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Para fazermos a identificação social dos informantes, utilizamos quatro estratégias: (i) coletamos informações encontradas nas próprias correspondências utilizadas; (ii) consultamos livros de genealogia do Cônego Trindade (1951, 1955)18; (iii) buscamos informações em arquivos notariais e (iv) confrontamos informações com o contexto social e econômico apresentado por Almeida (2010). Para confirmar essas informações também nos dedicamos a observar a cidade de Ouro Preto em seu contexto social, político e econômico, nos século XVIII e XIX.

A primeira estratégia se pautou no recolhimento de informações fornecidas pelos próprios correspondentes, como por exemplo, grau de parentesco entre remetente e destinatário, localidades em que o escrevente viveu, cargos desempenhados, etc.

A segunda estratégia, e uma das mais eficientes, foi o uso de livros de genealogia para a identificação de famílias e recolhimento de informações sociais. Existem duas obras de referência sobre a genealogia das famílias mineiras que são fundamentais para identificar os indivíduos que constituíram a sociedade mineira desde a chegada dos bandeirantes no século XVII. São elas os Velhos Troncos Mineiros e os Velhos Troncos Ouro-pretanos. Nestes volumes, escritos por Cônego Trindade, temos relações dos bandeirantes e das famílias portuguesas que para cá se deslocaram no desbravamento do interior e na corrida pelo ouro.

Estes livros assumem importância fundamental por se aterem a compor as árvores genealógicas dos filhos ilustres da cidade de Ouro Preto e de Minas Gerais; mais pontualmente, das localidades de extração aurífera. Por mais que o Cônego Trindade não deixe claro em seus livros qual o critério adotado para selecionar esses filhos ilustres, classificação, aliás, adotada por Trindade, podemos perceber que as suas genealogias estão repletas de portugueses que vieram constituir riqueza no Brasil, que possuíam patentes em Portugal ou as recebiam aqui por relações de mercês, homens que ocupavam altos cargos administrativos na estrutura colonial e no Império, membros do alto clero, pessoas que possuíam títulos de nobreza, negociantes e comerciantes bem sucedidos. No próximo tópico, nos dedicaremos a relacionar esses indivíduos com as hierarquias sociais existentes, nos séculos XVIII e XIX.

18 Agradecemos a Vivian Canella Seixas por ter cedido informações coletadas nos livros do Cônego Trindade

que nos permitiram identificar mais pontualmente a nacionalidade dos missivistas. Agradecemos também a permissão para o uso das cartas por ela fotografadas como parte a mostra por nós constituída.

A terceira estratégia que utilizamos foi a busca em documentos notariais, como testamentos e inventário post mortem, de informações sobre esses escreventes. Neste tipo de documentação foi possível obter informações familiares e econômicas muito importantes para este estudo. Procedeu-se um levantamento prévio da documentação disponível, pertencente aos escreventes, em quatro arquivos nas cidades de Mariana e Ouro Preto, quais sejam:

a) Casa Setecentista de Mariana – documentos cartoriais do 1º e 2º ofícios dos quais foram consultados testamentos, inventários, justificações, ações cíveis e processos crime.

b) Arquivo da Câmara Municipal de Mariana – listas de moradores do distrito de Monsenhor Horta, no século XIX, listas de votantes e atas de votação, além de alistamento de eleitores, sede e distritos, mapas e listas de oficiais, ata de qualificação, ata de eleição de juiz de paz, etc. c) Cúria Metropolitana de Mariana – atestados de óbitos

d) Casa Setecentista do Pilar, em Ouro Preto – inventários post

mortem.

A última estratégia utilizada foi adotada para os escreventes do século XVIII. Buscamos, na transcrição da listagem dos Homens Ricos de Minas Gerais de 1756, feita por Almeida (2010)19, os nomes dos escreventes do século XVIII a fim identificar dados importantes como se possuíam patentes, a ocupação e o local em que viviam. Nesta listagem, encontramos apenas um escrevente. Trata-se de Luís da Silva Valle, nascido em Cachoeira do Campo/ Ouro Preto, filho de pai português, Luis da Silva Vale (São Mamede de Sezures, comarca de Vila Nova de Famalicão), e mãe brasileira, Josefa Maria Bernarda. Era casado com Margarida Francisca de Santa Rosa, com quem teve oito filhos: Rita de Cássia e Silva; Ana Rodozinda Videlina da Silva; Inácia Francelina Cândida da Silva; Maria Rozenda Domitila da Silva; Maximiano Cândido da Silva Vale; Sabina Flávia Domitila da Silva; Leocádia; Francisca de Paula; Luís Torquato da Silva Vale. Alguns de seus filhos são também remetentes e destinatários das cartas por nós utilizadas. Foi importante negociante em Cachoeira do Campo e, também, foi comerciante na mesma localidade, além de Congonhas e Vila Rica. Era proprietário de vários prédios em Vila Rica, no Largo do Pilar (sua casa), no Rosário, na Ladeira das Cabeças e na rua dos Paulistas, em Antônio Dias. Em Vila Rica, possuiu cargo público na Tesouraria da Fazenda Real e trabalhou no Contrato dos Dízimos.

Como veremos no tópico em que trataremos o contexto social e os escreventes, as informações retiradas dessa listagem e a análise feita por Almeida (2010) nos ajudaram a

19 A listagem encontra-se organizada por ordem alfabética, por comarcas e termos. A fonte utilizada pela autora

compreender o contexto em que esses escreventes se encontravam inseridos no século XVIII, bem como nos ajudam a perceber as redes estabelecidas por estes informantes. Este fato fica ainda mais evidente quando observamos que vários dos remetentes e destinatários das cartas estabelecem algum tipo de relação com este ‘homem rico’. Alguns são filhos, irmãos, amigos, afilhados, cunhados, ou possuem algum tipo de relação comercial com Luis da Silva Valle.

