5. Resultat og diskusjon
5.10. Hva kan regnes som planlagt utbygd areal
As duas cartas de Paulo aos tessalonicenses constituem registros mais antigos das fontes primitivas do cristianismo472. Consideradas de “menor conteúdo dogmático” do que a Carta aos Gálatas, elas servem de foco para uma compreensão mais original do fenômeno cristão. Sua originalidade torna possível a apropriação específica da experiência cristã na sua contextualização e atualização.
Heidegger inicia a análise com o delineamento da situação histórica da comunidade. A finalidade é justamente avaliar os dados objetivos dos relatos históricos, com o intuito de encontrar os motivos da compreensão fenomenológica. Ele parte da questão: qual a situação histórico-objetiva na qual Paulo se encontra ao escrever a Epístola aos Tessalonicenses?
De acordo com os relatos, Paulo escreve sua carta à comunidade dos tessalonicenses durante sua primeira viagem missionária, quando se dirige à Grécia. Depois de aproximadamente três semanas de viagem, decide fugir, no meio da noite, por conta do risco de ser aprisionado por algum dos judeus opositores. Paulo não encontra segurança enquanto não chegar a Atenas. Preocupado com a situação dos tessalonicenses, pelos quais desenvolve grande afeição, considerados por ele como júbilo predestinado, convence seu companheiro Timóteo a ajudá-lo. Paulo dita a carta pessoalmente a seu amigo473. Escreve a epístola imediatamente após a chegada a Corinto. Com isso, a situação é plenamente determinada.
O relato histórico objetivo é aquele que primeiramente anuncia o fenômeno. No livro dos Atos dos Apóstolos, está escrito: “Alguns se deixaram convencer e se incorporaram a Paulo e Silas, e com eles uma grande multidão de gregos convertidos ao judaísmo bem como muitas mulheres da nobreza”474. Por meio desse relato, é possível estabelecer a relação efetiva entre Paulo e a comunidade dos tessalonicenses, isto é, com “aqueles poucos que se colocaram ao seu lado” e se somaram a ele. A narrativa registra também a situação fática, na qual Paulo está inserido, e o modo como se refere à sua comunidade.
Como Paulo os experiencia? Como lhe é dado o mundo compartilhado na situação da escrita da epístola? Isto está vinculado à questão de como Paulo se encontra nesse mundo compartilhado. O conteúdo do mundo compartilhado, em sua determinabilidade, deve ser
472 A primeira carta redigida à comunidade de Tessalônica é datada por volta do ano 53 d.C., aproximadamente
20 anos após a crucificação de Jesus. Consiste no mais antigo documento do Novo Testamento.
473 Cf. 1Ts 3,6; 3,2. O mesmo relato é encontrado em At 18,5. A respeito da primeira estadia de Paulo em
Tessalônia, ver: At 17,1-16.
visto no contexto com o como da referência com esse mundo compartilhado. Portanto, trata- se de expor a determinação fundamental dessa referência.
3.8 A situação fundamental de Paulo como “ter chegado a ser cristão”
Para que a situação fática de Paulo seja alcançada, devemos procurar entender o vínculo entre Paulo e os membros seguidores de sua comunidade. Para Heidegger, de acordo com a carta, a qualidade (Beschaffenheit) dessa relação pode ser indicada formalmente de duas maneiras: a) Paulo experimenta os congregados em seu “ter chegado a ser” (Gewordensein) seguidores de Jesus Cristo; b) e experimenta o fato de que eles possuem um “saber” acerca do “ter chegado a ser” (ein Wissen von ihrem Gewordensein) seguidores de Jesus Cristo475.
Tal indicação pode ser confirmada pela insistente repetibilidade de determinados termos fundamentais (“chegar a ser”, “sabeis” e “recordeis”), empregados abundantemente na carta. Nesse caso, a constante repetição (Wiederholung) das expressões não é fruto da curiosidade externa e autoficial. O repetir é diferente da simples retomada de um acontecimento natural ou de uma objetividade histórica, no seu sucessivo acontecer.
Para Heidegger, pertence à atualização histórica de quem experimentou o “ter chegado a ser cristão”476. Repetição é forma de recordação. Escreve Paulo: “Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos nossos trabalhos e fadigas”477. Nessa passagem, aparece o termo “lembrar/recordar”, como extensão essencial e sustentação do saber da comunidade. Ou seja, o “tornar-se” é a experiência que abrange todas as “faculdades humanas”, inclusive a “recordação”. Recordar é “aprofundar sempre o que é recordado, fazê-lo surgir sempre novo, em sua possibilidade mais íntima”478.
