Outros casos mais específicos de usos alternativos seguem agrupados sob as rubricas que caracterizam os tipos de desvios de expressão: ampliação, redução, substituição, complementação e generalização. As justificativas desses blocos destinam-se a demonstrar a origem dos problemas que descaracterizaram a disciplina lingüística autorizada e aceitável em conformidade com as áreas da morfologia, sintaxe e semântica.
3.1.5.1.1 Ampliação
Notem-se as correspondências:
INTERLÍNGUA L2
"Ele não tem uma trabalho aqui." "Ele não trabalha aqui." "Com você tem um casamento." "Quando você se casa."
"dar resposta" "Responder"
"Ficar com apartamento" "Hospedar-se"
"Ficar com televisão" "Ficar assistindo televisão"
"Tudos fica bobage" "Não resolve (não soluciona) nada" "Estar atrasado" "Atrasar-se"
me senti infeliz "Sofri muito"
"Senti falta para ser fluente" "Senti falta de fluência" "Eu tinha uma sentido isolação" "Eu me sentia sozinha" "[...] tem diferência da Inglaterra" "É diferente da Inglaterra"
"As pessoas vivem juntos ao lado do
outro"
"As pessoas são solidárias" "Ambas no Brasil estes país
estrangeiros também"
"Ambas no Brasil e em outros países também"
"Português da rua" "Português coloquial, informal" "os povos em todo o mundo" "As população mundial"
"Nas áreas do público" "Nas áreas públicas" "As pessoas do Brasil" "Os brasileiros" "O país do Brasil" "O Brasil" "o menino da loja" "O vendedor"
"Coisa que parece simples" "Coisa aparentemente simples"
Os recursos precedentes revelam uma dificuldade na manipulação das relações lexicais para o estabelecimento das prioridades na escolha da classe de palavras, para que estas assumam com mais propriedade uma determinada função dentro de um texto. As disponibilidades existentes no universo lexical sugerem alternativas que venham representar melhor as idéias, e assim facilitar sua comunicação, em um determinado contexto. Para isso, dever-se-á observar mais atentamente o desempenho aceitável da classe escolhida, tomando como base suas possíveis funções, pré-estabelecidas pela gramática. Significa, portanto, saber distinguir as diferentes classes de palavras e aplicá-las de maneira mais conveniente às normas gramaticais, como meio funcional de traduzirmos a intenção do falante.
Em toda essa enumeração de recursos alternativos apresentada existe uma dificuldade latente, que pode ser facilmente inferida por um estudioso dessas falas: dificuldade em sintetizar idéias.
Observe-se agora a fala:
F1 I “Demora muito a burocracia aqui” L2 “A burocracia aqui é muito demorada”
Empregou-se nessa fala, na interlíngua, a burocracia –como sujeito agente ao invés de sujeito paciente.
Aplica-se nesse caso uma situação inversa à anterior, um contexto que admitiria uma expressão verbo+adjetivo, ser demorada, ao invés de usar essa paráfrase, optou-se pelo verbo correspondente, demorar, criando uma oração, em que o sujeito vai assumir uma função (agente) em desacordo com o raciocínio lógico-gramatical (paciente) ― resultando em um erro.
3.1.5.1.2 Redução
Considerem-se as falas:
F1 I "Responsabilidade dos assuntos educação"
L2 "Responsabilidade pelos assuntos sobre (de) educação
(educacionais)"
F2 I eu fiquei vontade aqui.
L2 eu fiquei à vontade (descontraída, relaxada) aqui.
F3 I "eu estou (falando) confiança"
F4 I Talento dos vivar estrangeiro L2 talento para viver no estrangeiro
F5 I contratos papel
L2 Contratos por escrito (no papel, assinados)
e
F6 I para com os coletivo
L2 com a coletividade (o público, o povo em geral)
Encontramos, nos primeiro e terceiro exemplos, um problema sintático configurado pela ausência dos elementos de relação representados pelas preposições sobre e em respectivamente. Nos segundo e quarto, omitem-se as formas à e no (contração e combinação respectivamente) indispensáveis à composição aceitável do sintagma. No quinto exemplo, uma inadequação na escolha lexical: papel em lugar da expressão por escrito, assinado, configurando-se num problema morfossemântico, conforme se verifica em L2. No sexto, uma opção lexical inadequada, coletivo, para a referência ao povo, à sociedade, decorre da nominalização do adjetivo no plural, deixando essa marca somente no determinante
os, sem a devida concordância nominal, os coletivo. Esses recursos denunciam a
dificuldade na criação do substantivo coletividade. Trata-se de uma tendência contrária à anteriormente vista, voltada, agora, especificamente aos substantivos que aparecem isolados e desprovidos da necessária roupagem sintagmática ― sem modificadores havendo, portanto, uma redução da expressão.
