Definir um marco para o início da profissão do Arquivista é uma incumbência hercúlea, porém, há dois momentos decisivos para a identificação de seu corpo teórico: “a definição do conceito de fundo de arquivo [e consequente formulação do princípio da proveniência12], em 1841, e, já na segunda metade do século XX, o surgimento da teoria
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“Princípio segundo o qual devem ser mantidos reunidos, num mesmo fundo, todos os documentos provenientes de uma mesma fonte geradora de arquivo. Corresponde à expressão francesa respect des fonds, e à inglesa provenance” (PAES, 2004, p. 27).
das três idades”13 (SOUZA, 2011, p. 52-53). As técnicas de guardar, preservar e organizar os documentos apontam para o surgimento da Arquivologia (ARAÚJO et al., 2010) e “em paralelo à aparição dos arquivos, nasce o profissional que exerce as atribuições nele” (SOUZA, 2011, p. 52).
Na sua origem, a função de arquivista confunde [sic] com a do escriba do antigo Egito. Pessoa de confiança, no segredo do poder ou dos poderosos, ela redige, transcreve e conserva os documentos normativos, as contas e a correspondência. O ofício do arquivista aparece quando essas duas atribuições – a escrita e sua guarda – se separam. Essa dupla função permanece na área judiciária e jurídica, desempenhada por escrivães e tabeliães (DELMAS, 2010, p. 80).
O profissional atuante em arquivos nem sempre foi designado como “Arquivista”:
Os arquivistas, tal como são hoje conhecidos, apareceram no final da Idade Média chamados então de arquivários (arquivaires), tornando-se arquivistas em 1701. Trata-se, portanto, de fenômeno relativamente recente, particularmente visível com o desenvolvimento da administração moderna no Antigo Regime (Secretarias de Estado da Guerra, da Marinha etc.). A partir do final do século XVIII e durante o século XIX, os escrivães, tabeliães ou secretários (etimologicamente, os que guardam o segredo) dessas repartições foram substituídos por funcionários especiais chamados funcionários de ordem (commis d’ordre) que asseguravam o arquivamento dos documentos das seções de uma mesma repartição. O termo arquivista foi progressivamente identificado, no século XIX, com os arquivistas paleógrafos, diplomados pela École des Chartes, que conservavam os documentos vindos das seções onde se instruíam os processos, em setores alheios à sua produção e guarda de primeira idade, com a finalidade de pesquisa histórica. Entretanto, eram habilitados a fornecer cópias autenticadas dos documentos que eles conservavam (DELMAS, 2010, p. 81).
Uma série de transformações marcou a Arquivologia em seu processo de busca pela condição de disciplina científica. A Arquivologia iniciou-se como uma ciência empírica com finalidade administrativa até a Idade Moderna, quando “se encerra um período da História, em que os Arquivos tiveram um papel de serviço às instituições e Governos que os fizeram nascer. Em suma, foram colaboradores dos Estados na administração dos respectivos territórios” (REIS, 2006). Como referência significativa sobre “os primeiros elementos da doutrina arquivística” (FONSECA, 2005, p. 31), destaca-se a publicação da obra De re diplomática, de Dom Jean Mabbilon, publicada em 1681.
A história dos arquivos e da Arquivística14 também esteve associada aos tesouros dos príncipes e papas medievais ou ao “gabinete de curiosidades” do homem culto renascentista. A partir do século XVIII, passa a se ocupar da afirmação do Estado Nacional e da criação de sua memória e identidade (JARDIM, 2001). Este processo de afirmação do
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das três idades, “os arquivos são considerados arquivos correntes, intermediários ou permanentes, de acordo com a freqüência de uso por suas entidades produtoras e a identificação de seus valores primário e secundário” (BRASIL, 2005, p. 160).
14 Segundo o Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística (2005), arquivologia e arquivística são
sinônimos, sendo a “disciplina que estuda as funções do arquivo e os princípios e técnicas a serem observados na produção, organização, guarda, preservação e utilização dos arquivos” (BRASIL, 2005, p. 37).
