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5. Resultat og diskusjon

5.4. Hvordan påvirker nyutbygde areal grøntstrukturen

A situação fundamental de luta religiosa de Paulo, para Heidegger, exprime-se de forma mais clara na disputa entre lei e fé (Gesetz und Glaube), conforme encontramos no capítulo terceiro da carta. Tal divergência não deve opor, de um lado, a fé e, de outro, a lei, como elementos completamente contraditórios. Trata-se de oposição provisória e não definitiva. Para o filósofo, ambas, lei e fé, constituem-se em caminhos especiais de salvação ( s t ria), cuja finalidade é definitivamente a vida ( z )458.

Para Heidegger, lei não significa apenas lei ritualística e cerimonial (Zeremonialgesetz), relativa a questões de ordem moral, costumes e comportamentos459. Por isso, o legalismo moral é acrescido somente de forma secundária. É justamente por conta da lei, que se estabelece conflito no seio da comunidade dos gálatas, promovido pelos judeus- cristãos. Para eles, a lei é aquilo que faz um judeu ser judeu (Juden zum Juden macht). São as chamadas “obras da lei” (ergon vonou), que se definem como atitude própria, modo de ser caracterizado pela postura do cumprimento ritualístico prescrito, como caminho de salvação. Por isso, para Heidegger, a lei mosaica deve ser entendida a partir da “constituição

456 Mt 16,18. 457 Gl 1,11-12.

458 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 72-3. 459 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 72.

existencial”460. É caminho sagrado, e se assegura no apoio ao compromisso que pode ser perdido a qualquer momento. Torna-se mortal a partir do momento em que se desvia do sagrado.

Assim, enquanto a lei tem caráter objetivo, a experiência da fé tem sentido de exercício fático. Graça não representa garantia e serenidade, não é obra humana, mas vem do exercício de fé. O que o Apóstolo realiza não é obra humana, mas fruto da graça. Sua missão envolve a tribulação existencial do tornar-se cristão. Tudo isso ultrapassa a simples colocação da questão tradicional da oposição entre lei e graça, pois, para Heidegger, interessa o sentido de exercício a partir da dinâmica fundamental da experiência cristã. Assim, a fé opõe-se totalmente ao modo de ser da lei.

Heidegger acena, aqui, para a contraposição fundamental e decisiva que é o como (das

Wie) diante do cumprimento da lei, em conflito com o como, do cumprimento da fé461. Há distinção relativa ao colocar-se diante da lei e o colocar-se diante da fé. Isso transforma a contraposição entre fé e lei em algo decisivo, pois exprime duas atitudes fundamentais distintas do ser religioso. De um lado, temos a atitude do cumprimento da lei; de outro, a atitude referente ao como da fé.

Para Heidegger, é o capítulo terceiro da carta que possui argumentação mais segura e consistente, que brota da consciência da fé como tal do Apóstolo462. Escreve Paulo:

Só isto quero saber de vós: foi pelas obras da lei que recebestes o Espírito ou pela adesão à fé? Sois tão insensatos que, tendo começado com o Espírito, agora acabais na carne?463. Foi assim que Abraão creu em Deus e isso lhe foi levado em conta de

justiça. Sabei, portanto, que os que são pela fé são filhos de Abraão. Prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, a Escritura preanunciou a Abraão esta boa nova: “Em ti serão abençoadas todas as nações”464.

Nessa passagem, fica demonstrada a franca oposição entre lei e fé, entre “as obras da lei” (ex erg v nomou) e o “escutar pela fé” (ex ako piste )465. Abraão mesmo se justificou somente pela fé. Por isso, o cumprimento da lei é impossível. Todo aquele que busca justificar-se na lei fracassa. Só a fé salva. Paulo continua dizendo que “aquele que se encontra subordinado à lei é maldito”466. A sequência do texto apresenta uma série de indicações que demonstram a inferioridade do modo de ser da lei.

460 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 72-3. 461 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 72. 462 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 73. 463 Gl 3,2-4.

464 Gl 3,6-8.

465 Cf. também, Rm 10,13-14. 466 Gl 3,19.

Para Heidegger, no trecho citado, Paulo coloca todo o seu argumento teológico principal. Evidentemente que não se trata de argumentação lógica, que visa fundamentar uma posição. O argumento de Paulo brota da tomada de consciência (Glaubensbewusstseins) da experiência de fé, que se explicita a si mesma467. É precisamente no contexto dessa luta, que sua explicitação da experiência cristã da vida recebe estrutura peculiar. Para Heidegger, trata- se de explicação originária que brota do sentido da vida religiosa mesma. Deve ser conservada na sua correspondência com a experiência religiosa cristã fundamental. O resultado é o complexo explicativo que aparece de forma parecida à explicação teórica. Todavia, as construções teóricas devem permanecer alheias a esse processo, pois com a explicitação se procura somente retroceder à experiência originária, e compreender o problema da explicação religiosa.

