• No results found

I NDIVIDEN

In document NIKU Rapport 20 (428.4Kb) (sider 9-14)

Em 1984, Lótman publica o ensaio seminal intitulado “Acerca de la semiosfera” (1996) e, com ele, nos dá outra dimensão do que entendemos por

53 Há uma dimensão política governamental óbvia e outra nas entrelinhas, e esta última é a que

96 cadeias de textos, aprofundando conceitos que desde a publicação de Ensaios de semiótica soviética (1981) começavam a se delinear. O autor observou que há uma constante troca e acréscimo de textos e signos que povoam e delimitam aquilo que entendemos por cultura. Munido da biologia, ele cunha um conceito que engloba a esfera dos signos, ambiente este que possibilita a sua “vida” e que está em constante atualização. Numa operação binária, podemos concluir que, para que haja vida, a morte é necessária. A morte do signo não corresponde ao seu fim, mas sim à exaustão de seu significado, que pode assumir outro sentido; um texto biológico do século XVI passa a ter validade histórica, mas não mais serve à biologia propriamente dita.

Feitas tais considerações, podemos observar que a cultura se estabelece a partir de pressupostos de memória e esquecimento, de dentro e de fora, culto e inculto. Todas essas separações devem ser entendidas como trocas dinâmicas e constantes, releituras e aprimoramentos de determinados textos para que continuem a figurar uma parte deste corpo vivo que é a cultura. Em produção conjunta com Boris Uspiênski, Lótman coloca que:

O desenvolvimento dinâmico da cultura acontece sob a influência de dois tipos de fatores; de um lado, forças heterogêneas externas agem sobre ela; de outro, essa influência se traduz na língua de sua estrutura interna e, com relação a isso, sofre várias transformações, até mesmo a influência ativa das autodescrições da cultura citadas anteriormente54.

A cultura se forma, portanto, da intersecção de fatores externos a ela que são assimilados e convertidos em textos, de um lado, e da revisão de fatores já em voga na própria cultura, de outro. Semiosfera é o espaço que essas operações, a semiose, ocorre. O “Vocabulário básico de semiótica da cultura” (In. MACHADO, 2003) a define como “espaço de produção de semiose da cultura, portanto, de coexistência e coevolução dos sistemas de signos. [...] Em vez de linha demarcatória e divisória, fronteira designa aquele segmento de espaço onde os limites se confundem, adquirindo a função de filtro” (2003).

54

LÓTMAN, Iuri; USPIÊNSKI, Boris. “Postscriptum às teses coletivas sobre a Semiótica da Cultura”. In: MACHADO, Irene. Op. Cit. (pág. 136).

97 Não podemos pensar a cultura como algo organicamente organizado e que sucessivamente vai dando lugar a outros textos, mas como um fluxo de textos que são filtrados de acordo com a sua permissividade em estruturas nodais que resultam em uma consolidação do texto na forma de memória.

O que mais nos chama a atenção, contudo, é a previsibilidade de mobilidade interna à cultura que Lótman observa. O autor postula que determinados processos culturais estão mais próximos da fronteira. Todo novo conjunto sígnico que adentra em determinada semiosfera, portanto, estará mais próximo de sua periferia, e sua ascensão ao centro será dada a partir de uma série de fatores que irão concomitar em formas menos móveis e mais próximas do olvido.

Ao optar por práticas (estéticas, temáticas, processuais) que o direcionava às fronteiras, observamos que o punk rock sequer almejou uma posição concêntrica. O que está em jogo não é mais a transição de processos culturais que tendam a se aproximar do centro, mas o alargamento desta periferia em um campo experimental onde radicalizações estéticas sempre foram postas em prática (basta ouvir a função da voz sob uma perspectiva diacrônica para que isso se torne evidente). De certa maneira, ele se aproxima daquilo que o autor chama de “zona de bilinguismo cultural”, à qual atribui uma relação direta entre diferentes povos, muito comum a todas as organizações estatais que tiveram de lidar com o nomadismo externo a ela. Essas organizações fronteiriças tinham de lidar com os que estavam inseridos na parte de dentro, bem como com aqueles que vinham de fora, o que resultava na criação de “semióticas crioulizadas”, como afirma Lótman.

Essas relações entrevistas pelo autor perdem a potência quando do descaminho destes povos nômades vistos como guarnecedora de fronteiras terem tomadas outras dimensões e funções políticas. Contudo, isso não representa necessariamente o fim da produção de semióticas crioulas, mas aponta para uma maneira diferente em sua produção; a movência nômade, bem como sua relação com as fronteiras, se mostra por outras vias.

Na década de 1980, quando o globo assume as condições da aldeia McLuhaniana, essas estruturas semióticas deveriam emergir de dentro e

98 buscar fronteiras outras que as físicas. A marginalidade, portanto, assume outros aspectos e funções. Essas insurgências se dão a partir do emprego de dispositivos contra-hegemônicos. A idealização de um processo como o do-it- yourself vem como prova disso, pois seus princípios não deixam de gerar semióticas crioulizadas: observa-se um processo dominante, sobretudo em seus níveis organizacionais, convertendo-o em coisa de todos. Faz o mesmo com a energia daqueles primeiros punks que marcaram o movimento como uma manifestação mediática em 197655 e a converte em mercado

independente. Até mesmo a noção de anarquia detida por Johnny Rotten e seus companheiros é modificada e toma outras dimensões. Além disso, Margareth Thatcher passaria a assombrar essa juventude a partir de 1979, e sua figura seria decisiva para que novas diretrizes fossem assumidas. Talvez, sem sua presença, o punk não teria tomado o corpo que tomou ou teria florescido em outras partes do globo.

