“A atual geração de jovens e adolescentes de modo geral parece, aos olhos de muitos adultos, não ter nem pontos de referência nem valores positivos significativos, o que evidencia uma ausência de projetos para o futuro, de regras e de limites preconcebidos; parece perder-se na busca contínua de situações e atitudes irracionais, vendo- se diante de situações-limite, de riscos não calculados, da exacerbação; ou, ao contrário, parece ser uma geração que se esconde por trás de um conformismo mais inexpressivo, na indiferença social, na ausência de interesses e na apatia relacional”.12
Ao se mencionar que a adolescência e o início da juventude são tempos de experimentação e de uma inevitável exposição ao risco, tende-se a assumir que a exposição ao risco é inerentemente negativa quando, de fato, muitos objetivos na vida envolvem riscos substanciais.
Para Jessor (1992), ao se buscar uma compreensão e melhores formas de intervenção, há uma enorme diferença entre se estar lidando com comportamentos de risco isolados e independentes ou, ao contrário, com uma constelação organizada de comportamentos de risco que estão inter-relacionados e que apresentam co-variação. Esta última visão encontra-se corroborada por inúmeras observações empíricas colhidas ao longo da prática clínica de atendimento a adolescentes na faixa etária pesquisada.
Certo está que os comportamentos de risco podem comprometer o desempenho de certas tarefas do desenvolvimento padrão, a exemplo da realização de papéis sociais esperados, a aquisição de habilidades essenciais, a objetivação de um senso de adequação e competência, bem como uma apropriada preparação para a transição para a fase adulta de vida
(Jessor, 1992). Nesse sentido, o termo comportamento de risco se refere a quaisquer comportamentos que possam comprometer os aspectos psicossociais do desenvolvimento adolescente.
A literatura que trata a questão da co-variação de comportamentos de risco (Osgood, 1991; Elliot, 1992) tem demonstrado que a evidência de co-variação é mais forte para aqueles comportamentos de risco que também são comportamentos-problema, a exemplo do uso de droga, delinqüência, consumo de álcool e sexualidade precoce. Já para alguns outros comportamentos, como hábitos alimentares, realização de atividades físicas e comportamentos associados à segurança, não se encontrou uma co-variação tão alta.
De um modo geral, a evidência empírica confirma a evidência de padrões organizados de comportamentos de risco de adolescentes. Como bem colocado por Jessor (1992), ao comentar certas estruturas de comportamentos, que quando contempladas em conjunto refletem a forma de um adolescente estar no mundo, há de se pensar que:
Sua estrutura ou organização levanta questões interessantes sobre a origem ou fonte da co-variação e padronização. Parte da resposta provavelmente reside na ecologia social da vida adolescente, uma ecologia que fornece oportunidades socialmente organizadas para aprender os comportamentos de risco em conjunto e expectativas normativas que eles sejam executados em conjunto. E uma outra parte da resposta reside no fato que diferentes comportamentos de risco podem atender a uma mesma função, por exemplo, tanto o uso de drogas ilícitas como o engajamento em atividade sexual precoce podem servir como uma forma de se firmar independência dos pais (p. 381).
a) Adolescência e saúde
Ao escreverem sobre o adolescente no mundo contemporâneo, Neto e Osório (2002) apontam que o adolescente pode ser entendido como um segmento da sociedade, e que para uma compreensão da sociedade enquanto um sistema (reunião de elementos naturais da
mesma espécie que constituem um conjunto estreitamente relacionado), é preciso considerar que tal sistema se compõe de famílias, compostas, por sua vez, de adultos, jovens, adolescentes e crianças. Os jovens têm, portanto, papéis e funções que lhes são atribuídos pelo sistema, e, nesse sentido, o adolescente pode ser visto como um porta-voz da família e da sociedade como um todo, espelhando tanto seus aspectos sadios como suas doenças. Uma noção que é bem exemplificada por estas alarmantes e descritivas palavras:
Uma sociedade tóxica e consumista como o é, atualmente, a nossa, que destrói a natureza e estimula o uso de drogas, principalmente através dos meios de comunicação, induz alguns jovens a manifestações que, sobretudo através da violência e do abuso de drogas, lícitas ou ilícitas, nada mais são que a denúncia da conduta de toda a sociedade (Neto & Osório, 2002, p. 45).
