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I NTERPRETIVE FLEXIBILITY

Murilo chegou ao psicólogo após haver se engajado em um comportamento de risco cada vez mais comum aos indivíduos de sua idade: o consumo excessivo e descontrolado de bebidas alcoólicas. Essa foi a principal queixa trazida por sua mãe ao encontrar um especialista que tratasse, e se possível resolvesse, os preocupantes e “novos comportamentos” do filho. Logo ao início das primeiras sessões, ao levantar o conhecimento que Murilo tinha de uma série de comportamentos que dizem respeito ao desenvolvimento de estratégias para evitar chegar ao ponto em que a quantidade de álcool ingerida implicava em um grave risco a sua saúde, constatou-se que uma boa parte do conhecimento e da história de aprendizagem de Murilo, relacionadas às contingências de risco as quais se expunha, advinha de um limitado repertório de imitação de comportamentos de uma grande parte de seus pares de igual idade.

Embora filho de pessoas cultas, havendo crescido em um ambiente que lhe disponibilizou diversos “reforçadores” e “ambientes” típicos de uma família de classe média- alta, Murilo não revelava um repertório de aprendizagem e uma variabilidade comportamental condizentes sobre o como se comportar “adequadamente” ante as contingências que envolviam o consumo de bebidas alcoólicas e em situações concomitantes que se apresentavam como oportunidade de cortejo e investida nas jovens por quem se sentia atraído. Por “adequadamente” refiro-me a: 1) para o caso do consumo de bebidas alcoólicas, o evitar padecer de estados de embriaguez crônica com perigosos prejuízos à saúde pela falta de assertividade em dizer não aos amigos e a si mesmo de modo a não prosseguir ou sequer iniciar a ingestão de bebidas alcoólicas; e, 2) quanto à questão do cortejo e investida nas jovens de seu interesse, refiro-me ao desenvolvimento de estratégias de aproximação e investida, em estados não-alterados de consciência, pois Murilo vinha se acostumando a

recorrer ao álcool para se sentir mais auto-confiante e desinibido, de modo a vencer sua “timidez” e o “medo do desconhecido”, conforme relatado por ele mesmo. Nem os pais de Murilo e nem o meio social no qual se relacionava lhe favoreceram tal aprendizado, restando- lhe os modelos oferecidos pela cultura moderna e, principalmente, pelo seu grupo de pares.

As explicações que a mãe de Murilo fornece sobre uma atribuída rejeição que passou a sentir pelo filho após uma longa depressão pós-parto, bem como a maneira como vinha se relacionando com o filho, desde então, em nada facilitam o desenvolvimento de repertórios de aproximação e expressão dos sentimentos e angústias de Murilo para com a sua mãe, assim como, por hipótese plausível, com outras mulheres.

A ausência de certos comportamentos assertivos em determinados contextos sociais favorece a que Murilo seja influenciado pelos amigos, havendo muito pouca auto-observação, auto-conhecimento e auto-controle de sua parte no que se refere ao consumo de bebidas alcoólicas, à expressão de sentimentos e ao desenvolvimento de estratégias de enfrentamentos ante situações desconhecidas. Murilo queria mudar, mas não sabia como.

Murilo muito poderia se beneficiar ao aprender e exercitar uma série de comportamentos adequados a um indivíduo que escolha se expor a situações sociais que envolvem grande consumo de álcool, como por exemplo: (a) não beber de barriga vazia; (b) hidratar-se adequadamente entre os “drinks”; (c) evitar beber em um curto intervalo de tempo; (d) aprender a desfrutar de um estado de torpor sem precisar chegar ao estado de embriaguez; (e) dar preferência a um único tipo de bebida para uma mesma ocasião de consumo e, sempre que possível, optar por bebidas de melhor qualidade, mesmo que isso implique num maior gasto de recursos financeiros (o que no caso de Murilo não seria um empecilho incontornável); (f) observar os efeitos que o álcool provoca no corpo através do desenvolvimento das capacidades de auto-observação e auto-conhecimento; (g) aprender a dizer “não, obrigado,

não vou mais beber hoje”, sem que isso represente um sinal de fraqueza e se transforme na

auto-regra segundo a qual “homem que é homem agüenta e bebe o mesmo tanto, ou mais, do

que os outros”, ou “O que será que pensarão de mim se eu disser não!”; (h) não temer a

rejeição dos amigos ao optar por suspender ou sequer iniciar a ingestão de bebidas alcoólicas; (i) Não depender do álcool para se sentir desinibido e “chegar junto das meninas”; e uma série de outros comportamentos que auxiliam um indivíduo a aprender como beber socialmente sem chegar a perder o controle e se expor a riscos ameaçadores à saúde.

