A análise dos documentos fotográficos tem ao longo dos tempos suscitado inúmeras posições, que se reflete no modo como a fotografia ou informação da fotografia é descrita.
Nas mais diversas áreas, fotógrafos, sociólogos e filósofos desenvolveram trabalhos sobre a fotografia ou sobre a importância da sua representação enquanto memória. Todos estes estudos entroncam formas de pensar e de interpretar que ressaltaram para a arquivística e para o modo como a representação e descrição da fotografia ou informação fotográfica é realizada.
Conforme defende Serén (2011), se no início da história da fotografia esta carecia de um carácter mais documental, assumida como meio técnico, como uma prova de carácter científico, sendo concebida como uma mera réplica da realidade, como bem diz Amar (2014) o aparecimento da fotografia veio trazer novas interpretações relativamente ao seu papel na
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sociedade.A nível internacional destacam-se as perspetivas dos filósofos/ensaístas Susan Sontag e Walter Benjamin ou da arquivista Debra Barr, ou mais recentemente os estudos dos filósofos e sociólogos Gillian Rose ou Hand Martin. No plano ibérico, aponto em Portugal os estudos dos fotógrafos Luís Pavão, Daniel Blaufuks e as obras da historiadora Maria do Carmo Serén ou ainda o todo o trabalho dos arquivistas Félix del Valle Gastaminza e Juan Miguel Sánchez Vigil. Em 1931 Benjamin advoga que o aparecimento de novos fotógrafos, como Eugene Atget (1857-1927), desinfetaram a atmosfera difundida pela fotografia convencional e revolucionaram as interpretações que se faziam das fotografias, numa época em que ainda se via a fotografia como um meio documental e pouco interpretativo.
Sontag (1977) diz que tudo existe para terminar numa fotografia, pelo que a fotografia não pode ser desligada do enquadramento social, não podendo a sua análise ser uma análise estritamente técnica.
Mas, Pavão (1997), acrescenta que o termo fotografia pode referir-se a objetos diversos e muito diferentes entre si. Quando dizemos uma fotografia podemos estar a falar de uma prova a preto e branco, de um diapositivo, de um negativo em vidro, de um daguerreótipo ou de um postal; podemos designar a imagem exposta na parede de um museu, publicada num jornal ou exibida à beira de uma auto-estrada, pelo que deve estar consciente do que implica o conceito “fotografia”.
Para Blaufuks (2018) é impossível ser fotógrafo sem repensar onde é que o fotógrafo como artista se coloca na sociedade. Por um lado, é extremamente egocêntrico pensar que uma fotografia que tiram possa ser importante para mais alguém que não seja da sua imediata família. Por outro lado, partem para pensar que isto possa ter um valor, não que para a humanidade, mas, pelo menos, para um círculo mais alargado de pessoas, em que se tem de incluir desconhecidos.
Em contrapartida, Blaufuks defende também que tirar uma boa fotografia qualquer pessoa sabe tirar. Mas dar significado a essa fotografia, boa ou má… É aí que está o contexto artístico, seja pelo lado da informação, da fotografia documental, embora toda a fotografia se torne documental com o passar do tempo, seja pelo lado poético, que está mais próximo da arte. No fundo, a fotografia é uma construção de alfabetos, mas se juntar uma, duas, três, quatro, cinco fotografias construo um produto, uma frase ou uma pauta completamente diferente do que podia fazer com imagens uma atrás da outra. Queremos contar uma coisa, se calhar temos de descrever outra. Muitas vezes aquilo que queremos contar não é descritível, nem por palavras, nem por imagens. O que estou a tentar criar – e a fotografia permite isso – é uma espécie de alfabeto próprio. As fotografias, no fundo, não são outra coisa do que hieróglifos (Blaufuks 2018) Mas, Serén (2013) vai mais além e defende que o documento fotográfico deve ser visto
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como um objeto social, pertencente a uma sociedade de informação e comunicação, pois esta caracteriza-se pela sua capacidade de sua capacidade de registo, em que são anotadas todas as transações de uma sociedade transversal e global.E, para Gastaminza (1998) a fotografia é um verdadeiro documento social, pois a fotografia é um signo icónico aparentemente pouco codificado e a sua interpretação depende de a esfera cultural do intérprete e do poder evocador da relações de sentido que, subjetivamente, encontre e para Albuquerque (2006) o documento fotográfico é a representação de uma época e reflexo do desenvolvimento da sociedade (Albuquerque 2006).
Também Vigil (2001), refere a título de exemplo, que o economista e fotógrafo Sebastião Salgado diria que não via as suas fotografias como obras de arte mas como documentos que estão ligados à economia, pois retratam realidades económicas. Acrescenta que não se pode esquecer que o fotógrafo tem de eleger o tema, selecionar conteúdos, quantificar resultados e que a intenção documental pode sugerir emoções estéticas, antes dos conteúdos (Vigil, 2001). E, porque como bem diz Aboim (2014), se ao valor documental se associa o estético, o impacto da imagem será sempre superior, pois o horizonte do recetor alarga-se, fruto dessa visualidade.
Gastaminza (1998) defende ainda que o documento fotográfico tem atributos biográficos, temáticos e relacionais. Os atributos biográficos compreendem a origem (o momento da criação, o autor e seus antecedentes, a escola, estilo ou agência) e a vida do documento (publicações, cópias, exposições, direitos de autor, etc.) Os atributos temáticos compreendem o tema, os aspetos da denotação e da conotação, o que surge no documento fotográfico e o que este sugere, e o contexto em que se produz. À parte destes, os atributos relacionais que compreendem as relações que estes documentos estabelecem com outros.
Assim, todas estas perspetivas influenciaram e influenciam os modelos de descrição. No modelo tradicional a descrição da fotografia é feita de um modo mais abstrato, nunca procurando o contexto que lhe deu forma.
Mas, como refere Schwartz (1995) “archivists must recognize that photographs, like
maps, are linked to the exercise of government ar business […] must recognize that archival value in photographs resides in the interrelationships between photographs and creating structures, animating functions, programs’, and information technology that created them (Cook). It is for this very reason that we must preserve the functional context which transforms photographic images into photographic documents”.
A fotografia deve ser tida do ponto de vista infocomunicacional e não como era tida no modelo tradicional, em que era sinónimo de coleção e não de produção, num contexto funcional. Contudo, como alerta Henrique (2010), a grande necessidade é a ler os documentos visuais, e não apenas a necessidade de analisar. A leitura transcende a análise. A análise é a etapa mais complexa da leitura, efetivamente, mas não é a leitura.