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4. Resultat

4.3 Hvilke muligheter finnes i samhandlingen?

O empreendimento realizado no “Projeto de uma psicologia” (1895) consistiu num esforço de fornecer uma sustentação teórica à hipótese etiológica do trauma e da sedução. Esse movimento se concentrou na tentativa de explicar a defesa (repressão) enquanto uma predisposição específica e adquirida, a partir de uma base constitucional comum a patologia e a normalidade. No entanto, a defesa neurótica é um problema que essa estrutura teórica não dá conta de resolver, “o processo de repressão permanece sendo o núcleo do enigma.” (FREUD, 1988h, p.399).

Um dos motivos que faz com esse problema permaneça sem solução é o fato de que, nessa teoria do aparelho psíquico a repressão é concebida a partir do modelo fornecido pela vivência de dor, não tendo relação alguma com o prazer e a satisfação. Isso é o que torna impossível correlacionar essa noção de repressão às novas observações clínicas sobre a presença do prazer na origem das neuroses. O empenho de Freud no “Projeto...” em estabelecer semelhanças entre sonhos e sintomas pode ser entendido como uma tentativa de resolver tal problema. Porém, em vista da divergência entre os pontos de partida, como observou GABBI JR. (1994, p.106), nesse momento da obra freudiana, “nada mais afastado

Na carta a Fliess de 8 de outubro de 1895, três dias após ter lhe enviado a última parte do “Projeto...”, essa incoerência entre progresso clínico e fundamentação teórica se apresenta pela primeira vez:

O que ainda não está coerente não é o mecanismo – posso ser paciente quanto a isso –, e sim a elucidação do recalcamento – cujo conhecimento clínico fez grandes progressos em outros aspectos. (MASSON, 1986, p.142).

O progresso clínico a qual Freud se refere concerne à descoberta de que a cena primária na base das obsessões se faz acompanhar por prazer:

“Será que já lhe revelei o grande segredo clínico? [...] A neurose obsessiva

é conseqüência de um prazer sexual pré-sexual, que se transforma, posteriormente, em auto-recriminação.” (MASSON, 1986, p.145, grifo do

autor).

Vale lembrar que a teoria do trauma está sustentada pelo pressuposto da ausência da sexualidade na infância, portanto, se a criança é assexuada, como é possível integrar teoricamente essas novas observações sobre o prazer durante a vivência infantil? (Cf. IZENBERG, 1999).

O problema se acentua ainda mais na medida em que essa observação sobre o prazer sexual não fica restrita a neurose obsessiva. Para histeria, por exemplo, Freud propõe uma nova solução clínica, afirmando que em sua raiz “há sempre um conflito (prazer sexual, ao

lado, possivelmente, de um desprazer concomitante)”. (MASSON, 1986, p.155). Com isso,

todo trabalho metapsicológico é reorientado mais uma vez na direção do estatuto clínico da repressão e, nesse movimento duas questões fundamentais começam a se impor; por um lado, no que tange a defesa, a questão é: como é possível pensar a repressão de algo que na sua

origem é prazeroso? Por outro, no que diz da teoria da sexualidade: é possível conceber prazer sexual num período anterior à puberdade?

Com vistas a essa problemática e suas conseqüências para a concepção e a natureza da realidade no interior da teoria do aparelho psíquico, iremos examinar os escritos do ano de 1896, na seguinte seqüência: carta 39, de 1 de janeiro, e o anexo "Rascunho K – Neuroses de defesa”; os dois artigos publicados “A hereditariedade e a etiologia das neuroses” (30 de março) e “Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa” (15 de maio), que foram enviados aos seus editores no mesmo dia, 5 de fevereiro; carta 46, de 30 de maio; o terceiro e último texto publicado neste ano, “A etiologia da histeria” de 31 de maio; e enfim, a importante carta 52, de 6 de dezembro.

Nestes trabalhos também será possível observar a lenta transição das hipóteses de Freud rumo a uma representação tópica do aparelho psíquico. Neste percurso, o estudo da cronologia das vivências (que logo será abandonada), não passa de um elemento intermediário, porém necessário, para constituição da tópica psíquica. Sendo essa última o principal instrumento metapsicológico a qual Freud recorrerá na circunscrição de um novo domínio do real, distinto da realidade da cena consciente.

