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Na identificação dos informantes dos textos jornalísticos, apresentaremos os dois critérios aventados em tópico anterior. Esses dois critérios permitirão o tratamento informações que nos permitam conhecer o perfil da comunidade e não apenas o perfil do indivíduo. Esse foi o primeiro critério adotado por nós.

Esse procedimento une inquestionavelmente a metodologia de identificação dos informantes utilizada nas cartas pessoais com a utilizada nos textos jornalísticos. E encontra respaldo na metodologia de observação dos dados. É uma estratégia que se aproxima muito da que utilizaremos para a comparação dos diferentes subgêneros. Optamos, assim por tratar os escreventes dos textos jornalísticos como pertencentes ao mesmo contexto social e político em que estão inseridos os escreventes das cartas pessoais. Consideraremos, assim, os textos jornalísticos como um espelho social das cartas pessoais.

A opção de tratarmos a amostra formada por textos jornalísticos como um espelho social das cartas pessoais não foi feita deliberadamente. Apoiamo-nos no fato de que a

observação do contexto social em que os escreventes estão inseridos é capaz de elucidar muitas questões sobre tais informantes e, justamente por isso, consideramos que esses escreventes são representantes de um mesmo contexto social. Esse critério foi em três etapas da identificação dos informantes dos textos jornalísticos.

Nos jornais portugueses dos séculos XVIII e XIX e nos jornais brasileiros, o redator e o tipógrafo assumiam papel central na estrutura do jornal. Ambas as atividades possuíam uma carga de prestígio, principalmente no século XVIII, por serem desempenhadas por pessoas de vasto conhecimento sobre a língua. Este perfil é mais adequado para os jornais portugueses do século XVIII e primeira metade do século XIX em Portugal e no Brasil. Na segunda metade do século XIX e na primeira metade do XX, não há diminuição da importância dessas funções para o jornal, mas há uma mudança no perfil desses profissionais. Isso significa dizer que a redação dos jornais passou de uma estrutura centralizada nas mãos de poucos agentes para uma estrutura ampliada com várias mãos atuantes, inclusive a mão do próprio leitor que, além de ser para quem o jornal é escrito, também passou a ter oportunidade de pautar as notícias ali publicadas.

Essa alteração permitiu que a responsabilidade pelo conteúdo publicado no jornal fosse pulverizada, uma vez que as redações assimilaram a presença de novos profissionais como repórteres, assistentes de redação, entre outros. É possível pensar, tendo estes fatos como foco, que, além de o jornal ser escrito para um público específico, e isso não diz respeito apenas à camada social a que pertence, mas também à nacionalidade do público a que se destina, o redator pode ser a figura que representa esse jornal. Sendo assim, a sua identificação também auxilia na construção do perfil dos escreventes dos textos de jornais.

Recolhemos informações sobre os jornais utilizados para que contribuíssem na identificação desse conjunto de texto como confiável para o estudo desenvolvido. Dentre essas características estão a identificação do redator ou editor, o local ou o nome da tipografia e a periodicidade. Essas são informações muito importantes para sabermos quem é o responsável pelo formato do jornal e o contexto em que é moldado. Poder confirmar se os tipógrafos ao menos estão na localidade investigada é um exemplo da importância dessas informações, pois podemos ter, principalmente, para o Brasil, no século XIX, periódicos publicados fora dos países pesquisados. No anexo 4, apresentamos a ficha de cada jornal utilizado na composição dos corpora. Nesta ficha, temos a localidade das tipografias e a nacionalidade dos redatores e diretores, quando foi possível identificar.

Como pode ser visto no anexo 4, alguns redatores puderam ser identificados como brasileiros e outros não. Por essa razão, não nos foi possível utilizar essa informação como um

recurso irrefutável da identificação dos responsáveis pelo conteúdo veiculado no jornal. Considerar a nacionalidade do redator ajuda a identificar como o conteúdo foi trabalho em função dos leitores, mas não nos auxilia na identificação dos assinantes das cartas de leitores, muito embora nos permita perceber o tipo de escrevente que ocupa este espaço no jornal. Este recurso ajudou a identificar mais os autores da notícia do que os autores das cartas de leitores. Para pensar um caminho de identificação dos autores das cartas de leitores, nos foi útil o trabalho de Gravina (2008) no qual a autora utilizou como amostra textos jornalísticos escritos por indivíduos identificáveis, constituindo, assim, uma amostra de textos jornalísticos escritos por brasileiros. Neste trabalho, Gravina encontrou o mesmo perfil delineado para todos os estudos que apontam mudanças concluídas no final do século XIX. Se o mesmo perfil for delineado para os textos sem a identificação dos escreventes teremos, então, a comprovação de que a intenção com que o texto é escrito pode ser computada como uma estratégia de seleção de amostra. Temos aqui a segunda etapa do primeiro critério.

