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2. LITERATURE REVIEW

2.2 I NTEGRATION OF I MMIGRANTS

Uma vez capturados e degravados os discursos dos entrevistados, realizou-se, então, a interpretação dos mesmos, com vista a realizar proposições que atendessem aos objetivos deste trabalho. Para tanto, utilizou-se de um caminho de análise formulado a partir do entendimento realizado pelo autor desta tese acerca das idéias e das propostas apresentadas

por Ricoeur (1976, 1977) e por Moraes, R. (2001a, 2001b, 2001c, 2002, 2003). A escolha de Moraes deveu-se à clareza de seus procedimentos, à versatilidade com que dialoga entre as variadas referências da pesquisa (primárias e secundárias), bem como a familiaridade que o autor desta pesquisa possui com tal ferramenta. Já a participação de Ricoeur neste trabalho, por sugestão da banca qualificadora, acabou se revelando duplamente importante. Em uma visão mais imediata, a obra consultada deste autor auxiliou para reforçar e aprofundar os procedimentos metodológicos propostos. Contudo, foi em um sentido mais amplo que ocorreu a maior contribuição para os resultados alcançados nesta tese. Ocorre que, além dos elementos técnicos contidos em seus textos, destaca-se a importância das idéias que fluem na filosofia de Ricoeur, importantes na geração de conteúdos para a tese construída. Em outras palavras, o conhecimento aportado por este autor vai além do método, servindo também como referencial teórico na produção de respostas aos objetivos deste trabalho.

A análise textual, conforme a narrativa daqueles que com ela se envolvem, é tarefa árdua e, dada a sua subjetividade, apresenta enormes dificuldades ao longo de seu processo. Contudo, parece ser na redação do relatório de pesquisa, ou meta-texto, o ponto onde residem os maiores desafios aos pesquisadores. Vencer o branco no papel é tarefa que deixa a muitos perplexos. A “síndrome da folha em branco”, espécie de medo que busca se impor ao desafio da escrita, apresenta-se como evento bastante freqüente dentre pesquisadores (SILVA, 2006). Neste sentido, o método de análise textual auxilia o pesquisador a superar a inércia inicial da produção do meta-texto, agregando qualidade e validade ao mesmo, o que será fundamental a superação dos desafios impostos no caminho da concretização dos objetivos que esta tese busca construir.

Não é somente na redação do meta-texto que residem os desafios da análise textual. Mas é neste momento em que a forma como o trajeto de análise foi trilhado acabará por revelar a sua eficácia. É importante considerar que um mesmo texto permite a retirada de diferentes sentidos, dependendo, por exemplo, das percepções do pesquisador, suas intenções, bem como das referências teóricas que estão sendo empregadas na análise. Isso representa dizer que o quão mais amplo for o embasamento teórico no assunto e o quanto mais próximo a uma postura fenomenológica, ou seja, que suspenda juízo, estiver o pesquisador, maiores serão as chances de que este compreenda e, assim, consiga comunicar aquilo que compreendeu. Para tanto, é fundamental que exista envolvimento do autor com a pesquisa. Em estudos deste tipo, o sujeito necessita estar impregnado pelo conteúdo estudado. Estas

leituras, fundamentais ao posterior processo de análise, são basicamente baseadas em teorias e capazes de promover os “flashes de compreensão”, uma das metáforas utilizadas por Moraes, R. (2003) para descrever a “tempestade de luz” capaz de fazer emergir as idéias dentre o caótico e o desordenado do “corpus” da pesquisa.

Ricoueur (1976) adverte que, na interpretação, o sentido é dado por quem ouve, com a ajuda de quem fala. Isso representa dizer que o mal-entendido na compreensão é uma possibilidade natural devido à pluralidade de entendimentos possíveis, fruto da polissemia das palavras. Além disso, a linguagem não é um mundo em si, mas ajuda a revelar o mundo psíquico expresso em palavras e afetado pela vivência do sujeito no mundo. Deste modo, o discurso contém o locutor, da mesma forma que o mundo em que ele vive.