Skinner (1953/2000) mencionou como não é raro que um indivíduo venha a controlar parte de seu próprio comportamento em situações em que uma determinada resposta do organismo implica em conseqüências que provocam conflitos – quando, em outras palavras, leva tanto a reforço positivo quanto a negativo. Ao se referir ao consumo de álcool, Skinner (1953/2000), pondera que:

Ingerir beberagens alcoólicas, por exemplo, muitas vezes é seguido por uma condição de confiança inusitada, na qual se é mais bem-sucedido socialmente e pela qual se esquecem responsabilidades, ansiedades, e outros males. Como isso é positivamente reforçador, aumenta a probabilidade de que o beber aconteça em ocasiões futuras. Mas há outras conseqüências – a “ressaca” e os efeitos possivelmente desastrosos do comportamento excessivamente confiante ou irresponsáveis – que representam uma forma de punição (p. 251).

Uma das possíveis formas de auto-controle do comportamento de consumo de bebidas alcoólicas seria Murilo simplesmente retirar-se da situação em que o comportamento a ser controlado pudesse acontecer. Ocorre que, em assim procedendo, Murilo perderia o acesso a toda uma importante e estimulante gama de reforçadores advindos do relacionamento com o grupo social com o qual se relacionava, a exemplo de: assuntos que eram conversados e que

compartilhamento de experiências comuns à sua fase de desenvolvimento; o espaço no qual se sentia à vontade e disposto a desenvolver a auto-expressão (tanto de angústias e ansiedades, como de alegrias e descobertas); o desenvolvimento de importantes habilidades sociais e exposição a possíveis modelos inspiradores por parte de alguns membros do grupo; a presença no grupo de algumas meninas por quem se sentia atraído; a discussão de assuntos relacionados as iminentes decisões vocacionais e o futuro profissional, dada a proximidade do exame do vestibular; um ambiente inter-relacional no qual Murilo sentia maiores condições de exercício de sua autonomia e construção/revisão de sua auto-identidade; um espaço propício ao desenvolvimento de maturidade e realização pessoal, dentre tantos outros fatores reforçadores. Será que Murilo encontraria tudo isso no mero convívio com o sistema familiar ou escolar, nos

controlados e pouco estimulantes ambientes de residência e estudo?

Murilo decidiu e foi respaldado pelo psicólogo que o atendia a fazer e refletir sobre

suas escolhas, as quais envolviam continuar a se expor aos ambientes nos quais o consumo de

bebidas alcoólicas ocorria, embora de uma forma mais consciente e sob condições muito mais

autonômicas e reflexivas. Já em sua primeira sessão com o psicólogo, Murilo relatou sua

dificuldade de lidar com o desconhecido, com as mudanças e as incertezas de seu momento de vida, o que abriu a possibilidade de novas formas de enfoque ao porquê de Murilo beber até o ponto de perder o controle.

Ao decidir sobre uma determinada questão, o indivíduo pode manipular uma série de variáveis das quais o seu comportamento é função, mesmo quando as conseqüências não possam ser previamente especificadas. Sob muitos aspectos “tomar uma decisão” também se assemelha ao autocontrole, mesmo quando, assim como no caso desse, ao tomar uma decisão, freqüentemente as variáveis manipuladas sejam eventos privados dentro do organismo. Conforme demonstrado por Skinner em seu livro “Ciência e Comportamento Humano”

(1953/2000), no Capítulo XVI, intitulado O Comportamento de decidir, “Decidir, como o termo será usado aqui, não é a execução do ato decidido, mas o comportamento responsável por ele” (p. 266). Ao escrever sobre a origem e manutenção desse comportamento, Skinner menciona que “o indivíduo manipula variáveis relevantes ao tomar uma decisão, porque se assim o fizer tem certas conseqüências reforçadoras. Uma dessas é simplesmente fugir da indecisão” (ibidem).