Estado e da história da Nação foi desencadeado pela Revolução Francesa, em 1789. Corroborando com as demandas de estabelecer uma memória nacional, é criado em 1790, na França, o Arquivo Nacional e, a partir de então, são criados depósitos centrais de arquivos em vários lugares da Europa (FONSECA, 2005). “Durante a Revolução Francesa [sic] proclamou-se um princípio fundamental que só algumas décadas depois teria desdobramentos: o de que os arquivos, propriedade da nação, deveriam ser postos à disposição dos cidadãos” (SANTOS, 2008, p. 86). Em 1838, foi criado, na Inglaterra, o Public Record Office (SILVA, 2012), que seguia os mesmos modelos do Arquivo Nacional francês (SANTOS, 2008).
No ensino da Arquivística, o primeiro marco mais representativo se deu em 1821, na École des Chartes. Inicialmente, esta instituição foi fundada para ocupar-se com a publicação dos “monumentos” escritos da história da França, mas acabou por ocupar-se também na participação da formação do Arquivista-paleógrafo e do Bibliotecário (RIBEIRO, 2002). A partir do século XIX, segundo Cruz Mundet (2009), a Arquivística passou a ser disciplina auxiliar da História:
Entre 1830 y 1850, de arsenal tradicional del poder, los archivos se convierten en laboratorios de la historia, con todas las consecuencias que ello comporta, de manera destacable el corte fundamental, y desafortunado, entre los archivos históricos y los administrativos (CRUZ MUNDET, 2009, p. 39).
Esta perspectiva historicista, marca a Arquivologia “tradicional”, “custodial”, de inspiração francesa, italiana e espanhola (LOPES, 2000), que focaliza os arquivos permanentes. Araújo (2010) assinala que esta abordagem tem dois marcos principais: a elaboração do princípio do respeito aos fundos, de Natalis de Wailly, em 1841, e a publicação do Handeling voor het ordenen en beschrijven van Archieven (Manual de Arranjo e Descrição de Arquivos, conhecido também como Manual dos Arquivistas Holandeses), em 1898. O princípio de respeito aos fundos, ou princípio da proveniência, postula que os documentos de um mesmo fundo devem ser mantidos reunidos; esta forma de organizar contrapõe-se à organização por assuntos. Para Ribeiro (2002), o Manual dos Arquivistas Holandeses representa a entrada da Arquivística em uma fase técnica, pois, até esse momento, a “profissão de arquivista foi [havia sido] por muito tempo um ofício empírico e de bom-senso. Alguns, comparando-o com a arte militar, diziam que era uma arte simples e apenas de execução” (DELMAS, 2010, p. 113). Esta fase técnica e racional se acentua e se define após a Segunda Guerra Mundial devido à “explosão documental”, e tem por característica a busca por soluções práticas para as grandes massas documentais acumuladas. Estas duas perspectivas, histórica e técnica, também designadas como paradigma histórico-tecnicista (RIBEIRO, 2002), prevaleceram na formação dos profissionais de arquivo.
As transformações sociais e econômicas do início do século XX, principalmente, o surgimento, nos Estados Unidos da América, da perspectiva da “gestão de documentos”15, converteram a Arquivologia em disciplina auxiliar da Administração (SOUZA, 2011). Esta perspectiva tem como interesse os documentos de valor primário e sua obra de referência é de autoria de Schellenberg, intitulada Arquivos modernos: princípios e técnicas, publicada em 1973 (ARAÚJO, 2010). Schellenberg também foi o responsável por desenvolver a noção da Teoria das Três Idades, através do conceito de records centers (centros de arquivamento intermediário), apresentado no relatório, de 1948, de um grupo de trabalho liderado por ele, que objetivou analisar os problemas relacionados à gestão de documentos (MARQUES, 2011). Neste mesmo ano, criou-se o Conselho Internacional de Arquivos, direcionado para “a coordenação e busca de consenso acerca dos conceitos e métodos de trabalho utilizados pelos profissionais da área [...]. Tendo por missão a promoção da preservação e [o] acesso aos arquivos em todo o mundo, por meio da cooperação internacional” (MARQUES, 2011, p. 110).
