• No results found

1. Introduction

1.1 The human gut microbiota

Num primeiro momento, não houve grandes contradições entre as igrejas protestantes e o novo governo. Esta etapa Ham a intitulou como Lua de mel (1959- 1960)52. Mas em breve viria um período de tensões e desconfiança. O Estado cubano nacionalizou todas as empresas, indústrias e instituições beneficentes: a saúde, o transporte, a educação e os esportes. As propriedades das igrejas também passaram às mãos do Estado, exceto os templos, as casas pastorais e alguns seminários.

Por um lado, as igrejas acreditavam que as idéias filosóficas do novo governo poriam em perigo de extinção a fé em Deus e o exercício da vida cristã. Isto fez com que muitos pastores saíssem de Cuba para os Estados Unidos e outros países. Por outro lado, o Estado socialista tinha o critério de que a ideologia das igrejas induziria o ser humano à alienação, o que contrastava com o projeto social baseado na doutrina marxista- leninista. As igrejas não estavam preparadas para esse processo, nem o Estado teve a capacidade de entender a função das igrejas na sociedade. As atividades das igrejas reduziram-se estritamente dentro dos templos.

A etapa de tensão e desconfiança, segundo o relatado por Ham, estender-se-ia até 1969. A partir desse momento se dá a passagem para um período de coexistência

pacífica. Entre outros fatores que possibilitaram um convívio menos tenso entre Estado e

Igreja destacam-se os seguintes: após 10 anos da instauração do sistema socialista, a ideologia e os mecanismos de controle governamentais tinham se fortalecido consideravelmente e o fato do Estado se sentir mais coeso fez com que seu discurso, se opondo ao sistema de idéias das igrejas, se tornasse menos agressivo; muitas das lideranças eclesiásticas influentes, que professavam uma ideologia abertamente oposta ao governo, haviam emigrado e as congregações debilitadas, no que diz respeito à

50

Adolfo Ham é um pastor jubilado da Igreja Presbiteriana-Reformada em Cuba, trabalha como professor de filosofia no SET. Tem escrito e dissertado, entre outras questões, sobre a relação entre filosofia e fé cristã, arte e estética. Ocupou cargos importantes no CIC e na CCC, como assessor teológico.

51

HAM REYES, Adolfo. Cronología del movimiento ecuménico cubano. http://www.palabracubana.org / Ecumenismo/cronologia.htm.

52 Idem.

quantidade de fiéis, focaram-se mais na sobrevivência e na procura de uma autonomia estrutural do que no enfrentamento ideológico-político ou na adoção de atitudes abertamente contra-revolucionárias; neste período emitiram-se, com certa regularidade, declarações que advogavam a participação dos/as cristão/ãs na construção de uma sociedade socialista. Tanto estes fatos como muitos outros, prepararam o caminho para o que Ham identifica como a Etapa da reaproximação.

Vários acontecimentos caracterizaram esse período de reaproximação (1979- 1990): triunfo da Revolução Sandinista em 17 de julho de 1979, em que cristãos e cristãs participaram; discurso de Castro sobre a unidade dos cristãos e marxistas, depois de visitar Nicarágua em 26 de julho de 1980; visita de Monsenhor J. Vilnet, Presidente da Conferência Episcopal Francesa em 1984; visita do pré-candidato democrata dos Estados Unidos, Reverendo J. Jackson em Junho de 1984; visita de uma delegação da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos de 21 a 25 de janeiro de 1985; livro Fidel y la Religión de Frei Betto em dezembro de 1985; "Encontro Nacional Eclesiológico Cubano" de 17 a 23 de fevereiro de 1986; ano do bicentenário do nascimento do Presbítero Félix Varela, 1988; visita do Cardeal J. O’Connor, Cardeal de New York, abril de 1988; e reunião de Fidel Castro Ruz com setenta [70] lideranças cristãs em 2 de abril de 199053.

Desses eventos, o que marcou o final de uma etapa, a de reaproximação, e o início de uma nova, a de abertura, foi a reunião celebrada em 2 de abril de 1990, em Havana, a capital do país. Dela participaram: o então presidente da república Fidel Castro Ruz, lideranças do Partido Comunista de Cuba (PCC) e representantes das igrejas cubanas e organizações ecumênicas. Entre outros aspectos, concluíram-se os seguintes: o Estado cubano mudaria sua condição de Estado ateu para Estado laico; um membro do P.C.C., ou de qualquer outra organização política, poderia também ser membro de uma igreja; uma pessoa cristã poderia ser membro de qualquer organização política ou de massas; nenhuma pessoa religiosa poderia ser discriminada por causa de seu credo ou sua religião54.

53

HAM, Adolfo. Cronología del Movimiento Ecuménico Cubano. Op. cit. 54

Cf.: Periódico Girón, jueves 22 de marzo de 1990, que informa sobre o encontro de Fidel Castro Ruz com mais de mil e trezentas [1.300] lideranças das CEBs de vários estados do Brasil; no livro intitulado

Cien horas com Fidel, de Ignácio Ramonet, que detalha alguns dos conflitos entre revolução e igrejas em

No que se diz respeito à abertura religiosa há duas opiniões: a primeira, que a abertura foi um fato conjuntural; a segunda, que a mesma adveio de um processo iniciado vinte [20] anos antes. As pessoas55 que sustentavam a primeira opinião, a abertura como fato conjuntural, se baseavam, principalmente, em três argumentos: o Estado precisava manter a unidade da nação; as igrejas cubanas tinham relações com outras igrejas estrangeiras que enviavam doações de recursos financeiros e materiais necessários para Cuba; as igrejas podiam ajudar na recuperação da esperança e da serenidade num momento de crise. A segunda opinião, a abertura como resultado de um processo que foi consolidando-se no decurso do tempo, alicerçava-se no argumento de que uma série de fatos, no período do governo revolucionário, propiciou um melhor relacionamento entre igrejas e Estado.

