3. GEOLOGY OF THE STUDY AREA
3.1 I NTRODUCTION
DISCUSSÃO
A partir da análise dos resultados aqui apresentados, tendo como prerrogativa a Investigação da expressão da identidade social de jovens da periferia de Brasília através do Rap, surgem importantes reflexões que merecem algumas considerações.
Inicialmente, a pesquisa mostrou que identidade social e música são conceitos que se inter-relacionam quando o foco se concentra num estudo da juventude de periferia. O Rap, nessa perspectiva, representa um veículo de enfrentamento, de revolta, de denúncia da realidade que, pode resgatar a auto- estima de jovens pobres atravessada pela estigmatização de seus valores, bem como, alertá-los quanto às possíveis situações de ameaça à sua integridade e de seus pares e criar uma identidade comum de proteção entre eles. Para Abramovay (2004), o Rap é o anúncio de uma geração sem voz, da periferia, que sofre estigma, que denuncia a sua realidade, seus problemas locais e expressa a sua revolta contra a ordem estabelecida que impõe um destino de exclusão contínua a população jovem de periferia.
A linguagem Rapper exprime a identidade jovem da periferia que anuncia os problemas, principalmente a exclusão e a violência e cria informações desvinculadas da mídia, da ideologia dominante, no sentido de que os jovens construam mecanismos de enfrentamento das adversidades. Grandesso (2000), afirma que nós, seres humanos, estamos sempre envolvidos em gerar um sentido para as nossas vidas, e a linguagem, nesse contexto, é fator responsável pela
criação de nossas próprias narrativas, que por sua vez darão sentido à existência. Sendo assim, entende-se que a linguagem do Rap estrutura-se numa narrativa que se constitui da identidade social desse jovem, explicitando a sua própria existência no universo marginalizado.
A exemplo das considerações de Guasco (2001) & Rose (1994), o jovem rapper, objeto desse estudo, anuncia em sua música as preocupações com as tensões do dia-a-dia e é assim que adquire a força e atribui visibilidade ao Rap que compõe. Ao denunciar suas dificuldades, remete-se diretamente ao espaço ocupado por ele, o qual não pode ser compreendido como local geográfico apenas, mas que deve ser entendido no seio da contradição inclusão e cidadania (bairros ricos) versus exclusão ou impossibilidade de acessar os bens que são socialmente produzidos (bairros pobres). Desta forma, cria-se uma identidade que está intimamente vinculada à experiência local.
Os significados atribuídos ao Rap, nesta perspectiva, compreendem-se num conjunto de símbolos que demonstram um sentido de pertencer e fazem parte da visão social de mundo que engendra dimensões inovadoras e subjetivas da condição humana, da aspiração que os homens têm de se completarem e de exercerem sua criatividade. Nesse sentido, Coutinho (2000), afirma que o Rap pode contribuir para o processo de emancipação humana, sob ótica marxista, quando se confirma com a capacidade de adquirir cidadania plena, ou seja, participar socialmente, desenvolvendo as potencialidades de realização humanas abertas por essa forma de expressão e apropriando-se dos bens materiais e culturais construídos socialmente pelos homens.
Tais significados, segundo o Rapper participante, refletem ainda aspectos individuais da sua subjetividade. Porém, o significado mais constante e aparente é o
significado do Rap como fator de inclusão e meio de ascensão social. Abramo (1994), discorre sobre o sentimento de estigmatização e desprezo que os jovens da periferia de Brasília sentem em relação aos jovens do Plano Piloto, afirmando que suas manifestações resultam da percepção de diferença das suas condições de vida em relação às deles, sendo os últimos percebidos não só como diferentes, mas como desiguais, em situação de vantagem, e por isso até mesmo como inimigos.
De igual modo, observou-se à forma surpreendente como o Rapper dedica tempo fazendo, ouvindo e analisando outras músicas para compor o seu Rap. É como se essa atividade desse significado à própria existência, como se ela fosse o resguardo das ameaças de um mundo hostil e ameaçador. Ficou claro que é dessa construção que esse jovem obtém a fonte de equilíbrio, de desenvolvimento de habilidades e que estabelece elo com o mundo externo. É na intimidade, no cotidiano doméstico e local, nos encontros com os amigos, que o Rap entra como elemento de coesão afetiva e ética. Abramovay (2004) aponta para a constatação de que os grupos de Rap se apresentam como um contraponto às gangues, uma vez que evoluem no sentido da construção de uma identidade social bastante definida, oferecendo um canal de expressão que anda na contramão da violência e da criminalidade.