A observação da relação entre determinados fatores e morbidade, mortalidade ou mesmo determinados eventos indesejáveis não é recente (Laurenti & cols., 1977). No entanto, apenas nos últimos anos e graças aos avanços da estatística se desenvolveu uma maior observação sistemática, com finalidade de prevenção e racionalização de recursos.
De um modo geral, a adolescência costuma ser uma fase saudável. Duas das principais doenças a que são acometidos os adultos, doença do coração e câncer, raramente se manifestam na adolescência (Berger, 2003). Todavia, as últimas décadas assistiram uma mudança significativa no padrão de mortalidade de adolescentes, principalmente em países mais desenvolvidos. Constata-se, por um lado, a melhoria das condições de vida e a queda da incidência de certas doenças infecto-contagiosas. Por outro lado, as mudanças sociais e culturais relacionadas aos elevados índices de industrialização e urbanização da sociedade, bem como o progressivo empobrecimento de uma significativa parcela da população,
conduziram ao aumento da mortalidade por causas violentas, como acidentes, suicídios e homicídios, principalmente na população jovem (Chipkevitch, 1994).
Adolescentes constituem um grupo da população especialmente propenso a um maior envolvimento e exposição a acidentes, muito em função dos inúmeros comportamentos de risco assumidos com maior freqüência que outros grupos etários (Hechinger, 1992). Embora estando menos suscetíveis a certas doenças, os adolescentes correm o risco de adquirir doenças perigosas de diferentes tipos, na medida em que se expõem a certas situações de risco, a partir de um aumento em sua independência como parte do processo de tomada de decisões próprias (Berger, 2003).
Conforme apontado por diversos autores (Zuckerman & Duby, 1985; Blum, 1987; Neinstein, 1991) fatores como depressão, estresse familiar, baixa auto-estima, tendências anti- sociais e agressividade podem levar o adolescente a desenvolver atitudes rebeldes, inconseqüentes e auto-destrutivas, predispondo-o a uma maior susceptibilidade às pressões do grupo e à necessidade de auto-afirmação.
Uma tendência inquietante que vem sendo ressaltada ao longo das últimas décadas diz respeito ao fato do uso do álcool e outras drogas estar se tornando parte integrante do cotidiano de muitos jovens em sociedades industrializadas (Silbereinsen, Robin & Rutter, 1995). A experimentação ou o uso de drogas ocorre entre a maioria dos adolescentes, não sendo raro que uma grande parte dos jovens conheça o modo de obter cigarros, álcool e outras drogas. Como bem aludido por Wren (1996), muitos especialistas acreditam que o fato de tantos adolescentes verem o uso de determinadas substâncias como sendo inofensivo pode estar levando os jovens adultos de amanhã de encontro à sua própria “epidemia” de dependentes químicos.
A incorporação de determinados comportamentos como fatores de risco pressupõe uma reformulação da própria concepção do risco. Jessor (1992) argumenta que isso requer que haja uma expansão das restrições inerentes ao modelo biomédico de concepção do risco, de tal modo que “uma compreensão psicossocial do risco, na qual comportamentos são fatores de risco, requer uma atenção de todos os seus potenciais resultados ou conseqüências, não apenas aquelas que são biomédicas” (p. 377). A noção de risco precisa ser expandida de modo a incluir resultados positivos ou desejados, tanto quanto aqueles que são considerados adversos ou negativos. Isso porque, ainda de acordo com Jessor (1992), diversos estudos têm demonstrado que os comportamentos de risco dos adolescentes são funcionais, intencionais, instrumentais e direcionados a objetivos, de tal forma que esses fatores estão freqüentemente relacionados ao desenvolvimento normal dessa etapa de vida. Não há nada de irracional, perverso, desviante ou de natureza psicopatológica em tais comportamentos, pois são característicos do desenvolvimento psicossocial padrão, o que é um elemento central para a compreensão do porquê os comportamentos de risco que apresentam tal funcionalidade são tão difíceis de serem modificados.
b) Estressores da juventude
Uma análise dos estressores que incidem na juventude revela-se como um importante ponto a ser desenvolvido, precisamente por suscitar e remeter a uma análise que não permaneça restrita a fronteiras disciplinares referidas como sociológicas, psicológicas, antropológicas ou filosóficas, dentre tantas possíveis.