Seja a razão que for, constata-se que nos templos coincidiram três grupos diferentes de pessoas: 1) as que sempre permaneceram na igreja, 2) as que a partir de 1959 se incorporaram ao processo revolucionário e que voltaram depois das mudanças políticas, 3) a geração educada numa ideologia marxista que não tinha nenhuma formação religiosa.

O primeiro grupo acreditava que tinha o dever de manter a tradição da Igreja, mas mostrava certa abertura frente à nova situação e renovação do culto. O segundo grupo era menos aberto às mudanças litúrgicas e se preocupava em recuperar as práticas litúrgicas que haviam conhecido trinta anos antes, quando tinham abandonado suas congregações. O terceiro grupo, a geração sem formação religiosa, não tinha preconceitos doutrinais e procurava formas de adoração de acordo com suas expectativas. Além disto, existia uma tensão entre a marca litúrgico-doutrinal advinda dos Estados Unidos e as outras heranças culturais do povo cubano.

A partir da abertura religiosa, no ano de 1990, houve um crescente interesse na população cubana pelos temas religiosos e pelas práticas relativas aos mesmos, mas as igrejas e lideranças não conseguem dar conta das demandas do contexto. Os fatos dos últimos anos do século XX, e dos primórdios do XXI, marcaram sinais de uma nova realidade. Esse momento descreveu-se assim:

Ciencias Sociales, 1997; e na Resolução Final do IV Congresso do Partido Comunista de Cuba, item 13, evento celebrado em Santiago de Cuba no ano de 1991.

55

Neste caso, não estou destacando critérios advindos de instituições eclesiais ou estaduais, mas opiniões proferidas em conversações extra-oficiais, nas ruas ou entre pessoas com certa intimidade.

O cenário político e religioso alterou-se profundamente após a queda do muro de Berlim (1989) [...]. A utopia socialista, que alimentava a práxis de muitos cristãos, perdeu seu poder de encanto e sedução. A própria Teologia da Libertação ainda passa por um processo de reformulação na busca de uma reflexão teológica que apreenda a complexidade da modernidade neste final de milênio [...]. Busca-se [...] novos paradigmas que dêem sustentação e iluminem a ação missionária dos cristãos [...]. Percebe-se que há, desde o final dos anos 80, uma profunda crise de referências para as pastorais sociais. Os pastoralistas enfrentam também uma dificuldade comum aos demais cientistas sociais: a incapacidade de interpretar e resignificar, com segurança e rapidez, as profundas mudanças culturais em andamento neste final de milênio56.

Segundo dados estatísticos57, existem em Cuba 54 denominações protestantes reconhecidas pelo Estado; 1.100 pessoas que profissionalmente exercem o pastorado, quase todas de nacionalidade cubana; 90058 templos e 50059 casas de culto; 10 seminários para a formação de pastores e pastoras; 750.00060 pessoas identificadas como protestantes ou evangélicas (aproximadamente 6,6% da população) e em media 500.000 fiéis assistem semanalmente aos serviços da referida tradição cristã61.

Após 18 anos de ter iniciado a abertura religiosa, uma quarta geração forma parte das igrejas, aquela que vai se formando tanto pelo ensino estadual quanto pelas doutrinas cristãs. Nesse cenário, o grande desafio é harmonizar, educar e acompanhar os diferentes grupos de pessoas com os quais as igrejas interagem. Depois dessa panorâmica da Ilha de Cuba, é oportuno tratar questões conceituais sobre os termos cultura e identidade cultural. Também se trarão à luz informações sobre a maneira em que a temática da identidade tem sido abordada no país, bem como algumas apreciações sobre o processo de diferenciação-identificação dos diferentes sujeitos da cultura cubana.

56

CASTRO, Clovis Pinto de. Por uma fé cidadã – a dimensão pública da igreja: fundamentos para uma pastoral da cidadania, p. 103.

57

RAMÍREZ CALZADILLA, Jorge. Las actuales investigaciones sociorreligiosas sobre el protestantismo en Cuba. In Aniversario 25 del Departamento de Ciencias Sociales. La Habana: Centro de Investigaciones Psicológicas y Sociológicas, 2006, pp. 1458-1459. ISBN: 978-959-282-058-6.

58

Outro autor informa que existem 1.000 congregações (Cf. RAMOS, Marco Antonio. El protestantismo en el resurgir religioso cubano In Periódico Ecuménico cubano. Miami, octubre 2005). Talvez a diferença numérica deve-se ao fato de que no âmbito protestante usam-se vários substantivos para se referir aos lugares de culto: templo, capela, missão. Às vezes numa mesma comunidade há um templo principal ao que se subordinam capelas e missões. Possivelmente, neste caso, a primeira cifra (900) alude somente aos templos, ao passo que, a segunda a todos os recintos de adoração, exceto às casas de culto.

59

Calzadilla destaca as cifras de casas de culto oficialmente reconhecidas pelo Estado cubano, mas existe um número considerável de lugares de culto que oferecem serviços religiosos que não estão registrados nas instâncias jurídicas, por isso, no texto de Ramos aparece uma cifra superior. Segundo este autor, em Cuba há entre três e quatro mil casas de culto. Cf. RAMOS, Marco Antonio. El protestantismo en el resurgir religioso cubano. Op, cit.

60

Cf. cap. 1, p. 34 da presente pesquisa. 61