Podemos dizer que o desenvolvimento sistemático de uma dramaturgia dotada de aspectos pós-modernos em Santa Catarina teve início a partir do funcionamento do Curso de Artes Cênicas da UDESC, em 1986. Antes disso os textos para teatro produzidos no estado estavam amplamente ligados a procedimentos mais convencionais, no variado arco compreendido entre o realismo e as vanguardas históricas. Notamos, contudo, que são ainda raros na dramaturgia os nomes que tiveram uma presença marcante no cenário teatral catarinense, sendo que a relevância dos mesmos está associada mais à experimentação de novas linguagens do que a uma produção constante.
Entretanto, há que se fazer a ressalva de que nem todos os dramaturgos em atividade são oriundos da universidade. A existência de diversos grupos e cursos de teatro amador espalhados pelo estado e de escritores que enveredam pela forma dramática é uma constante na história cultural de Santa Catarina. Isso não significa que existam dramaturgos em grande quantidade ou que, dos poucos atuantes, tenha nascido uma produção numericamente alta, acadêmica ou não. O que existe são autores extemporâneos que, vez por outra, escrevem peças de teatro.
Tal situação, ao que parece, sofreu uma pequena variação na última década. Existe hoje uma maior especialização dos dramaturgos no estado, e conseqüentemente, uma semi-profissionalização do ofício junto a determinados grupos30. Se antes existia o diretor que propunha um texto ao seu grupo, hoje é cada vez mais freqüente um grupo solicitar os serviços de um dramaturgo, ou ainda,
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Ressalte-se que tal profissionalização não está tão associada a relações trabalhistas quanto ao aprimoramento da qualidade dos textos produzidos.
encontrar um desses profissionais atuando conjuntamente com ele na construção de um espetáculo31.
Outra característica da cena catarinense, no que concerne a este período, diz respeito aos cursos, palestras e seminários de dramaturgia que vem ganhando espaço no estado. Pode-se citar, além das disciplinas ligadas à dramaturgia e teoria do teatro ministradas no curso de licenciatura em teatro da UDESC, as oficinas continuamente oferecidas pelo SESC (Serviço Social do Comércio) e nos diversos festivais de teatro que ocorrem no estado32. Há que se notar ainda que, com o implemento da comunicação eletrônica, a popularização da Internet e a gradual disponibilidade de materiais referentes à dramaturgia facilmente acessáveis, bem como o contato com profissionais capazes de auxiliar ou indicar caminhos viáveis para um aprimoramento técnico e teórico de novos dramaturgos, houve um aprimoramento que pode ser contabilizado como relevante para o atual vigor do movimento dramatúrgico no estado.
Em 2000, por exemplo, o dramaturgo radicado em Florianópolis Carlos Eduardo Silva venceu, com o texto A Filha da..., o I Concurso Nacional de Textos Teatrais Inéditos, promovido pelo Ministério da Cultura do Brasil. No concurso subseqüente, André Silveira foi premiado com menção honrosa com É Isso que me Preocupa. Em 2003, foi selecionado entre dramaturgos de todo país para integrar um workshop de dramaturgia promovido em São Paulo pelo Royal Court Theatre33, tendo uma obra publicada por esta entidade. Júlio Zanotta Vieira, diretor e dramaturgo gaúcho também radicado em Florianópolis na época, venceu com o texto A lenda negra de Saxom
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Os dramaturgos André Silveira e Rogério Christofoletti podem ser citados como exemplos desta atual situação. O primeiro, formado em artes cênicas pela UDESC em 2004, tem trabalhado em parceria com diversos grupos, ora em processo colaborativo, ora com textos prontos. Rogério Christofoletti, por sua vez, jornalista de profissão, trabalha com a Cia. Persona de Teatro, tendo escrito duas peças para o grupo, sendo uma em processo colaborativo.