Nos anexos 1 e 2, apresentamos dois quadros, divididos por século, nos quais colocamos todas as informações encontradas sobre os remetentes das cartas pessoais e a localização da documentação notarial utilizada, respectivamente. Os quadros de identificação foram compostos evidenciando o nome do remetente, a data de nascimento, a nacionalidade, a naturalidade, a profissão, o estado civil e dados familiares complementares.

Como podemos notar o quadro ainda apresenta algumas lacunas. Essas lacunas são em decorrência da dificuldade de encontrarmos informações sobre alguns dos informantes. Essa dificuldade é inerente ao fato de talvez esses informantes não morarem na Comarca de Ouro Preto na data de seu falecimento, ou de não serem filhos ilustres nem da comarca, nem da capitania mineira e, por essa razão seus nomes não figuram nos livros do Cônego Trindade, por exemplo. Ainda é possível que essas pessoas estivessem temporariamente em alguma freguesia da Comarca de Vila Rica e tenham escrito cartas neste período.

Seja qual for a razão, esses informantes nos colocaram diante de mais uma das idiossincrasias apresentadas por fontes escritas: a quantidade de material disponível. A atitude recomendável para uma situação como essa seria o não uso das cartas selecionadas. Dado o fato que isso significaria, necessariamente, uma redução da amostra para alguns dos períodos observados, optamos por fazermos um recorte composto por textos identificados e textos não identificados e quantidade equânime de palavras. A comparação dessas duas amostras nos dirá se os usos linguísticos manifestados nos textos com informantes não identificados são os mesmos dos textos que possuem os informantes identificados.

A observação dos dados retirados de cartas pessoais nos mostrou que: (i) uso maior, no PB, da preposição [para] nos contextos em que as duas preposições são aceitas no PE, a saber, quando o complemento verbal é não cliticizável e quando a preposição [para] introduz complemento verbal cliticizável; (ii) em verbos como remeter e desejar os complementos verbais são categoricamente introduzidos pela preposição [a], no PE. No PB, ocorre variação com o verbo remeter, apenas no século XIX:

(7) Meu Amigo e senhor pelo Senhor Lousiano remeto para noça conta 55H140 reis. em cobres de toda qualidade (PB 2ª XIX)

(8) Remeto a VossaMerce 17: 790 reis para VossaMerce mefazer amerce mandar 440 quatro Pesas deamericano Estreito (PB 1ª XIX) (9) omesmo dezejo a Senhora Dona PauLa e Senhora Dona Anna muito [ilegível] tudo que lhedis respeito (PB 2ª XVIII)

(10) Desejo aVossamerce perfeita saúde e despondo, (PB 1ª XIX) (11) Remeto essas fruta para Vossa Senhoria não re_pare ser coisa tão insignificante é somentes humsinal de gratidão. eu desejo saber odia da sua partida para a Corte para eu ther o gosto de appertar-lhe a mão. (PB 2ª XIX)

(iii) em verbos como mandar e escrever, no PE, os complementos verbais só serão introduzidos pela preposição [para] se contiverem os traços [-animado] ou [+genérico]. No PB, a preposição [para] é usada também em complementos verbais com traços [-animado] ou [+genérico] e em complementos verbais com traço [+animado];

(12) Porisso não lhe tenho mandado mais breve eu mando para vossamerce ou eu mesmo (PB 2ª XIX)

(iv) em verbos como ir, vir, fazer e vender o complemento verbal sempre será introduzido pela preposição [a] em contextos em que o complemento verbal for [+animado]. No PB, nestes contextos, ocorre variação com [para];

(13) Emquanto eu estou com paciencia com elle avisto sahir demim vai para onde esta vossamerce (PB 1ª XIX)

(v) Com o verbo rogar o uso da preposição [a] é categórico, no PE e no PB.

(14) porém não tenho outro Remédio, senão Rogar avmce. / que astou como Dos. quer as Almas (PB 2ª XVIII)

No século XVIII, tivemos apenas três escreventes não identificados que somaram um total de 469 linhas. As ocorrências encontradas para esses três escreventes foram:

(15) e a todos me recomende vmce. (PB 2ª XVIII) (16) Desejo a vmce saúde. (PB 2ª XVIII)

(17) Vmce me faca mercê mandar dizer a Costa (...)(PB 2ª XVIII) (18) Deseijo a vmce saúde. (PB 2ª XVIII)

Os quatro dados encontrados nestas cartas configuram uso categórico da preposição [a] tanto para o PB, quanto para o PE. Nos exemplos (15), (16) e (18) temos a preposição [a] em contextos formulaicos dentro da estrutura da carta, abertura ou despedida de cartas. No exemplo (17) temos um uso possível nas duas variedades da língua portuguesa. A diferença é que, neste mesmo contexto, no PB também admitimos o uso do [para]. Sendo assim, essas ocorrências não significam problema para a análise proposta.

Ao considerarmos os dois escreventes do século XIX que não puderam ser identificados observamos que a única ocorrência foi com o verbo pedir. No corpus do PE temos uso categórico do verbo pedir com a preposição [a]. Já no PB, foram encontradas ocorrências com as duas preposições. Por essa razão, este único exemplo não oferece problema para a interpretação dos dados.

(19) que grande amor Lhe tinha mas porem pesso a Deos que mede Forças para soffrer as faltas que ella me faz (PB 2ª XIX)

No próximo tópico nos dedicaremos a confrontar os resultados apresentados acima com os encontrados nos textos jornalísticos para, então, completarmos a definição dos critérios de identificação do informante.