Neste ponto, algumas perguntas despontam – por entre a temática desta dissertação e para além de um unívoco viés especialista clínico habitual – ao suscitar questões, para as quais não existem respostas prontas ou objetivas, do tipo:

a) Mas, afinal, seria mesmo uma atribuição dos pais ensinarem os filhos a “beber” - mesmo porque, uma grande quantidade de pais simplesmente não bebe e outros bebem sem nem ao menos levar em conta o papel de modelos que têm para os filhos (que poderão passar a se comportarem por “aprendizagem vicária”), o que levanta questionamentos do tipo: como ensinar, portanto, aquilo que não se vivenciou e/ou sobre o qual não se tem consciência?

b) Na falta de modelos ou referenciais de adultos que estejam comprometidos com o reforçamento e favorecimento de condições apropriadas para o desenvolvimento de autonomia e maturidade juvenil, como aprenderão então os filhos a se exporem e atravessar, quando não a sobreviver a tais riscos se assim escolherem desenvolverem comportamentos e práticas de risco?

c) Será que esperar pelo refrão “Deixa que a vida ensina!”, ou “O tempo é o maior professor!”, é, afinal, a estratégia mais adequada? – haja vista a triste realidade do alto índice de óbitos por causas não-naturais na adolescência e juventude.

d) No caso de um jovem paciente que esteja passando por problemas relacionados ao consumo descontrolado de álcool, caberia a um eventual psicólogo clínico que o estivesse atendendo o papel de ensinar a tal paciente sobre como “beber”, mesmo quando isso contrarie a vontade e as diretrizes expressamente manifestadas pela família que o procurou e que a ele delegou um poder e responsabilidade de ajudá-la a enfrentar e atravessar as preocupações relacionadas ao filho? Como deve o psicólogo proceder ante a realidade constatada de deliberadas contingências de exposição vividas pelo paciente? e) Como a complexa sociedade moderna lida com a questão da promoção, e reconhecimento, de independência, autonomia e maturidade juvenil? Acaso isso interessa de fato à sociedade? Como a sociedade lida com as escolhas de envolvimento com o risco por parte de seus membros ditos na alta e, portanto, já final fase da adolescência?

f) Como essa sociedade globalizada, crescentemente pluralista e informacional promove a transição para a fase adulta de tais membros? Ou acaso, numa ordem pós-tradicional de uma modernidade avançada isso já não mais compete à coletividade – cada indivíduo que se vire e desenvolva um “projeto-de-si”, uma “narrativa e biografia reflexiva pessoal” ?

g) De que forma isso tudo se relaciona com aquilo que vier a se conceber e rotular como

risco e de que forma a sociedade lida com a questão da exposição a comportamentos e

práticas de risco de seus membros já quase adultos em uma sociedade, ela própria, concebida por uma série de pensadores contemporâneos como de riscos e incertezas? h) E, por fim, de que forma o psicólogo clínico pode se engajar numa discussão e ação, não apenas de melhores formas de diagnóstico e prevenção, mas de intervenções que tragam algum sentido e possibilidade de transcendência do ofício e limites impostos

pelas formações, discursos e práticas especialistas – numa verdadeira reação ante a realidade cultural que lhe aporta os pacientes que não apenas lhe possibilitam seu sustento, mas que implicam numa escolha e engajamento com uma determinada práxis clínica que incide, sobremaneira, sobre as condições e conseqüências dos ambientes modernos instauradores daquilo que bem poderia denominar-se de uma reflexividade

onto-cultural, (pro)auto-ativamente existencial.

Entendo que a verdadeira terapia ocorre quando o indivíduo deixa o consultório e retorna às novas ou mesmas contingências e meta-contingências habituais, embora de posse, espera-se agora, de uma maior variabilidade comportamental, consciência e responsabilidade pelas escolhas que fizer – escolhas essas que afiguram e reconfiguram todo um projeto

reflexivo de exercício do estar no mundo, do existir e criar as possibilidades e condições

dessas (e para essas) escolhas.