32 Um caso exemplar é o do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, que desde a edição de 2002 mantém uma iniciativa chamada “Projeto Dramaturgia”, onde através do assessoramento de um dramaturgo profissional, jovens autores escrevem um texto inicial a fim de o adaptarem conjuntamente com um diretor e um grupo de atores, que encenarão a peça no festival do ano subseqüente, caracterizando desta forma, uma oficina de longa duração, um ano, propiciando ainda, debates e avaliações conjuntas do trabalho realizado, e a publicação do texto na revista do festival, “O Teatro Transcende”.
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Royal Court Theatre, companhia londrina de teatro que desde 1996 oferece, através de workshops de dramaturgia, intercâmbio com diversos países como intuito de fomentar a dramaturgia contemporânea.
Frobenius, o Concurso Nacional de Dramaturgia, Categoria Região Sul, promovido pela Funarte em 2004.
Há também encenações de textos de autores catarinenses com circulação nacional. Os espetáculos F, de Rogério Christofoletti e E.V.A, de Christiano Scheiner, ambos com direção de Jéferson Bittencourt, participaram de vários festivais nacionais de teatro, além de várias temporadas estaduais34. O texto Castelo de Cartas, de Rogério Christofoletti, também com direção de Bittencourt, além de vários festivais nacionais, participou de festival internacional teatro promovido pela UNESCO35. A filha da..., de Carlos Silva, teve encenação no Rio de Janeiro, protagonizada por Marília Pêra. Os Camaradas Médicos, do blumenauense Giba de Oliveira, adaptado pelo dramaturgo argentino Alfredo Megna e dirigido por Pépe Sedrez, depois de numerosas apresentações no estado e premiações em festivais, cumpriu uma temporada em São Paulo.
A partir destes dados, podemos observar que uma participação tão efetiva de dramaturgos catarinenses no cenário nacional, bem como um movimento dramatúrgico desta envergadura em Santa Catarina, só se compara ao movimento teatral ocorrido no final do século XIX, encabeçado por Horácio Nunes Pires36.
Observamos também, sobretudo, que este é um movimento em efervescência. Nos últimos cinco anos pode–se contabilizar a estréia de pelo menos vinte e cinco peças originais no Estado37 e, apenas na última década, de 1995 em diante, publicou-
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A encenação de “F” dirigida por Jeferson Bittencourt participou de seis festivais nacionais de teatro, recebendo dois prêmios por direção e o prêmio Destaque da Folha de São Paulo como o 5º melhor espetáculo da Mostra Fringe, no Festival de Internacional de Teatro de Curitiba, além de duas temporadas com circulação estadual e uma curta temporada em São Paulo. O espetáculo E.V.A, por sua vez, cuja estréia se deu em maio de 2002, é uma montagem bastante longeva para os padrões de Santa Catarina, permanecendo, ainda que esporadicamente, ainda em cartaz no Estado.
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XV Festicaribe – Festival Internacional de Teatro Del Caribe – ITI – UNESCO, Santa Marta, Colômbia, setembro de 2004.
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Horácio Nunes Pires (1855 – 1919), “o mais completo homem de teatro que encontramos em Santa Catarina no século XIX”, segundo Vera Collaço (1984:365). Autor de quarenta e três peças de teatro, tendo vários textos encenados no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, sua cidade natal.
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Toda Vontade Mora no Útero (2000), F. (2001), Chata, fria e sem recheio (2002), Urano quer mudar (2003), e Castelo de Cartas (2004), de Rogério Christofolleti; O compassado ir e vir de corpos a pulsar (2002), E fosse minha carne (2003), A senhora que era pra ser e homem que queria mas não foi (2004) e Inquietude (2004) de André Silveira; E.V.A. (2002) de Cristiano Scheiner; Contestado – a Guerra do Dragão de Fogo Contra o Exército Encantado (2003), de Antônio Cunha; Às Avessas (2003), de Carlos Henrique Schroeder; A lenda negra de Saxon Frobenius (2004), de Júlio Zanota Vieira; Meditação de Thais (2002), Legítima Defesa (2005), de Afonso Nilson Barbosa; Papai matou mamãe, de Luiza Lorenz (2004); Dois Frênicos Seres (2004) e Inóspito (2005), de Cristiane
se não menos do que dez livros contendo peças de teatro38. Uma média considerável, tendo em vista o limitado mercado editorial e o restrito público para este gênero de publicação. Isso sem contar os movimentos ocorridos em outras cidades que não a capital39, e as peças publicadas em periódicos como na já citada revista do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, O teatro transcende, que vem disponibilizando pelo menos duas peças curtas por edição anual.
