celulares teria se baseado nos comunicadores utilizados pela tripulação da nave Enterprise.
108 O grupo Rush, possui uma das mais longas carreiras da história do rock, tendo
sido criado em 1968 pelos músicos Geddy Lee e Alex Lifeson (o terceiro integrante, Neil Peart, só entraria mais tarde, em 1974), mantendo-se ainda hoje em atividade e sob a mesma formação. Muito respeitado (inclusive pelos que não são seus fãs) pelo fato de seus integrantes serem excelentes músicos, terminou construindo fama de grupo muito apreciado por músicos, menos que por aqueles que apenas gostam de música.
que serão considerados válidos pelo grupo, estabelece-se também uma separação entre aqueles que dominam essas definições e um público externo. Do ponto de vista de aficionados por ônibus, fatores considerados pelos usuários dos serviços de transporte urbano como muito importantes – tempo de viagem, preço das passagens, limpeza dos veículos, etc – são pelos primeiros percebidos como secundários ou praticamente irrelevantes. Em seu lugar, e muito distante da compreensão do público leigo, importa saber que inovações técnicas e estéticas trazem os últimos modelos de ônibus lançados pela indústria do setor, que modelos sairão de linha ou deixarão de ser fabricados, etc. Para um colecionador de automóveis, pouca importância possui o fato de seus modelos preferidos consumirem quantidade excessiva de combustível, serem difíceis de estacionar ou apresentarem custos de manutenção elevados. Importa fundamentalmente, de seu ponto de vista, certificar-se a respeito da originalidade de todos os componentes e de seu perfeito funcionamento, da maior raridade possível de cada um deles, etc. A distinção entre essas duas perspectivas – a do colecionador e a do não colecionador – é assim observada por Walter Benjamin, citando um comentário do escritor francês Anatole France:
Os meus leitores acharão esquisita essa opinião sobre o escritor, mas tudo o que se diz do ponto de vista de um colecionador autêntico é esquisito. Dos modos costumeiros de adquirir livros, o mais conveniente seria tomar emprestado sem a subseqüente devolução. O sujeito que se destaca pela quantidade de livros que tomou emprestados – que é a quem visamos aqui – mostra-se como um inveterado colecionador de livros não tanto pelo fervor com que guarda o seu tesouro emprestado nem pelos ouvidos moucos que faz a qualquer advertência proveniente do mundo cotidiano da legalidade, mas pelo fato de que não lê os livros. Se quiserem acreditar na minha experiência, saibam que freqüentemente me devolviam, em tempo oportuno, um livro emprestado sem que o tivessem lido. Seria – vocês hão de perguntar – uma característica do colecionador não ler livros? Dir-se-ia que é a maior das novidades. Mas não, pois especialistas podem confirmar que é a coisa mais velha do mundo, e menciono aqui a resposta que Anatole France tinha na ponta da língua para dar ao filisteu que, após ter admirado sua biblioteca, terminou com a pergunta obrigatória: – E o senhor leu tudo isso, Monsieur France? – Nem sequer a décima
parte. Ou, por acaso, o senhor usa diariamente sua porcelana de Sèvres?109
O caráter insólito das práticas de todo colecionador possui origem, sob a perspectiva do público em geral, não apenas no fato de soar estranho o obsessivo interesse de alguém por um único tema, mas também por esse gosto não se manifestar através de formas convencionalmente esperadas. Importa muito pouco a um colecionador de selos ter sempre a mão um ou outro exemplar de sua coleção para efeito de selar sua correspondência. Tanto quanto, no caso de um colecionador de forte apaches passar a maior parte de seu tempo simulando uma guerra entre soldados e índios. Do ponto de vista dos não colecionadores simplesmente não parece fazer sentido concentrar tanto tempo, atenção, dinheiro, etc, sobre objetos e temas já previamente definidos como descartáveis, efêmeros ou, simplesmente, incompreensíveis:
Diz-se que o Xá da Pérsia, durante uma visita à Inglaterra, recusou-se a assistir a uma corrida de cavalos, alegando saber muito bem que alguns cavalos correm mais depressa do que outros. De seu ponto de vista tinha toda a razão: recusava-se a tomar parte numa esfera lúdica que lhe era estranha, preferindo ficar de lado. O resultado de um jogo ou de uma competição – excetuando-se, evidentemente, os que implicam um lucro pecuniário – só tem interesse para aqueles que dele participam como jogadores ou como espectadores, quer pessoalmente e no local, quer como ouvintes pelo rádio ou espectadores pela televisão, etc, e aceitam suas regras. Tornam-se parceiros do jogo e querem sê-lo. Para eles não é insignificante nem indiferente que o vencedor seja Garboso ou Destampido.110
De forma semelhante a muitos jogos, os espaços dentro dos quais se desenvolvem as ações de fãs e colecionadores possuem regras que podem só fazer sentido entre seus iniciados. Mesmo que alguns princípios gerais possam se mostrar muito evidentes – primado da raridade, busca do objeto que nunca foi usado, etc – outros só podem ser percebidos indiretamente. Aquilo que, fora de um círculo de colecionadores, pode se mostrar fundamental – condição social, posicionamento político, filiação religiosa, etc – normalmente possui importância secundária entre um grupo de
109 BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas – volume II. São Paulo: Brasiliense, 1993.
aficionados. Ainda que normalmente inexistam regras formais a respeito, para boa parte do conjunto de coisas tratadas pelo grupo há um “modo certo” de fazer, dizer, avaliar, demonstrar interesse ou desinteresse, etc, implícitos e tacitamente compartilhado por todos os membros. O fato de estarem conversando com um pesquisador não significa que estarão compartilhando com o mesmo o conjunto destas regras. Normalmente, e não mais que isso, significará apenas que o aceitaram como um não colecionador que se interessa por coleções. Avaliações a respeito de objetos significativos (peças raras, textos específicos, fotografias, etc) ou discussões nas quais as partes envolvidas avaliam mutuamente seu conhecimento em relação ao objeto colecionado costumam se desenvolver em meio a sutilezas que quase só poderão ser percebidas pelos próprios aficionados.
Assim, boa parte das discussões empreendidas entre os mais diversos grupos de aficionados tomam como conhecimento básico aquilo que, para um não iniciado, se apresentará como claramente incompreensível. A simples menção de algumas dessas informações básicas pode, eventualmente, lançar dúvidas a respeito do currículo e competência do suposto aficionado. Entre os aficionados por HQ,111 por exemplo, seria impróprio, ainda que possível, estabelecer uma discussão semiótica a respeito de determinada série. Ou ainda em relação ao valor literário dos diálogos presentes nas histórias. Ainda que tais empreendimentos sejam perfeitamente exeqüíveis entre outros grupos de aficionados – teóricos peircianos, críticos literários, etc – dificilmente encontrariam espaço entre fãs de revistas em quadrinhos. Como tantos outros grupos, o gosto dos aficionados por HQ se direciona a aspectos construídos e eleitos pelo grupo como aspectos legitimamente válidos. Tal distinção entre temas relevantes e não relevantes não costuma, assim, seguir critérios muito lógicos de escolha. Entre os aficionados por ônibus, por exemplo, mesmo havendo grande interesse em relação ao lançamento de novos modelos de carroceria ou a quais veículos que se encontram ou não circulando dentro de determinada