Kapittel 8 Eksempler på pedagogiske relasjoner hos Williams og
8.2 Hvordan Williams ble møtt
Nesse momento, convém debruçar-se um pouco mais sobre a crítica da utopia e as circunstâncias que apontam para a necessidade de uma ética da responsabilidade.
Ainda considerando a imagem promissora do ideal utópico, não se pode ignorar o fato de que, independentemente da probabilidade de sucesso das promessas da utopia, diante dos avanços técnico-científicos que a história tem testemunhado e em presença de seu atual estágio na sociedade tecnológica, torna-
77 JONAS, Hans. Op. cit., p. 265. 78 Ibidem, p. 265-266, grifo nosso. 79 Ibidem, p. 266, grifo nosso.
se plausível que ainda se observará “um aumento contínuo dos conhecimentos e de suas aplicações”, em direção a um “futuro indefinido”80. Entretanto,
[p]ara uma economia universal “de abundância com lazer”, como prevê a utopia, seria necessária uma extraordinária elevação da potência da produção e da técnica. Suponhamos que essa possibilidade exista, aí se incluindo todos os avanços tecnológicos que permitiriam superar as atuais dificuldades [...]. Mas é exatamente aí, quando reina o maior dos otimismos em relação ao crescente poder humano, que se impõe a verdadeira questão.81
Questão que se inscreve na busca em saber quanto dessa exploração contínua e agressiva a natureza seria capaz de sustentar. Em suma, quais os limites
de sua tolerância.
Independente do programa ou da “facção” da qual se origine a exploração, seja ela de “direita” ou “esquerda”, importando aqui a possibilidade e o fato de tal agressão, resta saber se a utopia a ser alcançada encontra-se inserida nos limites da exploração dos recursos naturais e materiais da natureza ou aquém de sua tolerância82– se é que a sociedade tecnológica atual já não os tenha ultrapassado.
Promovendo um diálogo entre as diferentes disciplinas que gravitam em torno da ciência ecológica, Jonas descreve brevemente e de maneira incisiva quais os aspectos que fundamentam a problemática natural em relação ao progresso da técnica e do ideal utópico de “abundância”. Cabe aqui, tendo em vista os objetivos propostos, apenas ilustrar suas principais considerações em torno da questão.
Para tanto, desde uma perspectiva natural, os problemas a serem destacados contemplam quatro direções:
80 JONAS, Hans. Op. cit., p. 300. 81 Idem.
1) Alimentar: o problema da distribuição alimentar, dada a “magnitude atual da população planetária”, requer, mesmo sem a circulação do ideal utópico, “o emprego maciço dos fertilizantes artificiais”, os quais, advindos “de uma agricultura cada vez mais intensiva e expansiva”, soma-se à “salinização dos solos pela irrigação constante, a erosão provocada pela aragem dos campos, as mudanças climáticas decorrentes do desmatamento”83;
2) Matérias-primas: para além da questão da inesgotabilidade das
reservas minerais e de superfície, sendo óbvio o limite desta última, o problema reside na energia dispensada para a extração de tais fontes, “que já assume dimensões ameaçadoras”, e, certamente, “nas consequências da sua utilização para a biosfera”84;
3) Energético: em relação as combustíveis fósseis, além da proximidade
de seu esgotamento, sua queima produz de uma só vez “o problema da poluição local do ar” e “o problema do aquecimento global”, isto é, o “efeito estufa”. No que diz respeito às fontes de energia renovável, será possível satisfazer apenas “uma fração da voracidade energética da civilização moderna” como “um imperativo urgente, a fim de poupar as demais” fontes. Já em relação à energia nuclear, supondo que seja possível a manipulação da fusão nuclear controlada e economicamente viável, esta “traria a liberdade para multiplicar à vontade o atual consumo de energia”, no entanto, o risco de uma manipulação ineficiente deveria ser levado em consideração85;
83 JONAS, Hans. Op. cit., p. 302. 84 Ibidem, p. 302-303.
85 Ibidem, p. 303-305. Para esse destaque ambiental, mesmo que o uso, por exemplo, da energia
nuclear para fins pacíficos possibilitasse poupar “nossos descendentes dos grandes sofrimentos decorrentes de uma regressão econômica” e, ainda, assegurar “de forma permanente a satisfação da demanda global”, seu uso positivo (sem apelo à ironia) certamente levaria a um mesmo fim
4) Questão térmica: o problema da utilização de energia é que “o resultado térmico do seu emprego poderia alcançar dimensões potencialmente críticas sobre o globo terrestre”, tendo como consequência ainda o efeito estufa, o que evidencia “a impossibilidade de contornar essa causalidade em qualquer invenção técnica”86.