É claro que há que se selecionar dessa produção aquilo que efetivamente propõe uma linguagem mais sintonizada com procedimentos contemporâneos de dramaturgia, escopo deste trabalho, dos textos que efetivamente tendem a repetir procedimentos mais ligadas ao realismo do século XIX, algumas tentativas um tanto quanto ingênuas de transposição de fatos ou personagens históricos para a cena e a produtos que simplesmente não apresentam uma elaboração mais consistente quanto à arquitetura dramática. Constatamos, portanto, que, ao lado das inovações, onde podemos identificar vieses estéticos tipicamente pós-modernos, como as hibridizações, a ausência de lugares determinados, as rupturas quanto à cronologia, o encavalamento de motivos e ritmos, a metalinguagem, a desdramatização, etc, podemos encontrar, em paralelo, as características descritas por Ryngaert quanto ao diálogo clássico: “uma série de monólogos emendados pelas pontas” (1998:102), ou características correlacionadas às correntes literárias do século XIX, como traços naturalistas na caracterização das personagens e situações, linearidade na exposição, sentidos fechados, personagens planas, etc.
Martins; A dama das margaridas (2004), de Melize Zanoni; O fantástico ladrão de calcinhas (2005), de William Sievert, entre outros.
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Pode-se citar como exemplo os livros: Vozes veladas, de Eglê Malheiros (1995); Trilogia da Angústia, de Fábio Brüggemann (1999); Uma teoria do Paradoxo, de Marcelo Ricardo de Almeida (1999); Textos para Teatro, de Néri de Paula (1999); Jogos de Teatro, coletânea com vários autores (2000); A filha da..., de Carlos Eduardo Silva (2001); Vitor Meireles, de Osmar Pisani (2003); O olho da cor – uma peça em três atos, de José Endoença Martins (2003); Três Dramas Possíveis, de Antônio Cunha (2004); O tempo de Eduardo Dias - tragédia em 4 atos, de Francisco José Pereira e Amílcar Neves (2005).
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No que diz respeito a produção dramatúrgica no interior, apesar de alguma divulgação alcançada em jornais de circulação estadual, há uma dificuldade razoável com relação a encenação profissional dos textos. Dramaturgos como Carlos Henrique Schroeder, de Jaraguá do Sul, mesmo com textos publicados em sites de teatro internacionais, teve apenas montagens amadoras de seus textos, limitando-se apresentações esparsas e pouco numerosas, excursionando por algumas cidades vizinhas, mas sem repercussão e notoriedade. Outro exemplo é Néri de Paula, dramaturgo radicado em Joaçaba, mesmo com livro de peças publicado e distribuído por bibliotecas do estado, a circulação de suas peças se limita a região oeste de Santa Catarina, onde reside.
Essa pluralidade demonstra não apenas vigor no desenrolar deste movimento, mas diferenças marcantes quanto à formação dos dramaturgos. Notamos duas vertentes mais fortes: profissionais de teatro, com formação e trabalho contínuo em artes cênicas, e escritores, com conhecimento e trabalho contínuo em literatura. Enquanto os primeiros tendem ao experimentalismo e a criarem em sintonia com a sensibilidade contemporânea, os escritores, por sua vez, dividem-se em dramaturgias realistas (principalmente ao tratarem fatos e personagens históricos)40 e, dramaturgias ligadas às vanguardas literárias, com textos repletos de citações e alusões a teóricos e escritores de renome no século XX, como Kafka, Beckett e Barthes, entre outros41.
