135 “Sim, mas um poeta tinha dito sob os mesmos céus de Glenda que a eternidade
está enamorada das obras do tempo, e coube a Diana sabê-lo e dar-nos a notícia mais tarde. Comum e humano: Glenda anunciava seu retorno às telas, as razões de sempre, a frustração do profissional com as mãos vazias, um personagem sob medida, uma filmagem iminente. Ninguém esqueceria aquela noite no café, justamente depois de ter visto O uso da elegância, que voltava às salas do centro. Quase não foi necessário que Irazusta dissesse o que todos vivíamos como o amargo gosto de injustiça e rebeldia. Queríamos tanto a Glenda que o nosso desânimo não a alcançava, que culpa tinha ela de ser atriz e de ser Glenda, o horror estava na máquina quebrada, na realidade de cifras e prestígios e Oscars entrando como uma falsa fissura na esfera de nosso céu tão duramente conquistado. Quando Diana apoiou a mão no braço de Irazusta e disse: ‘Sim, é a única coisa que falta fazer’, falava por todos sem necessidade de nos consultar. Nunca o núcleo teve uma força tão terrível, e nunca precisou de menos palavras para pô-la em marcha. Nós nos separamos furiosos, vivendo já o que teria de acontecer em uma data que só um de nós conheceria com antecedência. Estávamos certos de não voltar a nos encontrar no café, de que cada um esconderia, a partir de agora, a solitária perfeição de nosso reino. Sabíamos que Irazusta faria o necessário, nada mais simples para alguém como ele. Sequer nos despedimos, como de costume, com a leve segurança de voltar a nos encontrar depois do cinema, numa noite de Os efêmeros retornos ou de O açoite. Foi antes um dar as costas, pretextar que era tarde, que se devia ir embora; saímos separados, cada um levando o seu desejo de esquecer até que tudo estivesse consumado, e sabendo que não seria assim, que ainda nos faltaria abrir certa manhã
incontornáveis obstáculos com que a realidade costuma constranger as ações de outros fãs (e que propositalmente parecem ter sido eliminados do conto), tais seriam os procedimentos a serem utilizados por outros tantos fãs e aficionados.
A depender do tempo e do empenho despendidos por um aficionado na organização de uma coleção ou agrupamento de informações relacionadas a um determinado tema, a questão de como transmiti-las a um “sucessor” ou mesmo garantir sua preservação no tempo poderá se transformar num grande problema. Até porque, curiosamente, não são comuns os casos de fãs ou colecionadores que tenham se casado com pessoas igualmente interessadas pelos mesmos temas ou objetos,136 assim como filhos de aficionados só eventualmente costumem herdar os mesmos interesses de seus pais. Se o desinteresse pelo tema, por parte do público em geral, pode ser explicado pelo fato do mesmo não ter tido ainda acesso à verdade, o descaso da família e de pessoas próximas ao aficionado por seu tema permanecerá sendo uma dolorosa contradição: mesmo que tenham tido acesso à verdade – por meio da proximidade do aficionado e do contato com a própria coleção – sua “conversão” não se realizou. Em alguns casos, o papel de membros mais próximos pode assumir contornos bastante sombrios e distantes de qualquer possibilidade de conversão:
Ficção ou não, o fato é que nessas histórias identifica- se um personagem que ocupa o papel principal nos depoimentos dos sebistas, quando o assunto tratado é a desova das bibliotecas particulares: as viúvas.
Para José Jorge Brito, autor do já citado Guia dos Sebos do Brasil, “mulher de bibliófilo que fica viúva é uma interrogação. Às vezes, quando o caixão sai por uma porta, a biblioteca sai por outra”. Claro Durães, da Feira do Livro, diz que “muitos homens que gostam de livros costumam ter em casa mulheres que detestam
o jornal e ler a notícia, as estúpidas frases da consternação profissional. Nunca falaríamos disso com ninguém, nós nos evitaríamos cortesmente nas salas e na rua; seria a única maneira de o núcleo conservar sua fidelidade, guardar em silêncio a obra realizada. Queríamos tanto a Glenda que lhe ofereceríamos uma última perfeição inviolável. Na altura intangível onde a havíamos exaltado, nós a preservaríamos da queda, seus fãs poderiam continuar adorando-a sem diminuição; não se desce vivo de uma cruz.” CORTÁZAR, op. cit., pp. 22 e 23.