De maneira geral, podemos inferir e incluir em toda a apresentação dessas falas, também, uma falha basicamente relacionada aos verbos, com respeito à distinção entre verbo/deverbal (substantivo)/adjetivos derivados de verbos.
Demonstra-se o problema não só nas respectivas transformações morfológicas como também em realizações complicadas, com marcas de provável ineficiência nas técnicas aplicadas de como estabelecer relações entre classes de palavras, entre certas palavras de mesma família lexical (mesmas raízes lexicais) o que vem justificar a tão reincidente ausência das formas de derivação de adjetivos que vimos observando nos registros dos entrevistados. Esse fato pode, ainda, ser atribuído novamente à pouca ênfase nas práticas e utilização adequada dos recursos disponíveis, voltados à palavra e condicionamento de suas possíveis
funções para alcançar uma aceitável contextualização em língua portuguesa, portanto, um problema que recai mais especificamente na seleção, compreensão e retenção das relações morfossintáticas básicas do discurso.
3.1.5.1.3 Substituição
Desse procedimento registramos:
F1 I "Aquele negócio onde [...] eu fico no cavalo bom" L2 "Aquele negócio onde eu fico bem no cavalo"
e
F2 I "o coisa a gente usam no peito [...] na gar [...]" L2 "essa coisa que as pessoas usam no pescoço [...]"
Nesses casos, criam-se formas mais extensas de expressão – verdadeiras definições – para substituírem os substantivos não localizados ou não lembrados e assim suprir deficiências de vocabulário. Nota-se o emprego desses recursos em 1 e 2, para substituir, respectivamente, as palavras cela e colar.
3.1.5.1.4 Complementação
Quanto à complementação temos:
F1 I "[...] agora eu vou desenvolver uma sistema muito bom.”
L2 um sistema de ensino e aprendizagem, uma técnica de ensino e
aprendizagem, uma metodologia funcional." F2 I "Nós não tínhamos cultura."
F3 I "Eles não tinha uma percepção."
L2 "uma percepção para entender o necessário, uma capacidade de
perceber o prioritário para o aluno."
F4 I "Eu não sou chefe bem mas eu tenho uma quadra, um quadro [...]" L2 "um quadro de funcionários, equipe de funcionários."
F5 I "Você não tem conhecimento com sua quadra." L2 "conhecimento para dialogar, boa comunicação."
F6 I "[...] porque nós não temos uma estrutura ou forma, mas eu acho que eu aprende.
L2 "forma adequada de aprendizagem."
e
F7 I "Realmente as aulas não tinha um tema." L2 "plano de ensino."
Nesses registros, adotam-se mecanismos merecedores de atenção devido à insuficiência de informação, atribuída a uma incapacidade lingüística que impede a composição de seqüências sintagmáticas facilitadoras da comunicação., daí a opção pelo uso de palavras como sistema, cultura, percepção, quadra, conhecimento,
estrutura e tema, que pelo seu caráter genérico e vago requerem transitividade, pois
necessitam de uma complementação ou eventualmente de uma paráfrase esclarecedora. Mais especificamente, expressões que se acham implícitas no contexto aparecem mal estruturadas na fala ― correspondem a sintagmas truncados que se restringem ao núcleo nominal, sem os devidos modificadores.
3.1.5.1.5 Generalização
F1 I "[...] como fazem outros partes, incluindo a Inglaterra" L2 "outros países"
F2 I "Esso é uma parte de Consulado" L2 "responsabilidade do Consulado"
F3 I "[...] e a muitos partes governo da Escócia" L2 "setores, órgãos do governo"
F4 I "A falta é na área comum, nas ruas [...]"
L2 "nos lugares, ambientes comuns, fora da Embaixada"
F5 I "Então na área de bares, restaurantes encontra outras pessoas fora da área do trabalho [...]"