“A sua música, o Rap, é o som da juventude da periferia, um estilo dotado de ritmo próprio, cantado por meio de palavras no terreno musical. Os rappers assumem a denúncia social como seu principal papel, por intermédio de uma música capaz de retratar o mundo real, com um discurso agressivo. Porém os jovens não consideram as suas letras uma apologia à violência, mas, sim o fruto de uma realidade relatada por aqueles que são suas testemunhas oculares”.(Abramovay, 2004, p. 182).
Numa ótica de socialização dos jovens, os dados desta pesquisa mostram que a família constitui-se numa referência formativa, ainda que frágil. É por meio dos ensinamentos em família que os valores e as normas são estruturados. Entretanto, a disposição individual é fator preponderante na escolha de sua vida. O estudo é considerado um elemento que promove a superação dos problemas da periferia. Há um ‘culto’ ao ensino escolar como um importante valor e uma alternativa para a transformação social. A escola caracteriza-se como um espaço de mediação entre o jovem e o social. Ao mesmo tempo, o discurso do participante sugere que a maioria dos jovens da periferia tem seus estudos interrompidos por motivos econômicos. Em tese, ocorre que na periferia, as crianças acabam por evadir-se da escola em busca de trabalho, para poderem contribuir com a renda familiar, ou prover seus novos agrupamentos familiares. Além da função formadora, a escola também é tida como um lugar de debate e divulgação dialética de sua mensagem.
“Os jovens são procedentes, majoritariamente, de famílias nucleares completas. Todavia, existe um número significativo deles que vive somente com o pai ou a mãe. Todos eles atribuem à família um peso fundamental e, numa lista de importância, esta aparece como o aspecto mais relevante de suas vidas. Entretanto, a própria família é severamente criticada pelos jovens, que parecem buscar para ela modelos mais tradicionais, já que vem perdendo sua função socializadora”. (Abramovay, 2004, p. 175).
Em relação às questões de identificação do jovem Rapper, no contexto da periferia de Brasília, notou-se que este, antes de ter um nome próprio, tem um apelido, composto de adjetivo que se associa a ele para que seja reconhecido, o qual lhe oferece uma identidade social. Este apelido, antes de tudo, atribui-lhe a
identidade do grupo ao qual pertence. No caso do universo Hip-Hopper, ser MC significa um status de formador de opinião no movimento, e o apelido em si, é o instrumento através do qual o indivíduo será identificado na comunidade. Tal identificação ocorre a partir de associações e representações da singularidade e de atributos internos desse indivíduo, aliadas a características do Rap e do Hip-Hop como um todo. Assim, o seu nome passa a ser o nome que lhe é dado pelo grupo.
No caso da pesquisa, o Rapper MC M é conhecido por toda a sua comunidade, pelo seu grupo de Rap e por todos quantos já ouviram falar de sua música, pelo seu apelido. O seu nome de batismo sequer é citado e, segundo ele, só é ouvido quando está reunido em família. Para o entrevistado, ter um “novo” nome é motivo de orgulho e representa uma marca de sua identidade social aonde quer que vá. Tajfel (1982), defende a idéia de que o indivíduo quer ter uma identidade mais positiva, e que em função dessa aspiração social, é que ele se move em direção a um grupo, ou contra outro. Esta “positividade”, identificada pelo autor, deve ser entendida como correspondente a um aumento do valor do grupo, ou ainda, do valor de seu imaginário, em relação ao de outros grupos, e vai se estendendo em direção a um ideal de pura positividade, isto é, em direção à instituição, no limite, de um lugar privilegiado e único em relação a outros lugares ocupados por grupos. Tajfel (1982) acredita que no processo de formação de identidade social, o indivíduo utiliza valores que já possui, em comparação com os valores que identifica durante o processo de socialização que ocorre na comunidade em que se insere.
Minayo (1999), afirma que o grupo é o lugar privilegiado de construção de identidade para jovens. Segundo ela, o conceito de identidade diz respeito ao pertencimento social, cultural, étnico e de gênero, pertencimento esse que se
constrói na família, nos ambientes sociais e institucionais, por meio de comparações e contrastes nas inter-relações socioculturais.
Numa perspectiva de integração social, Costa (1989) argumenta que a música auxilia em vários aspectos da formação do ser humano, tais como: atenção, concentração, organização por meio do trabalho rítmico, percepção interior e exterior, desenvolvimento da criatividade e sensibilidade, expressão, sociabilidade, comunicação (de si com o mundo e vice-versa), aprendizado de uma linguagem universal, desenvolvimento físico-motor, do raciocínio lógico e amplitude cultural.
