3. Generelle likevektseffekter på næringsstrukturen
3.5. Identifisering av likevektseffekter i denne rapporten
expande ao incluir direitos de habitação, saúde, educação e a apropriação de outros bens em processo de consumo. É nesse sentido que proponho reconceitualizar o consumo, não como simples cenário de gastos inúteis e impulsos irracionais, mas como espaço que serve para pensar, onde se organiza grande parte da racionalidade econômica, sociopolítica e psicológica nas sociedades.42
Ao enfatizar o consumo como algo que “serve para pensar”, García Canclini estabelece os limites de um vasto campo de investigação a respeito do tema. Mesmo que esta seja uma perspectiva ampla e significativa de estudo do consumo – capaz, inclusive, de não lhe atribuir o vago papel de simples etapa do processo produtivo – ainda assim, o tema permanece comportando espaços de investigação quase que totalmente inexplorados, muitos dos quais poderiam revelar boas pistas a respeito da própria natureza do consumo nas sociedades modernas. Em larga medida, e próximo àquilo que García Canclini sugere, perspectivas cujos pontos de partida residem justamente na ação de indivíduos conscientes e capazes de interpretar e modificar uma dada realidade.
* * *
Poucos campos de consumo se prestam tão bem ao estudo desta perspectiva quanto aquele composto por fãs e colecionadores. Há, nesses espaços peculiares de consumo, uma determinada delimitação e dedicação ao consumo de certos objetos e personalidades, capaz de tornar a prática de seus operadores algo especificamente separado de outras formas de consumo. Se, por um lado, toda e qualquer coisa pode potencialmente vir a se tornar motivo de uma coleção, por outro, uma vez estabelecido esse objetivo, sua separação do mundo das “coisas comuns” é absoluta; por conseqüência, chegando a formar, também de modo nítido, um corpo de “iniciados” que, nesse sentido, encontram-se separados do mundo das “pessoas comuns”. A esse ponto de vista é preciso acrescentar, de forma não menos significativa, o caráter incomum e o intrínseco exagero contido nas práticas de fãs e colecionadores. Seu estudo estaria em condições de revelar extremos igualmente interessantes: desde a percepção de padrões de consumo que, presentes em suas formas “convencionais”, estariam mais
42 CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora
visíveis no território de colecionadores e fãs, até um entendimento a respeito da natureza e razão de funcionamento desses espaços. Há, nas práticas de fãs e colecionadores e nos grupos em função disso constituídos, um motivo e uma lógica que, do ponto de vista daqueles que não se encontram aí representados, implica uma constante dúvida a respeito dos motivos que os levaram a adquirir tais e peculiares inclinações.
Todo e qualquer objeto de coleção (bem como todo e qualquer ídolo) possui sua existência ligada simultaneamente a duas ordens de coisas. Por um lado encontram-se inscritos no mundo das coisas comuns, no qual sua condição é a de serem consumidos tão somente em função de uma utilidade que em nada os separa (ou os separou) do próprio mundo da vida cotidiana. Da mesma forma como uma balança raríssima é ainda utilizada numa feira livre ou um dos últimos exemplares de uma cadeira produzida por determinada fábrica pode ser encontrado ainda em uso num ferro-velho: como coisas absolutamente comuns e tão somente úteis enquanto estiverem ali. Por outro lado, como objetos totalmente distintos de quaisquer outros, afastados da razão em função da qual foram produzidos ou de outros tantos usos que em outras mãos passaram a ter: tão somente como objetos de coleção. Essa dupla dimensão de um objeto foi percebida de forma muito sutil por Georg Simmel:
Cada instrumento, cada vaso, quando vistos como valores estéticos, comportam-se do mesmo modo. Sendo um pedaço de metal, tocável, pesável, medível, integrado nas atividades e nas relações do meio ambiente, o vaso é um pedaço da realidade; mas a sua forma estética vive numa existência totalmente autônoma que repousa em si mesma, somente transportada pela realidade material. Na medida em que o vaso não é feito para um isolamento intocável, diferentemente do quadro ou da escultura, mas sim deve cumprir uma finalidade prática (ainda que fosse meramente simbólica), quando segurado na mão e usado nas atividades práticas da vida, ele encontra-se, ao mesmo tempo, em ambos os mundos: enquanto na obra pura de arte o aspecto da realidade permanece totalmente indiferente, sendo, por assim dizer, “apagado”, aquele aspecto exige o seu direito do vaso praticamente usado, enchido, esvaziado, transportado. É justamente esta dupla função que se mostra de maneira mais dividida na sua asa. A asa é o elemento com o qual o vaso é tomado, elevado, inclinado. Com a sua asa, o vaso entra, visivelmente, no mundo real e
nas relações com o exterior que não existem como tais para a obra de arte. Mas a conseqüência não é que só o corpo do vaso deva corresponder aos padrões estéticos, e as asas sejam meramente cabos esteticamente neutras como as colchetas da moldura. Pelo contrário: aquelas asas, ligando o vaso com a existência real além da arte, fazem parte, ao mesmo tempo, da forma estética. (...)43
Tais relações entre um e outro mundo, permanecem sendo fonte de contínua tensão no caso dos objetos de coleção: entre uma ordem estética e outra prática, duas naturezas, o sentido dado pelo aficionado e a ausência de sentido dispensada pelo não aficionado, etc. Por mais estranhos e absurdos que esses universos possam parecer ao mundo das pessoas comuns, seu funcionamento, sua organização, sua justificação, etc, buscam continuamente demonstrar o oposto disso, de que apenas aquela prática ou aquela devoção seriam capazes de fornecer ao grupo (ou à própria vida) um sentido mais razoável, elevado, e completo. Como no próprio campo do consumo, há um característico traço de inexauribilidade contido nas práticas de colecionadores e fãs; tal aspecto, talvez mais que qualquer outro e como bem observou Colin Campbell44 em relação ao consumidor moderno, é talvez seu elemento mais curioso e paradoxal. Para este, contudo, a insaciabilidade que marcaria fundamentalmente o consumidor moderno é como que tomada por si mesma. Mesmo havendo a preocupação com a construção histórica do consumismo moderno, Campbell tenta, ao buscar a natureza de seu caráter, atribuir àquilo que chama de consumismo moderno um único sentido. Contudo, antes de possuir qualquer natureza essencial, o consumo se apresenta como coisa no mundo, como prática através da qual determinadas sociabilidades são construídas. No caso do consumo de fãs e colecionadores, mais talvez que qualquer outro espaço de consumo, as ações e arranjos do grupo se relacionam com as definições, recriações, elaborações, distinções, etc, estabelecidas dentro de determinada intencionalidade pelos próprios indivíduos.45