As questões anteriormente elencadas são todas elas complexas e multi-determinadas, envolvendo uma série de variáveis, as quais nem sempre são passíveis de serem inter- relacionadas de forma sintética e funcional, sobretudo quando e se conceitualizadas forem de modo a serem artificial e teoricamente encaixadas em arcabouços conceituais de abordagens de um ou outro campo do saber. Daí o entendimento quanto à necessidade de se desenvolverem olhares transdisciplinares que se desencapsulem dos domínios e enfoques

especialistas – para ir-se e olhar-se além, por entre e através – das tão diversas disciplinas

concernentes à compreensão da existência e cultura humana – ambientes maiores nos quais as relações do comportamento com o meio devem ser buscadas. A forma, ou abordagem, de apreensão de um conteúdo não haveria de alterar aquilo que o conteúdo é, independente do que o conteúdo revele de si a uma ou outra abordagem ou forma de apreensão em curso.

Viver implica em tomar decisões constantes. A todo momento os indivíduos tomam decisões, fazem escolhas e demonstram preferências.Numa perspectiva behaviorista, escolher é definido como “a resposta entre dois ou mais estímulos acessíveis e preferir é passar mais tempo respondendo (Skinner, 1950), ou responder mais a um deles (Hanna, 1991)” (Todorov & Hanna, 2005, p. 9). Há de se atentar, no entanto, que se o foco recai nas relações organismo- ambiente, uma instância de resposta em si não dirá nada e o fundamental, como bem apontado por Todorov (1981, citado por Todorov & Hanna, 2005, p. 9) será entender onde e quando escolha e preferência são observadas.

Mas ocorre que o psicólogo clínico de viés comportamental não terá nunca acesso – por mais que se empenhe em coletar e registrar informações por meio dos relatos do paciente, ao longo de breves encontros semanais – aos ambientes reais e ao complexo (ou completo) repertório de comportamentos e histórias de aprendizagem do indivíduo a quem estiver atendendo. Quanto maiores forem as multideterminações de um fenômeno, tanto maior a complexidade e condição de investigação. E quanto maior a “reflexividade”, maiores as probabilidades de emissão de “novos comportamentos” – tema sempre indigesto à luz das críticas direcionadas ao paradigma positivista behaviorista, para o qual o “novo”, nunca é uma ação autonômica ou indeterminada.

Enquanto psicólogo clínico, de certo que pesquisei a história de reforçamento de meu

paciente – esse a quem reduzi e encapsulei em linguagem especialista, me perdoe Murilo, à

condição de um estudo de caso analisado sob o viés de formulações e análises comportamentais – e que, para fins de um diálogo acadêmico de produção de conhecimento e

sentido, implicou em analisar e inter-relacionar questões e variáveis como:

a) a importância que o grupo de pares tinha para Murilo enquanto fonte de informações, experiências e estímulos;

b) considerações sobre um histórico da forma como os pais de Murilo lidaram, lidavam e provavelmente lidariam com as escolhas, decisões, independência e autonomia do filho. c) a questão das alterações somáticas induzidas pelo consumo de álcool que, ao provocar estados vivenciados por Murilo como de maior euforia e confiança, o levavam a arriscar uma maior aproximação e cortejo das meninas por quem se sentia atraído – o que suscita a consideração que, em sendo tais investidas bem sucedidas, aumentava-se a probabilidade de um recorrente consumo de álcool, o que retroalimentava, por sua vez, todo um ciclo de reforçamento para o envolvimento com o risco;

d) o fato de que os amigos com quem se relacionava, tidos pelos pais como “más influências”, eram precisamente aqueles com quem Murilo mais se afinava e identificava, os mais semelhantes a ele e com os quais ele mais conversava sobre uma série de questões existenciais, a exemplo de: incertezas com relação ao futuro; a difícil e conflitante escolha de uma formação profissional iminente; as cobranças e responsabilidades de um competitivo dia-a-dia de estudos; as experiências e investidas frustradas ou bem sucedidas com as meninas; os embates da existência; futebol; sexo; política; sociedade; religião; vida presente; acontecimentos passados; enfim, tudo aquilo sobre o qual um jovem conversa com os amigos e/ou num grupo de pares.

e) a ambivalência que se apresentava a Murilo entre o se comportar e desempenhar um papel esperado de filho, cumprindo e atendendo, portanto, as expectativas e escolhas de seus pais, ou desenvolver sua própria identidade e estilo, nos contornos de uma atualidade modernamente reflexiva, a qual implica, como logo se verá mais adiante neste trabalho, que ninguém iria construir a biografia e identidade de Murilo, senão ele, e por ele mesmo;

f) a proximidade do momento de iniciação sexual, o qual, conforme tão freqüentemente estabelecido e alimentado pelo senso comum, acabaria funcionando como um rito de passagem a partir do qual a masculinidade e maturidade de Murilo fossem atestadas, com todo um provável reposicionamento dentro de seu grupo de pares – tendo-se em conta aquilo que é valorizado e referendado no convívio social desse grupo de pares.