A velocidade das transformações sociais, os avanços tecnológicos, as incertezas políticas e econômicas, dentre tantos outros pontos que poderiam ser citados, são fatores inerentes ao contexto de vida do mundo moderno, um impacto que incide não apenas o mundo dos adultos, mas na realidade cotidiana e na perspectiva de futuro da juventude.
Na visão de Canella (1988), para além das mudanças físicas e emocionais experimentadas pelo adolescente, estão as fortes influências dos valores culturais e sociais que o envolvem. De tal feita que não seria equivocado inferir que a adaptação à vida de adulto que lhe é imposta é vivenciada como uma forma de dominação. As crises de adolescência seriam, assim, uma forma de reagir a essa integração considerada necessária.
Uma série de fatores e conjugação de eventos que ocorrem na adolescência conspiram para uma provável conturbação no equilíbrio emocional dos jovens. São muitos os fatores predispositores de problemas emocionais na adolescência, podendo-se listar, dentre os principais (Cavalcanti, 1998): (a) o excesso de controle parental (com todos os impactos de eventuais estratégias de super-proteção), ou a situação inversa, como há de se ressaltar: a falta da presença parental, que gera uma omissão que não coloca os limites tão necessários ao desenvolvimento de enfrentamentos às diversas frustrações advindas da relação do jovem com o mundo; (b) a dependência financeira dos jovens; (c) as expectativas de comportamentos e atitudes (espera-se que o jovem se comporte como adulto); (d) o ajustamento (ou reajustamento) a novas posições sociais (novos amigos, novos ambientes, novas ocupações e papéis); (e) o desempenho e as exigências escolares; (f) eventuais conflitos com familiares e com amigos; (g) prováveis conflitos de ajustamento sexual (ajustamento social ao sexo oposto; opção sexual por hetero, bi ou homossexualidade); (h) indecisões e cobranças relacionadas a uma escolha profissional, contrária, em muitos casos, às expectativas dos pais; (i) angústias quanto à entrada e permanência no competitivo mercado de trabalho; etc.
E com o jovem Murilo não havia muito como ser diferente. Uma olhada para os itens supra-mencionados revela como Murilo sentia que seus pais o cobravam insistentemente quanto ao desempenho escolar e as responsabilidades dele construir uma base acadêmica com
Havia, na visão de Murilo, uma excessiva cobrança e censura parental quanto às influências de suas amizades sobre sua vida pessoal, sobretudo após uma mudança de escola, por pressão da família, após seu ingresso no primeiro ano do segundo grau. Tal mudança traduziu-se num lento período de adaptação e de incertezas até o estabelecimento de novos vínculos gregários de Murilo com seus novos pares.
O papel e a função desempenhados pelo consumo de álcool na vida de Murilo foram descritos por ele como uma forma de aliviar o estresse e proporcionar maior auto-confiança para lidar com o desconhecido e as mudanças em curso. Aquilo que para seus pais foi categorizado sob o rótulo do alcoolismo era vivenciado por Murilo como estados de embriaguez cuja vivência implicava, para além do descontrole e risco à própria saúde, em amadurecimento, em uma certa ritualização da masculinidade e possibilidades de exercício e busca de autonomia através das próprias escolhas. O beber de Murilo há de ser entendido, portanto, como sendo indissociável do processo de construção reflexiva de sua própria identidade, de suas próprias escolhas.
c) Álcool, alcoolismo e juventude
“Parece estranho, mas, entre eles (os jovens), ser socorrido numa ambulância para tomar glicose dá status”.13
“Não resolveremos os problemas do alcoolismo e da delinqüência juvenil aumentando o senso de responsabilidade. O ambiente é que é responsável pelo comportamento censurável, e é o ambiente, e não qualquer atributo do indivíduo, que deve ser mudado”.14
13 Roberto Cohen, organizador de eventos no Rio de Janeiro, explicando porque que virou costume deixar ambulância com UTI na entrada de bufês que fazem festas de debutante (Revista Época, No.482, 13 de agosto de 2007, p. 30).
