5. Case
5.2 Torggata gågate
5.2.2 Hvordan skjer vareleveransen i Torggata gågate?
O que primeiro chama a atenção, na apresentação feita por Isaacs para justificar a ampliação que será feita do conceito de fantasia pelo grupo kleiniano, é ela recorrer ao observável dos fatos em primeira mão, o que se acrescerá, para publicação, de toda uma parte inicial agregada ao texto original que tratará dos métodos de estudo, que incluirá, além do método clínico psicanalítico, métodos de observação do comportamento de bebês. À fantasia é dado desde já um estatuto de fato ligado a observáveis, referentes ao comportamento do bebê no momento da observação. Mas na fundamentação kleiniana, a fantasia tem estatuto de fato psíquico, e não é apenas uma inferência dos observáveis, conforme criticavam os opositores de Klein, ela é a realidade psíquica manifestada nos observáveis.
O pensamento kleiniano, indica Isaacs, recorre ao texto freudiano para fundamentar a fantasia inconsciente enquanto realidade psíquica (o que já procurei aprofundar no capítulo anterior), mas vai mais para trás com o conceito, estendendo-o em direção a fantasias inconscientes primárias, no sentido de iniciais, primitivas, que diferirão completamente das fantasias originárias ou protofantasias de Freud, pois as fantasias primárias kleinianas não são necessariamente associadas a um sentido filogenético edípico do mito totêmico (horda primitiva) como são as protofantasias de Freud. Em Klein as fantasias primárias se alicerçam na filogênese via conhecimento inconsciente do organismo, ocorrem desde o nascimento, mas não têm a conotação exclusivamente edípica que têm em Freud. Elas podem se manifestar inclusive muito antes do Édipo primitivo kleiniano. Elas, as fantasias inconscientes primárias, podem ser anteriores ao Édipo primitivo, que só se dará a partir dos três meses de idade. Por sua vez, aquelas se dão desde o início da vida, caracterizando inclusive o início da formação do superego arcaico que se dá neste período, antecedendo ao Édipo primitivo146. A estas fantasias primárias também é dada sempre a conotação de realidade psíquica.
146 KLEIN, Melanie (1952a). Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê. In:
_____ (1975). Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Obras completas de Melanie Klein. Tradução da 4 ed. inglesa por Elias Mallet da Rocha Barros, Liana Pinto Chaves (Coords) e
Isaacs mostra que o valor do termo fantasia é o de dar ênfase ao caráter psíquico dos processos aos quais se refere, ao “caráter especial dos processos mentais quando comparados aos processos físicos”, que “é o fato de terem
significado”147. Enquanto os “processos físicos”, diz Isaacs, têm existência, mas não significado. Isaacs usa um argumento indiscutível, o de que dá preferência ao uso do termo fantasia para referir aos processos psíquicos, pois considera que o uso de termos como processo, ou então energia, não deixam de ser necessários para certos fins, mas, entretanto, “não expressam essa qualidade essencial e distintiva de ter significado”, o que faz com que seja preciso usar adjetivações do tipo “processo mental”, “energia mental”. A palavra fantasia marca o “caráter distintivo de significado na vida mental”148.
Esta colocação caminharia no mesmo sentido de meu conceito de angústia
somática, fundamentado freudianamente na Dissertação149 por mim, em que na manifestação somática da angústia não haveria elaboração psíquica, ou seja, nenhum sentido. Conforme meu trabalho anterior, o aspecto puramente econômico é sem significado. Para o conceito de angústia somática, estruturado pela metapsicologia freudiana, os aspectos somáticos (não físicos150) são sem significado. Há um aspecto sem significado no afeto angústia que é a angústia em seu vértice somático, que é um representante psíquico afetivo da pulsão que se expressa no soma ou na conduta.
Retomo que aqui nesta pesquisa estou justamente investigando a possibilidade do contrário: De a fantasia primária ser aquela que é composta de
angústia somática e que poderia dar a esta um sentido, mas sem a elaboração psíquica como esta é pensada através do pensamento freudiano. E que, no entanto, tanto a fantasia primária como a angústia somática, ambas são sem sentido para o psiquismo do bebê ou de quem as vivencia. A fantasia primária seria agora proposta como um estado de angústia somática em que a própria fantasia também é somática.
147 ISAACS, Susan (1943/1998). Op. cit., p. 283, passim. 148 Ibid., p. 284.
149 PERSICANO, Maria Luiza Scrosoppi. Op. cit., 2004a.
150 Utilizo o termo somático e não físico. Discordo do uso do termo físico, pois físico,
A própria Isaacs começa a sua apresentação com aquelas afirmações de que os processos somáticos têm existência, mas não têm significado, para depois, no próprio texto, apresentar as fantasias presentes na experiência sensorial e lançar as bases de fantasias com significado primário presentes nos aspectos somáticos. Tudo aponta para um lugar para fantasias primárias concretas, cujo sentido é vivido em concretude. Uma concretude do sentido. Assim, já na parte inicial do texto que trata da observação de bebês, vê-se que Isaacs atribui às sensações do bebê, como fazendo parte do fantasiar primitivo:
[...] Temos de atribuir um peso muito maior à vivência de hostilidade para com o mundo externo durante um período considerável do desenvolvimento inicial, do que temos feito. As ocasiões em que o bebê, em seus movimentos de vigília (exceto os da alimentação e do cochilar), sente o mundo como desagradável, parecem ser muito mais comuns e “normais” do que julgávamos. Os dolorosos “não-eu” não são meramente alfinetes ou migalhas acidentais e ocasionais. Nos dois primeiros meses parecem existir mais “não-eu” dolorosos de toda a espécie, do que experiências prazerosas que podem ser estabelecidas dentro do ego-prazer primitivo.