Por isso, consiste na convocação para o constante retorno à experiência e ao conhecimento do “vir-a-ser” cristão. Nesse sentido, repetir as expressões, por parte de Paulo, é recolocar constantemente o evento que inaugura sua nova vida. Em outros termos, as expressões repetidas devem ser compreendidas no contexto da realização histórica, como tendência que aflora a partir do motivo central do texto479.
475 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 93. 476 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 93. 477 1Ts 2,9.
478HEIDEGGER, M. Kant y el problema de la matafísica. México: Fondo de cultura econômica, 1996, p. 196. 479 Segundo o comentário de Hebeche, a repetição está no caráter da situação da temporalidade da vida fática. A
linguagem comum, por conservar estático o sentido das palavras, esquece a situação e o fluxo do fenômeno. Com isso, se passa da situação estática para a dinâmica do ter-se tornado. Assim, a recordação torna-se o
Heidegger refere-se ao “ter chegado a ser” como o fenômeno central constitutivo, mediante o qual se estabelece o vínculo entre o apóstolo e os membros da sua comunidade. Paulo está incluído na mesma condição, na qual a comunidade se encontra, isto é, “ele se coexperiencia neles, necessariamente, a si mesmo” (Er erfährt in ihnen notwendig sich selbst
mit)480. Por isso, o “ter chegado a ser” da comunidade é o “ter chegado a ser” de Paulo. Ele está afetado por esse evento e incluído no saber que, tanto ele, quanto a comunidade, possuem do acontecido. Tudo o que ele afirma e atribui aos tessalonicenses, de alguma maneira, diz respeito a si mesmo.
A constituição do núcleo do “ter chegado a ser” exprime a forma pela qual Paulo “vê” (sieht) os que se colocaram ao seu lado. Em algumas passagens da carta, recolhemos um nexo determinado de acontecimentos indicativos de que, ao escrever a carta, o Apóstolo vê os congregados como aqueles em cuja vida entrou. O “ter chegado a ser” deles está vinculado com seu entrar na vida cristã. O “ver” de Paulo não é atitudinal, no sentido de observar objetivamente a partir de atitude externa. Não se refere ao ver do conhecimento objetivo, mas ao modo pelo qual acolhe o que lhe vem ao encontro, no âmbito da experiência cristã fundamental. Ele tem caráter de recepção e acolhimento. E o que lhe sucede não é algo objetivo, como recordação autoficial de evento natural ou acontecimento de caráter histórico fixado no tempo481.
Para Heidegger, o “ter chegado a ser” de Paulo está vinculado com o entrar em sua vida cristã propriamente dita. Destaca o como do aparecer, elencando algumas passagens que indicam que sua nova vida começa com esse evento482. Os tessalonicenses existem para Paulo, porque ele mesmo e eles estão mutuamente entrelaçados, mediante o “ter chegado a ser”. Em outros termos, a unidade entre eles só é possível a partir do evento comum, que é a experiência do “tornar-se cristão”, por ele indicada.
elemento essencial e sustentador. A repetição é importante na história. Ela não significa mera lembrança ou repetição mecânica de um fato ou evento natural. A lembrança do evento, do “tornar-se cristão”, seguidor de Jesus cristo, não é um simples fato passado, mas atualização histórica. Ele se torna o vínculo que vai além de sua relação oficial com os apóstolos de Cristo, pois ganha sentido para nós, na distância que nos separa do seu tempo (Cf. HEBECHE, L. O escândalo de Cristo. Ensaio sobre Heidegger e São Paulo, p. 106-7).
480 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 93. 481
HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 93.
482 Escreve Paulo na primeira carta aos tessalonicenses: “Bem sabeis, irmãos, que não foi inútil a nossa estada
entre vós” (2,1). “Ainda que nós, na qualidade de apóstolos de Cristo, pudéssemos fazer valer a nossa autoridade. Pelo contrário, apresentamo-nos no meio de vos cheios de bondade, como uma mãe que acaricia os seus filhinhos” (2,7-8). “Vos sois testemunhas, e Deus também o é, de quão puro, justo e irrepreensível tem sido o nosso modo de proceder para convosco, os fiéis” (2,10). “Irmãos, vós fostes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judéia, em Cristo Jesus; pois que da parte dos vossos conterrâneos tivestes de sofrer o mesmo que aquelas Igrejas sofreram da parte dos judeus” (2,14).