IV. FORKORTELSER OG DEFINISJONER
2. TEORETISK RAMMEVERK
2.4 R EGNSKAPSMANIPULERING
2.4.1 Hvordan manipulere med regnskapet?
Se a primeira etapa da pesquisa prática começou com um planejamento bem elaborado, fruto de experiências anteriores à pesquisa, a segunda etapa pedia uma abertura maior, que me possibilitasse entrar em um novo território, ainda não muito conhecido.
Inicialmente, dediquei-me a aprofundar o estudo teórico. Nesse sentido, foi de fundamental importância o conceito de performance ou “obra plena” de Paul Zumthor (1993), que considera como “obra” não o espetáculo em si, mas o momento que nasce do conjunto de relações entre intérprete, texto, público e espaço – o que inclui aspectos físicos e sonoros desse espaço, as diversas relações que nele se estabelecem e a situação que une intérprete e público em um mesmo lugar. Além de trazer importantes elementos para a continuidade da pesquisa prática, esse conceito me ajudou a reconhecer que as intervenções que eu havia realizado ao longo da primeira etapa constituíram obras, apesar de não serem espetáculos, a exemplo do que faziam os jograis nas praças, feiras ou outros espaços públicos.
Ainda nesse início de etapa, participei das oficinas Iniciação ao conto, com Hassane Kouyaté, e A tradição oral de contar histórias, com Robert Seven Crows – narrador de histórias, cantor e compositor da etnia ancestral ameríndia métis/mi’kmag (Québec, Canadá) – no evento Boca do Céu: encontro internacional de contadores de histórias, realizado em maio de 2010 na Oficina Cultural Oswald de Andrade (SP). As duas oficinas, assim como a programação geral desse evento, colocaram-me em contato com questões específicas relacionadas à narrativa e ao ato de narrar histórias, o que me levou a considerar a possibilidade de, nessa segunda etapa, priorizar repertórios narrativos, que trouxessem possibilidades diferentes do caráter predominantemente subjetivo, lírico, da maior parte dos poemas e canções de O caçador de raízes.
Somado a isso, o estudo sobre a atuação dos griots historiadores mostrou-me um caminho que verdadeiramente tenho interesse em trilhar: o de, como artista, pesquisar e divulgar nossas histórias enquanto povo, com outros pontos de vista que não o do colonizador, ainda predominante em nossa formação. Para exemplificar essa afirmação, trago uma lembrança de quando trabalhei como arte-educador no Projeto Processos Educativos Através do Teatro, junto a crianças e adolescentes de escolas municipais de Guarulhos (SP). Um dia, ao entrar em sala de aula, os alunos estavam terminando de copiar da lousa a lição da aula de História. Enquanto esperava, comecei a ler o que a professora havia escrito: que os bandeirantes, ao entrar nas matas, encontravam muitos perigos, como animais selvagens e
101 índios. Era isso o que as crianças estavam copiando e aprendendo: essa história, esse ponto de vista. De fato, como diz um ditado africano citado na página eletrônica da Cia. dos Jovens
Griots da Baixada Fluminense, “até que os leões possam contar suas próprias histórias, as
histórias de caça sempre irão glorificar o caçador”28. É o que a escritora nigeriana Chimamanda Adichie considera como “o perigo de uma única história”:
É assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que ele se tornará. É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. [...] Poder é a habilidade não só de contar a história de outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. [...] A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história. [...] A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. [...] Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida. (ADICHIE, 2009, s/p)
Partindo dessas questões, comecei a pesquisar diversas narrativas, sobretudo brasileiras e de outros países latinoamericanos, que trouxessem um ponto de vista mais interno, mais crítico, sobre nossa História, ou melhor, sobre nossas muitas histórias. Também escolhi canções e poemas que dialogassem diretamente com as narrativas escolhidas, ilustrando ou mesmo se contrapondo a elas, formando, assim, alguns núcleos temáticos.
A formação de núcleos temáticos é um ponto em comum entre esse início de etapa e o processo anterior; porém, com algumas diferenças significativas: ao invés de partir de fragmentos que posteriormente foram integrados, cada núcleo da segunda etapa foi formado tendo como eixo uma narrativa, em torno da qual foram agregados poemas e canções. Reconheço, nesse procedimento, a influência das “narrativas multigenéricas” analisadas por Thomas Hale (1998) ao abordar o repertório dos griots – compostas por louvações, genealogias, contos, provérbios, poemas e canções que enfatizam ou sintetizam determinados conteúdos da narrativa, marcando também a transição entre seus diferentes episódios. Minha intenção inicial era criar diversos núcleos temáticos, que seriam trabalhados não como cenas de um espetáculo – como aconteceu em O caçador de raízes – e sim como unidades independentes, com as quais eu pudesse jogar de acordo com cada lugar, público ou situação que eu encontrasse.
102 No entanto, a ideia de criar muitos núcleos acabou se mostrando inviável, considerando os prazos e demais ações relacionadas à pesquisa. Em reunião com minha orientadora, optamos por focar a segunda etapa em um único núcleo temático, de maneira a aprofundá-lo, ao invés de trabalhar com vários, porém superficialmente. Das narrativas que eu havia escolhido, sentia-me particularmente envolvido com a história real de quatro pescadores cearenses que, em 1941, realizaram uma viagem de jangada durante sessenta e um dias, partindo da Praia de Iracema, em Fortaleza, rumo ao Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, com o objetivo de encontrarem pessoalmente o Presidente Getúlio Vargas e contarem a ele sobre as condições miseráveis de vida e de trabalho a que estavam submetidos tantos pescadores como eles.
A primeira fonte para essa história foi o artigo Odisséia numa jangada, da historiadora Berenice Abreu de Castro Neves (2004), que me tocou, sobretudo, pela iniciativa desses quatro homens de saírem de seu lugar – da praia em que viviam, do lugar simbólico de resignação quanto à sua condição social – para buscarem melhorias não apenas para suas próprias vidas, mas para a de tantos outros pescadores.A disposição para enfrentar os perigos do mar em uma frágil embarcação é outro elemento que contém uma força simbólica muito grande: dentro da hierarquia social, eles eram tão pequenos quanto uma jangada em comparação ao violento mar, que os poderia engolir e destruir, à própria imagem do Presidente, símbolo máximo do poder nacional, com quem queriam falar. Para se ter uma dimensão da ousadia dessa ação, basta lembrar o recente comentário do jornalista Boris Casoy, que no dia 31 de dezembro de 2009, assim referiu-se a dois garis que desejavam um feliz ano-novo aos telespectadores: “Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... o mais baixo da escala do trabalho”.29 A meu ver, esse comentário expressa mais do que uma visão pessoal: é a voz que, por um descuido técnico, acaba indo ao ar e revelando uma determinada visão social. Dentro dessa lógica hierárquica, a posição social dos pescadores nordestinos seria considerada ainda mais baixa que a dos garis, já que, legalmente, não eram nem reconhecidos como trabalhadores.
Por tudo isso, eu me sentia motivado a narrar essa história. Perguntava-me como seria nossa consciência política, nossas ações cotidianas, se aprendêssemos mais histórias como a desses quatro pescadores, ao invés daquelas que dizem que os índios eram perigosos e os bandeirantes, heróis. A escolha por trabalhar com esse tipo de narrativa está relacionada à
29 Fonte: Folha.com, disponível em:
103 busca por uma atuação que possa contribuir para a formação humana, não apenas no âmbito individual, mas também político, social.