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No Brasil, as primeiras pesquisas sobre as profissões emergiram na década de 1970, em São Paulo, quando estudos sobre médicos, desenvolvidos por Donnangelo (1975) significaram um marco. Entretanto, foi somente a partir da década de 1990, que se observou uma “[...] grande diversificação institucional da produção” no campo das profissões no País, segundo Barbosa (2003, p. 595).

Nessa trajetória, a profissão e a formação profissional do médico brasileiro receberam especial atenção de diversos pesquisadores que buscaram desvendar a realidade nacional sobre as profissões, adotando referenciais teórico-metodológicos diversificados. Dentre eles, destacaram-se Santos (1987), Machado (1996), Donnangelo (1975), Coelho (1999), Souza (2001), Bosi (2005) e Campos (2006).

Na perspectiva do senso comum, historicamente, a medicina foi considerada no Brasil, como uma profissão liberal, entendendo-se por profissão liberal aquela

[...] atividade especializada, que requer preparo através de treinamento formal de nível superior, que encerra prestígio social e intelectual, ou ambos, que é praticada de forma autônoma e cuja base de conhecimentos é de natureza predominantemente técnica ou intelectual (COELHO, 1999, p. 24).

Entretanto, as pesquisas eram controversas no que tange à caracterização da medicina como profissão liberal no país, tendo em vista o fato de, ao longo da história, muitos médicos exercerem suas atividades sob alguma forma de supervisão hierárquica (COELHO, 1999), bem como por estarem submetidos ao assalariamento, tanto no setor público, quanto no privado (DONNANGELO, 1975). Trata-se, portanto, muito mais de um ideal de profissão, ou de uma aspiração por total autonomia profissional, do que de uma profissão liberal, de fato, na medida em que tal característica não contempla todos aqueles que a exercem a medicina em todas as situações de trabalho (DONANNGELO, 1975; COELHO, 1999).

Em outros termos, o trabalho do médico poderia ser realizado em diversos espaços, com diferentes formas de vinculação, isoladamente ou de forma combinada, isto é, um médico poderia trabalhar no consultório particular e/ou em clínicas, e/ou em hospitais, e/ou com grupos médicos dentre outras possíveis formas. Tal combinação poderia ocorrer no setor público, no privado e no filantrópico, cabendo ainda a figura do profissional autônomo, do empregado e do empresário médico, conforme já constatava Donanngelo (1975) na década de 1970.

Em face de tais contingências, torna-se necessário debruçar o olhar sobre a evolução da medicina no Brasil, o que teve inicio no século XIX. As primeiras escolas médicas do Brasil foram a de Salvador e a do Rio de Janeiro, criadas, respectivamente, em fevereiro e abril de 1808; a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais foi criada em 1911 (LAMPERT, 2008). Em 1960, já existiam 27 escolas médicas no Brasil, sendo que esse contingente cresceu para 73 em 1971 (DONNANGELO, 1975). Em março de 2010, o País contabilizava 181 cursos de medicina (CRM-MG, 2010), sendo que 33 se localizavam em São Paulo, seguido por Minas Gerais com 30 escolas médicas (AMMG, 2012).

Observa-se, assim, que em aproximadamente 50 anos, o número de escolas médicas no Brasil tornou-se quase sete vezes maior. Se, na década de 1960/1970, o médico experimentava uma amplitude de possibilidades para o exercício da atividade profissional, como constatou Donnangelo (1975), com a ampliação do número de escolas médicas e, consequentemente, da concorrência entre os profissionais, pode-se pressupor a tendência de

aumento do nível de assalariamento, de diversificação nas formas de atuação, de concentração em determinadas regiões do País, bem como de comprometimento da qualidade da formação e do desempenho profissional. Essas variáveis vêm se tornando objeto de estudos e preocupações no âmbito da própria categoria profissional.

Um quadro da realidade da profissão no Brasil foi apresentado no relatório da pesquisa

Demografia Médica no Brasil: dados gerais e descrições de desigualdades, elaborada em

parceria pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Esta investigação, coordenada por Scheffer, Biancarelli e Cassenote (2011), mostrou que o Conselho Federal de Medicina (CFM) e os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) registraram, até outubro de 2011, o contingente de 371.788 médicos em atividade no Brasil. Tal resultado demonstra o crescimento vertiginoso, durante 40 anos, do número de médicos, bem como as desigualdades da distribuição no País.

Se, em 1970, havia 58.994 médicos no Brasil, em 2011, registrou-se um aumento de 540% e, paralelamente, de 1970 a 2010, a população brasileira cresceu 104,8%. Ao analisar a evolução da taxa de crescimento da população brasileira, da população de médicos e a razão médico por habitante, de 1980 a 2010, Scheffer, Biancarelli e Cassenote (2011) observaram que persistiu um aumento nas duas populações, em que pese a redução na velocidade desse crescimento. Notou-se, porém, que o crescimento da população dos médicos foi, em geral, maior que o crescimento da população do País, conforme apresentado no gráfico 1.

Gráfico 1 - Evolução da taxa de crescimento da população brasileira, da população de médicos e da razão médico/habitante, de 1980 a 2010

Fonte - SCHEFFER, BIANCARELLI e CASSENOTE, 2011, p. 18.

No que tange ao perfil profissional dos médicos inscritos nos CRMs, observa-se uma mudança significativa e histórica em curso: em 2009, pela primeira vez, o número de mulheres ultrapassou o de homens. Consequentemente, pela primeira vez, no grupo de médicos com 29 anos ou menos, as mulheres também foram maioria (53,31%) conforme identificaram Scheffer, Biancarelli e Cassenote (2011) e se vê na tabela 2.