Em meados do século XX, nos países anglo-saxões, observa-se uma clara distinção entre os profissionais de arquivos: Archivists (Arquivistas) e Records managers (Gestor de documentos). Os Archivists ocupam-se com os arquivos permanentes, com as atividades de conservação e com objetivos históricos, culturais e de pesquisa; enquanto os Records managers são responsáveis por um controle sistemático da informação e dos documentos de fase corrente e intermediária do ciclo documental, a fim de conduzir as atividades administrativas. Embora haja esta separação profissional, ambos os profissionais pautam-se nas atividades e nos instrumentos de trabalho tipicamente arquivísticos (CRUZ MUNDET, 2009).
Na década de 1980, a produção da Arquivologia canadense, tendo como expoentes “os trabalhos de autores como Couture, Gagnon-Arguin e Rousseau, ligados à Universidade de Montreal” (ARAÚJO, 2010, p. 179), propõe a perspectiva da “arquivística integrada”. Segundo Rousseau e Couture (1994), interessam à Arquivologia igualmente os arquivos que abrigam documentos de valores primário e secundário, ou seja, a Arquivologia integra todo o ciclo documental. Supera-se, assim, nesta perspectiva, a separação entre a gestão de documentos (responsável pelos arquivos correntes e intermediários) e a Arquivística “tradicional” (focada nos arquivos permanentes), bem como suas respectivas cisões profissionais, records managers e archivists. “Nesse sentido, a Arquivística Integrada busca uma reintegração da disciplina, focando seus estudos na gestão da informação
15 Segundo o Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística (2005), a gestão de documentos é o
“conjunto de procedimentos e operações técnicas referentes à produção, tramitação, uso, avaliação e arquivamento de documentos em fase corrente e intermediária, visando sua eliminação ou recolhimento. Também chamado administração de documentos” (BRASIL, 2005, p. 100).
orgânica e em sua importância para o fortalecimento da disciplina nos séculos XX e XXI” (TOGNOLI; GUIMARÃES, 2011, p. 27).
No início da década de 1990, frente às novas tecnologias da informação e da comunicação, a Arquivologia foi estudada, no Canadá, a partir de uma perspectiva pós- custodial ou pós-moderna, “defendida por Thomassen, Taylor e Cook, entre outros, que entendem que o objeto deve deslocar-se do arquivo para a informação arquivística” (ARAÚJO, 2010, p. 180). Esta perspectiva aborda uma participação mais ativa do Arquivista, que não se resume à custódia dos documentos, uma vez que “passamos da era da simples custodialidade dos arquivos, para interferir em seu processo de criação, seleção e guarda” (ZAMMATARO, 2013, p. 353). Assim, neste ponto de vista, merece destaque o contexto sociocultural e ideológico de criação dos documentos, que permite ao Arquivista compreender a função, o processo e a atividade que gerou o documento (TOGNOLI; GUIMARÃES, 2011).
[A arquivística pós-moderna ou pós-custodial] defende que o documento se transformou de objeto físico em objeto conceitual, e que seus componentes – estrutura, conteúdo e contexto – agora não estão mais reunidos no documento, mas dispersos em diversas formas de armazenagem de dados (COOK, 1997; FONSECA, 2005, p. 63). Consequentemente, os problemas relacionados à produção, organização, armazenamento, busca, transmissão e utilização da informação tornaram-se mais complexos e passaram a demandar enfoques interdisciplinares (OLIVEIRA, F., 2012, p. 99).
As mudanças ao longo do século XX e a configuração da sociedade da informação contribuíram para a definição da Arquivologia como disciplina científica com identidade própria (em formação) e que possui fronteiras permeáveis, no campo da interdisciplinaridade, do ensino, da pesquisa e da configuração institucional, com a Ciência da Informação (JARDIM, 2001). Observa-se que, no espaço acadêmico, principalmente em nível de Pós-Graduação, a Arquivologia aproxima-se da Ciência da Informação (MARQUES, 2012):
Acreditamos que esses diálogos da Arquivologia com outras disciplinas, sobretudo com a Ciência da Informação, não afetam sua identidade como disciplina científica: afinal, ‘autonomia não significa isolamento’ (ROUSSEAU; COUTURE, 1998, p.73). O amadurecimento da disciplina se traduziu na necessidade de criação dos cursos de graduação e, posteriormente, no desenvolvimento de pesquisas com temáticas arquivísticas nos cursos de pós-graduação strictu sensu (MARQUES, 2012, p. 30).