Sua consolidação se dá a partir da junção de cacos deixados por uma primeira incursão no terreno dessas periferias. Aqueles parcos representantes de outrora deram um primeiro passo até que, em 1979, o punk conheceu sua morte. Insistimos neste fato, pois, de certa maneira, a banda Crass tinha razão ao afirmá-la. Sua vida não seria possível pelas vias encontradas por Sid Vicious (Sex Pistols) ou por Joe Strummers (The Clash), mas precisava se pluralizar, partir-se ao extremo, tornar-se território de ninguém para que, assim, conhecesse sua sobrevida. É interessante notar, neste caso, que o punk se converte em um zumbi que atualmente atinge sua meia-idade em plena atividade, ainda sobre aqueles pressupostos do do-it-yourself (termo este que conhece hoje uma espécie de vulgata). Esta morte liga-se a um plano simbólico no que entendemos por vida. Se a entendemos a partir de um princípio biológico, ou seja, através da sucessão temporal ligada diretamente a um desenvolver corpóreo, de fato, o punk rock não apenas morreu, mas precisava morrer enquanto figura individual para renascer em uma massa incógnita.

55 Neste ano, as bandas Sex Pistols, The Damned, The Clash, Siouxie and the Banshees e

outras fizeram o primeiro grande concerto punk que mudaria os rumos do movimento, pois é a partir desta data que o punk rock conhece as graças mediáticas.

99 Tal fato se relaciona com os dizeres de Lótman de maneira muito curiosa, pois, como o autor prevê, os textos periféricos tendem a se aproximar do centro e, neste espaço, a engessarem-se em formas fechadas, caminhando para seu esquecimento. Como produto, se disseminou por todo o mundo, fazendo com que a imagem do punk se tornasse um lugar-comum, ganhando exposições e passarelas, mas se torna muito difícil saber o que é produzido no meio musical propriamente dito. Portanto, cria-se um estereótipo imagético, mas que não é revelador em outros aspectos, o que o impele automaticamente à posição semiosférica que não transpôs.

O punk atingiu sua condição imagética ante o mundo, mas suas músicas nunca o fizeram. Tal fato evidencia que os principais textos gerados por tal processo cultural implicam uma posição semiosférica que se estabelece em sua região fronteiriça, pois, além do que foi colocado no capítulo anterior, ele também situa seus observadores em um ponto no qual é preciso lidar com a intersecção de um espaço semiótico onde a série se afirma por elementos externos: a fome, a guerra, o horror. Ao mesmo tempo, sua criação estética se dá em situações limites do que entendemos por canção: aqui entra o grito, a micromúsica, a falta de domínio técnico, sua multifacetação e movência de estilos e pessoas.

Lótman coloca que “a cultura cria não apenas sua própria organização interna, mas também seu próprio tipo de desorganização externa” (1996); e, ao olharmos para o punk rock inserido em determinada semiosfera, vemos que ele está fadado à margem porque, como o autor afirma:

Nos setores periféricos, organizados de maneira menos rígida e possuidor de construções flexíveis “deslizantes”, os processos dinâmicos encontram menos resistência e, por conseguinte, se desenvolve mais rapidamente. A criação de autodescrições metaestruturais (gramáticas) é um fato que aumenta bruscamente a rigidez da estrutura e faz seu desenvolvimento mais lento. Entretanto, os setores que não foram objetos de uma descrição ou que foram descritos em categorias de uma gramática “alheia” obviamente inadequada a eles se desenvolvem com mais rapidez. Isso prepara no futuro o traslado de uma função de núcleo estrutural à periferia da etapa precedente e a conversão de antigos centros em periferia56.

100 Os textos que ocupam a posição concêntrica estipulada pela organização interna da semiosfera se dão, portanto, em função de uma divisão hierárquica móvel. Quanto maior a sua compreensão, maiores são as possibilidades autodescritivas de sua mensagem e há, portanto, menor liberdade criativa. A periferia oferece uma gama maior de possibilidades, cabe a ela uma zona criativa da cultura que Edgar Morin (1991) opõe à normalização. Por sua óbvia tendência normopata, a fatia da semiosfera que cabe ao punk é uma delgada parte da periferia em constante ebulição.

É claro que, ao fazermos tal afirmação, não a estamos pensando através de termos pejorativos ou injustos. Fica claro que não se trata apenas da operação prevista por Lótman de traslado de uma posição periférica a uma central, mas da criação de estratégias que façam dessa posição inicial um campo de experimentação capaz de se alargar a ponto de observar tal espaço não como uma condição, mas como um direito.

In document NIKU Rapport 20 (428.4Kb) (sider 9-14)