Embora o estudo de caso apresentado nesta dissertação não aponte para um diagnóstico de alcoolismo crônico juvenil no atendimento clínico prestado a Murilo, algumas considerações sobre a temática são pertinentes ao trabalho, sobretudo ante o fato do principal comportamento de risco apresentado pelo paciente (motivo que levou seus pais a procurar um psicólogo clínico), haver se dado em função do consumo abusivo de bebidas alcoólicas.
O consumo de álcool constitui um grave problema de saúde pública, podendo interferir simultaneamente na vida pessoal, familiar, escolar e social do usuário. Por ser o álcool uma substância de consumo corrente, tão amplamente difundido na mídia e com grande impacto em diversas dimensões da vida individual e coletiva, a problematização do consumo e envolvimento juvenil com o álcool apresenta-se como uma complexa questão, tamanha é a multi-determinação e possibilidades de inter-relação do fenômeno.
Atualmente, o número de jovens, em idades cada vez mais precoces, que têm se envolvido com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas vem crescendo de forma alarmante, destacando-se uma tendência que aponta para o consumo abusivo de cerveja e bebidas destiladas, amplamente disponíveis, socialmente estimuladas e difundidas nos locais freqüentados pela juventude. O consumo de álcool na juventude costuma ocorrer emparelhado a uma série de importantes “efeitos reforçadores” dessa fase de vida: o estar em meio ao grupo de pares; a atividade “preparatória” para as saídas do grupo em busca de diversão; como fonte de estimulação que favorece uma suposta maior auto-confiança, auto-estima e auto-expressão; uma suposta prova de maturidade ou de masculinidade (no caso dos homens); a demonstração de status social; uma possível esquiva da realidade cotidiana; uma fonte de experimentação; etc.
o alcoolismo atinge todas as classes sociais, sendo sua manifestação cerca de duas a três vezes mais freqüente no sexo masculino e na raça branca, a qual apresenta os maiores consumos per capita. A maioria dos indivíduos tem o seu primeiro contacto com o álcool na adolescência, por volta dos quinze anos de idade (Cabral, n.d).
Doença de caráter progressivo, o alcoolismo é de difícil cura e de desfechos amiúde fatais. Confunde-se muitas vezes o alcoolismo agudo, ou embriaguez, com o alcoolismo
crônico. No caso do primeiro, a ingestão de grande quantidade de álcool ocorre ao longo de
um dia ou num espaço curto de tempo, trazendo por conseqüência um estado que pode oscilar desde a sensação de uma leve tontura até o estado de pré-coma ou coma alcoólico. Já no caso do alcoolismo crônico, a ingestão habitual de bebidas alcoólicas ocorre em freqüência periódica, repartidas ao longo do dia em várias doses, as quais podem manter o organismo em um estado de alcoolização permanente ou semi-permanente.
Matéria publicada no jornal Estado de Minas (03/07/2006) aponta que há uma expectativa de que ao longo da vida cerca de 15% da população mundial tenha problemas com álcool. O consumo de bebidas alcoólicas começa a ser um problema social, de dimensão coletiva, a partir de circunstâncias sociais e culturais que fomentam e tornam possível o seu uso generalizado, com todas as suas conseqüências.
A história da humanidade aponta para um gosto prevalente dos seres humanos pela bebida alcoólica, muito em função de seu efeito tônico e euforizante, consumida que tem sido para aliviar a angústia, desinibir e libertar tensões, entre tantas justificativas apontadas. Para Schuckit (1991), o álcool, a nicotina e a cafeína são as substâncias mais consumidas no ocidente, sendo o álcool a mais destrutiva.
O uso do álcool em nossa sociedade ainda é considerado um rito de passagem, uma prova de que a criança está se tornando adulto e esse acaba sendo o modelo de adulto que é
oferecido ao jovem. De acordo com a psiquiatra Karla Miranda15, presidente da Comissão de Controle do Tabagismo, Alcoolismo e Uso de Outras Drogas da Associação Médica de Minas Gerais (Contad-MG), o álcool está presente em quase 90% das opções de lazer a que os adultos expõem crianças e adolescentes. Além disso, prossegue Miranda, a “mídia capta as fantasias adolescentes de realização e prazer e as devolve associadas a imagens sedutoras das bebidas alcoólicas que precisam ser vendidas”, citando o exemplo da Copa do Mundo regada a muita cerveja, com cenas repletas de mulheres lindas, sucesso, sensualidade e força associadas ao consumo de álcool, tudo isso propagado pela mídia.