A questão mais preocupante, nesse caso, está nos excessos que o desejo utópico de progresso implica. A impossibilidade da satisfação total do bem-estar oferecido pelo ideal socialista, nas proporções globalizantes e desastrosas de consumo, poderia implicar um resultado senão maior ao menos de similar magnitude ao poder de catástrofe desenvolvido pelo ideal de consumo capitalista.
Dessa forma, a necessidade da renúncia à um horizonte de utopia – à sua agenda de fins últimos – se faz presente, pois, ao mesmo tempo em que “seus esforços conduzem à catástrofe”, “[...] ela não pode perdurar por um período de tempo que valha a pena”87.
A explanação das implicações do ideal utópico abarcaria, ainda, três aspectos:
Primeiro, [...] não se deveria esquecer que a situação imaginada pelo ideal utópico poderia ser realizável e “fisicamente” viável sob uma condição: com a manutenção de um número suficientemente baixo ou mesmo reduzido de seres humanos! Caso não se recue diante dos meios violentos e monstruosos necessários a tal, seria possível erigir uma ilha de bem-aventurados, reservada aos “eleitos sobreviventes”, por cima dos incontáveis cadáveres dos eliminados. [...] Em segundo lugar vem o fato de que o desejo, armado com a força da doutrina, pode colorir a avaliação dos fatos e das suas possibilidades. [...] A própria ciência que fornece os prognósticos indesejáveis poderá ser acusada de serviçal dos inimigos de classe: a verdadeira ciência leria de outra forma o texto da realidade.
catastrófico quanto o uso do mesmo tipo de energia para fins militares. Cf. JONAS, Hans. Op. cit., p. 307-308.
86 JONAS, Hans. Op. cit., p. 305-306. 87 Ibidem, p. 308.
[...] Além do perigo de uma crença que não se abala diante de nenhum ceticismo, resta o perigo da decepção: o perigo do desespero, quando o ceticismo despertado só revela uma inacessibilidade externa do ideal, sem evidenciar sua inconsistência interna. Porque desde que o ideal possua uma verdade, esta considerará todas as situações, salvo ela própria, como indignas dele, [...] [sendo] prejudicial do ponto de vista moral e contemplativo, encarar que a natureza, genitora do homem, cerceou seu direito de nascença [...].88
Tais aspectos obrigam o exame e a confrontação dos conteúdos positivos e negativos do ideal utópico. O contraste entre esses dois polos constitui o ideal utópico, uma vez que este “prescreve o humano” não de acordo com o que é idealizado a partir da imagem do homem presente, no interior “daquilo que a humanidade já existente apresentaria como o melhor [...]”, mas justamente como algo novo. Para Jonas, a crítica feita por Ernst Bloch por uma “ontologia precisa” sobre “o ainda não” permite uma aproximação maior do problema vinculado à utopia do que a crítica feita sobre o “aqui agora” – reflexão que pondera sobre o “caráter desejável da utopia”89
Para a devida explanação sobre tal reflexão, a pergunta que surge é: “o que significa e como se pode conceber a ideia de que tudo o que o homem pode e ‘deve’ ser não aconteceu até agora, podendo apenas acontecer no futuro? ”90 Na procura de respostas, a suposição de que esse “dever ser” se estabeleceria a partir do progresso da civilização se mostraria incorreto, considerando que tal afirmação implicaria estipular um progresso contínuo do desenvolvimento atual, contradizendo a ideia da esperar por algo novo. Por conseguinte, considerar essa afirmação
88 JONAS, Hans. Op. cit., p. 308-309. 89 Ibidem, p. 310.
indicaria o indeferimento de “uma revolução negadora e inovadora” interiorizado por esse “vir a ser”91.
