Neste item, dedicamos especial atenção à geração de substantivos, às formas nominais (nominalizadas) de gerúndio, infinitivo e particípio.
a) gerúndio
Dentre as manifestações verbais dos entrevistados, registramos um uso aleatório do gerúndio:
F1 I “eles conseguem entender a gramática, mas eles estão escutando e
aprendendo; eles não estão falando e aprendendo [...] por isso [...]
não estão praticando."
L2 “eles conseguem entender a gramática, mas ficam só ouvindo sem
praticar a fala.”
Esse texto nos sugere a dificuldade nas nominalizações, — na construção das formas nominalizadas tais como fala, aprendizagem e prática, que enriquecem a estrutura do texto, evitando o emprego desmedido do gerúndio. Trata-se de um recurso adotado com vistas à melhor comunicação, o que resulta num discurso com uma composição estranha e incômoda para a expressão do pensamento.
b) particípio
Considerem-se expressões:
F1 I "[...] com escrito da estudante" L2 "com a escrita da estudante"
F2 I "[...] sua exposto à televisão" L2 "[...] sua exposição à televisão"
F3 I "[...] origem dos nomes porque a maioria são um mechilhado" L2 "[...] origem dos nomes porque a maioria é um mesclado"
(mistura)
Na primeira, [...] com escrito da estudante optou-se adequadamente pelo particípio, escrito, mas este foi usado sem a devida roupagem exigida pela nominalização que corresponde ao uso do determinante a, do feminino singular, presente no substantivo escrita. Desconsidera-se assim a nominalização apropriada ao contexto pela restrição ao uso dessa forma verbal usada na formação dos tempos compostos.
Na segunda, [...] sua exposto à televisão correspondente à [...] sua exposição
à televisão forma-se inadequadamente o substantivo na expressão sua exposto.
Justifica-se tal emprego com base em duas hipóteses. A primeira considerando que, por associação a outras derivações possíveis, nominalizou-se um particípio, que ficou agramatical. Sabemos que o sistema permite essa transformação em casos como: o machucado, o salgado, o passado, incluindo o composto e, o exposto, entre outros. A inadequação do particípio nessa fala é, no entanto, atribuída à presença de um determinante no feminino em um contexto em que a nominalização é transitiva, isto é, exige um complemento: à televisão, portanto, uma estruturação virtualmente preparada para admitir somente uma derivação sufixal exposição.
Essa segunda hipótese reside na confusão substantivo/adjetivo, pois as atualizações apropriadas ao contexto seriam:
"[...] porque está exposto à televisão (adjetivo)" e "[...] por sua exposição à televisão (substantivo)"
Na terceira,
“[...] origem dos nomes porque a maioria são um mechilado" por
“[...] origem dos nomes porque a maioria é um mesclado (mistura)”,
nominaliza-se o particípio por influência espanhola ao invés de se criar o deverbal
mescla/mistura.
C) Infinitivo
Observem-se as expressões registradas nas falas que seguem:
F1 I "[...] uma idéia que pode ajudar para formar uma tipa de [...] uma aula de português bem legal."
L2 "[...] uma idéia que pode ajudar na formação (criação) de um tipo de
F2 I "Um camino para correr" L2 "Uma pista de corrida"
F3 I "[...] coisas como o devertir" L2 "[...] coisas como o divertimento"
F4 I "outro sistema de vivir" L2 "outro modo de vida"
F5 I "eu não consegui bolsa estudar"
L2 "eu não consegui uma bolsa de estudos"
F6 I "o questión da falar"
L2 "a questão da fala (manifestação)"
F7 I "eles podem conseguir escrever" L2 "eles conseguem aprender a escrita"
F8 I "[...] coisa bem legal para ajudar com escrever"
L2 "[...] coisa bem legal para ajudar (desenvolver) a escrita"
F9 I "este período de ajustar"
L2 "este período de ajuste" (adaptação)
F10 I "[...] tem que estudar mais, tem uma de F [...] graduar de uma Escola [...]"
L2 "[...] tem de estudar mais, tem de ter uma graduação (um certificado)
de Faculdade"
Em 1, optou-se pelo uso do infinitivo formar por desconhecimento do substantivo correspondente, formação, ou por incapacidade de criá-lo.
Em 2, observa-se uma dificuldade na derivação do verbo correr para o substantivo corrida., uma forma provavelmente oriunda do particípio, conforme observado anteriormente.
Em 3, nominalizou-se o infinitivo devertir em lugar de divertimento, provavelmente por influência da língua inglesa [prep+-ing correspondente ao infinitivo em português], o que revela uma dificuldade na formação do substantivo.
Em 4, não se localiza o substantivo vida derivado de viver. Tem-se o infinitivo vivir por influência do espanhol.
Em 5, usou-se o verbo estudar no infinitivo o que acarreta a desestruturação do sintagma bolsa de estudos.
Em 6, aparece o infinitivo falar por desconhecimento do substantivo correspondente ou por incapacidade de fazer uso do processo de derivação regressiva para atualizar a palavra fala.
Em 7, por não se transformar o infinitivo escrever no substantivo escrita, ocorrem sintagmas verbais com auxiliares poder e conseguir redundantes e desnecessários. A opção aprender a escrita torna a idéia mais expressiva e natural através da nominalização do particípio no feminino em vez de seqüência de formas infinitivas.
Em 8, tem-se um registro semelhante ao anterior, em que se emprega o infinitivo escrever substituindo a forma nominalizada do particípio feminino, escrita um caso típico do uso abusivo do infinitivo. Trata-se de uma expressão diretamente transferida do Inglês para o português, formada com a terminação -ing, writing, precedida da preposição with, que foi traduzida no infinitivo por ser uma correspondência bastante freqüente [prep+-ing,] infinitivo em Português, ou por não se saber criar a nominalização do verbo escrever. Foi mais fácil fazer uso do verbo no infinitivo do que formar o substantivo através da nominalização do particípio.
Em 9, não se formou o substantivo ajuste; por derivação regressiva. Ao invés desse deverbal adotou-se mais uma vez o recurso do infinitivo.
Em 10, na falta substantivo graduação pela derivação sufixal; repetiu-se o do uso vicioso do infinitivo.
d) particípio presente
Apesar da terminologia desusada, por corresponder a uma das vertentes da bifurcação do particípio antigo em presente e passado, essa forma de particípio
presente mantém-se viva e necessária aos discursos, motivo pelo qual ela foi aqui incluída, uma vez que pertence ainda aos casos relacionados às formas nominais.
Analisem-se:
F1 I "Resto do Brasil é outra coisa" L2 "o restante do Brasil é outra coisa"
F2 I "A gente que falam [...] da língua" L2 "os falantes da língua"
Em 1, a derivação regressiva resto, sem o devido determinante carrega uma nuance pejorativa por assumir o lugar da formação culta restante, construída através do sufixo -nte, isto é, uma nominalização do antigo particípio presente.
O erro nesse caso caracteriza-se não mais pela presença, como se verificou com as formas nominais do gerúndio, do infinitivo e do particípio apresentadas, mas pela ausência de um substantivo mais apropriado semanticamente correspondente a essa forma do antigo particípio presente, o que chamou nossa atenção pela sua pertinência ao contexto.
A ocorrência 2, a gente que falam, também sugere a pertinência dessa forma nominal. Encontra-se nessa fala uma maneira prolixa de substituição à disponibilidade concisa e usual: falantes.
Os recursos utilizados nessas ocorrências configuram-se muitas vezes pelo uso aleatório das formas nominais, daí podermos constatar uma dificuldade na geração adequada de substantivos.