43 SIMMEL, Georg. A asa do vaso. In: SOUZA, Jessé e ÖELZE, Berthold (org.).
Simmel e a modernidade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. pp. 129 e 130.
44 CAMPBELL, op. cit.
45 Considerando que freqüentemente colecionadores e fãs consomem o tempo
A compreensão “formal” dessas práticas encontra-se muito próxima do conceito de sociabilidade, tal como foi desenvolvido por Simmel. Como se sabe, a explicação deste a respeito da sustentabilidade da ordem social encontra-se fortemente vinculada às ações – interesses e necessidades específicas – dos indivíduos. Por meio das constantes e variadas trocas recíprocas que os indivíduos estabelecem entre si, e que Simmel chamará de interação, forma-se uma unidade capaz de assegurar a existência daquilo que conhecemos por sociedade. Como corolário desses processos, seria possível estabelecer uma distinção entre “conteúdo e forma da vida societária”:
Interesses e necessidades específicas certamente fazem com que os homens se unam em associações econômicas, em irmandades de sangue, em sociedades religiosas, em quadrilhas de bandidos. Além de seus conteúdos específicos, todas estas sociações também se caracterizam, precisamente, por um sentimento, entre seus membros, de estarem sociados, e pela satisfação derivada disso. Os sociados sentem que a formação de uma sociedade como tal é um valor; são impelidos para essa forma de existência. De fato, às vezes é apenas esse impulso o que sugere os conteúdos concretos de uma sociação particular. (...) Pois a forma é a mútua determinação e interação dos elementos da associação. É através da forma que constituem uma unidade. As verdadeiras motivações da sociação, condicionadas pela vida, não têm importância para a sociabilidade. Conseqüentemente, é compreensível que a pura forma, por assim dizer, a inter-relação interativa, suspensa, dos indivíduos seja enfatizada da maneira mais vigorosa e efetiva.46
Aspecto relevante da perspectiva adotada por Simmel vem a ser o fato de, em função das infinitas possibilidades que se abrem por meio da natureza e dos vínculos que em última análise só poderão ser estabelecidos pelos próprios indivíduos, que em função disso encontra-se espaço para explicação e entendimento de processos normalmente ignorados sob outras abordagens. Como aliás, o próprio autor observa:
A sociabilidade se poupa dos atritos com a realidade por meio de uma relação meramente formal com esta.
convencional à publicidade poderia lhes ser associada; a não ser que esta última tivesse um improvável efeito retardado sobre suas ações.
46 SIMMEL, Georg. Sociabilidade – um exemplo de sociologia pura ou formal. In:
Ainda que exatamente por isso, essa relação formal extrai da realidade – mesmo para o espírito da pessoa mais sensível – uma importância e uma riqueza de vida simbólica e lúdica que são tanto maiores quanto mais perfeita ela é. Um racionalismo superficial procura sempre essa riqueza apenas entre os conteúdos concretos. Como não a encontra ali, prescinde da sociabilidade como de uma tolice superficial. Contudo, não deixa de significar algo que em muitas – talvez em todas as línguas européias, sociedade designa simplesmente uma reunião sociável. É claro que qualquer sociedade, política, econômica, ou qualquer que seja a descrição de seus objetivos, é uma “sociedade”. Mas apenas a sociável é “uma sociedade” sem outras qualificações. É assim precisamente porque representa a forma pura que se ergueu acima de todos os conteúdos, tais como os que caracterizam aquelas “sociedades” mais “concretas”. Isso nos dá uma imagem abstrata, na qual todos os conteúdos se dissolvem no mero jogo da forma.47
* * *
Quando, na história ocidental, surge a idéia ou o hábito de se colecionar coisas? Ao que tudo indica não é possível encontrar uma resposta precisa para esta questão. Possivelmente a prática de se “manter objetos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas”48 é anterior aos mais antigos registros que se tem a respeito do assunto; ainda que, por sua vez, exatamente o desenvolvimento de novas formas de registro e conservação tenha, nos últimos séculos, tornado mais visíveis tais modalidades especiais de consumo. Ou seja, não apenas o registro arqueológico de uma antiga coleção, mas também o desenvolvimento de técnicas de conservação, o surgimento da própria idéia de museu como lugar especificamente construído para este fim ou ainda, contemporaneamente, meios de comunicação capazes de expor os objetos de uma coleção diante de um número infinitamente maior que aquele alcançado pelas primeiras coleções. Tanto quanto o tempo, o surgimento das primeiras coleções não parece se encontrar relacionado a uma cultura ou civilização específicas. Observou-se, por exemplo, que
Na cidade mais antiga até agora descoberta (Çatal Höyuk, na Anatólia, entre 6.500 e 5.700 a.C.), o