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São várias as definições de agricultura. Por modificar-se ao longo do tempo, uma única definição para agricultura não é facilmente encontrada, pois é um assunto que permeia várias esferas sociais e culturais humanas. Se nos primórdios se podia dizer que a agricultura era a arte de cultivar o campo, hoje em dia essa definição deixa muito a desejar. Segundo Diehl (1984), uma definição econômica para o atual estágio da agricultura poderia ser “(...) a arte de obter do solo, mantendo sempre a sua fertilidade, o máximo lucro”. De outro ponto de vista, René Dumont, como visto em Barros (1975), diz que a agricultura é a “artificialização pelo homem do meio natural, com o fim de o tornar mais apto ao desenvolvimento de espécies vegetais e animais, elas próprias melhoradas”. Assim, a definição dela é modificada conforme as condições sociais e ecológicas se alteram (ALMEIDA, 2004).

Segundo Almeida (2004), a agricultura iniciou-se cerca de 10.000 anos atrás, na região situada entre os rios Tigre, Nilo e Eufrates, marcando um momento importante para a história da humanidade. A partir de seu desenvolvimento, iniciou-se um processo de sedentarização das populações, que levou a humanidade de um sistema coletor/caçador para uma economia produtiva com base na terra.

Esse sistema se espalhou pelos mais diversos locais. Com algumas mudanças e técnicas diferentes entre as diversas localidades, manteve-se praticamente inalterado até o século XVIII (ALMEIDA, 2004), quando ocorreu a chamada “Revolução Agrícola”: novas técnicas de plantio e de uso de resíduos animais como fertilizantes e novas práticas de rotação de cultura;a terra passou a ser vista como algo rentável.

Dessa forma, com o crescimento da produtividade dessa atividade, foi possível utilizar o excedente de terras para produção de algodão e lã (ovinos). E, com isso, houve um incentivo para a primeira revolução industrial, que causou uma nova revolução agrícola, com a modernização da agropecuária. Assim, houve um grande crescimento na produtividade, decorrente da troca da força humana e animal por fontes mecânicas, além da utilização de ferramentas mais fortes e precisas, provenientes de novos produtos e processos (SZMRECSÁNYI, 1990).

Segundo Szmrecsányi (1990), foi esse o momento em que houve a substituição da manufatura pela maquinofatura e a concentração dos meios de produção no âmbito da empresa industrial, passando dos antigos comerciantes manufatureiros aos capitalistas industriais, que representou a transição, também, do Antigo Regime ao capitalismo industrial moderno.

Na figura 3, há uma demonstração desse crescimento de produtividade proporcionado pela mecanização do campo, através das revoluções industriais. É notável o crescimento da produtividade em todos os países estudados, com maior ênfase nos países de industrialização tardia. Assim, há uma maior necessidade de outras fontes de energia que não apenas a tração humana e animal, e nesse momento cresce a importância da eletricidade e do petróleo, com a segunda revolução industrial.

Figura 3 – Crescimento da produtividade per capita e por hectare em oito países da Europa Ocidental, entre 1870 e 1910, com preços de 1870

Fonte: van Zanden (1991)

Com a segunda revolução industrial, essas mudanças se caracterizavam cada vez mais claramente: as tendências vistas na primeira revolução industrial se reforçaram, com a introdução de produtos, máquinas e processos cada vez mais eficientes, utilizando fontes energéticas com maior poder de geração de energia. Segundo Szmrecsányi (1990), foi a revolução da ciência, a integração entre o conhecimento científico e processos produtivos.

Após esse momento houve o que foi conhecido como “Revolução Verde”, ocorrida entre 1960 e 1970. Tratava-se de uma inter-relação ainda mais forte entre agricultura e a indústria, através da utilização intensiva de insumos, seleção genética de sementes e, consequente, redução dos custos de manejo, entre outros. Buscou-se, então, uma padronização de técnicas e tecnologias, perseguida por muitos países que apresentavam as condições necessárias para empregarem essas mudanças e para se aproveitarem dessa elevada produtividade.

A partir dessa data, a FAO, através do FAOSTAT, apresenta um índice de produção de alimentos, criando uma cesta com diversos produtos alimentares, com um peso pré- determinado desses produtos no índice, apresentado no gráfico 8. Nele, pode-se notar a tendência de crescimento na produção de alimentos em praticamente todo o período representado, com exceção da Europa, no final da década de 1980 ou, mais recentemente, como a América do Sul.

Gráfico 8 – Índice de produção de alimentos (2004-2006 = 100) Fonte: FAO (2011)

Apesar disso, há uma preocupação tanto ambiental como energética. Para o primeiro caso, o uso excessivo de fertilizantes e defensivos agrícolas acaba contaminando solos e água. Para o segundo, dados de Pfeiffer (2004) mostram que, para a alimentação humana, foram

usados cerca de 95 milhões de barris de petróleo em 2002, com 30% desse valor utilizado para a fabricação de fertilizantes inorgânicos.

4.1.1 Evolução do consumo e precificação do petróleo

Como visto anteriormente, a segunda revolução industrial levou ao campo a maior necessidade por petróleo e eletricidade, não apenas para o funcionamento das máquinas, mas também para a produção de fertilizantes, materiais de estufa e embalagens, transporte da produção, entre outros usos. Com isso, percebeu-se a importância do petróleo para a agricultura, que, como será estudado mais adiante, terá um papel importante na chamada “crise dos alimentos”.

No gráfico 9 é apresentado o consumo de petróleo em milhares de barris, e nele percebe-se que o crescimento no consumo se deu, basicamente, na Ásia, principalmente pelo crescimento da China. Com esse elevado crescimento no consumo, por se tratar de um produto com elasticidade-preço muito baixa, é esperado um aumento constante dos preços (LAFFONT; TIROLE, 1993). Um dos motivos agravantes para isso é o fato do petróleo ter um cartel mundial de produtores de petróleo: a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, ou OPEP, é uma organização que controla a política de produção de petróleo dos países com as maiores reservas do mundo, ela detém quase 80% das reservas mundiais de petróleo, o que a leva a ter grande influência sobre os preços do barril (ORFILA, 2008).

Gráfico 9 – Consumo de petróleo entre 1980 e 2006, por continente, em milhares de barris de petróleo Fonte: International Energy Annual (2009)

Pelo gráfico 10 se percebe o momento de alta nos preços do petróleo a partir de 1998, que acabou levando o barril a um preço médio anual de quase US$100, bem próximo ao pico histórico de 1980 (em preços ajustados pelo índice de preços ao consumidor – consumidores urbanos5). Sob tal conjuntura, foram iniciados os principais programas de biocombustíveis do mundo, e, além disso, um importante componente para a “crise dos alimentos”, como veremos adiante.

Gráfico 10 – Série histórica de médias anuais de preços de petróleo, entre 1946 e 2010 (em dólares de 2010) Fonte: inflationdata.com (2011)