Tabela 2

Percentual de médicos brasileiros, de acordo com idade e sexo

Fonte - Scheffer, Biancarelli e Cassenote, 2011, p. 18.

Entretanto, no que concerne ao mercado de trabalho, a predominância ainda é masculina, particularmente, em faixas etárias mais avançadas. Nota-se, por exemplo, que de 55 a 59 anos, 64,64% são homens e 35,365 mulheres, ou seja, quase o dobro. A pesquisa também apontou no sentido da feminização da medicina, seguindo uma tendência mundial, pois, em 30 países estudados, a proporção de mulheres médicas cresceu 30% entre 1900 e 2005 (SCHEFFER, BIANCARELLI e CASSENOTE, 2011).

O crescimento do número de médicos do Brasil apresentado na referida pesquisa foi decorrente de algumas variáveis, dentre elas, a procura significativa pela profissão, que pôde ser constatada, em 2009, pela relação candidato/vaga de 23,3% no vestibular para os cursos de graduação em medicina, uma das maiores taxas identificadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Em Minas Gerais, no vestibular para 2013, o curso de medicina na UFMG contou com 49,77 candidatos por vaga18.

A segunda variável citada na pesquisa foi o boom de abertura de escolas de Medicina, a partir de 1964. Scheffer, Biancarelli e Cassenote (2011) reiteraram resultados da pesquisa realizada por Carneiro e Gouveia (2004), na qual se identificou a predominância de médicos graduados em Instituições de Ensino Superior (IES) de natureza pública. As 12 universidades identificadas na pesquisa como as que mais formaram médicos no Brasil foram, nessa ordem:

18

Disponível em: <http://web.cpv.ufmg.br/Arquivos/2012/Relacao_candidato_vaga.pdf>. Acesso em: 25 set. 2012.

a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal do Paraná, seguidas de Rio de Janeiro, Ceará, Paraíba, São Paulo, Bahia, Juiz de Fora, da Universidade de Pernambuco, da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade Severino Sombra (Vassouras, Rio de Janeiro).

Quanto aos tipos de cursos de pós-graduação realizados pelos médicos, observaram-se variações comparando-se com pesquisa anterior empreendida por Machado (1996). A realização de pós-graduação lato sensu (residência médica e especialização) diminuiu, a

stricto sensu (mestrado e doutorado) apresentou evidente aumento e o estágio de pós-

doutorado permaneceu praticamente inalterado (CARNEIRO e GOUVEIA, 2004). Constataram-se 29 principais opções de especialidades em cursos de especialização médica, sendo a medicina do trabalho a opção mais escolhida (15,9%), seguida da cardiologia (8,7%) e da administração hospitalar (6,0%) (CARNEIRO e GOUVEIA, 2004).

Tais resultados mostraram que a formação continuada do médico ainda é focada em áreas tradicionais da profissão, pois, somaram 78,1% das escolhas, incluindo-se nesse grupo a cardiologia. A medicina do trabalho e a administração hospitalar, que participaram com 21,9% das opções por especialização, são áreas consideradas menos tradicionais pelos autores (op. cit). Destaca-se que a administração hospitalar foi opção de significativa parcela dos profissionais participantes da pesquisa, figurando como a terceira mais procurada para a especialização. Tal fato denota o interesse do profissional por um conteúdo complementar, que tende a significar um meio para suprir deficiências da formação técnica de base no exercício da profissão em funções de gestão.

O investimento do Conselho Regional de Medicina, especificamente em São Paulo (CREMESP) e Minas Gerais (CRM-MG), bem como do Conselho Federal de Medicina (CFM) em pesquisas sistemáticas sobre a profissão e os profissionais médicos é um indicador do nível de estruturação dessa profissão no Brasil. Tais investimentos das organizações da classe permitem inferir que ampliar e aprofundar o conhecimento sobre a categoria que representam possibilita subsidiar ações para fortalecimento e defesa de interesses da profissão. Cabe lembrar que no século XXI, “[...] o poder das profissões tornou-se muito mais amplo, regulado essencialmente pelos pares, em associações profissionais e com a anuência do Estado” (AREOSA e CARAPINHEIRO, 2008, p. 86).

O estudo das profissões e da formação dos profissionais neste século situa-se em um contexto de ampliação da importância do conhecimento formal. Nesse sentido, os resultados das pesquisas de Carneiro e Gouveia (2004) e Scheffer, Biancarelli e Cassenote (2011) mostraram que a profissão e a formação do médico brasileiro acompanham a mencionada

tendência. Igualmente o interesse da categoria pelo conhecimento formal no âmbito da administração hospitalar sinaliza também no sentido de interesse dos médicos pelo campo do conhecimento da gestão organizacional.

Sob o amparo do aporte teórico apresentado, e tendo em vista o objetivo da pesquisa, que foi compreender como se configura a identidade de médicos cooperados diretores executivos de uma Unimed, considerando as competências profissionais mobilizadas para o exercício da função, expõe-se, a seguir, a metodologia utilizada no estudo.

4 METODOLOGIA

Neste caprítulo, apresenta-se a metodologia adotada para o alcance dos objetivos da pesquisa, sendo seus principais tópicos: a caracterização da pesquisa, os sujeitos da pesquisa, os procedimentos para a coleta de dados, o tratamento e a análise dos dados e os aspectos éticos da pesquisa.