É por essa razão que afirmamos que os textos jornalísticos necessitaram de um tratamento diferenciado ao geralmente dado aos textos de períodos passados da língua. Consequentemente, os textos jornalísticos, para cumprirem os objetivos aqui delimitados, têm que ser considerados em sua polifonia e também na sua escrita por várias mãos.

A terceira etapa incide sobre o problema da identificação do escrevente. Por interferir no processo de identificação da nacionalidade do texto utilizado, está relacionada ao intercâmbio de informações entre Portugal e Brasil, ocorrido por meio de notícias publicadas em seus jornais. Como dissemos anteriormente, é comum os jornais possuírem excertos de notícias retirados de outros jornais. Tal fato permite que ocorra não apenas um intercâmbio de informação entre Brasil e Portugal, mas, também, a manifestação escrita dessas variedades em ambos os espaços. Assim, é possível encontrarmos textos escritos por portugueses em jornais brasileiros e outros redigidos por brasileiros em jornais portugueses. Esse é o mesmo efeito que temos, por exemplo, nas cartas pessoais quando alocamos em um mesmo conjunto textos escritos por escreventes nascidos no Brasil e por escreventes nascidos em Portugal, mas residentes no Brasil. Como reconhecer estes textos? Um agravante para esse reconhecimento é o fato de muitos jornais brasileiros e portugueses serem homônimos e não ser possível, muitas vezes, saber qual a nacionalidade do jornal utilizado.

Tomamos como medida retirar dos jornais brasileiros apenas as notícias que eram compostas pelo redator do jornal ou que tenham sido retiradas de jornais identificados como não sendo portugueses, minimizando o efeito de amostras do PE dentro de um espaço de manifestação do PB. Tomamos a mesma medida para os jornais portugueses, pois,

principalmente após a vinda da família real para o Brasil, também são encontrados excertos de jornais brasileiros em jornais portugueses. Esse cuidado se estendeu inclusive para as notícias estrangeiras, pois, no caso do Brasil, grande parte das notícias europeias é retirada de jornais portugueses, diferentemente dos jornais portugueses que são compostos por notícias geralmente retiradas de outros jornais portugueses ou de jornais europeus. No que tange aos excertos retirados de jornais de outra parte do Brasil e que foram traduzidos por brasileiros da localidade selecionada ou não, tomamos como procedimento utilizá-los, uma vez que não estamos desenvolvendo um estudo dialetal, podemos assim, admitir textos de outras localidades como amostras legítimas do PB também.

A observação das etapas descritas até aqui, embora minimizem, não solucionam o problema da não identificação de todos os escreventes do jornal. O fato de não identificarmos cada escrevente do jornal pode ser um problema metodológico de médio porte, pois se estamos tratando comparativamente duas gramáticas distintas essa identificação torna-se fundamental. Assumimos, contudo, três formas de identificar esses escreventes, mesmo que indiretamente. O segundo critério de identificação dos escreventes de textos jornalísticos corresponde à proposta feita para as cartas pessoais em que buscamos na análise qualitativa dos dados os contextos em que a gramática do PB se difere da gramática do PE e confrontamos esses usos aos encontrados nos textos jornalísticos. A esta terceira estratégia nos dedicaremos a seguir.

Para que possamos comparar os perfis das cartas pessoais e dos textos jornalísticos e interpretar esses resultados como espelhamento dos usos em contextos menos formais e em contextos mais formais, deveremos ter: (a) uso maior da preposição [para] nos contextos em que as duas preposições são aceitas no PE, a saber, quando o complemento verbal é não cliticizável e quando a preposição [para] introduz complemento verbal cliticizável; (b) variação em verbos como remeter e desejar; (c) uso maior da preposição [para], com os verbos mandar e escrever, em complementos verbais com traços [-animado] ou [+genérico] e uso desta preposição em complementos verbais com traço [+animado]; (d) em verbos como

ir, vir, fazer e vender a preposição apresentará variação também em contextos em que o

complemento verbal for [+animado]; (e) uso categórico da preposição [a] com o verbo rogar no PE e uso variável no PB.

