Kapittel 5 – Analyse del 2
5.1 Hvor og for hvem har flinkhet en verdi? – Flinke jenter og anerkjennelse
Um dos grandes desafios do fazer antropológico consiste em justificar e consolidar a autoridade etnográfica, exercício que a meu ver não pode estar desvinculado da alteridade. Assim, entendo que a construção de minha prática etnográfica está firmemente ancorada em um jogo duplo de ideias: alteridade e autoridade. Minha interpretação deriva do estar lá, do contato com os museus, por meio do trabalho que desenvolvi ao longo dos últimos dez anos, como pesquisadora na instituição. Nos cinco anos mais recentes estive como pesquisadora
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da instituição. Este estar lá é um contínuo onde se fundem várias temporalidades e várias escritas.
Para analisar este aspecto do sujeito pesquisador, que também não deixa de ser um ator social em campo, vale reafirmar a noção de autoridade etnográfica preconizada por Clifford pela qual o pesquisador legitima por meio do “estive lá”, sua construção acerca da realidade que experienciou, do que viveu. Legitimação que ocorre com padrões de pesquisa, pelo domínio da língua nativa, pela observação que permitirá uma acurada descrição. Vale sempre, portanto se questionar: “Se a etnografia produz interpretações culturais através de intensas experiências de pesquisa, como uma experiência incontrolável se transforma num relato escrito e legítimo?” (CLIFFORD, 1998, p.21).
Penso que para problematizar a autoridade etnográfica, principalmente quando se quer evidenciá-la como constructo epistemológico, temos que interpretar o campo, mas, sobretudo, interpretar nossa ação dentro desse universo semântico. É valido evocar a análise de Rocha & Eckert (1998) acerca da identidade narrativa do antropólogo, em especial, enfocando o problema ético-moral da busca da coerência interna de sua produção etnográfica, segundo as autoras:
Reunir uma "hermenêutica do si" com as descobertas da epistemologia genética pode significar aqui um esforço na tentativa de elucidar os paradoxos que sustentam os critérios de identidade pessoal do antropólogo na configuração do método etnográfico em Antropologia, fazendo dialogar as instâncias da dimensão temporal que preside o ato de conhecimento humano e o processo cognitivo que o faz reflexivo. (p. 88)
Considerando esta premissa de que a identidade pessoal do antropólogo deve ser colocada quando se pensa a construção de sua etnografia, é necessário deslindar o trajeto percorrido para estabelecer minha prática etnográfica nos museus. O primeiro ponto é assumir que no cotidiano das ações desenvolvidas nos bastidores daqueles espaços, é constante o ato de fazer correlação com a pesquisa acadêmica, em tudo que observo. Analiso os processos dessa fabricação de escritas por meio dos objetos, ao mesmo tempo em que participo ativamente dessa produção. Mas o que para muitos é apenas prática profissional no espaço público, para mim se tornou uma constante reflexão acerca de uma escrita museológica do passado, da cultura e da história. O museu é um artefato cultural passível de interpretações.
73 Mesmo a memória de fatos ocorridos antes do desenvolvimento da pesquisa para o doutoramento tomou outra dimensão, quando os vejo em retrospecto. Trata-se de refletir a partir do diálogo com novas teorias; de revisitar experiências com um novo olhar, condicionado pela opção de ter escolhido os museus como campo etnográfico. Em 2006, enquanto eu acompanhava um grupo de alunos dentro do museu do Forte paramos em frente ao painel que fazia alusão à Cabanagem, movimento revoltoso ocorrido no Grão Pará nos idos de 1835, e eu provoquei o grupo com a seguinte pergunta: Quem sabe alguma coisa sobre a Cabanagem? Um dos estudantes levantou a mão e respondeu: “Eu! Eu moro lá!”
A ideia que o aluno tinha sobre Cabanagem dizia respeito ao fato de que a área de ocupação onde ele residia, situada em um espaço periférico da cidade de Belém chama-se Cabanagem. Este momento vivenciado no museu me fez entender que as interpretações sobre o que é narrado no museu, por meio de exposições não se esgotam. Ali o aluno teve a oportunidade de saber por que a área de invasão que ele morava denomina-se Cabanagem. Estas experiências são válidas para balizar meu tempo e o tempo da minha escrita dentro dos museus. Não fazia naquela ocasião etnografia, pois minha atuação ali era como educadora de museus. Entretanto, não posso abrir mão dessa bagagem que, por certo, me era cara no momento em que realizava meu campo.