Desta forma, acredita-se que por meio dessa manifestação da produção artística, a sociedade receba ganhos sociais incomensuráveis. Em relação a este estudo, os dados mostram que a inclusão social de jovens pode se dá através do Rap, e este é capaz de promover o empoderamento do jovem da periferia, dado o caráter de apropriação da música e do canto que o ritmo oferece. O jovem que investe no Rap, na periferia de Brasília, passa a ser respeitado por outros jovens e pela comunidade em que vive. Nota-se também o registro de que a partir dessa prática, eles passam a ter o seu potencial reconhecido. Sendo assim, confirma-se que o Rap atua como um fator de integração e proteção social, tendo em vista a redução da convivência desse jovem com fatores de risco para sua formação.
Além disso, o Rap configura-se também numa opção profissional e de sobrevivência. Contribui para o amadurecimento de uma visão crítica sobre o mundo e os valores socioeconômicos, propiciando ao jovem de baixa renda o retorno às políticas públicas, a exemplo do retorno à educação, e ao exercício de sua cidadania.
A cidadania pressupõe universalização de direitos, como bem observa Da Matta (1997), afirmando que a idéia de cidadania na periferia, constitui-se num instrumento poderoso para estabelecer o universal, buscando um modo de contrabalançar e minimizar a teia de privilégios que se cristalizavam em diferenciações e hierarquizações.
Minayo (1999), considera que o país possui uma das piores distribuições de renda do mundo, e que as maiores conseqüências dessas desigualdades socioeconômicas, recaem sobre as crianças, os adolescentes e os jovens. Tais conseqüências, segundo a autora, são apontados como fatores que originam graves problemas educacionais, grandes desigualdades nas formas de adoecimento e morte, além de sérios entraves nas questões de moradia, oportunidades de trabalho e de lazer. Com isso, os jovens vivenciam e representam o ser jovem de formas marcadamente distintas, influenciados por diferentes inserções sociais que conduzem a oportunidades diferenciadas e seletivas de acesso a bens materiais e culturais.
Assim, descobrir formas de participação cidadã, através do discurso do Rap, também parece caracterizar uma função social. Estimular o protagonismo juvenil, ajudando os adolescentes e jovens a construírem sua autonomia pela participação criativa, construtiva e solidária, através da música, também foi uma constatação dessa pesquisa.
Por compreender a inclusão social como sinônimo de pertencimento, isto é, entendendo que pertencer significa satisfação socioeconômica (emprego e renda, moradia, saúde, educação) e inserção cultural e política, é que se pode considerar o Rap como mais uma alternativa criativa para o enfrentamento das desigualdades ou, por assim dizer, “o Rap é uma manifestação cultural que poderia ser um dos
elementos para a construção da cidadania, inclusive para responder à pobreza e às várias formas de exclusão sofridas pela população da periferia”.(Abramovay, 2004, p. 140).
A análise da letra do Rap mostrou o reflexo de uma juventude que se pretende conscientizadora e que reclama seus direitos. Sua função principal está na veiculação da verdade e na multiplicação de opiniões formativas e informativas, sobre as condições, muitas vezes insalubres, em que a população da periferia de Brasília vive. A letra evoca um sentido de vida melhor, tentando mostrar que há esperança na periferia, ainda que seja difícil e injusta. Trata-se de uma advertência ao abandono, ao desnível, à discriminação social e racial, à pobreza e à violência, e uma forma de enaltecer os aspectos positivos e as dimensões de prazer, presentes em seu universo sócio-cultural.
Em contrapartida, Abramo (1994) argumenta em seu trabalho como as composições em Rap têm uma descrição distópica (contrário ao utópico), com imagens apocalípticas que são ampliadas para chamar a atenção dos traços negativos da sociedade. O sofrimento, a agonia, a realidade, a miséria, os problemas familiares sofridos pelas crianças e adolescentes, a desconfiança, a distopia, Isto é, não utopia de que pode existir um mundo melhor, aparecem nas letras, sugerindo que não há saída e opção. A vida na periferia, as revoltas, os perigos, os sonhos são descritos de forma crítica, parecendo que vivem numa espécie de inferno, cujo futuro é a morte ou a cadeia, sem felicidade e sem saída, no qual impera a violência.
Já Abramovay (2004) afirma que o exame dos dados qualitativos de sua pesquisa mostra que no ambiente de generalizada exclusão social que demarca a periferia do Distrito Federal, a violência, a transgressão e a criminalidade não são o
caminho comum de todos os jovens. Segundo a autora alguns grupos se preocupam em fazer Rap tentando mostrar que há outros caminhos. Eles dizem que suas letras são para que os jovens pensem em suas vidas, de uma forma que entre em suas cabeças e que seja motivo de reflexão.
No tocante ao contexto da periferia e o “incentivo” à criminalidade, os dados mostram que o jovem é constantemente atraído e seduzido pela facilidade de aquisição de bens materiais e de consumo por meio da ilegalidade (criminalidade, violência e uso de drogas). Essa realidade se confirma nas considerações de Tomasello & Pereira (2003), quando afirmam que o contexto social no qual o jovem está inserido constitui-se num fator determinante a tais manifestações, contando também com a influência do grupo de pares.