São estas sensações e sentimentos que formam a base dos medos persecutórios do bebê, de suas fantasias de ser atacado por uma mãe “má”. Sua própria raiva e desejos destrutivos, projetados na mãe, servem para aumentar seus temores de ser atacado por ela. E cada frustração, cada falha por parte dela em remover qualquer fonte de dor, bem como em alimentá-lo e confortá-lo, reforça sua representação da mãe como a mãe “má”. Como sabemos, por análises posteriores, ele identifica a mãe que não remove a origem da dor com a própria dor, assim como identifica a mãe que o alimenta e remove os estímulos dolorosos, tornando-o confortável e feliz, com seu próprio prazer e felicidade. Em bebês bem cuidados e normais, a fantasia da “boa” mãe torna-se cada vez mais firme à medida que a capacidade de
prazer ativo do próprio bebê aumenta tanto quanto sua percepção da mãe real quando esta cuida dele.151
Isaacs traz outro exemplo da concretude das fantasias primárias, que se tornou clássico, quando trata das manifestações motoras e comportamentais da criança pequena que implicam em uma fantasia, que toma como prova de que “uma fantasia pode ser sentida – e sentida como real, muito antes de poder ser expressa em palavras”:
Uma menina de um ano e oito meses, com fraco desenvolvimento da fala, viu um sapato da mãe em que a sola se desprendera e ficara pendente. A criança ficou horrorizada e gritou com terror. Durante uma semana, encolhia-se e procurava fugir, gritando, se via a mãe com quaisquer sapatos que fossem e, por algum tempo, só tolerava se a mãe calçasse um par de chinelos caseiros de cores vivas. Aquele par ofensivo não foi calçado durante meses. Gradualmente, a criança esqueceu o seu terror e deixou que a mãe calçasse qualquer espécie de sapatos. Aos dois anos e onze meses, porém, ou seja, quinze meses mais tarde, ela subitamente perguntou à mãe, numa voz aterrada: “Onde estão os sapatos quebrados da mamãe?” A mãe respondeu apressadamente, temendo outra gritaria, que os jogara fora, e a criança comentou então: “Eles poderiam ter me comido toda.”O sapato com a sola despregada fora visto pela criança, portanto, como uma boca ameaçadora e ela reagira ao mesmo tempo como tal, quando tinha um ano e oito meses, embora a fantasia não pudesse ser traduzida em
palavras senão um ano depois.152
Assim, a fantasia, enquanto realidade psíquica tem sua própria objetividade, muito antes do surgimento da fala e até mesmo antes da compreensão da palavra, o que implica em fantasias primárias ligadas à
151 ISAACS, Susan (1943/1998). Op. cit., p. 313-314. 152 Id. (1952). Op.cit., p. 104-105.
sensorialidade, como no primeiro exemplo. Por outro lado, a compreensão da palavra pela criança antecede em muito o emprego da palavra pela fala, podendo haver fantasias com sentido de palavras muito antes de a criança falar, como no segundo exemplo.
Isaacs observa, com propriedade, que quando há a insistência, por parte dos psicanalistas, de se denominar a realidade externa de realidade objetiva está havendo um questionamento da realidade psíquica da fantasia em sua objetividade enquanto fato mental. Aí há um preconceito em favor da realidade externa e de nossas orientações conscientes no sentido daquela. Coloca-se aí a fantasia como algo irreal, contrastando com o que é real, considerando este último como o que acontece de fato com uma pessoa. No texto publicado em 1952 aponta que há, nesta atitude, uma depreciação da realidade interna do mundo interior que é típica da “atitude do ego na vida civilizada corrente dos dias de hoje”153, apreciação ainda mais atual hoje.
Entretanto, a psicanálise kleiniana considera que o que acontece de fato com uma pessoa é o que acontece em seu mundo interno de fantasias. O mundo íntimo da mente, o mundo interno, possui uma realidade contínua e viva que lhe é própria, com suas leis e características dinâmicas, diferentes das do mundo externo. Esta visão global a respeito da vida mental como um todo, do mundo interno de fantasias, do mundo íntimo da mente, coloca a questão, de quando e sob que condições a realidade psíquica está em harmonia com a assim denominada realidade externa, mas isto se torna apenas e unicamente uma parte da questão. Já que delimita o conceito de fantasia inconsciente, inclusive e, sobretudo, a fantasia inconsciente primitiva, àquela atividade psíquica inconsciente que já está presente desde os bebês, afirmando que afirmar isto não é apenas uma inferência psicanalítica, mas se trata de uma realidade psíquica. Afirma que a fantasia primitiva tem objetividade própria como fato mental, como atividade psíquica ou processo mental inconsciente, nos bebês, na mente normal em geral ou fora dela. Ela é determinante nas patologias, o que dependeria da questão de quando a realidade psíquica está em harmonia com a realidade externa
ou não, e nisto nada difere de Freud. A divergência aqui é com a precocidade atribuída ao fantasiar inconsciente.
A diferença entre normal e anormal está no modo como as fantasias inconscientes são tratadas pelo eu, os processos mentais por meio dos quais elas foram trabalhadas e modificadas; e o grau da gratificação direta ou indireta no mundo real e adaptação do eu, que esses mecanismos favorecidos permitem.