Nas palavras de Jonas, a fórmula concisa de Bloch em torno do aprofundamento desse “vir a ser” é regida pelos seguintes pressupostos:
“S ainda não é P” (o sujeito ainda não é o seu predicado), onde o ser-P é aquilo não só a que S pode chegar, mas deve chegar, de modo a realmente ser S. Enquanto ele não for P, ele ainda não é ele mesmo (este é o “não”). Essa fórmula está ontologicamente alicerçada no conceito de “tendência-latência”, segundo o qual pulsa em S um desejo dessa realização de si – desse P –, ou seja, existe aí uma teleologia secreta (daí o sonho, com o seu “sim”).92
Quando, para Bloch, afirma-se que para “o ainda não” torna-se possível sê-lo em sonho – diferentemente de uma abordagem aristotélica que, por exemplo, concebe que o “automovimento do Ser” tenha “um fim imanente em si, imposto por sua natureza particular” e realizado no curso pelos indivíduos que o promovem, provocando “o eterno retorno dos diversos programas de seres em um universo acabado”, e, mesmo diferentemente do que propõe a epistemologia marxista onde “não só os indivíduos, mas as espécies, e mesmo a sua totalidade são mutáveis, e sua potencialidade é aberta ao novo, ao que nunca foi”, mas que, no entanto, “tampouco é a abertura para o novo como tal e sua atualização como fim em si” –, o que propõe Ernst Bloch é que “o futuro é a palavra-chave no status provisório, no ‘ainda não’ de toda história passada”. Ainda assim, tal palavra-chave não quer implicar, como em Heidegger, uma “futurabilidade” que supere o passado “como uma etapa preparatória”93.
91 JONAS, Hans. Op. cit., p. 337 92 Ibidem, p. 338.
Nos moldes de Bloch, a concepção da palavra futuro remete ao que esta comporta em relação à “prefiguração do justo”, que se torna perceptível “a partir de uma visão retrospectiva no futuro de uma sociedade sem classes”. E nada melhor do que a arte para indicar essa prefiguração: “aí, a arte não mais aparecerá como ‘solução prematura para contradições sociais no jogo luminoso’, como ‘divertimento ideológico de ordem superior’, mas exatamente como tal prefiguração”94.
Dessa forma, as obras culturais devem “se abrir estrategicamente [...], como caminho experimentado e conteúdo de esperança sabida”95.
Feitas algumas breves digressões pelo pensamento de Bloch96, e para entender o “ainda não ser” do homem comum, Jonas propõe que se deve respeitar inteiramente a verdade de que o “homem verdadeiro” sempre tenha existido. E, quer queira quer não, que ele tenha sempre existido em sua ambivalência, o que faz e sempre fará parte de sua constituição como homem. Nessa linha, para Jonas, em contraposição ao ideal utópico,
[o] verdadeiro homem utópico, que se tornaria unívoco, só poderia ser o homúnculo da futurologia social-tecnológica, vergonhosamente condicionado para se comportar e se sentir bem, adestrado no seu âmago para submeter-se às regras. [...] Bem ao contrário do escatológico “princípio esperança”, deveríamos desejar que também no futuro toda satisfação produza uma insatisfação, toda posse, um desejo, toda paz, uma intranquilidade, toda liberdade, uma tentação [...]. Esse me parece que deva ser o sonho do verdadeiro homem, nutrido pelo passado, que é capaz de apresentá-lo in actu, e não pela previsão do futuro [...]. Portanto, o futuro não nos poderia trazê- lo, mas, no melhor dos casos, preservá-lo com o objetivo de uma repetição não distorcida, de modo que continue havendo homens e um futuro [...].97
94 Prinzip Hoffnung, II, p. 559 apud JONAS, Hans. Op. cit., p. 340, grifo nosso. 95 Ibidem, p. 179 ss apud JONAS, Hans. Op. cit., grifo nosso.
96 Para um aprofundamento das considerações de Ernest Bloch ver: BLOCH, Ernest. O princípio
esperança. 3 vol. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.
Ao tomar este caminho, Jonas propõe, para que seja possível a “desocultação” deste homem verdadeiro, o qual se constitui in actu, que se leve em conta que o erro básico da utopia se encontra arraigado em seu próprio pressuposto antropológico, naquilo concebido como o Ser do homem. Em comparação com a larva que aguarda para se tornar uma borboleta, de maneira totalmente diferente o presente do homem “é sempre inteiramente pleno nessa presença problemática que
ele é”, e, portanto, inseridos nessa problemática, “devem se movimentar as esperanças e os temores, as expectativas para os indivíduos singulares e para a humanidade”98.