Nesse ponto da explicação fenomenológica da carta, Heidegger apropria-se criticamente da posição defendida por Harnack, o qual afirma, em sua obra História dos

dogmas, que foi a filosofia grega a converter a religião cristã em sistema de dogmas, por volta do século III d.C. Para Heidegger, o verdadeiro problema da formação dogmática, enquanto sentido de explicação religiosa, “está enraizado no cristianismo primitivo”468.

Embora seja de segunda ordem, a necessidade interna da explicação da consciência cristã pertence à vivência fática cristã como tal. É o momento autoexplicativo da experiência religiosa. No caso de Paulo, ele fala a partir do fenômeno religioso mesmo. Por isso, a explicação religiosa não é mero problema de ordem técnica, mas acompanha a experiência vivida.

Heidegger adverte ainda que se deve evitar sobrepor comentários, compreensões e interpretações teológicas modernas na análise do mundo de Paulo. É comum, na teologia atual, encontrarmos referências à teologia paulina e seus conceitos básicos, como: carne,

espírito, psique, coração, pecado, morte, lei, graça, serviço, fé etc. Deve-se também evitar recompor o significado desses conceitos a partir da quantidade de passagens particulares nos escritos paulinos, de modo que se extraia um catálogo de conceitos fundamentais que nada designam. Para Heidegger, todos os conceitos encontrados nas narrativas de Paulo devem ser compreendidos no âmbito da consciência cristã originariamente experimentada. Eles remetem

467 A partir dessa articulação da consciência de fé é característica a expressão logizesthai (racionalizar) no

sentido de poder tornar compreensível a posição de fé para a pessoa individual, enquanto tal, e de poder apropriar-se deste sentido compreensível especificamente religioso (HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 73).

ao conteúdo cristão. Por isso, são “conhecimento da fé” (glaubendes Wissen)469. Nesse caso, seria equivocado conceber um “sistema teológico” em Paulo, a partir de conceitos previamente dados. Heidegger reconhece que a investigação histórica dos teólogos afastou-se enormemente da experiência original cristã, por mais questionável que isso seja para a teologia, por referir-se a Paulo com conceitos previamente formados.

Dos elementos explicados por Heidegger, pode-se determinar, de forma mais específica, a situação religiosa fundamental de Paulo. Ele se encontra em luta. Trata-se de luta religiosa, que se constitui na luta pela vida mesma. Essa luta caracteriza-se pelo impedimento de Paulo em afirmar a experiência cristã da vida, frente ao mundo circundante no qual se encontra. O modo de ser crente indicado pela carta aponta para a total concentração dos esforços em alcançar aquilo para o qual está orientado. Isso implica, ao mesmo tempo, desvencilhar-se de todas as coisas que possam obstruir o propósito cristão470.

A análise mostrou que o vínculo às tradições constituídas encobriu a genuína experiência do cristianismo. Foi esse elemento que enfeitiçou os membros da comunidade. O Evangelho foi deturpado. A apostasia dos gálatas deve também ser entendida a partir daqui. Em outros termos, a pergunta “o que teria enfeitiçado a comunidade dos gálatas?” só pode ser respondida no âmbito do fenômeno central do tornar-se cristão. Uma explicação histórica estaria fora de questão. Nesse caso, o quê é pensado a partir do como do exercício fático.

Em sua luta, Paulo está decididamente voltado para a conservação da autenticidade da experiência cristã originária, que consiste no abandono das obras da lei e na vivência procedente da fé. Ela se exprime nessa passagem: “Irmãos, consciente de não tê-la conquistado, só procuro uma coisa: esquecendo o que fica para trás, lanço-me em perseguição do que fica para frente”471.

Para Heidegger, é a partir da situação de luta que a consciência cristã deve ser fenomenologicamente compreendida, em sua postura fundamental (Grundhaltung), segundo o sentido de conteúdo (Gehalt-), referência (Bezugs-) e realização (Vollzugssinn). Pode-se comparar a luta de Paulo com a luta de Heidegger pela originalidade da filosofia.

Além da análise da Carta de Paulo aos Gálatas, em seu curso Einleitung in die

Phänomenologie der Religion, Heidegger prossegue com a explicação fenomenológica de duas outras cartas: aos Tessalonicenses 1 e 2. É o que veremos a seguir.

469 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 72.

470 “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa falo, e é que, esquecendo-me das

coisas que atrás ficam e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3,13-14).