problema do empirismo moderno não é que ele não consegue fornecer garantias suficientes para nossa visão de mundo, e por isso sucumbe ao ceticismo. O problema mais profundo do dualismo é que ele torna misteriosa a possibilidade mesma de termos uma visão de mundo.
1.9. A oscilação
O papel desempenhado pelo tribunal da experiência é o de fornecer ou possibilitar a
significação empírica. Tal papel é desempenhado pelo elemento empírico que Kant atribuiu às entregas da sensibilidade, na forma de intuições sensíveis. Há, no entanto, uma importante
diferença entre os dois. Segundo McDowell, Quine opera um truque, um movimento fraudulento, que não permite que sua visão seja aceitável. O tribunal da experiência implica a emissão de veredictos sobre nossas crenças, o que constitui um controle racional das operações do entendimento a partir da experiência. Ao selecionar as crenças sobreviventes, moldando assim nossa imagem do mundo, a experiência desempenha um papel justificador. Estamos justificados, em última instância, porque passamos pelo tribunal da experiência.
Ao mesmo tempo, Quine concebe a experiência de forma absolutamente naturalizada, como um evento no mundo, como a “estimulação de receptores sensíveis”.72 Ou seja, Quine
concebe a experiência como fora do espaço das razões e dentro do espaço da natureza. “Uma tal concepção da experiência não deixa espaço para que ela mantenha relações racionais com crenças ou visões de mundo”.73 Entendida como impactos sensíveis em terminações nervosas, 72 Quine (Epistemology Naturalized, 1968:75).
73 McDowell (Mente e Mundo / Mind and World, 1994:173/133 - “... such a conception of experience makes no room for
ela só pode causar crenças ou comportamentos, mas não pode constituir uma razão para uma crença. Não pode, em suma, justificar ou mostrar porque devemos ter essa ou aquela crença. A retórica jurídica de Quine é, portanto, fraudulenta ou enganadora, pois seu pensamento não permite que a experiência atue como um tribunal, que emita veredictos e que justifique o que quer que seja.
O problema de Quine é que seu tribunal servia não apenas para justificar crenças, mas principalmente para explicar como nossa linguagem representa uma tomada de posição frente ao mundo. Vetada tal manobra, a soberania conceitual humana perde seu controle, a linguagem perde o mundo de vista, e perdemos a possibilidade de estarmos certos ou errados.
A experiência não consegue o que pretendia. A liberdade do pensamento fica sem constrangimento externo, pois ninguém pode assumir responsabilidade por um impacto bruto que opera fora das fronteiras da razão. Seja lá o que for que o mundo causar no interior do espaço dos conceitos, não somos responsáveis por seus reflexos. O impacto causal do mundo é uma força alienígena ao domínio mental. Podemos ser acometidos por tal impacto, mas não somos responsáveis, nem ficamos mais ou menos justificados por isso. Segundo McDowell, o dado oferece exculpações (exculpations) onde queríamos justificações.74
Exculpação é aquilo que explica, mas não justifica, um ato. McDowell apresenta o seguinte exemplo: alguém se encontra no lugar do qual foi banido por conta de um tornado que o conduziu até lá. O tornado explica, exculpa, o fato dele estar lá, mas não é uma justificação para isso. O que a exculpação faz é tirar do sujeito toda a responsabilidade.
Podemos pensar em dois desiderata: um constrangimento racional vindo do mundo e uma espontaneidade atuante em nossa vida mental. Trata-se de mostrar como somos livres e responsáveis ao pensar, e como tal liberdade é controlada racionalmente pelo mundo. O mito do dado renuncia à liberdade do pensamento empírico, tornando-o insensível a razões. As exculpações eliminam a responsabilidade e a liberdade do nosso pensar, pois seríamos determinados a pensar da forma como pensamos. Já Davidson renuncia à ideia de um controle racional externo à liberdade.
McDowell insiste que precisamos satisfazer a ambos desiderata. Caso contrário, escamoteamos dificuldades que não tardam a reaparecer. Davidson tem razão: o dado, tal como foi entendido, deve ser abandonado. Mas não podemos abandonar, junto com ele, qualquer outra tentativa de encontrar um constrangimento externo à liberdade do pensamento. O coerentismo responde a um lado do problema, mas não a todos. A necessidade de explicarmos a racionalidade de nossa visão de mundo nos leva, novamente, do coerentismo para a busca de alguma forma de dado. Eis o que McDowell detecta como uma “interminável oscilação”: do mito do dado para o coerentismo, e deste de volta para o mito.75
O que empurra nosso entendimento para o coerentismo são as motivações epistemológicas apresentadas por Davidson. Mas somos novamente impelidos ao mito por razões transcendentais. Precisamos relacionar racionalmente mente e mundo, mas não conseguimos fazer isso. Eis a angústia advinda da oscilação. Davidson tentou eliminar os enigmas, mas nos deixou numa situação nada confortável.