15. Årsaker til at antall overganger til norsk statsborgerskap kan endre seg mye
15.4. Hva tallene viser om 2017
A autêntica pátria do homem não tem perfis nem fronteiras uniformes. O sonho cosmopolita, a imagem de uma pátria universal é uma ilusão destrutiva. A verdadeira pátria é a imagem das diferenças humanas, a diversidade dos sentimentos, linguagens e culturas. Os itinerários plurais que traçamos em nosso incessante caminhar. Em direção à pátria (Jimenez, 1996: 144).
Silveiras, pequeno município localizado no Vale do Paraíba, nos mostra uma entre inúmeras trajetórias escolhidas por grupos e comunidades que se sentem excluídas para recuperar e exaltar sua cultura (culturas). Os processos que geram esse sentimento (ou ressentimento) por parte de uma cultura/grupo podem se manifestar de diversas maneiras, como a falta de recursos financeiros, o estabelecimento de limites territoriais (por exemplo: a construção da Rodovia Dutra, que não visou à integração regional), o desprezo/desinteresse que se mostra no uso de termos depreciativos como “cidades mortas”, “simples”, “num viver menor”, “tempo passa mais devagar”, entre outras. O termo exclusão dá uma conotação de superioridade do grupo que exclui, tecendo uma rede de relações complexas que compõem ciclos carregados de conflitos, dificuldades, apropriações, etc (Guinzburg, 1987). Em Silveiras vários elementos tentam colocar o município numa posição de excluído, a partir de olhares, leituras, ações políticas e culturais. A situação de exclusão vem sendo construída desde o início do século XX, por obra de um renomado morador da região, Monteiro Lobato. A cultura regional espelhava-se em alguns de seus participantes que recebiam nomes e características depreciativas, como Jeca Tatu, um dos pelo atraso do Brasil (De Luca, 1999). A expressão utilizada até hoje para indicar os caipiras, como os silveirenses e sua cultura.
No início do século XX, o país procurava deixar uma economia essencialmente agrária para se tornar industrial, o que levou a várias transformações, como a construção da Rodovia Dutra. A resposta a esses processos só veio alguns anos depois, na década de 1980, mostrando que
aflorava o ressentimento frente à exclusão político-ideológica. O município não oferecia condições básicas para a sobrevivência de seus moradores nem para sua cultura. Os meios utilizados para reverter a situação não são a crítica ou protestos, mas a organização de uma festa, repleta de rituais e monumentos que caracterizem o município, os “lugares de memória”, como reação à uma suposta “falta de memória” e com o objetivo de restaurá-la. O Movimento Tropeirista não aparece sozinho dentro dessa perspectiva, pois, segundo Pierre Nora, estamos vivenciando uma fase de perda de memória devido às interferências dos meios de comunicação. O movimento surge num momento em que proliferam outros movimentos à procura de suas raízes e identidades, por conta de uma sensação de anulação das diferenças/subjetividades e falta de valorização do diferente em prol de um discurso uniformizador. Como exemplo, o movimento negro, o movimento feminista, o movimento gay, o movimento dos sem terra e dos sem teto, entre outros, que apresentam pontos e exigências comuns. Sente-se a necessidade de união para modificar determinadas situações, instituir novas políticas e formas de convivência, um dos sintomas de uma crise que vem afligindo populações inteiras em diversos lugares do mundo. As relações sociais, a troca e transmissão de experiências/conhecimentos vêm sendo substituídas pelas informações trazidas pelos meios de comunicação. Deixamos de olhar para os nossos problemas (experiências), para nos preocuparmos com os dos outros (bairros, cidades, países, etc). As experiências são criadas e trazidas prontas e não são vivenciadas, nos meios de comunicação, monumentos, comemorações, palestras, entre outros. Inseridos neste cenário surgem os diversos movimentos que, quando se sentem “invisíveis”, voltam-se para as suas origens, raízes, culturas e memórias a fim de transgredirem esse padrão de relações sociais.
Entretanto, as amarras que esses movimentos tentam desatar para alcançar aquilo que acreditam ser a solução para os problemas incorrem nos mesmos erros tidos como geradores da situação. Em Silveiras, o Movimento Tropeirista tinha o intuito de criar e fomentar uma história, memória e cultura para a cidade e mostrar a sua relevância para a história e desenvolvimento do Vale do Paraíba, além de outras funções, como gerar empregos e recursos financeiros.
Porém, nesse trilhar, escolhe, em alguns momentos, os mesmos caminhos que critica, porque elege apenas um dos sujeitos históricos da cidade para recontar a sua história, estabelecendo uma situação de exclusão, a mesma questionada pela proposta inicial do Movimento. Em alguns momentos, há preocupação com a valorização da experiência e transmissão intergeracional, que produzem um espaço de sociabilidade, respeito e de emergência de vozes que há muito não eram ouvidas por alguém além de seu orador. Essas vozes, a partir do fortalecimento do Movimento Tropeirista, passam a ter outros significados para seus os falantes e são ressignificadas pelos seus ouvintes, aflorando os sentimentos de pertencimento, reconhecimento, mesmo com dissonâncias e diferenças. Parte desse sentimento foi anulado, quando se procurou elaborar uma cultura única e tradicionalista (Maciel, 2001) para Silveiras, visando à preservação, ou proteção de qualquer interferência que pudesse modificá-la ou eliminá-la. Depreende-se que os mesmos processos para a formação de uma “pátria universal” (Jiménez, 1996), ou seja, onde todos apresentem características, modos de vida, ideais comuns, são incorporados ao Movimento Tropeirista de Silveiras. Assim, perde-se de vista que, mesmo em populações pequenas, como Silveiras, não existe cultura, mas culturas, não existe algo puro, mas híbrido (Canclini, 2003). A almejada memória está justamente no encontro e respeito que se constrói entre as diferentes posturas, linguagens e leituras que constituem uma cultura/culturas.
O paradigma que propõe uma hierarquia cultural, onde determinadas culturas são tomadas como ultrapassadas e outras adequadas ao seu tempo, faz surgir movimentos que procuram mostrar que a diversidade tempos, espaços e memórias é que proporciona a adequação e transformação das culturas. O ideal de pátria é uma proposta que contribui para ver algumas culturas como superiores a outras. Os projetos que visam à construção de uma nação necessitam eliminar as diferenças, o que representa uma intensa falta de reconhecimento. A identidade coletiva transforma-se numa grande “colcha de retalhos”, onde cada um esboça sua subjetividade, ocasionando uma crise de identidade, grupos/culturas, criam associações, instituições, comemorações que os insiram
nessa cultura hegemônica. Em Silveiras, o próprio nome da Fundação Nacional do Tropeiro indica uma tentativa de aproximação com o projeto de nação, a construção do sentimento de pertencimento ao grupo/cultura “maior”, chamado “nação”. O tropeiro é visto como um dos grandes responsáveis pela formação da nação, pois propiciava o abastecimento e, principalmente, a integração das cidades. Para Jiménez, a identidade, construída a partir dos diferentes sentimentos, linguagens e culturas, vai na direção contrária do projeto de formação da pátria, voltado à valorização da uniformização.
Nesse contexto, grupos e comunidades continuarão a procurar mostrar sua cultura como relevante e digna de respeito, até por invenções de tradições, para firmar um poder simbólico que combata o hegemônico poder econômico, social e cultural.