Os desafios da análise textual discursiva também são grandes, pois eles se iniciam muito antes do encontro do leitor com o texto. Primeiramente, há de se considerar que, como afirma Heidegger (1962 apud Ricoeur, 1976, p. 49), “[...] o primeiro que entendemos num discurso não é a outra pessoa, mas um “projeto”, isto é, um esboço de um novo modo de estar-no-mundo.” Esta forma de projetar-se no mundo – e é importante destacar – não reflete a vivência psíquica de alguém, mas a significação disso, isto é, o manifesto de um movimento dialético entre a experiência vivida e a experiência significada (RICOEUR, 1976). Este discurso, ou seja, esta tentativa de representar algo para alguém através do ato de falar foge, então, do domínio do emissor, passando, assim, a integrar também o campo de significados do receptor, de maneira indissociável (RICOEUR, 1977). Assim sendo, evidencia-se a incomunicalidade verbal do discurso significado (RICOEUR, 1976). Por esta razão, “O que pretendemos compreender não é o evento, na medida em que é fugidio, mas sua significação que permanece.” (RICOEUR, 1977, p. 47).

Segundo Japiassu (1977 apud RICOEUR, 1977), a análise proposta por Ricoeur é focada na vontade humana, objetivando a interpretação do Ser, enquanto síntese daquilo que é: essencialmente conflito. Para tanto, afirma que os caminhos deste autor vão além da realidade visível, indo ao encontro daquilo que somente as palavras podem expressar. Segundo ele, Ricoeur busca sentido naquilo que não é dito de maneira explícita, muito embora pudesse ter sido falado, deixando claro o papel da consciência e o reconhecimento da condição ideológica como mecanismos de produção de sentido. Desta forma, sobre este autor,

Japiassu (1977 apud RICOEUR, 1977, p. 1) afirma que “É um pensamento que recria, que se serve do pensamento dos outros como de um instrumento.”

A busca de possibilidades para a construção de novos de saberes para gestores estratégicos justifica-se devido à relação existente entre a sua própria ação, enquanto tomadores de decisões de elevada importância no contexto social, e as condições e rumos da sociedade e do meio ambiente. Entende-se que o primeiro passo para a busca por alternativas de solução seja uma profunda análise do problema. Neste sentido, Ricoeur (1976, p. 56) afirma que “A interpretação, entendida filosoficamente, nada mais é do que uma tentativa de tornar produtivas a alienação e a distanciação.” Segundo este autor, de maneira mais específica, a interpretação é fruto da dialética entre a explicação dos aspectos concretos do discurso e a compreensão de seus aspectos subjetivos.

O processo interpretativo de Ricoeur (1976, 1977) não possui a intenção de revelar a experiência tal como vivida por quem discursa. Para ele, compreender não é apreender um fato, mas sim uma possibilidade que se abre ao entrevistador. Tal fato torna possível a utilização daquilo que se fala sob o formato escrito para fins de pesquisa, observando-se que “[...] a escrita torna o texto autônomo relativamente à intenção do autor [emissor]. O que o texto significa, não coincide mais com aquilo que o autor quer dizer. Significação verbal, vale dizer, textual, e significação mental, ou seja, psicológica, são doravante destinos diferentes.” (RICOEUR, 1977, p. 53). Assim sendo, muito embora os discursos degravados dos entrevistados não reflitam suas experiências tal como vividas, mas suas significações e seus “projetos” e que a folha de papel não carregue consigo o contexto original dos falantes, admite-se, como o pesquisador, a validade do procedimento, observada a nova possibilidade, através do ato autônomo da leitura (RICOEUR, 1977).

Observadas estas considerações, realizadas as entrevistas e a textualização dos discursos, chegou-se a construção do “corpus” da pesquisa. O “corpus” constitui-se em “[...] produções lingüísticas, referentes a determinado fenômeno e originadas em um determinado tempo.” (MORAES, R., 2003, p. 4). Este conjunto de depoimentos mostrou-se fundamental para as proposições apresentadas nos capítulos finais desta tese.

O processo de análise textual discursiva, apresentado por Roque Moraes em seus diversos artigos (MORAES, 2001a; MORAES, 2001b; MORAES, 2001c; MORAES, R.,

2003; MORAES; GALIAZZI, 2001) divide-se, basicamente, em três etapas principais: a unitarização, a categorização e a elaboração do meta-texto. Nele, evidencia-se que a fragmentação dos textos é uma tarefa que se designa ao analista, no sentido que este seja capaz de ampliar as idéias originalmente dispostas no texto. Ainda que de maneira não tão explícita, Ricoeur (1976, 1977) também sugere processo semelhante para a interpretação de discursos. A partir da proposição destes autores, entende-se, uma nova configuração textual permite emergir novas interpretações daquilo que se pesquisa, oportunizando que o pesquisador se assuma como autor do produto que surge.