136 Neste caso, indício bastante sugestivo da desproporção entre os sexos no mundo
das coleções: caso este não fosse tão predominantemente masculino, é provável que a maior parte dos colecionadores tivesse se casado com colecionadoras. Se tal não acontece, é muito provável que sua causa esteja relacionada à escassez de membros do sexo oposto entre os mais variados grupos de aficionados.
livros”. E Pedro Uildon, da Livraria e Sebo Horizonte, diz que “comprar livros de viúvas é um ótimo negócio”. Uma opinião também partilhada por José Ronaldo, da Shazam e Antônio Humberto, das Páginas Antigas que, respectivamente, se referem às viúvas:
Os maiores inimigos das bibliotecas pessoais são os cupins e as viúvas, porque, quando morre um intelectual a viúva torra por qualquer preço ou bota no papel velho. E ela faz isso porque a biblioteca do marido é um estorvo, está entupindo um lugar que ela poderia pôr os móveis. Eu tinha uns fregueses mais antigos, aquelas pessoas que ainda formavam biblioteca pelo prazer de se ter uma biblioteca para os outros consultarem, pessoas que morreram, e depois vieram as viúvas e acabavam vendendo pra gente mesmo. Passavam 20, 30 anos, procurando livros com a gente, faziam aquela listinha de tudo que estava faltando, depois as viúvas iam e torravam aquilo tudo (José Ronaldo).
Teve uma outra história de uma grande biblioteca que eu fui olhar fora de Belo Horizonte, numa fazenda e a viúva se sentou do meu lado. Era uma biblioteca enorme e eu fiquei dois finais de semana olhando essa biblioteca, e ela falava assim: “eu não sei como que ele conseguia esses livros! Eu nunca peguei um livro desses! Eu tenho que vender essa biblioteca porque eu vou vender a fazenda e a pessoa não quer nenhum livro aqui!” E ela ficava lá, falava dos livros como um empecilho na vida dela, algo que a impediu de fazer muita coisa (Antônio Humberto).137
Nem sempre, contudo, pode-se assegurar às mulheres e às viúvas um papel tão pouco encorajador na vida de um bibliófilo:
E aqui cabe uma ligeira interrupção, para corrigir uma injustiça que venho cometendo desde o início desta conversa em relação à Guita, minha mulher. De fato, tenho falado sempre em ‘minha biblioteca’, quando, na realidade, a biblioteca é dela e minha, pois ela, embora não tenha a atração patológica que me aflige, também gosta de livros, é uma leitora constante, e, como se isso não bastasse, conserva os livros, e já encadernou ou restaurou vários deles. Somos casados há 58 anos, e nunca precisei entrar em casa com livros escondidos. Aliás, algumas obras que representaram no curso da vida uma certa extravagância para o nosso limitado orçamento na ocasião, foi ela quem me encorajou a comprar.138
137 DELGADO, Márcia Cristina. Cartografia sentimental de sebos e livros. Belo
Horizonte: Autêntica, 1999. pp. 88 e 89.
138 DELGADO, op. cit., p 88. O comentário é de autoria do conhecido bibliófilo José
Desta forma, é normalmente sob o signo da incompreensão e da impossibilidade de se converter aqueles que estão mais próximos do fã ou do colecionador, que a maioria dos clubes de aficionados encontram-se organizados. Se no ambiente familiar a peculiar inclinação de um colecionador ou fã não costuma despertar grande entusiasmo, os espaços em torno dos quais um grupo de aficionados irá se reunir se apresentam como mundos quase que ideais, nos quais o tema preferido de cada membro é também o mais importante; onde, principal e romanticamente, tudo aquilo que se refere ao objeto ou tema eleito encontra-se repleto de significado e sentido.
Assim, por contraste e oposição ao mundo dos que não crêem, os vínculos existentes entre os membros de um grupo de aficionados possuem uma natureza quase transcendente, importando dessa forma bem pouco as características externas e pessoais de cada membro, na medida que afastadas daquilo que unicamente possui realmente importância para cada um:
A partir de Diana ou Irazusta o núcleo foi-se dilatando lentamente, no ano de O fogo da neve devíamos ser apenas seis ou sete, quando estrearam O uso da elegância o núcleo se ampliou e sentimos que crescia quase insuportavelmente e que estávamos ameaçados de imitação snob ou sentimentalismo passageiro. Os primeiros, Irazusta e Diana e dois ou três mais decidimos cerrar fileiras, não admitir sem provas, sem o exame disfarçado pelos uísques e o alarde da erudição (tão de Buenos Aires, Londres e México, esses exames da meia-noite). À hora da estréias de Os efêmeros retornos precisamos admitir, melancolicamente triunfantes, que éramos muitos os que queríamos a Glenda. Os reencontros nos cinemas, os olhares à saída, esse ar como que perdido das mulheres e o dolorido silêncio dos homens nos identificavam melhor que uma insígnia ou uma senha. Ações não investigáveis nos levaram a um mesmo café do centro, as mesas separadas começaram a se aproximar, adotamos o delicado costume de pedir o mesmo coquetel para deixar de lado toda escaramuça inútil e, afinal, nos olhar olhos nos olhos, ali onde ainda vivia a última imagem de Glenda na última cena do último filme.139