* * *

A carta 39 traz, antes de tudo, uma importante revisão na teoria do aparelho psíquico. O novo esquema insere os neurônios ômega entre os neurônios phi e psi, (phi – ômega – psi), e as principais conseqüências desse remanejamento são:

1º Os processos psi são originariamente inconscientes e somente adquirem uma consciência secundária ao serem ligados a processos de descarga e percepção decorrentes das associações da fala.

2º As sensações não levam quantidade a psi, consequentemente, sua fonte de energia passa a ser unicamente as vias de condução orgânicas, endógenas. Freud ainda observa que

essas vias de onde advém a força propulsora da atividade psíquica e da formação de sintomas são as vias da excitação sexual. (MASSON,1986, p.161).

Quanto ao enigma da repressão, no “Rascunho K” temos a seguinte observação, a respeito na neurose obsessiva, diz: “a repressão pode processar-se devido ao fato de que a

recordação do prazer, em si mesmo, produz desprazer, quando anos depois é recordada”.

(FREUD, 1988, p.263). Encontra-se nessa formulação o essencial sobre a nova hipótese que será proposta para explicar a repressão; a hipótese é de que há uma transformação do prazer – vivido numa cena primária infantil – em desprazer – quando essa mesma cena primária é recordada anos depois na puberdade. O enigma a ser resolvido é precisamente essa transformação do prazer em desprazer; o desprazer produzido aciona o processo de defesa contra a recordação. Essa hipótese leva Freud a investigar, a partir de seu modelo de aparelho psíquico, quais as possíveis relações entre a repressão e a cronologia das vivências infantis.

Em “A hereditariedade e a etiologia das neuroses” afirma que percorrendo retrospectivamente a história da doença é possível estabelecer o ponto de partida do processo patológico. Nesse percurso, a causa específica das neuroses é, em todos os casos, invariavelmente, uma recordação inconsciente derivada de uma vivência sexual precoce, (com excitação efetiva dos genitais). Trata-se de um abuso cometido por outra pessoa, e acrescenta: “o período da vida no qual ocorre esse fatal evento é a infância – até os 8 ou dez anos, antes

que a criança tenha atingido a maturidade sexual.” (FREUD, 1989e, p.151). Segundo as

análises, a data mais comum dessas experiências sexuais é a idade entre 4 e 5 anos; caso essas vivências ocorram após a idade de 8 ou 10 anos elas não fundam a neurose; esse período, que corresponde à segunda dentição, é uma linha de fronteira para a causação da doença. Os eventos subseqüentes à puberdade são considerados apenas agents provocateurs que possuem a faculdade de despertar o traço psíquico inconsciente do evento infantil; esse traço relacionado à infância é designado aí como uma impressão patogênica primária.

O texto “Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa” reafirma as observações sobre a natureza dos traumas sexuais e seus períodos. Em relação ao trabalho anterior acrescenta a importante afirmativa de que o limite inferior para que a vivência possa desempenhar um papel efetivo na causação do processo recua na medida da própria memória – isto é, até a tenra idade de 1 ano e meio a 2 anos. (FREUD, 1989f, p.166). Mais adiante, também observar que a maturidade sexual psíquica não coincide necessariamente com capacitação do aparelho sexual, é mesmo anterior a ela, ocorrendo entre 8 e 10 anos. (FREUD, 1989f, p.168). De posse dessas noções, Freud avança à seguinte hipótese: a precocidade do desenvolvimento da libido deixa-se ver pelo prazer proporcionado pela vivência primária que, quando reproduzido, assume a forma de um ato de agressão inspirado

no desejo (no caso do menino) ou de um ato de participação nas relações sexuais acompanhada de gozo (no caso da garotinha). (FREUD, 1989e, p.154). Do fato de que a

maturidade da libido psíquica se antecipe à capacitação do aparelho genital, decorre também a possibilidade de se pensar a sexualidade na infância enquanto perversão, como será explorada por Freud adiante.

CAPÍTULO 2

Working hypotheses

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