Em segundo lugar, ao tratar o passado como fonte de conhecimento sobre o homem, o que deve ser apreendido de sua essência encontra-se justamente naquilo que constitui o próprio homem, ou seja, “o que ele pode ser, positiva ou negativamente”. Dessa forma, “todos os ‘ainda não’ que realmente estiverem ocultos naquilo que foi (sobre o qual aquilo que foi não nos pode dizer nada a respeito) vão aparecer como surpresa no momento da realização do projetado”, sendo seu resultado agradável à vista ou não, pois, “nenhum dos ‘ainda não’ encarna teleologicamente uma finalidade prefixada da sua natureza”99.
Nessa direção, diante da impossibilidade de prever o resultado da realização que se projeta do homem, é necessário renunciar à ideia de que para o homem seja possível estabelecer uma “natureza” definida, onde este esteja condicionado ao caminho “bom” ou “mau” a ser trilhado. Para Jonas, na verdade, o homem tem aptidão tanto para ser bom quanto para ser mau, “e mesmo as duas ao mesmo
98 JONAS, Hans. Op. cit., p. 344. 99 Ibidem, p. 345.
tempo”, restando à humanidade a única tarefa, nessa questão, de não esperar “mais do que aumentar as possibilidades do bonum humanum”100.
Em seguida, em presença do fato de que o mal é “incomparavelmente mais fácil de ser identificado do que o bonum”, para viabilizar a “indispensável melhora” da presentibilidade do homem, “é necessário liberar do engodo da utopia a exigência
de justiça, de bondade e de razão”. Destarte, valendo-se de uma abordagem realista, em lugar de uma ótica pessimista, “ao otimismo inclemente opõe-se o ceticismo misericordioso”. E, para entender o “ceticismo misericordioso”, Jonas traz o exemplo da obra de Dostoievski, os Irmãos Karamazov, evidenciando, “a título de comparação, o dogma cristão do pecado, que entende que este não pode desaparecer do Ser do homem, mas que pode ser perdoado”, sendo este “um exemplo de ceticismo misericordioso”101.
Enfim, para que seja possível a apreensão do “homem verdadeiro” em sua especificidade, “a ideia de uma ‘pré-história’, cujo fim seríamos nós e da qual seríamos o meio para se chegar a esse fim definitivo”, deve ser abandonada, pois pensar a concepção de um estado definitivo se esgota em sua própria impossibilidade de alcançá-lo “(e, caso ele exista de forma oculta, não teríamos como descobri-lo)”. E, de maneira urgente, deve-se ter em mente a percepção de que, tal como foi em todo o passado, “todo o presente do homem é seu próprio objetivo”, e, assim, “cada Ser verdadeiro diferente deverá se afirmar ou se negar por meio de sua própria evidência”102.
Próximo do epílogo de sua obra, Jonas explica sua crítica à utopia, uma vez que esta se encontra substancialmente vinculada à crítica da tecnologia e que a
100 JONAS, Hans. Op. cit., p. 345-346. 101 Ibidem, p. 346.
tecnologia, por sua vez, contém uma dinâmica próxima do utópico. Desse modo, a efetivação de uma crítica da utopia torna-se viável na medida em que a crítica da tecnologia é efetivada, “na antecipação de suas possibilidades extremas”. Assim, o vínculo entre as duas críticas se estreita para dar voz “à fundamentação da alternativa que nos incumbe”, qual seja, “a da ética da responsabilidade”, que, atualmente, “após séculos de euforia pós-baconiana e prometeica, de onde se originou também o marxismo, deve segurar as rédeas desse progresso galopante”103.
Nesse momento, para afirmar o que se conclui e em defesa da contenção desse progresso que ameaça extinguir a raça humana e toda a biosfera, Jonas é categórico: “conter tal progresso deveria ser visto como nada mais do que uma precaução inteligente, acompanhada de uma simples decência em relação aos nossos descendentes. Se não o fizermos, a natureza o fará, de maneira terrível”104.
Por outro lado, pensar, assim como antes se imaginava, que o “progresso” científico-tecnológico possa levar ao domínio humano sobre a natureza, cabendo a ela unicamente disponibilizar-se inteiramente ao progresso – as circunstâncias revelam a catástrofe que se anuncia nessa postura –, e seguir a concepção utópico- marxista de que seu ideal seja “destinadamente” alcançável permite supor que, no mínimo, a crítica empregada até o momento “teria sido em vão”.
O que o “espírito da responsabilidade” procura realizar é rejeitar “o veredicto prematuro da fatalidade por ter assumido o rumo ‘da história’”105.