A indissociação entre sujeito e objeto é uma característica marcante no paradigma pós- positivista, ou pós-moderno, mas que parece encontrar ainda maior força nos métodos apresentados por Ricoeur (1976, 1977) e Moraes, R. (2003). Trata-se, mais do que inserir o pesquisador como parte ativa na criação do conhecimento, de assumi-lo como criador de novos significados. Segundo Moraes, R. (2003, p. 7), “Por mais sentidos que se consiga mostrar, sempre haverá mais sentidos.” e estes sentidos estão sempre condicionados ao sujeito, escritor ou leitor, e as suas teorias, sejam elas implícitas ou explícitas, não havendo neutralidade ou objetividade. Ricoeur (1976, p. 84), por sua vez, reforça a importância da compreensão, pois, em ciências humanas, “[...] a ciência tem a ver com a experiência de outros sujeitos ou outras mentes semelhantes as nossas.” Eis a razão para a necessidade da apresentação clara das perspectivas e das leituras do pesquisador, para que melhor se possa avaliar aquilo que ele produz, exigência que é respeitada e atendida ao longo deste trabalho, de maneira mais explícita entre os capítulos quatro e sete.

A unitarização é o procedimento de divisão de um texto em unidades de significado menores. Esta fragmentação pode resultar em unidades de análise maiores ou menores, dependendo da determinação do pesquisador. Ricoeur (1976) sugere que estas frações não sejam menores que o tamanho de uma frase, conservando, assim, o seu sentido e conteúdo. Ao “quebrar” o texto, pode-se partir orientado por alguma teoria, que acabaria por determinar certos conteúdos a serem perseguidos nos discursos, ou ainda pode-se realizar o procedimento de maneira livre, apenas estando orientado pelos objetivos da pesquisa. No primeiro caso, trata-se de uma pesquisa com categorias definidas “à priori”. Já no segundo caso, na ausência desta definição, diz-se trabalhar com “categorias emergentes” (MORAES, R., 2003). No presente estudo, evidenciado o possível surgimento de cinco categorias a partir da revisão bibliográfica, quais sejam, “Aprendizagem”, “Ensinar”, “Consciência Sócio-ambiental”,

“Mediação/Tutoria” e “Ética”, entendeu-se, inicialmente, ser a abordagem “à priori” adequada àquilo que se objetiva. Contudo, há de se considerar o cunho exploratório deste estudo, o que por si não torna prudente se estabelecer categorias de antemão. Assim, ao proporcionar a devida importância às vozes empíricas na elaboração dos caminhos que se pretende apontar, acreditou-se existir, também, a necessidade de se partir para a fragmentação do “corpus” levando em mente a possibilidade do livre surgimento de categorias, consideradas com maior potencial criativo por Moraes (2002).

A busca por categorias a partir de dois movimentos simultâneos de unitarização, a partir de classes estabelecidas “à priori”, bem como de um processo emergente, é reconhecido como válido por Moraes (2002, p. 6): “Alguns autores defendem a combinação das duas alternativas.” Assim sendo, foi a partir deste processo misto de unitarização que se chegou às categorias que compõem os capítulos finais deste documento.

Seguindo o processo de unitarização, as unidades obtidas devem ser classificadas com códigos, para que não se percam os seus textos de origem, nem a ordem em que estavam alocadas dentro dos mesmos. Então, são buscadas e destacadas palavras-chave que, posteriormente, servem para agrupar unidades, conforme os seus significados. Desta forma, torna-se possível reconstruir novos significados, a partir da superação da compreensão que poderia ser obtida por meio de uma leitura superficial, em prol da possibilidade da emergência de novas e mais profundas compreensões, o que é possível através de um processo de desconstrução, que conduza a totalidade do texto ao caos, resgatando-o novamente a ordem (MORAES, R., 2003).

A segunda etapa no processo de análise textual, a categorização, segundo Moraes, R. (2003), refere-se ao agrupamento de diferentes unidades com significado semelhante em uma mesma categoria. Em um primeiro movimento, são criadas categorias iniciais, orientandas, principalmente, pelas categorias formadas “à priori”. Então, com base no aprofundamento das vozes empíricas à luz das vozes teóricas, busca-se melhor responder aos objetivos da pesquisa, a partir da produção de “categorias emergentes”.