Em 2008, já atuava como pesquisadora do Sistema Integrado de Museus e Memoriais (SIM) fazendo pesquisa para os museus da Secretaria de Estado de Cultura do Pará. Naquele momento fiz uma seleção de objetos para compor a exposição no Museu do Estado do Pará que, coincidentemente, versaria sobre a Cabanagem. Lembro-me de ter sugerido que criássemos um contraponto entre a vivência bélica e a cotidiana de Belém no século XIX. Dentre o acervo escolhido para compor a sala da Cabanagem, já havia sido selecionado um retrato (óleo sobre tela) de Eduardo Angelim, líder da Cabanagem; as moedas cabanas, que haviam sido recunhadas pelos cabanos que circularam no Grão Pará durante a revolta entre os anos de 1835 e 1840, inicialmente este seria o acervo.
No processo curatorial sugeri que colocássemos outro retrato, do general Soares de Andrea, líder da legalidade para contrapor com o líder da revolta. Além disso, escolhemos em uma das coleções do museu fragmentos de construção de prédios demolidos em Belém, bem como outros artefatos arqueológicos de sítios históricos, que remontassem a cidade no século XIX. Atualmente na sala da Cabanagem temos de um lado armas, balas de canhão, botões de fardamentos militares e de outro, azulejos portugueses, aldravas, fragmentos de grades, pinhas e cerâmica cabocla que remontam esta Belém do XIX, bem como a diversidade dos grupos sociais que participaram da Cabanagem. Por fim, me foi solicitada a
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Figura 6: Sala da Cabanagem no Museu do Estado do Pará. Fonte: Registro da autora
Mesmo conhecendo os bastidores da produção no museu, quando me confrontei como o momento de teorizar sobre como seria alicerçada a abordagem etnográfica da pesquisa, algumas inquietações se apresentaram. Problemas que merecem destaque nessa discussão, pois em certa medida constroem um diferencial na prática em campo. Como já foi mencionado nesse trabalho o “ir a campo” como etapa de pesquisa antropológica, é antes de tudo um exercício de me desvencilhar de parte de meu envolvimento com a instituição para me colocar como etnógrafa do grupo na instituição que é o SIM e seus museus.
As ações que se deveria empreender para realizar uma boa etnografia, o olhar, o ouvir e o escrever, no dizer de Cardoso de Oliveira (2006) começaram a ser pensados, considerando que o espaço a ser pesquisado, me parecer tão familiar. Ao tematizar a elaboração do conhecimento antropológico, Cardoso de Oliveira ajuda a refletir sobre as
75 etapas de compreensão dos fenômenos sociais, ressaltando que alguns problemas passam despercebidos quando o antropólogo “não se debruça para as questões epistemológicas que condicionam a investigação empírica tanto quanto a construção do texto” (p. 18). Em diálogo com o autor as questões postas neste texto merecem reflexões argutas, pois são determinantes para a interpretação do campo:
O olhar, o ouvir e o escrever podem ser questionados em si mesmos, embora, em um primeiro momento, possam nos parecer tão familiares e, por isso, tão triviais [...] essas faculdades, ou melhor dizendo esses atos cognitivos delas decorrentes assumem um sentido todo particular, de natureza epistêmica, uma vez que é com tais atos que logramos construir nosso saber.(p. 18)
Diante da reflexão proposta pelo autor podemos assinalar a importância de um olhar disciplinado para o campo. Este “olhar etnográfico” que se direciona ao objeto de investigação é devidamente condicionado pela disciplina do pensamento científico. Pelos princípios propostos e, nesta pesquisa, aplicados aos museus, foi possível desvelar na observação cotidiana que o campo de conhecimento em tais espaços é como em qualquer outro, um campo de poder. Poder que se estabelece nas mãos de quem pensa e produz as exposições, dos que selecionam, ordenam os objetos e decidem o momento de trazê-los ao público e, por fim, nas mãos de quem assina o texto.
Em suma, é dessa maneira que o campo tem se apresentado a mim e, desse modo, tenho feito o exercício de estranhamento, vendo-o como um meio desnaturalizado. É possível interpretá-lo como um espaço eivado de linguagens, representações, narrativas e construções clivadas por diferentes interesses. Não sendo espaços endógenos, os museus pontificam, com o público diversas relações de empatia pelo passado, por meio dos mitos de origem construídos por quem está nos bastidores. Diante desses pressupostos, a parte seguinte desse trabalho abordará alguns resultados e estratégias nos museus.