5. Resultat og diskusjon
5.2. Hva kan regnes som nyutbygd areal
A partir da narração encontrada nos primeiros dois capítulos da carta, Heidegger delineia a situação fundamental de Paulo. A narrativa proporciona uma aproximação do mundo religioso de Paulo. Conta o episódio da conversão, da conduta de Paulo no judaísmo, até “tornar-se apóstolo”. Por isso, deve ser tomada em consideração, pois ela torna-se importante para a atualização histórica. A situação descrita transforma-se na chave interpretativa do fenômeno como um todo. A carta de Paulo deve ser reescrita e atualizada mediante a compreensão desse episódio.
Os dados iniciais recolhidos nas cartas nos sugerem Paulo como pregador de doutrinas, que lança exortações de forma semelhante a outros pregadores ambulantes da sua época. À primeira vista, sua mensagem não apresenta nada de especial, conforme a impressão que os atenienses tiveram dele, quando se encontrava no meio deles:
Alguns filósofos epicureus e estóicos o abordavam. Alguns diziam: “O que quer dizer este palrador?” E outros: “Parece um pregador de divindades estrangeiras”. Tomando-o então pela mão, conduziram-no ao areópago, dizendo: “Poderíamos saber qual é essa nova doutrina apresentada por ti? Pois são coisas estranhas que nos trazes aos ouvidos. Queremos, pois, saber o que isto quer dizer”450.
No entanto, a obviedade não resiste por muito tempo. Para Heidegger, não devemos considerar os dados objetivamente, mas a partir do sentido motivador que origina os fenômenos, orientados pela religiosidade mesma de Paulo. As determinações da carta não são proposições que devam ser comprovadas e, posteriormente, demonstradas. Elas são explicações fenomenológicas que estão na origem da experiência originária da vida cristã. Só podem ser compreendidas a partir do sentido fático e histórico da religiosidade como tal. Heidegger busca explicitar o sentido religioso mais próprio.
Considerando a narrativa inicial, podemos perguntar: Como Paulo encontra os
gálatas? Quais são suas expectativas? Como podemos ter acesso ao seu mundo próprio? Como podemos compreender a situação a partir da qual se produz a carta? Segundo o esquema da interpretação da experiência fática da vida, o conteúdo do ser-no-mundo de Paulo deve ser considerado mediante a conjunção de todos esses aspectos. O intuito é alcançar o
como dessa relação e sua possível atualização. As questões levantadas nos conduzem até a situação e a atualização do aqui e agora vital de Paulo.
Para Heidegger, o relato descreve a situação fundamental da “luta religiosa” de Paulo. Retomando o início da carta, encontramos o versículo que aponta para a temática recorrente na carta: “a apostasia dos gálatas”. Escreve Paulo:
Admiro-me que tão depressa abandoneis aquele que vos chamou pela graça de Cristo, e passeis a outro evangelho. Não que haja outro, mas há alguns que vos estão perturbando e querendo corromper o Evangelho de Cristo451.
Esse versículo pode ser mais bem compreendido a partir das divergências entre Paulo e os líderes das igrejas de Jerusalém e de Antioquia. Paulo era judeu convertido ao cristianismo, e os líderes das igrejas eram cristãos que não tinham abandonado o judaísmo. Ao tornar-se apóstolo, seus principais adversários, ironicamente, não eram os pagãos com seus cultos, mas aqueles que ameaçavam submeter à ruína a novidade da experiência cristã, promovendo o retorno à caducidade dos mandamentos da lei mosaica e ao código sinaítico.
Esse motivo provocou a primeira assembléia universal da igreja cristã. Paulo descreve esse acontecimento no capítulo segundo da carta:
Em seguida, quatorze anos mais tarde, subi novamente a Jerusalém com Barnabé, tendo tomado comigo também Tito. Subi em virtude de uma revelação e expus-lhe – em forma reservada aos notáveis – o evangelho que prego entre os gentios, a fim de não correr, nem ter corrido em vão. Ora, nem Tito, que estava comigo, e que era grego, foi obrigado a circuncidar-se. Nem mesmo por causa dos falsos irmãos, intrusos – que furtivamente se introduziram entre nós para espionar a liberdade que tínhamos conquistado em Jesus Cristo, a fim de nos escravizar – fizemos concessões por um momento sequer para que a verdade do evangelho se mantivesse íntegra entre vós. E por parte dos que eram tidos por notáveis – o que na realidade eles fossem não me interessa; Deus não faz acepção de pessoas – de qualquer forma, os notáveis nada me acrescentavam. Pelo contrário, vendo que a mim fora confiado o evangelho dos incircuncisos como a Pedro o dos circuncisos – pois aquele que estava operando em Pedro para a missão dos circuncisos operou também em mim em favor dos gentios – e conhecendo a graça em mim concedida, Tiago, Cefas e João, os notáveis tidos como colunas, estenderam-nos as mãos, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão: nós pregaríamos aos gentios e eles para a circuncisão452. A assembléia pronunciou-se a favor de Paulo, porém, o problema não foi resolvido. Continuou sendo perseguido pelos legalistas, durante suas jornadas missionárias. Eles agiam de dentro e de fora da comunidade. Além da perturbação que causavam, muitas vezes
451 (Gl 1,6-7) A mesma problemática é encontrada no livro dos Atos dos Apóstolos: “Então, alguns dos que
tinham sido da seita dos fariseus, mas haviam abraçado a fé, intervieram; diziam que era preciso circuncidar os gentios e prescrever-lhes que observassem a Lei de Moisés” (Cf. At 15,5).
