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“Estamos condenados a pensar uma mistura inextricável entre o mesmo e o outro, uma rede de relações constantemente aberta.”

(Maingueneau)

A “escola francesa de análise do discurso” surgiu em meados dos anos 60, mas o momento-chave de seu desenvolvimento foi em 1969, quando a revista Langages publicou um número, “L´Analyse du discours”, elaborado no departamento de Lingüística de Nanterre, e Michel Pêcheux publicou um livro, “Analyse automatique du discours”, editado pela Dunot, de Paris. Esses dois textos marcaram o ato de nascimento oficial de uma

corrente, para a qual convergem uma certa tradição de pesquisa, uma prática escolar e uma conjuntura intelectual (Maingueneau, 1991: 18). O pensamento de Louis Althusser serviu de catalisador a esse novo projeto, e a psicanálise de Jacques Lacan de modelo, no sentido em que, como o psicanalista, para aceder ao impensado, o praticante da escola

francesa de análise do discurso buscava decompor as continuidades verbais (ibid.: 18). Com a publicação dos livros “A arqueologia do saber”, de 1969, e “A ordem do discurso”, de 1971, a influência de Michel Foucault passou a ser considerável, no desenvolvimento dos trabalhos sobre a enunciação lingüística e sobre a coerência textual, embora Foucault não se preocupasse em estabelecer instrumentos metodológicos para o estudo dos textos.

Na Europa, a corrente original de reflexões sobre a linguagem é representada por C. Bally, E. Benveniste, R. Jakobson, A. Culioli. A “escola francesa”, no sentido mais restrito, pertence hoje à história das idéias, tendo sido marginalizada pelo desenvolvimento de uma nova maneira de praticar a análise do discurso, de “tendência francesa”, com uma concepção diferente da discursividade enunciativa, e com quatro traços particularmente significativos, de acordo com Maingueneau (ibid.: 24):

• o interesse por um corpus relativamente “restrito”; • a preocupação pela materialidade lingüística;

• a relação privilegiada com as problemáticas da enunciação lingüística, inseparável de uma reflexão sobre o Sujeito; e

O corpus

O corpus “restrito” não é um corpus menos “livre”: não se trata necessariamente de enunciados escritos, mas de enunciados associados a um contexto institucional definido e controlado por seus protagonistas; que sempre pressupõem a inter-relação entre formas prescritas e formas e menos rígidas da palavra; e que, freqüentemente, têm uma relação com a memória. Com a possibilidade do registro sonoro e audiovisual, tais enunciados são conservados, repetidos, comentados e transformados, o que modificou profundamente a relação com a memória e com a noção de “escrito” (hoje em dia, um enunciado oral registrado pela mídia radiofônica ou televisiva pode comprometer seu autor tanto quanto um depoimento escrito).

O discurso é prática construída na história e tem relação constitutiva com a memória

discursiva, constituída de formulações que repetem, recusam e transformam outras

formulações, com o aumento progressivo dos saberes compartilhados pelos interlocutores no decorrer de uma troca em contexto (concebido não como algo exterior, mas como uma realidade cognitiva: contexto lingüístico, situação extralingüística e conhecimentos gerais anteriores). Além disso, o discurso também é dominado pela memória de outros discursos historicamente situados. Assim, toda formulação estaria na intersecção de dois eixos: o

“vertical”, do pré-construído, do domínio da memória, e o “horizontal”, da linearidade do discurso, que oculta o primeiro eixo. O “domínio da memória” representa um interdiscurso transverso (Maingueneau, 1997: 115).

Fala-se, aqui, não da memória psicológica, presumida pelo enunciado enquanto inscrito na história (memória psicológica que é entendida por médicos e psiquiatras segundo outros parâmetros).

O poder da memória é o poder da própria vida: a memória é a morada do significado. Assim, quem perdeu a memória, como na amnésia ou na doença de Alzheimer, perdeu a si mesmo e à sua unicidade, pois sem história não há identidade, não há passado, nem futuro. Para que a vida tenha significado, é preciso ter preservada a capacidade de nos lembrarmos das coisas, senão perde-se a orientação do comportamento rumo a alvos e propósitos, já que estes são resultados de uma memória funcionante e ativa (Marino Jr., 2005: 94).

A materialidade lingüística

O lingüista leva em consideração as propriedades formais dos enunciados a analisar, interessando-se por suas formas e não somente por sua função social: a morfologia, a sintaxe, o léxico, os fenômenos enunciativos, um "a gente” em vez de um “eu”, uma construção passiva, uma designação, tudo isso é suscetível de chamar a atenção do analista do discurso.

Todo enunciado, antes de ser esse fragmento da língua natural que o lingüista procura analisar, é o produto de um acontecimento único, sua enunciação, que supõe um enunciador, um co-enunciador, um momento e um lugar particulares: portanto, todo discurso é um fenômeno de comunicação sócio-histórico-cultural, define sua identidade em relação ao outro e é constitutivamente heterogêneo. Esse acontecimento enunciativo deixa marcas lingüísticas observáveis, como os embreantes, cuja função consiste em articular o

enunciado à situação de enunciação: as pessoas do discurso (eu x você) e os dêiticos espaciais e temporais, os quais carregam uma significação nova a cada enunciação

(Souza-e-Silva, 2001: 134). Esse conjunto de referências (eu x você – aqui – agora) constitui a dêixis lingüística e define as coordenadas espaço-temporais implicadas em um ato de enunciação. A dêixis discursiva tem a mesma função, mas manifesta-se em outro nível: o do universo de sentido que uma formação discursiva constrói por meio de sua enunciação (Maingueneau, 1997: 41).