Á diferença de estudos sobre e com animais na psicologia experimental, a psicologia clínica não oferece a mesma possibilidade de conhecimento e de controle sobre a história de vida de sujeitos experimentais humanos. No capítulo 9 do livro “Análise do Comportamento – Pesquisa, Teoria e Aplicação”, ao escreverem sobre a Quantificação de escolhas e

preferências, Todorov e Hanna (2005) concluem que: “Ao se trabalhar com a noção de

escolha, ampliou-se o foco da análise das conseqüências de uma resposta para o contexto de reforçamento, que inclui as conseqüências de respostas concorrentes”. Mas será que as escolhas de um indivíduo se encontram atreladas tão somente à sua história de reforçamento, perguntaria um existencialista?

As conseqüências e os antecedentes dos comportamentos do indivíduo em suas relações funcionais com o ambiente são não apenas a base conceitual do behaviorismo radical, mas a própria inovação dessa abordagem, o que não significa dizer que o psicólogo comportamental detenha a possibilidade final de coletar e inter-relacionar todos os dados relevantes para suas formulações e análises funcionais em uma linguagem que dê conta de explicar e apreender fenômenos complexos. E não digo isso à toa. Foi precisamente pelo fato de dispor de apenas 50 minutos semanais de atendimento psicoterápico a Murilo, que me inquietei, num instigante crescente, com o fato de vê-lo fechar a porta do consultório e partir, de volta ao “mundo”, de volta ao contexto cultural no qual muitos de seus comportamentos e práticas adquiriam função e sentido. Fui-me dando conta, assim, que a questão da exposição a

comportamentos de risco envolve todo um pano de fundo social maior, inerente ao contexto moderno contemporâneo dos jovens na alta adolescência; mas não apenas isso, do ponto de vista existencial tudo indica que o risco é imanente à própria condição humana.

Havendo crescido em um ambiente familiar que sempre o cobrou quanto ao seu desempenho escolar e levando-se em conta que nunca tivera maiores problemas com o desempenho escolar, Murilo se sentia no direito de simplesmente curtir a vida com os amigos e “escolher” como se divertir, exercitar preferências e o que (e como) “experimentar”. Em diversas ocasiões, Murilo deixou bem claro que não gostava que os pais se metessem em sua vida e que não sentia que lhes devesse satisfações acadêmicas, posto que era aluno dedicado, responsável e comprometido com um projeto profissional futuro, ainda indefinido, além de preencher o escasso tempo livre com atividades como aprendizagem de línguas estrangeiras, esportes e o desenvolvimento de habilidades extra-curriculares.

Após uma investigação de muitos comportamentos dos pais de Murilo, ficou claro como estes buscavam manter o filho sob controle, a ponto de mudá-lo de escola quando julgaram que estivesse convivendo com colegas rotulados como “más influências”, um verdadeiro exercício de punição e demonstração de autoridade, pois Murilo pouco pôde participar do processo decisório de mudança escolar. A partir de uma análise dos instrumentos de controle parentais, comecei a levantar a hipótese quanto a muitos dos comportamentos de risco de Murilo não estarem desempenhando, por hipótese, uma forma de um contumaz exercício de “contra-controle”. Mas não se tratava apenas disso.

Embora sob uma matriz de super-proteção, preocupação e cobrança, os pais de Murilo permitiam que o filho saísse e se relacionasse com os amigos de sua atual escola, numa exposição a contingências que lhe eram altamente reforçadoras (senão necessárias para a

autônoma), mesmo quando tais contingências, não de todo conhecidas e muito menos controláveis pelos seus pais, lhes fossem aversivas pelos efeitos resultantes do recorrente