No contexto (a) encontramos para o PE uma distribuição equânime de usos da preposição [para] em complementos não cliticizáveis e em complementos cliticizáveis, em cartas pessoais, 15% para cada. Já para o PB esses valores um pouco mais que dobram, 33% de uso da preposição [para] em complementos não cliticizáveis e 34% de uso da preposição

[para] em complementos cliticizáveis. Nas cartas de leitores, temos, para o PE, 15.2% de uso da preposição [para] em complementos não cliticizáveis e 34% de uso da preposição [para] em complementos cliticizáveis e, para o PB, 8,5% de uso da preposição [para] em complementos não cliticizáveis e 42.3% de uso da preposição [para] em complementos cliticizáveis. Notamos que o contexto que mais evidencia a gramática do PB é o uso da preposição [para] em complementos cliticizáveis.

No contexto (b) encontramos duas ocorrências de complemento verbal do verbo

remeter introduzido pela preposição [para] em cartas de leitores do PB.

(20) forão por estes | respondidos que breve chegaria, pois já | havia recebido aviso de ter sido remetti | do sem quantidade sufficiente para as es | colas; (PB 1ª XX)

(21) Depois remetteram-me para esta Capital. (PB 2ª XIX)

No contexto (c) foi encontrada apenas uma ocorrência do verbo mandar com complemento verbal locativo introduzido pela preposição [para], em notícias. Sendo assim, não foi possível tirar conclusão sobre este fato.

(22) declarou que havia mandado para Austria, ainda no ministerio passado, um enviado encarregado de missão importante. (PB 1ª XIX)

O baixo índice de estruturas com o verbo mandar pode estar relacionada com características inerentes aos gêneros textuais observados nos textos jornalísticos.

No contexto (d), encontramos apenas ocorrências do verbo ir com complemento verbal [-animado], nas cartas de leitores e nas notícias.

(23) mas se não morre o Porco, o Boy, e não/ vem á meza o bom Porto (PB 1ª XIX)

No contexto (e), não foi possível estabelecer comparação com as cartas pessoais, pois, houve apenas uma ocorrência do verbo rogar em cartas de leitores e nas notícias não houve nenhuma ocorrência. Esta única ocorrência verbal vem acompanhada da preposição [a]. No entanto, notamos um aumento no uso do verbo pedir em contextos parecidos com os que o verbo rogar ocorre, como no exemplo a seguir:

(24) Continuando a valher-me da | oportu[n]a seção “Correspondências”, a v. s. a fineza | de publicar os comentarios abai- | xo pelo que muito grato ficarei. (PB 1ª XX)

Embora não tenhamos podido identificar todos os contextos de variação nos textos jornalísticos identificados nas cartas pessoais, pudemos notar que a distinção entre complemento verbal não cliticizável e cliticizável atua como forte argumento para a interpretação dos textos jornalísticos como reflexo das cartas pessoais, pois foi averiguado o mesmo perfil de uso da preposição [para] em todos os três gêneros e foi o contexto que mais nos permitiu estabelecer relações.

O terceiro critério se funda em decorrência do tratamento dos dois primeiros. Por apresentar essas características, para o tratamento dos textos jornalísticos, rejeitamos o procedimento metodológico adotado no PHPB, que objetiva traçar o perfil sociolinguístico do informante (RAMOS, 2001; MATTOS e SILVA, 2002 e LOBO, 2010). Como solução para esse problema, propomos considerar que os textos publicados em jornais nos séculos XIX e XX eram textos escritos para públicos muito específicos; em Portugal os jornais eram escritos para portugueses e no Brasil os jornais eram escritos para brasileiros. Neste sentido, tem-se minimizado o efeito da não identificação quanto ao local de nascimento do autor, pois sabemos que a linguagem adotada estará de acordo com as expectativas das respectivas comunidades nas quais os jornais vão circular.

A seguir nos dedicaremos à percepção do escrevente em seu contexto socioeconômico.