452 (Gl 2,1-9). Essa assembléia foi também historicamente registrada, no livro dos Atos dos Apóstolos, no
tramaram sua morte. Acusavam-no de inimigo e destruidor da obra de Moisés. Os perseguidores acreditavam que Deus falara por meio de Moisés, mas não tinham a certeza de que falava por meio de Paulo. Para eles, Paulo não passava de embusteiro e enganador, por pregar doutrina diferente da tradição. Por mais estranho que pareça, o Apóstolo era rechaçado como herege.
Embora fosse o promotor religioso da comunidade, sua autoridade apostólica foi constantemente colocada em questão. Por isso, no primeiro verso da carta, Paulo reafirma sua autoridade:
Paulo, apóstolo – não da parte dos homens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai que o ressuscitou dentre os mortos – e todos os irmãos que estão comigo, às Igrejas da Galícia453.
Para Heidegger, a autoapresentação faz parte da situação de luta de Paulo, e dos conflitos de seu mundo. Uma luta contra a ameaça à autêntica condição existencial cristã, na tentativa de manter a força do que já proclamara nas Igrejas da Galícia, radicalmente diferente do que falavam seus adversários.
A descrição da situação fundamental de Paulo permite-nos afirmar, de acordo com Heidegger, que, a maior dificuldade dos gálatas não era simplesmente o retorno ao paganismo, mas a conservação da “experiência do ter-se tornado cristão”. Devemos ressaltar que foram os pregadores cristãos, demasiado dependentes do judaísmo, que causaram os maiores entraves à consolidação da tarefa missionária de Paulo na comunidade. A Igreja da Galícia passou a ser ameaçada pela tradição judaica, que permaneceu excessivamente próxima. Assim, teria sido a versão cristã da Igreja de Jerusalém, muito dependente da tradição vétero-testamentária, a enfeitiçar os gálatas na ausência de Paulo.
Nesse sentido, para Heidegger, dentre os modos de apostasia, o principal teria sido aquele que conduziu os gálatas a dar um passo atrás454. O argumento dos judeus-cristãos era claro: se o Messias surgira sob a lei mosaica, então essa continuava sendo a base do Evangelho. Tal posição constitui grande ameaça ao modo de ser cristão originário.
Heidegger interpreta essa situação como tendência à decadência (Abfallen) da autenticidade cristã originariamente experimentada455. As táticas judaizantes de caráter insidioso e sedutor encontravam-se nas origens do ser cristão, uma vez que seus principais fundadores – Pedro, Tiago e João – eram perseguidos por gente como o fariseu Saulo, depois
453 Gl 1,1-2.
454 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 72. 455 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 73.
Paulo. Pedro representa o primado da Igreja por ter tido o privilégio de ter convivido com Jesus: “E tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela”456. Paulo ataca essa autoridade revestida de aura sagrada. Que autoridade poderia lhe ser maior? Afirma que seu Evangelho fora recebido diretamente do Senhor, sem mediação humana. Com isso, ele se coloca no nível dos “doze” outros que conheceram o Senhor pessoalmente, sem ter traído o mestre (Judas), nem ter deixado o mestre a sós em seu próprio destino, no Getsêmani. Os três fundadores não teriam compreendido a mensagem original de Jesus, por insistirem na vinculação à lei mosaica. Mesmo conhecendo pessoalmente o mestre, deixaram sua mensagem decair. O que dizer, pois, dos outros homens? Por isso, Paulo adota posição desafiadora, dizendo que o Evangelho que ele proclama foi revelado diretamente pelo Senhor: “Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens; porque não o recebi de homem algum nem me foi ensinado; mas o recebi por revelação de Jesus Cristo”457.
A situação fundamental de Paulo é melhor compreendida no conflito entre lei e fé.