As informações coletas e analisadas organizam um panorama geral da relação destes estudantes com o saber escolar e o saber da Física, em particular. Finalizando o primeiro movimento, faremos os apontamentos iniciais da pesquisa.
A Física escolar não é o componente curricular preferido para a maioria dos 142 respondentes. As concepções sobre a matéria variam entre importante e sem valor, entediante e atrativa. Também é considerada difícil e reconhecida por alguns como uma explicação matemática do real. Quando se menciona, a Física escolar é importante por explicar os fenômenos naturais ou para o ingresso no Ensino Superior. Para outros, não tem valor por estar distante da vida do sujeito, seja por não esclarecer nada de sua vivência cotidiana ou não ter relevância em suas vidas. É considerada difícil tanto por simpatizantes quanto por aqueles que demonstram desafeto. Além disso, o percentual de respostas em que se afirma gostar da disciplina é próximo do percentual das respostas em que se afirma o contrário. Isto nos surpreende em relação as nossas suspeitas iniciais. Quanto às concepções sobre o estudar Física, notamos certa homologia com as concepções sobre a própria disciplina, pois varia entre ser uma prática agradável e enfadonha, difícil e fácil, algo necessário e dispensável. As dificuldades na realização desta atividade por vezes são mencionadas com respeito aos cálculos matemáticos. É uma prática considerada importante por ser necessária, e vista como obrigação. Não há como escapar. O fato de ser agradável por vezes está associado ao sucesso no estudo da Física.
Aprender Física por meio do estudo envolve um pequeno número de ações e dois lugares. Na escola, aprender Física é ouvir atentamente aquilo que fala o professor durante a aula. Em casa, é treinar, isto é, refazer, rever, repetir aquilo que foi feito em sala de aula e também resolver novos exercícios. A internet é um recurso utilizado nos estudos domésticos. Os motivos para estudá-la dizem respeito à aquisição de saberes, ao gosto, a obrigatoriedade, ao sucesso escolar (passar de ano), aos exames de admissão no Ensino Superior e à superação de dificuldades.
Os sentimentos, sensações e imagens produzidas na aprendizagem da Física variam entre sensações de bem-estar ou mal-estar, imagem de alguém intelectualmente capaz ou incapaz, sensações de confusão e sentimentos que
dependem do sucesso ou do fracasso. Em geral, a sensação de bem-estar está relacionada ao bom desempenho, momentâneo para uns e perene para outros. A sensação de mal-estar está associada aos resultados ruins. Há alguns que oscilam entre se sentirem bem se “acertam/entendem” e se sentirem mal quando “erram/não entendem”.
As concepções sobre si variam entre ser bem ou mal sucedido na Física. Quando não entendem, por vezes, se reportam a si mesmos fazendo referência a nomes de animais que representam ignorância. As respostas que enfatizam ser malsucedido apresentam-se de três formas: ter dificuldade/não ter facilidade, não entender a matéria, não ser bom na matéria. A primeira relacionada à ideia de posse, a segunda de circunstância e a terceira de permanência. Supomos que a lógica que subjaz a primeira e terceira formas é a ideia da naturalização da capacidade de aprender ou não. Tal fato impede que estes escolares se sintam melhores diante do estudar Física ou percebam possibilidades de mudanças nesta situação. Quem não enxerga nada que dependa da sua ação tende facilmente a instalar-se na passividade (KONDER, 2004). Neste caso é algo do tipo: contra a natureza não há o que fazer, se eu não nasci para entender esse assunto então não há o que fazer. Supomos ainda que esta naturalização se relaciona com a postura de “sobrevivência” – estudar para passar, estudar na véspera de prova, tentar entender - já que não têm como fugir da escola, da disciplina ou da obrigatoriedade de passar de ano.
Isto retorna sobre a imagem que fazem de si e o sentido que atribuem à disciplina. Por ser algo distante, quase inatingível, que exige uma inteligência diferenciada e superior, quando esses alunos conseguem resolver questões, entender algum conteúdo ou ter uma nota boa na prova, eles podem mudar da imagem negativa para sentimentos positivos, passando por um experiência multifacetada, plural e ambivalente. Não podemos afirmar aqui e nem é objetivo de nossa pesquisa saber quem veio primeiro: se a visão de si como alguém capaz/incapaz ou se a imagem da Física como difícil e inatingível. Mas podemos afirmar que estes elementos se relacionam fortemente, de forma a aparecerem sempre em contraposição nas respostas.
Sobre o professor de Física, as expressões mencionadas referem-se à sua competência profissional, à sua capacidade intelectual, ao seu carisma ou são colocações genéricas. No primeiro caso, o professor é competente para uns, pois sabe explicar, e incompetente para outros, pois não sabe explicar. Fica implícito que a habilidade profissional do professor se resume a explanar sobre o conteúdo de forma que o estudante o entenda. Destaca-se nas respostas o aspecto das relações pessoais quando os estudantes evocam expressões positivas sobre a personalidade do professor. Por outro lado, para alguns, o professor é um agravante na “chatice” da Física.
Outra questão que se destaca é que estes alunos – por motivos diferentes – em sua maioria gostam da escola. São pessoas que se sentem bem no espaço educativo, quer seja pelas amizades e relações pessoais que estabelecem, quer seja por algum conhecimento específico com o qual se identificam. Neste caso, é interessante perceber como entre as disciplinas preferidas por estes estudantes foram apontadas aquelas que permitem a discussão ou a reflexão como, por exemplo, a sociologia. São diferentes os motivos que os fazem preferir este ou aquele componente curricular. Uns mencionam o Ensino Superior, enquanto outros falam dos próprios saberes ou das atividades executadas para aprendê-los. Há ainda aqueles que citam, como aspecto que os levam a gostar de Física, sua “facilidade” com a disciplina e outros a influência de outras pessoas.