3 TEORI
3.2 D IGITAL SCENOGRAFI
Assim como a maioria dos tratados musicais do século XVI, a primeira lição musical apresentada por Morley é a descrição da Escala Musical, conhecida como Gammaut.
Gammaut era o âmbito no qual a música deveria ser escrita, normalmente formado por
20 notas (20 Signos), de Sol até o Mi. William Bathe (1596?) elucida que
The Scale of Musick, which is called Gam-vt, conteineth 10 rules, and as many spaces; and is set downe in letters and sillables […] (BATHE, 1596?,
f A4v).
a Escala de Música, que é chamada Gammaut, contém dez linhas e dez espaços, e é disposta em letras e sílabas [...].
Morley explica que “esta extensão era o âmbito da maioria das vozes, de modo que abaixo de ut a Voz parecia como uma espécie de zumbido e acima de E lá, um tipo de chiado reprimido”.
No entanto, alguns tratados musicais mencionam uma extensão maior porque na prática, a canção ultrapassa esse limite, especialmente se considerarmos a Música Instrumental. O próprio Morley esclarece, no diálogo 107, que não há em música uma nota tão grave que não se possa emitir uma ainda mais grave e nem uma nota tão aguda que não se possa emitir uma ainda mais aguda de forma que, se considerar matematicamente, o Gammaut pode ser continuado infinitamente.
The Pathway... (1596), por exemplo, apresenta o Gammaut com vinte e três Signos (Figura 15), enquanto Playford (1655) comenta que ele é desenhado sobre quatorze linhas (Figura 16) no qual
Gam-ut is the lowest Note, and Ela the highest.
And this the usuall Gam-uts in Mr. Morley and others, do no exceed; but it is well knowne that there are many Notes in use, both above and below exceed that compass, both in Vocall and Instrumentall Musick, and therefore ought not to be omitted (PLAYFORD, 1655, p. 3).
ut é a nota mais grave e E lá a mais aguda. Este é o Gammaut mais comum, que tanto o Sr. Morley como outros não excedem, mas sabe-se que em uso há muitas notas que ultrapassam esta extensão, tanto acima quanto abaixo, na Música Vocal e Instrumental e, portanto, não deve ser omitido.
Morley apresenta o Gammaut como se fosse uma escada representando a escala ascendente e descendente (Figura17):
Figura 17. Tabela Gammaut - Thomas Morley.
A segunda coluna do lado esquerdo é ocupada pela letra inicial do nome de cada Signo (A, , C, D, F etc.). Tal letra indica sua altura exata, como pode ser observado a seguir:
Figura 18. Altura exata das notas de acordo com a letra do Gammaut.
A primeira coluna do lado esquerdo da tabela refere-se à classificação dos Signos. Podem ser observados, na parte mais baixa da tabela, os Signos Graves (graue or base keyes) que geralmente são representados pelas letras maiúsculas ( - G), em seguida, encontram-se os Signos Agudos (meane keyes) que englobam as letras minúsculas (a – g) e na parte superior, localizam-se os Signos Superagudos (double or treble keyes) que são indicados frequentemente pelas letras minúsculas dobradas (aa - ee). A mesma classificação pode ser verificada, por exemplo, no Gammaut de Playford (Figura 16) ou The Pathway... (Figura 15).
Lossius (1563) e Listenius (1541) também classificam os Signos em três tipos: oito Graves ( - G), sete Agudos (a - g) e cinco Superagudos (aa - ee). Gaffurius (1512) e Ornithoparcus (1535), no entanto, descrevem oito Signos Graves ( - G), oito Agudos (a t ec d e f g) e seis Superagudos (aa ttee ee). Portanto não há uma regularidade no que diz respeito ao limite específico dos Signos.
Na imagem original do tratado de Morley, os colchetes que delimitariam este agrupamento também não são precisos. De qualquer forma, esta distinção faz-se necessária, pois evita a confusão entre os Signos homônimos como E lá mi, e lá mi, F fá ut, f fá ut, G sol
ré ut, g sol ré ut.
No trecho a seguir é possível observar como o Mestre Gnorimus se refere a tais Signos para evitar enganos:
57 – Mes. [...] o que é feito em ut também pode ser feito em G sol ré ut, assim como em g sol ré ut Superagudo; e [o que é feito] em C fá ut, pode ser [feito] também em C sol fá ut e em C sol fá; e [o] que [é feito] em F fá ut Grave, pode também ser feito em f fá ut Superagudo. No entanto, estes são os três principais Signos que contêm as três características ou Propriedades do canto. (grifo meu).
Nesta passagem, na qual o Mestre explica ao aprendiz sobre a Dedução das Vozes (que será detalhada adiante), é importante especificar a localização exata dos Signos homônimos. Note que ele utiliza os adjetivos “Superagudo” e “Grave”, pois F fá ut é classificado, de acordo com a tabela, como Signo Grave, enquanto f fá ut pertence aos Signos Superagudos.
No centro da tabela, em formato de escada, encontram-se as seis Vozes musicais também conhecidas como sílabas de Solmização: ut, ré, mi, fá, sol, lá. Estas Vozes são os elementos fundamentais do canto.
