1. Introduction
1.2 The human immune system
3.1. Abordagem geral
Ao abordar o termo cultura, uma das incógnitas a decifrar é o ponto de partida, pois existem diversas maneiras de tratar os fatores humanos que constituem determinado povo: a partir das raças, dos episódios históricos de suas presenças, dos antecedentes alienígenas das instituições indígenas e pelas culturas inseridas na própria base62, entre outros aspectos.
Para compreender a alma cubana, segundo Ortiz, a análise deverá partir das culturas e não das raças63, por isso, “seria inútil e errado analisar os fatores humanos de Cuba a partir das raças”, devido à impossibilidade de definir muitas categorias raciais e à insignificância das mesmas no que tange à cubanidade, que é uma categoria da cultura64. A presente pesquisa seguirá essa lógica, ou seja, tomar as matrizes culturais como ponto de partida no intuito de compreender o substrato cultural do povo cubano.
O termo cultura interpreta-se de várias maneiras. No senso amplo, o vocábulo engloba conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes, assim como qualquer outra habilidade ou hábito adquirido pelos seres humanos como membros de uma sociedade65. Outra perspectiva interpreta a cultura como uma abstração do comportamento e não como comportamento, como uma continuidade gradualmente mutante66, que é tanto superindividual como superorgânica67. Ela está mais perto de uma interpretação histórica do que das explicações orgânicas ou psicossomáticas68. Neste sentido, a cultura de hoje é sempre uma aquisição da de ontem, pois grande parte do conteúdo de cada cultura tem provavelmente uma origem forânea, mesmo assimilado como um tudo que funciona, mais ou menos, coerentemente e filtrado como uma unidade69.
Uma visão diferente argumenta que o problema não está no fato de determinar se a cultura é abstrata ou real, mas no contexto da interpretação científica: quando atitudes
62
BARREAL, Isaac. Retorno a las raíces. La Habana: Fundación Fernando Ortiz. 2001, p. 154. 63
Idem. Ibid., p. 153. 64 Idem.
65
TYLOR, Edward Burnett. The Origins of Culture. New York. Harper Torchbooks, 1958, p. 1. 66
KROEBER, A.L. Anthroplogy. New York. Harcort, Brace and Company, ed. 1948, p. 262. 67
Para Kroeber, a palavra superorgânica não quer dizer que a cultura seja anorgânica, nem que a mesma seja uma entidade independente da vida orgânica; senão que quando dela se tratar, trata-se com algo que é orgânico, mas que também é mais do que isso. Cf. KROEBER, A.L. Anthroplogy, pp. 253, 254.
68
Idem. Ibid., p. 255. 69
e atos são considerados no contexto de sua relação com o organismo humano, lida-se com comportamento; quando os mesmos são analisados em termos de sua relação entre um e outro, estes se tornam, por definição, cultura70. Outras aproximações sobre o termo cultura poderiam ser abordadas, mas a que constitui o ponto referencialé a desenvolvida por Dussel, que a continuação será tratada.
3.2. Conceito de cultura, segundo Enrique Dussel
Para compreender sua conceituação responder-se-ão, pelo menos, quatro perguntas: O que é civilização? O que é estilo de vida? O que é cosmovisão? O que se entende por ethos? Estes dois últimos aspectos têm uma grande relevância para o autor, por isso ele afirma que o primeiro assunto a se tratar numa cultura é a cosmovisão e, em seguida, o ethos71.
No que concerne ao termo civilização, Dussel explica que este vocábulo alude ao sistema de instrumentos criado pelos seres humanos, transmitido e acumulado progressivamente no decurso de sua história72. O referido sistema tem vários patamares:
a) a totalidade instrumental “dada à mão do ser humano”, isto é, o clima, a vegetação, a topografia;
b) as obras propriamente humanas, como estradas, casas, cidades e todas as demais utilidades, incluindo máquinas e ferramentas;
c) as utilidades intencionais, que permitem a criação e acumulação sistemática de outros instrumentos exteriores, por exemplo, as técnicas e as ciências73.
Já o estilo de vida alude ao temperamento de um grupo, ao comportamento coerente resultante de um reino de valores que determina certas atitudes diante dos instrumentos da civilização. Os estilos de vida se manifestam e expressam por meio das
70
WHITE, Leslie A. O conceito de sistemas culturais. Como compreender tribos a nações. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, pp. 19-21. O autor, usando como exemplo o tabu da sogra e a linguagem, explica que: “O
tabu da sogra é um complexo que engloba conceitos, atitudes e atos, que se considerados em termos de
sua relação com o organismo humano – isto é, como coisas que o organismo faz – assimilar-se-ão como comportamento. Mas se analisar o tabu da sogra no que diz respeito ao lugar de residência de um novo casal, à costumeira divisão do trabalho entre sexos, aos respectivos papeis no modo social de subsistência e de se defender e ofender [...], o tabu da sogra torna-se, por definição, cultura [...]. No que se refere à
linguagem, o autor explica que: Palavras, se consideradas na sua relação com o organismo humano – quer
dizer, como atos – apreciar-se-ão como comportamento. Mas, se avaliadas em termos de sua relação entre elas – produzindo léxicos, gramáticas, sintaxes, etc. –, palavras convertem-se em linguagem, sujeito de analise das ciências linguísticas e não das psicológicas. Assim, cultura é o nome atribuído ao tipo de eventos dependentes da simbolização, considerados num tipo de contexto extra-humano.
