5. DISCUSSION
5.3 D IFFERENT L OCATIONS - DIFFERENT RESULTS
Em O Quinze, é possível reconhecer quatro pares mínimos, a partir dos quais a narrativa é estruturada, vida / morte, tradição / modernidade, liberdade / opressão, masculino / feminino. Vale ressaltar que o par vida/morte é o que organiza a narrativa em O Quinze.
Porque tanto o livro quanto o filme há um estado inicial de conjunção com a fartura, a abundância, a família, representada pelo trabalho, pela casa, por exemplo, e, ao longo da narrativa, esse estado de conjunção vai se transformando em estado de disjunção com fartura, quando ocorre por ocasião da seca a conjunção com a falta, que traz a disjunção com a família, quando ocorre a morte de Josias, o desaparecimento de um filho e a adoção de outro, por Conceição.
A dicotomia vida / morte está presente no percurso narrativo de Chico Bento nos dois textos, no de Rachel de Queiroz e no de Jurandir Oliveira e já revela sua importância desde
o título O Quinze, tanto do livro quanto do filme em referência direta ao ano da seca de 1915, quando a morte se impôs à vida no sertão nordestino.
Embora vida/morte seja o par principal, há outros pares mínimos recuperáveis do texto:
Liberdade / opressão
Vítimas do fenômeno natural e do descaso das forças políticas os sertanejos pobres, sem alternativas, imigram a pé para as cidades nordestinas, como Fortaleza.
A ação, as personagens, e demais elementos narrativos compõem um discurso que denuncia a opressão, a miséria e a falta de perspectiva do retirante sertanejo, que não se deixa vencer e busca se libertar da miséria, aventurando melhores condições de vida longe de casa.
Tradição / modernidade
Desde a apresentação das personagens Conceição e Inácia, no início da narrativa, é evidenciada a tensão entre tradição e modernidade. Neta e avó se preparam para dormir na fazenda do Logradouro, próxima a Quixadá. Inácia reza pedindo a intervenção divina para que chova, e Conceição se ocupa na leitura dos livros de sua estante.
Conceição tem 22 anos e os interesses da juventude e Inácia tem seus interesses representados pela devoção, pela fé, pela religião de uma tradição que se opõe à modernidade da neta, que não acredita nas rezas da avó, tanto quanto a avó não aceita a conduta da jovem:
Dona Inácia juntou as mãos, aflitas:
- E minha filha, para que uma moça precisa saber disso? Você quererá ser doutora, dar pra escrever livros?
Novamente o riso da moça soou:
- Qual o quê, Mãe Nácia! Leio para aprender, para me documentar... (QUEIROZ,1993, p.124)
Masculino / feminino
No espaço ficcional de O Quinze a estrutura das relações é claramente patriarcal. A mulher é submissa, dependente do homem, tanto que a vida da mulher só está plenamente organizada quando ela se casa e tem filhos. Conceição foge aos estereótipos das mulheres da época dependentes da realização no casamento com filhos.
Conceição é professora, tem independência financeira, e uma visão realista do seu relacionamento com o primo Vicente. Além disso, adota uma criança, desempenha um papel assistencial no campo de concentração e lê muitos livros.
No nível narrativo o enunciador Rachel de Queiroz ao instalar dois percursos narrativos concorrentes entre si apresenta ao seu enunciatário um programa de privação representado pelo percurso de Chico Bento e outro de liquidação representado pelo percurso de Conceição.
Ambos seguem a trajetória do sertanejo nordestino diante da seca que, no caso de Chico Bento, funciona como antisujeito, alterando a condição do vaqueiro de sujeito de estado em conjunção com a fartura, com a terra, com o trabalho, com a moradia e leva-o a entrar em disjunção com esses elementos e em conjunção com a miséria ou falta (de chuva, de trabalho, de moradia).
Assim, Chico Bento se torna um sujeito do fazer cuja performance será decisiva para que ele alcance seu objeto valor sobrevivência.
Já para Conceição, a seca surge como um adjuvante, uma vez que ela sonha em ser mãe, mas está em disjunção com a maternidade e em conjunção com a sua liberdade e com a sua independência. Conceição é um sujeito do querer que almeja o objeto valor filho e encontra na seca o adjuvante que trará a oportunidade para a performance de adotar, levando esse actante à sua realização.
No nível discursivo o enunciador do livro delega voz ao narrador que, ao se utilizar de debreagens enuncivas, em alguns momentos delega a voz aos atores do enunciado, que por sua vez se utilizam de debreagens enunciativas, conforme o exemplo:
O João Marreca olhou para o animal que todo se pontilhava de verrugas pretas, encaroçando-lhe o úbere, as pernas, o corpo inteiro:
– Tem umas ainda pior... Carece é carrapaticida muito... E as reses assim fracas... Vicente lastimou-se:
– Inda por cima do verãozão, diabo de tanto carrapato... Dá vontade é de deixar morrer logo!
– Por falar em morrer... O compadre já soube que a Dona Maroca das Aroeiras deu ordem pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo... Não tem mais serviço pra ninguém.
Escandalizado, indignado, Vicente saltou de junto da jurema onde se encostava: – Pois eu, não! Enquanto houver juazeiro e mandacaru em pé e água no açude, trato do que é meu! Aquela velha é doida! Mal empregado tanto gado bom! (QUEIROZ,1993, p.11-12)
No filme, não há um narrador, mas as debreagens enuncivas podem ser percebidas nos planos e enquadramentos, por exemplo, no prólogo (figura 43), no plano da lua (figura 44)
imagem distanciada que se mostra ao enunciatário, na cena em plano geral da cena da partida de Chico Bento e família, deixando a fazenda Aroeiras (figura 40), em que são apresentados os personagens, e na cena do carrapaticida (figuras 24 a 31) que constitui debreagem enunciva tanto no plano imagético pelos enquadramentos quanto no plano verbal, nos diálogos entre os interlocutores.
Após considerar o Percurso Gerativo de Sentido para verificar a presença das marcas de opacidade e de transparência no texto de Jurandir Oliveira em relação ao texto de Rachel de Queiroz, pode-se afirmar sobre a transparência, da maneira como ela foi apresentada neste capítulo de análise, que ela se manifesta tanto no nível fundamental pela manutenção da oposição principal vida/morte quanto no nível narrativo, em que são mantidos os percursos narrativos de Conceição e de Chico Bento. A transparência ocorre nesses dois níveis pela aproximação entre as obras. E, no nível discursivo, transparência e opacidade co-ocorrem, de modo que o segundo texto cria em relação ao primeiro um efeito de sentido de transparência/fidelidade.