Ao contrário de estudos quantitativos, a análise textual exige uma postura dialética, tal como a defendida por Demo (1995). Isso significa dizer que se deve considerar o constante ir e vir entre o “corpus” e as categorias produzidas. Desta maneira, em pesquisas que trabalham

com categorias “mistas” ou “emergentes”, é bem provável que o aprofundamento no tema leve o pesquisador ao aperfeiçoamento de suas proposições e ao desenvolvimento de categorias intermediárias e categorias finais, tal como proposto por Moraes, R. (2003) e ocorrido na construção desta tese.

No movimento de criar e aperfeiçoar categorias, é fundamental que o pesquisador tenha sempre em mente o objetivo de seu trabalho, visto que, ao final do mesmo, deverá apresentar um relatório, no qual uma tese (proposição do autor) é esperada. Sendo necessário esta ser sustentada por um sistema lógico, Moraes (2002) propõe que cada categoria atue como um pilar lógico de sustentação, devendo cada qual conter um “argumento aglutinador”; ou seja, “teses parciais” que exercitam e constroem a “tese geral”.

Cinco atributos são colocados por Moraes (2001b) como necessários na produção de categorias. O primeiro e mais importante deles é validade ou pertinência. Apesar de diferentes aspectos conferirem validade a uma pesquisa, o autor destaca o papel fundamental da realização de uma revisão bibliográfica com amplitude suficiente para cobrir os assuntos relativos ao objetivo da pesquisa. O segundo quesito é homogeneidade, que consiste nos padrões utilizados para a determinação de categorias. Ainda que algumas sejam mais gerais e outras mais específicas, isso necessita ser resultado de um critério claro e único de escolha. Outro quesito relevante é a sua amplitude e precisão. A categorização deve ser feita em movimentos e não de uma só vez.

Pode-se afirmar que a ordem natural indicaria categorias mais restritas e precisas em seu conteúdo no início do trabalho, passando a categorias mais amplas e menos precisas ao final da categorização. Todavia, isso não é, em absoluto, uma regra, visto que a busca pela compreensão de um determinado fenômeno pode por vezes ocorrer de forma mais adequada por meio de um composto de categorias mais amplas e mais restritas. Assim sendo, resta, ainda, o desafio de como ordená-las, de modo a permitir uma mais eficaz redação do meta- texto. Neste sentido, Moraes (2001b) sugere que, no processo de categorização à priori, o pesquisador disponha as categorias das mais amplas às mais restritas, realizando exatamente o oposto no processo de categorização emergente.

Um quarto atributo diz respeito à profundidade e ao envolvimento do autor com os materiais pertinentes a pesquisa. Em outras palavras, exige-se que o conjunto de categorias

formado seja exaustivo. Por fim, o último quesito apontado pelo autor trata do princípio da exclusão mútua, que regra a questão da possibilidade de classificação de unidades de conteúdo em diferentes categorias no meta-texto. Neste ponto, Moraes (2001b) defende a viabilidade da inclusão de uma mesma unidade em mais de uma categoria, resguardando, assim, o texto de uma eventual abordagem fragmentada acerca dos fenômenos estudados.

A análise textual é um processo de autoria. “A pretensão não é o retorno aos textos originais, mas a construção de um novo texto.” (MORAES, R., 2003, p. 12). Portanto, é importante destacar que esta tese não buscou compilar opiniões, mas sim criar novos significados. “Como leitores, podemos ou permanecer numa espécie de estado de suspensão relativa a qualquer tipo de referido à realidade, ou podemos imaginativamente atualizar as potenciais referências não ostensivas do texto numa nova situação, a do leitor.” (RICOEUR, 1976, p. 92). Assim sendo, evidencia-se o embasamento metodológico empregado neste trabalho, essencial na compreensão de seus resultados.

O meta-texto mostra a interação entre o autor e outras vozes. Este processo, conforme afirma Marques (2001), necessita da convocação de uma comunidade argumentativa para que se faça ciência, visto que é somente no seio da sociedade que pode ocorrer o legítimo debate acerca das verdades postas. Assim sendo, o referido autor considera como interlocutores (ou “testemunhas”) nesta relação os pesquisadores, os membros do campo empírico e os teóricos. Para tanto, a realização de citações, tanto no caso dos sujeitos empíricos, como dos teóricos, trata de contribuir no sentido de demonstrar a efetiva presença e participação dos mesmos no processo científico. Fragmentos daquilo que foi escrito por outras pessoas ganham nova roupagem quando costurados pelo autor. Portanto, a realização de inferências, fruto de reflexão e abstração, é algo normal e que transfere autoria ao texto.