Segundo o Centro Brasileiro de Pesquisa sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid-Unifesp, citado por Estado de Minas, 2006), em 10 capitais brasileiras 75% dos estudantes entre 11 e 18 anos já experimentaram bebidas alcoólicas. Destes, 25% fazem uso freqüente de álcool. Diversos fatores podem influenciar o jovem na hora de decidir se vai ou não beber pela primeira vez, a exemplo de seu ambiente social, do momento existencial e de seus vínculos afetivos, bem como os modelos fornecidos pelos pares, mídia e pela própria família, entre outros.
As bebidas destiladas vêm ganhando cada vez mais adeptos na população jovem (Correia, 2002) emuitos profissionais de saúde atribuem ao álcool o papel de porta de entrada para outras drogas, considerando-o como a primeira droga mais habitual. Em seguida, e a depender da classe social, viriam os inalantes e/ou maconha para os meninos e os tranqüilizantes para as meninas. Os efeitos do álcool sobre o corpo costumam produzir
15 Em entrevista à jornalista Ellen Cristie do Estado de Minas para matéria sobre o alcoolismo juvenil, publicada em 03/07/2006, noticiando o debate público realizado na Associação Médica de Minas Gerais (AMMG) sobre “O que todos devem saber sobre os riscos do consumo de álcool por adolescentes”, capturado em 30/01/2007 do site:
sensações de desinibição, encorajamento e euforia, o que aumenta a predisposição a uma série de condutas de risco.
Para Carvalho (2002), o consumo assumido de substâncias com ação psicotrópica tem evoluído de acordo com os percursos civilizacionais. Embora num primeiro momento essas substâncias atuem no funcionamento da atividade mental, produzindo efeitos euforizantes, estimulantes, anestesiantes e inebriantes, logo induzem estados de dependência e tolerância após consumo elevado, implicando em elevados riscos bio-psico-sociais para os indivíduos consumidores.
Em seu livro intitulado “A transformação da intimidade”, Giddens (1992/1993) discute na seção denominada “Vício, reflexividade e autonomia do eu”, sobre como o fato de o alcoolismo ter sido abordado, e já há bastante tempo, como uma patologia física, desvia a atenção entre o vício, a escolha do estilo de vida e a auto-identidade. Giddens discorre sobre como o vício revela um modo peculiar de controle sobre aspectos da vida do “eu”, mencionando que:
O vício deve ser compreendido em termos de uma sociedade em que a tradição tem sido mais abandonada do que jamais foi, e em que o projeto reflexivo do eu assume correspondentemente um importância especial. Quando grandes áreas da vida de uma pessoa não são mais compostas por padrões e hábitos preexistentes, o indivíduo é continuamente obrigado a negociar opções de estilo de vida. Além disso – e isto é crucial –, tais escolhas não são apenas aspectos “externos” ou marginais das atitudes do indivíduo, mas definem quem o indivíduo “é”. Em outras palavras, as escolhas de estilo de vida constituem a narrativa reflexiva do eu” (p. 87).
Por mais que se escreva, divulgue e entenda sobre os efeitos nocivos do álcool, ainda assim parece haver algo que escapa ao enfoque patológico-racional que é atribuído ao ato, aos antecedentes e às conseqüências do “beber”. Não resta dúvida que diferentes enfoques
filosóficos certamente lançariam múltiplos olhares e contribuições sobre o sentido, que não o mero efeito biológico produzido e vivenciado, do “ato de beber”.
Embora este trabalho não se proponha a examinar de forma única e específica o contexto social (os comportamentos em um grupo e a análise desse grupo) de envolvimento de Murilo (e seus pares) com o consumo de bebidas alcoólicas – posto que o enfoque maior de análise recaiu sobre o sentido maior de uma exposição ao risco nas condições de uma modernidade atual que conclama os indivíduos a se constituírem através das escolhas pessoais e de processos reflexivos sociais, assim se vendo instados a buscarem desenvolver autonomia pelo exercício da escolha – algumas sugestivas e provocativas indagações podem ser destiladas e servidas à degustação do leitor. São elas: