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Nesse ponto, podemos retomar a perspectiva geográfica de nossa narrativa acerca dos apóstolos irlandeses: encontramos Columbanus e a chegada dos missionários celtas ao continente. O que sabemos dele está diretamente associado à biografia escrita por um de seus seguidores, Jonas de Bobbio (JONAS DE BOBBIO, c.620). The Life of

St Columban nos conta que ele teria nascido em 543, na província do Leinster, filho de

uma influente família local e recebido boa educação mesmo antes de entrar para a vida religiosa, no monastério de Cluannis. Pouco tempo depois foi para o monastério de Bangor, um importante centro intelectual. De lá partiu em missão evangelizadora para o exílio, chegando à região da atual França em 583, depois de uma passagem pela Inglaterra.

É interessante notar que, assim como Columba, Columbanus também deixou a Irlanda acompanhado de 12 discípulos67. O motivo para isso, diz Cahill, era que “os irlandeses, que sempre tiveram fascínio pelos números e suas propriedades mágicas, achavam que doze, o número bíblico que significa completude, era o melhor número para uma comunidade religiosa, imitando, desta forma, o arranjo de Cristo e seus Doze Apóstolos” (CAHILL, 1995: 153. Tradução nossa)68.

Assim, com seus treze membros, foi fundada na Burgundia, a primeira abadia de Columbanus, nas ruínas da fortaleza romana de Annergray. Em pouco tempo, as premissas da vida monástica atraíram mais seguidores e suas fileiras incharam para além do que a pequena abadia podia acomodar. O rei Sigisberto, cujo apoio foi crucial para o sucesso dessa primeira missão de Columbanus, fez com que o monge recebesse o castelo galo romano de Luxeuil, onde surgiu uma nova abadia. Mais uma vez o lugar se

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Não há, aparentemente, registro do nome dos doze monges que acompanharam Columbanus. Sobre os acompanhantes de Columba, porém, Richard Sharpe nos fala de uma lista presente em um dos manuscritos de The Life of St Columba. “Esses são os nomes dos doze homens que velejaram com S. Columba quando ele primeiro veio para a Bretanha da Irlanda: dois filhos de Brendan, [1] Baithéne (também chamado Conin), que sucedeu S. Columba, e seu irmão [2] Cobthach; [3] Ernán, tio de S. Columba; [4] Diarmait, seu servente; [5] Rus e [6] Fiachnae, dois filhos de Ruadán; [7] Scandal mac Bresnail maic Énda maic Neill; [8] Lugaid moccu Temnae; [9] Eochaid; [10] Tochannu moccu Fir Chete; [11] Carnán mac Brandib maic Meilgi; [12] Grillán” (SHARPE, 1995: 354. Tradução nossa).

“These are the names of the twelve men who sailed with St Columba when he first came to Britain from Ireland: two sons of Brendan, [1] Baithéne (also called Conin), who succeeded St Columba, and his brother [2] Cobthach; [3] Ernán, uncle of St Columba; [4] Diarmait, his servant; [5] Rus e [6] Fiachnae, two sons of Ruadán; [7] Scandal mac Bresnail maic Énda maic Neill; [8] Lugaid moccu Temnae; [9] Eochaid; [10] Tochannu moccu Fir Chete; [11] Carnán mac Brandib maic Meilgi; [12] Grillán”.

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“The Irish, who had always been fascinated by numbers and their magical properties, thought twelve, the biblical number that signifies completeness, to be the right count for a religious community, so imitating the arrangement of Christ and his Twelve Apostles”.

mostrou insuficientemente grande para acomodar o número de pessoas que ali chegavam. Columbanus deixou o local em direção a Fontaine, onde mais tarde

foi sucedido enquanto abade por S. Eustace quem ele tinha colocado no comando das escolas de Luxeuil. Durante a liderança de S. Eustace e o de seu sucessor S. Waldebert, essas escolas ganharam enorme fama (...). Em 731 os Vândalos, em sua carreira de conquista destrutiva na Gália ocidental, se apoderaram de Luxeuil e massacraram a maior parte da comunidade. (BUTLER, 1910. Tradução nossa)69

MAPA 10: Os principais monastérios de Columbanus (IOL, 2008)

Assim como em Annergray e Luxeuil, também em Fontaines, seguiam-se as diretrizes de Columba. Uma das especificidades dessas regras era a forma como se encarava a figura do abade: para os irlandeses, ele não era apenas um conselheiro espiritual, uma vez que tinha também um papel social, agindo como bispo dentro de uma cultura rural (ver 1.3. Patricius e os primeiros monastérios). Como já acontecera na Inglaterra, na Gália também as posições irlandesas começaram a causar desconforto e irritabilidade entre os romanos. Entretanto, foi especificamente a importância da figura

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“…was succeeded as abbot by St Eustace whom he had placed over the schools of Luxeuil. During the abbacy of St Eustace and that of his successor St Waldebert, these schools grew to great fame. (…). In 731 the Vandals in their destructive career of conquest through western Gaul, took possession of Luxeuil and massacred most of the community”.

de Columbanus enquanto abade de Fontaines que desagradou aos bispos da Gália, que, segundo a tradição (e a amplamente aceita Regra de São Martinho da Gália70) deveriam ser os responsáveis (ainda que de forma indireta) por todas as formas de religiosidade da região. “Ainda empregando o antigo padrão romano episcopal de vida urbana nas cidades mais importantes e mantendo relacionamento próximo com aqueles que usavam coroas, os bispos cuidavam de seu rebanho local de oficiais letrados e semi-letrados, remanescentes fantasmagóricos de uma sociedade perdida” (CAHILL, 1995: 188. Tradução nossa)71.

Ainda que a narrativa de Cahill pareça bastante literária e permeada por juízos de valor, não há nada na documentação (sejam fontes primárias ou secundárias) que nos diga que essa não tenha sido a leitura feita por Columbanus e por outros monges que o seguiram. De qualquer forma, cabe ainda lembrar que a tensão entre o abade e os bispos locais atingiu seu pico quando o abade se recusou a comparecer ao Sínodo de Chalon- sur-Saône, ao qual fora convocado pelos bispos em 603 (CAHILL, 1995: 188). Mais ainda, para além da antipatia episcopal, Columbanus ganhou também a inimizade da casa real. Sigisberto72 morrera e deixara o trono para o irmão, Chilperico, que o legara ao filho Childeberto. Este o dividira entre seus filhos. A região da Burgundia coube a Teodorico II, profundamente influenciado por sua avó, a rainha Brunhilda, que nutria especial desafeto pelo monge. Wallace (2007) conta:

Agora Teodorico II estava no trono da Burgundia, e Columbanus o desagradou quando se recusou a abençoar os quatro filhos ilegítimos do rei e o pressionou a casar-se. A avó de Teodorico, a Rainha Brunhilda, temeu perder sua influência para uma nova rainha e se mostrou uma inimiga implacável. Em 610, Teodorico ordenou a expulsão de Columbanus e todos os outros monges irlandeses. Eles foram levados sob escolta armada para o porto de Nantes, cerca de 600 milhas dali, para serem colocados em um navio de volta para a Irlanda. No entanto, o navio imediatamente encalhou, coisa que o capitão tomou como um sinal de que os monges deveriam desembarcar. Depois de mais viagens, Columbanus chegou a Metz, onde o rei Teodeberto II lhe ofereceu proteção e encorajou o santo a trabalhar entre as tribos pagãs ao redor dos lagos suíços (WALLACE, 2007: 74. Tradução nossa)73.

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São Martinho (c. 316-97) foi fundador do primeiro monastério na região da atual França, próximo à Poitier. Mais tarde aceitou o bispado de Tours (c. 372), época em que estabeleceu suas regras (Cf LOYN, 1997: 253). Para a visita de Columbanus ao túmulo de S. Martinho, ver Anexo I.

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“Still employing the old Roman Episcopal pattern of living urbanely in capital cities and keeping close ties with those who wear crowns, the bishops tend their local flocks of literate and semiliterate officials, the ghostly remnants of the lost society”.

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Para a casa real francesa, adotamos nesse trabalho, a grafia dos nomes como aparecem nas obras em português.

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“By now Theuderich II was on the throne of Burgundy, and Columbanus incurred his displeasure by refusing to bless the king’s four illegitimate sons and pressing him to marry. Theuderich’s grandmother, Queen Brunhilde, feared losing her influence to a new queen and became an implacable foe. In 610

Lá, à beira do lago Constance, fundou nova abadia. Quando partiu, deixou um de seus discípulos, Gall, como chefe não só dos monges, mas também como responsável pelos leigos que se organizavam no entorno. Gall (550-645), porém, recusou o cargo e preferiu a vida de eremita, iniciada nas proximidades. Entretanto, cabe lembrar que, neste local,

um século após sua morte, era eregido o famoso mosteiro beneditino de Saint Gall (Sankt Gallen em alemão) (...). O scriptorium e a coleção de manuscritos desse mosteiro estiveram por muito tempo entre os mais célebres da Europa. Uma planta arquitetural do século IX de Saint Gall, um dos primeiros desenhos deste tipo da Idade Média, mostra o layout de um mosteiro beneditino ideal, com as edificações para a residência e trabalho agrupadas em torno da igreja (LOYN, 1997: 162).

FIGURA 08: A planta do Monastério de St Gall (LOYN, 1997: 163)

Quanto a Columbanus, sem efetivamente saber que suas ordens não seriam seguidas, continuou seu caminho. Depois de cruzar os Alpes, chegou à Itália, intencionando combater o arianismo: mesmo que representante de uma posição

Theuderich ordered the expulsion of Columbanus and all other Irish monks. They were taken under armed guard to the port of Nantes, some 600 miles away to be shipped back to Ireland. However, their ship immediately ran aground, and the captain took this as a sign that the monks should be disembarked. After further travels, Columbanus reached Metz, where King Theudebert II offered his protection and encouraged the saint to work among the pagan tribes around the Swiss lakes”.

destoante da do papado, julgava-se protetor da ortodoxia. E com esta crença, em 612 foi recebido em Milão, na corte do rei Agiluf e da rainha Teolinda. Sua estadia, entretanto, não foi longa.

Em 614, partiu para o interior, onde fundou sua mais importante abadia, Bobbio, onde sua visão de comportamento religioso se solidificou, implantando rigorosamente as regras que perfilou em sua Vida Monástica (COLUMBANUS, 1638). De forma geral, exigia “obediência ao abade e à vida de pobreza e mortificação através de constante jejum. Grande ênfase foi colocada na confissão dos pecados seguida por penitências, com desobediências à disciplina sendo punidas por surras com uma faixa de couro” (WALLACE, 2007: 73. Tradução nossa)74. Columbanus morreu em Bobbio, em 615.