No Brasil, a história da alfabetização se confunde com a história dos métodos de alfabetização. Mortatti (2000, p. 1) afirma que no Brasil
a história da alfabetização tem sua face mais visível na história dos métodos de alfabetização, em torno dos quais, especialmente desde o final do século XIX, vêm-se gerando tensas disputas relacionadas com „antigas‟ e „novas‟ explicações para um mesmo problema: a dificuldade de nossas crianças em aprender a ler e a escrever, especialmente na escola pública.
Os diversos métodos, que procuravam garantir a inserção dos educandos no mundo da cultura letrada, produziram teorizações e tematizações acerca de estudos e de pesquisas com o intuito de investigar a problemática da alfabetização. A dificuldade das crianças para ler e escrever instigou debates e reflexões sobre a alfabetização. Assim, as práticas de leitura e de escrita ganharam espaço nas discussões acadêmicas.
71 Em 1937, com a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil inicia a sistematização de pesquisas sobre os aspectos sociodemográficos da população. Naquele momento, o critério para ser considerado alfabetizado era saber ler e escrever o próprio nome, o que ampliava o número de pessoas aptas ao voto no Brasil. Tal critério foi alterado em 1950, quando o IBGE passou a considerar alfabetizada a pessoa capaz de ler um bilhete simples.
Em 1970, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) cunhou o termo analfabeto funcional para caracterizar o indivíduo que sabe ler e escrever, mas não faz uso da leitura e da escrita. No Brasil, somente em 1990 essa terminologia passou a fazer parte dos debates sobre alfabetização. Freire associou a aquisição da escrita ao exercício da cidadania. Para ele, o ato de alfabetizar-se vai muito além do domínio do código escrito porque significa “adquirir uma língua escrita através de um processo de construção do conhecimento com uma visão crítica da realidade” (FREIRE, 1983, p. 49).
O termo letramento surgiu no cenário educacional brasileiro em 1986, na obra No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística, de Mary Kato. Soares (2003) afirma que Kato (1986) cunhou o termo letramento considerando a palavra inglesa literacy (condição de ser letrado). Literacy pertence ao mesmo campo semântico que literate (pessoa que domina a leitura e a escrita). Assim, pessoa letrada é aquela que, para além de aprender a ler e a escrever, passa a fazer uso da leitura e da escrita em práticas sociais. Para Soares (2003), um sujeito alfabetizado não é necessariamente letrado, pois ser letrado implica usar socialmente a leitura e a escrita, de modo a responder às demandas sociais.
As práticas sociais de leitura e de escrita estão presentes no cotidiano de toda a sociedade: atividades que constituem formas de utilização social da leitura e da escrita como pegar ônibus; ler uma bula de remédio; fazer uma lista de compras; ler um livro ou uma revista, entre inúmeras outras, são práticas de letramento.
72 Para diferenciar alfabetização de letramento, baseamo-nos em Soares (2001, p. 47) para quem alfabetização é a “ação de ensinar a ler e a escrever” e letramento é o “estado ou a condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas também cultiva e exerce práticas sociais que usam a escrita”. A autora entende que, embora alfabetização e letramento sejam processos inseparáveis, são distintos cognitivamente. Eles ocorrem de forma simultânea e se completam: à medida que se aprende a técnica de codificar e decodificar a língua (alfabetização) se aprende a utilizar os saberes construídos em diferentes práticas sociais (letramento).
Soares (2001) apresenta duas dimensões para o letramento: a dimensão individual, que compreende a posse particular de habilidades necessárias para a leitura e escrita, e a dimensão social, relacionada ao letramento como fenômeno cultural, que atende as demandas sociais que utilizam a língua escrita. Segunda a autora, cabe à escola desenvolver atividades pedagógicas que promovam o letramento de todos os discentes.
Entre os documentos oficiais que orientam essas atividades pedagógicas na escola, destacamos os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental (1997) que ressaltam a importância de saber utilizar os conhecimentos de leitura e escrita nas práticas sociais, pois, entre os objetivos do ensino de Língua Portuguesa, salienta-se “a necessidade de os cidadãos desenvolverem sua capacidade de compreender textos orais e escritos e de assumir a palavra e produzir textos, em situações de participação social” (BRASIL, 1997, p. 37).
Com base em Soares (2001), consideramos a alfabetização e o letramento processos cognitivos que se completam, mas que também apresentam especificidades. E, em analogia a essas concepções, consideramos também a alfabetização digital e o letramento digital processos que se completam, mas apresentam suas especificidades, que vamos contemplar mais detalhadamente na seção seguinte.
73 Com a intensificação dos debates acerca do letramento, Soares (2002, p. 156) propõe que se use a palavra letramento no plural para
enfatizar a ideia de que diferentes tecnologias de escrita geram diferentes estados ou condições naqueles que fazem uso dessas tecnologias, em suas práticas de leitura e de escrita: diferentes espaços de escrita, diferentes mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita resultam em diferentes letramentos.
Considerando a diversidade de formas de comunicação e interação, bem como os diversos contextos de práticas sociais de linguagem, Soares (2002) afirma que as tecnologias têm alterado significativamente as práticas de leitura e escrita na sociedade. Segundo a pesquisadora, a noção de letramento − no singular − já não é suficiente para explicar as diferentes formas de letramento que se configuram na sociedade atual. Assim, a autora sugere o uso do termo letramentos como forma de explicar os diferentes modos de leitura e escrita na sociedade letrada contemporânea.