A polícia acaba por ter um papel discriminatório com uma atuação confusa que é percebida e denunciada pelo Rap. Zaluar (1996) lembra ainda que muitas vezes o efeito esperado da atuação policial torna-se oposto, terminando freqüentemente na antipedagogia da corrupção e da violência arbitrária. Assim como os Rappers, a autora entende que a presença do Estado através da política de educação, de um projeto pedagógico que valorize o diálogo, os meios verbais de negociação do conflito, em detrimento da força bruta, caracteriza-se em importantes atributos para a melhoria da criminalidade e das condições de vida na periferia.
Sendo assim, este estudo reconhece a importância do Rap enquanto um elemento de fortalecimento da cidadania de jovens de periferia. Em termos de políticas públicas, aponta-se também para a conscientização da sociedade em relação à desigualdade social e a elevação dos níveis de pobreza desse país, tendo em vista às representações sociais impregnadas no discurso hegemônico, demonstradas no cotidiano, através do estigma e do preconceito. O Rap, nesta
conjuntura, apresenta-se como uma alternativa saudável para os jovens da periferia, que legitima a sua condição sócio-cultural e reafirma-lhe a dignidade. É através das expressões contidas na música Rap e no discurso do entrevistado, que se percebe o empoderamento que advém das experiências do vivido “na pele” e do aprendizado da periferia.
O fator que parece fazer com que as características desta música sejam fortes e envolventes encontra-se na sua compreensão enquanto discurso mais acessível para construir uma identidade social, expressar e interpretar experiências sociais. A capacidade agregadora desta atividade constitui-se em ingrediente central na reedição do que Maffesoli (1995) chama de “revitalização do comunitarismo”. O viver em “bandos”, com a turma do bairro ou da rua manifesta-se na evidente valorização de um vínculo tribal. Os encontros são verdadeiros ritos de confraternização e se dão quase que diariamente. A exemplo do que se observou na presente pesquisa quando o entrevistado faz referência a continuar a ser o que é, e fazer o que costuma fazer: “almoçar na feira da Ceilândia, no bar da Dona Raimunda”. Nota-se que é ali que se dramatiza a totalidade invertendo-se a situação marginal e de opressão em que vive, para uma visão alternativa e positiva do mundo (Amorim, 1997).
Assim, evidencia-se que as vinculações no universo Rapper surgem a partir de um discurso político e ideológico de despertar da consciência e de reformulação de identidade social do segmento jovem de periferia. Observa-se também a potencialidade criativa dos jovens em buscar caminhos e perspectivas, nem sempre conseguindo romper o ciclo de conflito e violência, mas insistindo em um modelo próprio de vida.
CONCLUSÕES
A partir desta investigação, entende-se que o caminho eleito pelos Rappers da periferia de Brasília parece ser capaz de inovar as relações culturais e sociais no tocante a populações jovens.
Constatou-se, nesta pesquisa, que o Rap, assim como a arte de periferia como um todo, por ser uma expressão de uma cultura local é capaz de agregar pessoas. Sendo assim, manifestações artísticas desse tipo podem se constituir um importante instrumento não somente para o desenvolvimento de políticas sociais alternativas, como também para fundamentar políticas educacionais. Em outras palavras, sugere-se que escolas fiquem de portas abertas e dêem boas vindas ao Rap. Ocorrências desse tipo podem ser muito transformadoras, haja vista, o exemplo de projetos como o “Picasso não pichava”, em Brasília. Os pichadores representam uma atitude vândala, o que é diferente da atitude Rap e do movimento Hip-Hop que são essencialmente artísticos, neste sentido torna-se fundamental dirigir o olhar a essa forma de expressão investigadora de reflexão sobre conceitos, ideologias, estigmas e desigualdades. Outro aspecto diz respeito ao valor mobilizador do Rap em relação à juventude em geral, que encontra neste movimento um canal de relacionamento no cenário social.
Desta forma, caracteriza-se fonte significativa de novas descobertas, podendo contribuir para a realização de futuras pesquisas, as quais abordem outros pontos de vista que não foram discutidos no presente estudo, dada a sua abrangência e o método utilizado. Aspectos como: O uso do Rap pela mídia; a relação do Rap e o universo feminino; o uso do Rap na pesquisa-ação e na pesquisa etnográfica e uma
possível ampliação do tema utilizando grupos maiores e participantes que residam em outras cidades do entorno de Brasília onde o Rap tem maior repercussão, poderão compor preciosos objetos de estudo que hão de acrescentar ao contínuo aprimoramento das ciências sociais, em especial da psicologia social e psicologia social da música.
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