Ricoeur (1976, p. 57) adverte que a análise de textos não-científicos é tarefa mais complexa devido à presença de fatores não cognitivos. Desta maneira, a existência de conteúdos emocionais, por exemplo, podem resultar no que o autor denomina de “[...] excesso de sentido [...]” Assim, convém prestar atenção nas metáforas, devido à capacidade reveladora de significados que estas possuem. Segundo Beardsley (1958 apud RICOEUR, 1976, p. 58), a metáfora é “[...] um poema em miniatura.”

O diálogo entre as vozes empíricas e a base teórica empregada no estudo, tomando sentido singular a partir da interpretação do autor, torna possível a este “ressignificar” a produção textual. Segundo Marques (2001), a produção textual exige reflexão profunda, para que exista produtivo diálogo entre os textos dos discursos e os textos teóricos. Portanto, é da comunicação entre a teoria e a prática que nasce o argumento interpretativo consistente, devendo esta união efetivar-se de fato para que se atinja validade nos resultados da análise. Assim, “[...] compreender um texto, diremos, não é descobrir um sentido inerte que nele estaria contido, mas revelar a possibilidade de ser.” (RICOEUR, 1977, p. 33). Em outras palavras, de forma dinâmica, a interpretação de um texto possui a capacidade de revelar aquele que se coloca diante do texto.

Mais do que uma simples análise descritiva, um apanhado de fragmentos, ou uma reorganização destes, a análise textual trata do desabrochar de novos significados e entendimentos acerca de um determinado problema de pesquisa, a partir de um processo de autoria. Diferentemente do pesquisador positivista, nesta técnica, o autor busca mergulhar no universo do “corpus” disponível, para revelar uma dimensão de compreensão que é assumidamente sua. Em outras palavras, o desafio não se constitui em identificar a verdade contida nos discursos, mas sim construir uma tese, conforme a compreensão particular de um pesquisador-autor, a partir de argumentos que tiveram como referência os diálogos realizados entre as “testemunhas” empíricas e teóricas (MORAES, R., 2001a, 2001b, 2001c, 2002, 2003).

Interpretar um texto exige “ressignificá-lo” e isso é tarefa de quem o lê e não daquele que o escreveu, ou discursou-o. Nas palavras de Ricoeur (1977, p. 58, grifo do autor) “Aquilo de que finalmente me aproprio é uma proposição de mundo. Esta proposição não se encontra atrás do texto, como uma espécie de intenção oculta, mas diante dele, como aquilo que a obra desvenda, descobre, revela. Por seguinte, compreender é compreender-se diante do texto.” Ricoeur (1976) afirma que o interesse ao interpretar não se constitui em regressar a situação inicial do emissor, buscando desvendá-la. O importante é buscar revelar posições a partir das referências do texto. Assim sendo, “Compreender um texto é seguir o seu movimento do sentido para a referência: do que diz para o que fala.” (RICOEUR, 1976, p. 99).

As noções propostas por Ricoeur (1976, 1977) e apresentadas neste capítulo foram fundamentais para a produção desta tese, pois reforçam a importância da produção textual

como alternativa que alia método e criatividade na busca por soluções. “O texto fala de um mundo possível e de um modo possível de alguém nele se orientar.” (RICOEUR, 1976, p. 99). Além disso, estas noções possibilitaram ao autor desta tese colocar-se e assumir-se como parte do conhecimento por ele produzido. Contudo, há de se destacar que a liberdade concedida ao pesquisador não deve ser interpretada como permissão para o livre criar. Além de um compromisso com as vozes dos sujeitos empíricos e os fundamentos teóricos, Moraes, R. (2003) reforça a importância do rigor com que o estudo deve ser conduzido ao longo de todas as suas etapas, como condição para a sua validade e confiabilidade. Respeitadas estas condições, as “ressignificações” e conclusões do pesquisador-autor terão maiores chances de serem aceitas pelos demais cientistas.

Se por um lado Moraes, R. (2003) propõe um conjunto de técnicas e direcionamentos ao processo de análise e produção textual, por outro não imprime amarras no que se refere ao estilo do pesquisador, permitindo-lhe grande liberdade para exercitar a sua criatividade, preceito igualmente defendido por Ricoeur (1976, 1977) e por Marques (2001). Sobre esta