O sentido de elementos como eu, mim, me, não permanece imutável de uma enunciação a outra: eu, a primeira pessoa do discurso, sendo sempre o locutor, se reveste de uma significação nova a cada enunciação, da mesma maneira que você (o interlocutor, a segunda pessoa do discurso), e os dêiticos espaciais (aqui, em cima da bancada, lá naquele

endereço) e temporais (hoje, naquele ano, daqui a algum tempo). Eu e você remetem a papéis, indissociáveis e reversíveis, em que todo eu é um você em potencial, e todo você é um eu, na troca lingüística.

No entanto, há enunciados que, a despeito de sua natureza individual, escapam à condição de pessoa, isto é, não remetem a eles mesmos mas a uma situação “objetiva”: é o domínio da “terceira pessoa”.

A “terceira pessoa” representa o membro não marcado da correlação da pessoa : a “não-pessoa” - o único modo de enunciação possível para as instâncias do discurso que não devem remeter a elas mesma, mas que predicam o processo de não

sintática, que se estende a termos tomados às diferentes “partes do discurso”, e que corresponde a uma necessidade de economia, substituindo um segmento do enunciado e até um enunciado inteiro, por um substituto mais maleável. Assim, não há nada de comum entre a função desses substitutos e a dos indicadores de pessoa (Benveniste, 2005: 282).

É de se notar que a expressão “a gente” é uma forma de não-pessoa, invariável em gênero e número, sempre sujeito da frase, sempre designando um ser humano, e associado a um verbo em terceira pessoa do singular.

A enunciação

Na perspectiva dos lingüistas da escola de tendência francesa, a atividade enunciativa dos participantes da comunicação verbal desempenha papel privilegiado, e toda enunciação se inscreve no enunciado por meio de múltiplos traços: marcas de pessoas, de tempo, de lugar, mas também de determinação ou de modalidade. Ao privilegiar a inscrição do enunciador (locutor) e de seu co-enunciador (interlocutor) no enunciado, o analista do discurso considera que a subjetividade, que implica o discurso, frustra toda exterioridade simples entre um Sujeito lingüístico (discursivo) e um Sujeito psíquico e social (empírico) que se coloca independentemente da língua.

O sujeito enunciador é ao mesmo tempo ponto de referência (eu indica que o sujeito do enunciado é idêntico ao enunciador) e de modalizações. A modalidade é definida como

a forma lingüística de um julgamento intelectual, de um julgamento afetivo ou de uma vontade que o sujeito enuncia a propósito de uma percepção ou de uma representação de seu espírito (Bally, 1965 apud Maingueneau, 1991:114). A modalidade pode ser assertiva, quando coloca um enunciado como verdadeiro ou falso, ou apreciativa, quando emite um julgamento de valor. Neste sentido, um estatuto privilegiado é dado às “designações”, na maioria das vezes depreciativas, associadas a uma apreciação do enunciador e intrinsecamente ligadas ao ato mesmo de enunciação.

A primazia do interdiscurso

Admitir a primazia da interdiscursividade é recusar toda aproximação que faria de uma identidade discursiva uma pura referência a si mesmo. A interdiscursividade não é a comparação ou o simples contraste entre discursos considerados independentemente um do outro. A identidade de um discurso não é um dado, é um processo que não se completa

senão com a emergência e a preservação de uma certa configuração enunciativa. O intradiscursivo e o interdiscursivo estão ligados, a relação com o “outro” é uma modalidade de relação consigo mesmo, que não se fecha em si mesmo. A enunciação não se desenvolve

a partir de uma intenção firmada, ela sempre é atravessada por múltiplas formas de convocação de palavras reais ou virtuais, pela ameaça de escorregadelas naquilo que não deve jamais ser dito, aquilo cuja presença invasiva e invisível dobra constantemente a enunciação (Maingueneau 1991: 26).

Sendo assim, como todo discurso tem a propriedade de estar em relação multiforme com outros discursos, anteriores a ele e independentes dele, isso determina que o sentido de uma enunciação não seja a projeção de um “querer dizer”, mas antes, que o sentido seria fruto de uma “negociação”, num espaço fundamentalmente conflituoso, de estabilidade jamais assegurada, e sob a dupla coerção do já-dito e do dizível.

Em sentido restritivo, o interdiscurso é também um espaço discursivo, um conjunto de discursos (de um mesmo campo discursivo ou de campos distintos) que mantém relações de delimitação recíproca uns com os outros. Em sentido mais amplo, o interdiscurso é o conjunto das unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores) com os quais um discurso particular entra em relação implícita ou explícita. Assim, a unidade de análise

pertinente não é o discurso, mas um espaço de trocas entre vários discursos convenientemente escolhidos (id., 1984: 11).

No caso deste estudo, em que se procura caracterizar o gênero de atividade do dentista, isso é feito levando em consideração o interdiscurso Medicina/Odontologia, isto é, a sempre presente relação de delimitação recíproca com o gênero de atividade do médico, embora haja diferenças na estrutura e no funcionamento deles, que se refletem nas posições enunciativas dos locutores, dentistas ou médicos. A unidade de análise não seria, então, o discurso do dentista, mas o espaço de trocas entre os dois discursos (sujeitos a prescrições, regras e normas semelhantes, determinadas para o atendimento na área da saúde, mas que expressam concorrência, competição e antagonismo profissionais).

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