Dessa forma, propõe Jonas,
103 JONAS, Hans. Op. cit., p. 349, grifo nosso. 104 Idem.
[a]lém da crítica da sua visão final, a crítica da utopia também nega a tese de que a história esteja destinada àquela visão final. Portanto, ela atribui à responsabilidade aquilo que subtrai à necessidade. Se assim for, fará diferença no nosso “destino”, não importa o quanto houver nele de imutável, se virmos uma determinada perspectiva com alegria ou com pesar, se respondermos positivamente ou negativamente: se incentivarmos certos desenvolvimentos ou tratarmos de freá-los, se buscarmos orientá-los em uma ou outra direção, mesmo que não dominemos inteiramente a situação.106
Nesse contexto, quais seriam as ações a serem executadas para que se possa, efetivamente, configurar a ética da responsabilidade? Certamente, por um lado, a possibilidade de que a crítica da utopia “possa exercer alguma influência” na tentativa de “retificar a maneira de pensar e a vontade, ela própria já se torna uma ação inserida na ética da responsabilidade”.107
Em seguida, a fim de estabelecer uma cumplicidade com a “ética não-utópica da responsabilidade”, é preciso contrapor ao princípio esperança – o qual termina por distanciar o indivíduo de seu futuro, ou seja, do “homem verdadeiro” que se encontra tanto no passado quanto no homem presente – o princípio responsabilidade, “e não o princípio medo”. Contudo, a familiaridade com o medo é igualmente necessária, diferentemente do era no passado, “quando se podia desprezá-lo como uma fraqueza dos pusilânimes e dos medrosos”108.
Assim, as condições do medo, da esperança e da responsabilidade (pelo desconhecido; a coragem para assumi-la) tornam-se os pilares centrais para sustentar a prática de uma ética da responsabilidade. De um lado, a esperança configura-se como “condição de toda ação, pois ela supõe ser possível fazer algo e diz que vale a pena fazê-lo em uma determinada situação”. No entanto, dado seu caráter incerto, aliada à esperança deve-se ter a “coragem para assumir a
106 JONAS, Hans. Op. cit., p. 350. 107 Idem.
responsabilidade”.109 Já o medo integrado pela responsabilidade se constitui justamente num movimento que convida a agir, ao contrário de aconselhar pela inação, ou seja, “trata-se de um medo que tem a ver com o objeto da responsabilidade”. Dessa maneira, à medida que a responsabilidade se expressa no “cuidado reconhecido como obrigação em relação a um outro ser”, o medo pode ser individualizado na preocupação reservada à vulnerabilidade do objeto a ser “preservado”110.
Entretanto, para que o medo despertado não se desvaneça em sua própria insegurança, torna-se imperativa a concretização de uma “heurística do medo”, capaz não só de descobrir ou representar “o novo objeto como tal, mas que tome conhecimento do interesse moral particular, ao ser interpelado pelo objeto [...]”111.
Portanto, dirá Jonas, “jamais deveríamos confiar o nosso destino àquele que considere que essa fonte da responsabilidade, ‘o medo e o tremor’ [...], não seja suficientemente digna do status do homem”112.
Finalmente, a importância em resgatar o respeito se dá na medida em que ele possibilita ao homem se proteger contra a desonra do presente “em nome do futuro”. Assim,
[o] paradoxo da situação atual está em que precisamos recuperar esse respeito a partir do medo, e recuperar a visão positiva do que foi e do que é o homem a partir da representação negativa, recuando do horror diante do que ele poderia tornar-se, ao encararmos fixamente essa possibilidade no futuro imaginado113.
109 JONAS, Hans. Op. cit., p. 351. 110 Ibidem, p. 351-352.
111 Ibidem, p. 352. 112 Idem.
Permitindo-se, desse modo, que por meio do respeito não se deseje comprar o futuro ao preço do presente, tanto a esperança quanto o medo devem nos afastar de adiar “o objetivo verdadeiro [...] e entrementes arruinar tal objetivo, em virtude dos meios”. Em razão dessa gravidade, “os meios que não respeitam os homens do seu próprio tempo fariam isso”114
É na união destes três elementos fundamentais que se configura a necessária proteção do patrimônio objetivado, “em sua exigência de permanecer semelhante ao que ele é” – de maneira que “protegê-lo da degradação é tarefa de cada minuto”.115
Assim, garantir a integridade de tal patrimônio naquilo que constitui o seu