L2 "região — local"
F6 I "uma das áreas onde inglês é conhecido" L2 "países, lugares"
F7 Ì "[...] outras áreas além do trabalho [...]" L2 "atividades"
F8 I "Nós moremos na área de 1º mundo" L2 "bairro nobre, de classe alta"
F9 I "[...] têm muitos transtornos do trânsito, de áreas de violência [...]" L2 "riscos de violência"
Essas ocorrências confirmam a opção pela substituição, pois os substantivos genéricos partes e área(s) substituem os mais específicos e adequados em L2. A palavra partes compensa generalizando: países, responsabilidade, setores, ("órgãos"), lugares ("ambientes") e área(s) generalizando região ('local"), países ('lugares"), atividades, bairro nobre e riscos.
O recurso à generalização vem se apresentando de forma muito comum nas falas registradas. Corresponde à utilização de palavras abrangentes, motivada por desconhecimento das mais apropriadas e específicas. Por esse motivo, verifica-se uma restrição de escolhas identificadas pela marca quase vazia, uma maneira de designar os vocábulos que, pela baixa expressividade semântica, conseguem atingir somente um nível de informação superficial e vago.
3.1.5.1.6 Inadequação
Quanto à inadequação, merecem também destaque as ocorrências registradas nos três casos que seguem:
1º caso:
F1 I “São Paulo tem o festa do filmes jurídica muito interessante.”
L2 "São Paulo tem o festival de filmes para julgamento (crítica dos
mesmos), o qual é muito interessante.”
Encontramos nessa fala um problema causado pelo emprego inadvertido da classe de palavras: usa-se um adjetivo jurídica em lugar de uma expressão para
julgamento que ficam mais distanciados ainda pela restrita aproximação semântica
entre eles ― uma relação sinonímica incompleta.
Por falta de localização de uma expressão que pudesse corresponder à
avaliação crítica criou-se uma palavra – um adjetivo real – mas que, pelo seu alto
grau de estranheza dentro do contexto por não apresentar qualquer relação morfossintática com os componentes frasais próximos a ele, não pode assumir objetivamente sua função de atributo e acabou ficando isolado. No entanto, uma leve associação semântica entre os elementos do texto nos levou a inferir uma paráfrase desse adjetivo: para julgamento (“crítica dos filmes”), bem próximo à intenção do falante.
2º Caso:
F1 I “Eu não tem certeza [...] você vai usar por uma outra assunto.” L2 “Eu não estou tranqüila (estou preocupada, nervosa) porque você
pode usar (esta entrevista) para uma outra finalidade.” e
F2 I “Felizmente o menino da loja falou um pouco inglês e nós realmente tem bem sucesso com os roupas formal.”
L2 “Felizmente o vendedor falava um pouco de inglês e nós conseguimos
nos comunicar muito bem na compra das roupas formais.”
Essas falas têm em comum uma expressão alternativa, formada pelo verbo ter+substantivo, mas se distanciam significativamente, da intenção do falante.
Em 1, a expressão ter certeza, não se adéqua ao contexto, poderia ter garantido ajuste semântico e correção em estruturas passíveis de construção — composições sintáticas disponíveis na língua, mas aparentemente inacessíveis aos falantes, formadas por ser/estar+adjetivo, estar tranqüilo como vemos em L2. Vimos observando o contrário: ser muito comum expressões do tipo
ter+substantivo apoiarem-se em paráfrases correspondentes à combinação de ser/estar+adjetivo em busca de maior objetividade e mais fácil decodificação das
formas de transmissão de mensagens, como ficou bastante acentuado em nossos textos teóricos.
Em 2, verifica-se a expressão ter sucesso em lugar de um verbo comunicar-
se, que não ocorreu no ato da fala, resultando uma absoluta incompatibilidade em
relação à verdadeira intenção do falante, impedindo ainda a decodificação da mensagem.
3º caso:
F1 I “Eu prefero de ficar voando, conhecendo lugar desde (from) o ar.” L2 “Eu prefiro ficar voando, conhecendo lugares lá de cima (do alto).”
Além da forma inusitada desde o ar, demonstrando uma influência direta da preposição from (indicadora de origem), encontrada na expressão inglesa from
above, esse recurso apresenta, ainda, uma inadequação semântica no substantivo ar.
3.1.6 Nominalizações: improcedências
Este item destina-se ao levantamento dos erros limitados às inadequações relativas aos nomes e às formas nominais a eles relacionadas. Apresentar-se-ão agrupados sob as rubricas: nomes: formação dos substantivos, formas nominais e formas nominalizadas (deverbais).