A combinação da letra (A, B, C, D, F etc.) com a sílaba latina de Solmização, ou seja, com a Voz (ut, ré, mi, fá, sol, lá), forma o nome composto do Signo.
Signo é, portanto, uma palavra que contém em si o nome da letra e o(s) nome(s) da(s) Voz(es). Por exemplo: o primeiro Signo é chamado ut (Gamma ut) no qual Gamma é a letra e ut é a Voz; o terceiro Signo, e mi (bê mi) no qual e é a letra e mi é a Voz; o quinto Signo é D
sol ré, D é a letra e sol e ré são as Vozes, o décimo Signo é t fá e mi (bê fá bê mi) no qual t é a
letra e fá e mi são as Vozes.
Morley esclarece que ao todo são sete Claves: A, B, C, D, E, F, G, porém no canto, são usadas apenas quatro:
33 – Mes. Existem ao todo sete Claves (como disse antes) A, B, C, D, E, F, G; mas no canto usam-se apenas quatro, a saber: F fá ut, que em geral está no baixo ou parte mais grave e é constituída ou configurada deste modo, ; a Clave C sol fá ut, que é comum a todas as partes e é deste modo, ; a Clave de G sol ré ut que é geralmente usada na soprano ou na parte mais aguda e é feita desta maneira, ; e a Clave , que é comum a todas as partes, é assim ou ; a primeira [Clave] indica um semitom e
cantus mollis e a outra significa um tom ou cantus durus.
As Claves, de acordo com Morley, devem ser colocadas no início do pentagrama e sobre a linha. A única Clave que pode eventualmente ser encontrada no espaço é a Clave t.
É possível observar linhas tracejadas horizontalmente formando um decagrama14 e as
Claves em destaque na Figura 19:
Figura 19. Detalhe da parte central da tabela de Gammaut de Thomas Morley.
Esta representação auxilia no entendimento do diálogo 39 quando o Mestre explica ao aprendiz que ele deve “calcular a partir da Clave como se o pentagrama fosse a Escala de Música, designando para cada espaço e para cada linha um Signo diferente”.
Portanto, para localizar qualquer nota, é necessário identificar a Clave dentro do
Gammaut e a partir daí imaginar que o pentagrama é um fragmento da Escala de Música
(Gammaut). Por exemplo: imagine que a Clave ocupa a terceira linha de qualquer pentagrama. Ao encontrar este sinal na Figura 19 percebe-se que, ao subir uma linha (o que
seria a quarta linha daquele pentagrama) obtém-se o Signo e lá mi e que, ao descer uma linha (o que seria a segunda linha do mesmo pentagrama), encontra-se o Signo a lá mi ré.
Em Annotations, Morley comenta que
and though no vsual verse comprehend the whole scale, yet doth it a part ther of. For if you put any two verses togither, you shal haue the whole Gam
thus: . (MORLEY, 1597, p. 101).
embora nenhum pentagrama comum compreenda a Escala inteira, contudo faz parte dela, pois se colocas dois pentagramas quaisquer juntos terás o
Gammaut inteiro deste modo: .
Assim, a sobreposição de dois pentagramas representa o Gammaut completo e cada uma das linhas e espaços possui um Signo diferente.
Logo após apresentar o Gammaut ao aprendiz, Mestre Gnorimus explica que para o entendimento da Tabela ele deve “começar da palavra ut na posição mais inferior e ir para cima até o final, sempre ascendendo.” Acrescenta ainda que em primeiro lugar o aprendiz tem “que aprendê-la perfeitamente sem o livro, ascendente e descendente e vice-versa”, em segundo, deve “aprender a conhecer onde cada Signo está, ou seja, se na linha ou no espaço” e em terceiro lugar “quantas Claves e quantas Vozes cada Signo contém.”.
A representação do Gammaut com as linhas tracejadas facilita a localização dos Signos. Para saber quantas Claves e quantas Vozes cada Signo contém, basta olhar para o lado direito da tabela do Gammaut (Figura20):
Figura 20. Pormenor da tabela Gammaut.
Todos os Signos possuem uma Clave (lembrando que ao todo são sete: A B C D E F G), exceto os Signos t fá e mi (t fá t mi), que possuem duas Claves (t e e):
26 – Phi. Entendo o que queres dizer, de modo que todo Signo tem uma Clave, exceto .
27 – Mes. [...] O resto que vês escrito em sílabas são os nomes das notas.
28 – Phi. [...] mas não vejo razão por que dizer que dois são duas Claves distintas, tendo em vista que eles são apenas uma Clave nomeada duas vezes.
29 – Mes. A Heráldica responderá por mim: se a ela perguntares por que dois homens de mesmo nome não deveriam receber apenas um brasão, ela [a Heráldica]
responderá prontamente que são famílias diferentes e, portanto, devem receber vestimentas diferentes. Então estes dois , embora sejam compreendidos sob o mesmo nome são, contudo, de natureza e caráter diversos.
Portanto, os dois tt, compreendidos sob o mesmo nome do Signo ,
desempenham funções distintas e por isso recebem dois sinais diferentes (t e e) e não podem ser classificados da mesma forma, pois a ausência ou presença da Clave t determina a Propriedade daquele canto.