Outras diferenças podem ser verificadas também na quantidade de peças dos diferentes autores. O dramaturgo André Silveira, por exemplo, tem mantido desde 2001, uma média de dois textos por ano, entre adaptações e textos originais. Outro caso é Rogério Christofolletti, jornalista por formação, também um dos dramaturgos mais atuantes do Estado, tendo encenado pelo menos um texto inédito por ano desde 2001. Por outro lado, romancistas e poetas com vários livros publicados como José Endoença Martins, Osmar Pisani e Eglê Malheiros publicaram uma única obra de teatro em toda carreira e, não raro, jamais encenadas.
Verifica-se aí outra disparidade entre os dramaturgos oriundos do teatro e os das academias literárias: a publicação em livro. Enquanto os primeiros, geralmente com mais de cinco textos encenados, publicam apenas esporadicamente em periódicos, os escritores, apesar de muitas vezes nunca encenados, geralmente tem suas peças publicadas em livro42. Evidentemente, alguns dramaturgos mais ligados ao teatro que à literatura, também publicam suas peças em livro, embora com a ressalva de que geralmente reunem a produção de décadas, apresentando-se como coletâneas, como por exemplo Três Dramas Possíveis, de Antônio Cunha, que
40 Por exemplo, os textos Vitor Meireles, de Osmar Pisani (2003) e O tempo de Eduardo Dias - tragédia em 4 atos, de Francisco José Pereira e Amílcar Neves (2005).
41 Por exemplo, Sim eu sei, Prenome: Fausto e Blues e Sousa, peças contidas no volume Trilogia da Angùstia, de Fábio Brüggemann; O olho da cor, de José Endoença Martins e F, de Rogério Christofolleti.
42 Uma exceção é Fábio Brüggeman, cujas três peças publicadas no volume Trilogia da angústia foram encenadas: Sim, eu sei e Prenome: Fausto, com direção de Nando Moraes, em Florianópolis respectivamente em 1992 e 1993. Blues e Souza foi montada pelo diretor Lau Santos em 1996. Cabe lembrar que as peças foram encomendadas ao autor pelos respectivos diretores, tendo este trabalhado em processo colaborativo com os mesmos, embora na versão publicada dos textos tenham prevalecido os textos sem as alterações propostas pelas montagens.
abrange vinte anos de produção do autor, e Teatro Lixo, de Júlio Zanotta Vieira, com cinco peças dos anos 70 e 80.
Esta breve panorâmica da dramaturgia catarinense, apesar de fornecer um retrato impreciso de seu movimento dramatúrgico, pode ser bastante pertinente quando se trata de traçar alguns paralelos com movimentos ligados a produção contemporânea de textos teatrais em outros estados e países. Semelhantemente ao movimento de reaquecimento da dramaturgia nacional ocorrido na década de 90, a dramaturgia em Santa Catarina (dadas as devidas proporções) apresenta algumas características análogas às observadas em São Paulo pela professora Silvana Garcia:
“Assistimos na contemporaneidade a uma desdramatização do texto teatral e a compreensão de que a dramaturgia superou o cânone dramático, produzindo peças sem grandes temas, abordando situações cotidianas ordinárias e podendo namorar a literatura, a narrativa cinematográfica e entregando-se a outras formas de combinação textual”. (GARCIA, 2004:31)
Obviamente, nem todos os autores apresentam tais características, e mesmo os que as apresentam, não o fazem em toda sua produção. Mas o que se percebe é que há um aumento gradual na utilização de procedimentos ligados ao pós- modernismo e às estéticas contemporâneas. Utilização de elementos midiáticos, polissemias e polifonias, colagem de cenas e textos, ambivalência de tempos, indefinição do espaço, hibridismo com outras expressões artísticas, fragmentação, a composição da obra através de processo colaborativo, por exemplo, são técnicas facilmente encontráveis nesta produção a partir dos anos 90.
Algumas dessas técnicas e correlações serão estudas mais demoradamente a seguir, a partir do estudo da obra dos dramaturgos selecionados.