71
DUSSEL, Enrique. Oito ensaios sobre cultura latino-americana e libertação, pp. 30-31. 72
Idem. Ibid., p. 28. 73
obras de arte, modas de vestuário, ciências do espírito74, da linguagem e de todo comportamento em geral75.
Na perspectiva de Dussel, toda pessoa, todo grupo, atua sempre em vista de certos valores. Não apenas valores, mas também o que poderíamos chamar “certa visão de mundo”, que dirige os comportamentos futuros dos seres humanos em determinado contexto sociocultural. “Neste nível determinante das visões de mundo é que se pode compreender o pano de fundo da História universal das culturas. É a esse nível também que devemos nos remeter se quisermos dar conta dos constitutivos da cultura latino- americana”76.
O autor não conceitua o que é a cosmovisão, mas a lógica de sua abordagem coincide com a de Geertz, para quem visão de mundo é “o quadro que determinado povo elabora das coisas como elas são na simples realidade”77, quer dizer, “seu conceito de natureza, de si mesmo, da sociedade. Esse quadro contém suas idéias mais abrangentes sobre a ordem”78.
Já ethos pode ser sinônimo de sistema de atitudes79, isto é,
o complexo total de atitudes que, predeterminando os comportamentos, formam um sistema, fixando a espontaneidade em certas funções ou instituições habituais [...]. O ethos, a diferença da civilização, é em grande parte incomunicável, permanecendo sempre dentro do horizonte de uma subjetividade [...]. O ethos é um mundo de experiências, disposições habituais e existenciais, veiculadas inconscientemente pelo grupo, que nem são objeto de estudo nem são criticadas [...]. Esses sistemas éthicos [...] são vividos pelos participantes do grupo e não são transmissíveis, mas assimiláveis, isto é, para vivê-los é necessário, previamente, adaptar-se e assimilar-se ao grupo que os integra em seu comportamento80.
Depois de percorrer esses quatro conceitos – civilização, estilo de vida, cosmovisão e ethos –, Dussel define cultura como:
o conjunto orgânico de comportamentos predeterminados por atitudes diante dos instrumentos de civilização, cujo conteúdo teleológico é constituído pelos valores e símbolos do grupo, isto é, estilos de vida que se manifestam em obras da cultura e que transformam o âmbito físico-animal em um mundo humano, um mundo cultural [...] a cultura é realização de valores e estes valores,
74 Ao se referir às ciências do espírito, Dussel alude à História, à Psicologia e Sociologia, mas igualmente ao Direito.
75
DUSSEL, Enrique. Oito ensaios sobre cultura latino-americana e libertação, pp. 33, 34. 76
Idem. Ibid., p. 72. 77
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas, p. 48. 78
Idem. 79
DUSSEL, Enrique. Oito ensaios sobre cultura latino-americana e libertação, p. 73. 80
vigentes ou ideais, formam um reino coerente em si, que é preciso apenas descobrir e realizar81.
Em que medida essa conceituação resulta útil para o desenvolvimento da presente pesquisa? Se a interação dos seres humanos com o clima, a vegetação, a topografia através de obras e instrumentos propriamente humanos está fortemente influenciada pelas suas cosmovisões; se isto se traduz em comportamentos que variam segundo as características dos grupos humanos atuantes, então analisar a cultura de determinado povo implica em responder perguntas tais como: que atitudes assumiram diante dos instrumentos da civilização os diferentes povos que habitaram em Cuba ou chegaram à Ilha? Que estilos de vida se manifestam nas diferentes obras criadas por esses povos e como estas transformam a vida e o entorno das pessoas envolvidas? Que quadro elaboravam, ou elaboram, da natureza, de si mesmos e da sociedade? Neste sentido é que a abordagem de Dussel torna-se proveitosa. Uma tentativa de resumo do conceito de cultura por ele desenvolvido se apresenta na seguinte figura:
Conceito de cultura segundo Dussel
Elaboração do autor, novembro 200882.
81
DUSSEL, Enrique. Oito ensaios sobre cultura latino-americana e libertação, pp. 32 e 34. 82
Os conceitos para o gráfico aparecem em: Idem. Ibid., pp. 28, 32,33,34 e 73; e em. GEERTZ, Clifford.
Ao indagar a razão da ligação de determinados integrantes a certo grupo, ou ao inquirir no que diz respeito ao que o faz diferentes, envereda-se rumo ao tema da identidade. A seguir, algumas considerações relativas à identidade cultural.