2.1 Knowledge for teaching
2.1.3 How science pedagogical content knowledge develops
A relação com o governo Lula foi bastante destacada por todos os entrevistados. O conjunto das entrevistas revelou que há uma maior dificuldade de se assumir uma postura crítica em relação a este governo devido a divergências tanto entre as ONGs quanto no interior das próprias organizações. O dirigente da Fase aponta a maior dificuldade em se chegar a um consenso quanto às políticas do governo Lula.
Para resumir, eu acho que, com o governo Lula, no campo dos movimentos sociais e ONGs, houve um declínio do pensamento crítico. Uma dificuldade de autonomia. Outro dia numa reunião, eu fiquei chocado, porque uma pessoa queria que tirasse de um texto de análise de cenário a referência à corrupção. Uma pessoa de uma ONG. Não é que a pessoa apóie a corrupção. É um cuidado, é um pisar em ovos quando se trata do governo Lula, que eu acho extremamente negativa. Pelo menos eu tenho a tranqüilidade de dizer que a Fase tem uma postura bastante dura até, bastante coerente, não vamos deixar de criticar o superávit primário porque agora o Lula é o presidente. Coisas que durante anos e anos foram denunciadas durante o governo FHC. Então, porque mudar de discurso, se a realidade não mudou. Isso significa que não existe mais aquele bloco político. Eu acho que a questão central é essa. Um bloco político que de certa maneira articulava o PT, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, esse bloco se esfacelou pela própria cooptação das suas lideranças políticas partidárias e até sindicais para um tipo de política que negava a coerência de uma trajetória de anos. Se inaugurou um novo período político onde tende a haver novos alinhamentos. Eu acho que isso começa a se dar. Não é uma coisa que se dá da noite para o dia. (Fase2).
A entrevistada do Cfemea destaca, ainda, que a instituição foi repreendida por outras organizações da sociedade ao publicarem uma nota criticando o governo devido à proximidade das eleições. Da mesma forma, o dirigente do Instituto Pólis também afirmou sofrer críticas ao discordar das políticas do governo Lula. O dirigente do Instituto Polis também demonstrou preocupação com a imagem da organização para que ela não fosse vista como atrelada ao governo.
No ano passado, por exemplo, o Governo Lula destinou menos recurso do que ele havia colocado no ano anterior para o combate a violência contra a mulher. Ou seja, letra morta da lei [Maria da Penha] porque você tem uma lei e não tem dinheiro para cumprir a lei. Tava em período eleitoral. Quando a gente soltou o monitoramento do orçamento dizendo que tinha ido
menos recurso do que no ano anterior, que tinha cortado mais do que nunca em termos de contingenciamento de recursos durante todos esses anos. Teve gente que disse que a gente era de direita. Como é que a gente fazia isso num contexto daquele, qual era o nosso jogo, entendeu. Um compromisso com o governo Lula, com o PT, que faz perder a visão crítica das políticas das mulheres. Tudo bem que não tem dinheiro para as mulheres, mas antes disso vamos salvar a candidatura. Eu acho que a gente tem que ter coerência política. Não tá fazendo, não tá fazendo. (Cfemea).
Nos principais movimentos de moradia que foram apoiados pelo PT desde o início, tem lideranças que são muito mais fiéis, nesse momento, ao partido do que aos movimentos. Então eles não se dispõem a fazer um jogo de pressão aberto. Eles fazem mais uma petição e o Pólis não tem razão nenhuma para fazer sozinho. Então, o que nós fazemos? Fazemos um debate dentro do movimento. Se eu falar mal do governo todo mundo vai ser contra mim porque efetivamente melhorou várias coisas, mas é uma visão pobre, reduzida do que pode ser porque ainda que tenha melhorado um pouquinho não existe nenhum horizonte de um futuro melhor mesmo que esteja se desenhando. (Instituto Pólis).
Na época em que se estava elaborando o plano diretor, nós sempre comemorávamos quando fazíamos algum trabalho com alguma prefeitura que não fosse petista. Justamente porque a nossa preocupação era de que a gente não fosse identificado como um braço do PT. (Instituto Pólis).
Segundo a entrevistada do Geledés, a relação com o governo Lula é mais tensa do que com o governo FHC, devido à proximidade histórica das organizações com o partido. Ela destacou a dificuldade em se fazer críticas ao governo sem que se assuma a postura de oposição. Percebe-se, portanto, que a necessidade de definição de um posicionamento político, oposição ou situação, é uma das causas da maior dificuldade de relação com o governo Lula. Com a entrada desse governo, de certa maneira, houve a perda de referência de como atuar, do que criticar e do que defender. A entrevista apontou ainda a dificuldade do próprio governo em aceitar uma posição critica da sociedade civil organizada.
O que me parece é que o governo Lula é menos tolerante com a autonomia da sociedade civil. A crítica é menos digerida. O governo Lula é um governo que entende que nós, sociedade civil, somos co-responsável pelo poder. Nesse sentido ele tem dificuldade em lidar com a crítica. A autonomia em relação ao governo Lula não é mais complicada porque autonomia é a gente que garante, não é o governo que garante a autonomia, mas o diálogo é mais difícil porque facilmente a crítica é entendida como oposição ao governo. Muitas vezes se tem a impressão que no governo Lula as pessoas confundem apoio ao governo como cheque em branco ou desejariam que o
apoio ao governo significasse cheque em branco e tratá-lo como acima da crítica. Então, eu acho que isso é mais tenso no governo Lula principalmente porque no governo FHC essa relação era mais simples a gente podia assumir uma posição crítica, mas que também coincidia com um lugar de oposição. Porque a gente a compunha também. Nós éramos parte das forças de oposição aquele governo. No governo Lula tudo fica mais complicado porque esse é um governo que nós elegemos e o governo sabe que nós o elegemos, então o governo tem muita dificuldade de lidar com a nossa crítica. Porque ele entende que pelo simples fato de nós o termos eleito, tudo o que quer que ele faça ele está fazendo com o nosso consentimento e também com o nosso nome. Então é mais complexo. Tem uma mistura muito grande. Muita gente que é gestor hoje no governo foram nossos companheiros de luta e oposição em governos passados. Tem um nível de ambigüidade agora porque é como se fôssemos ao mesmo tempo situação e oposição. Então isso é um complicador. (Geledés).
De acordo com os trechos selecionados, pode-se observar que a dificuldade de relação com o governo Lula tem um duplo sentido: tanto do próprio governo em aceitar críticas e discordâncias da sociedade civil, como também das próprias organizações de se posicionarem e descolarem do governo ou do PT.
Assim, a eleição do governo Lula, em certa medida, contribuiu para a complexificação das relações entre ONGs e Estado devido aos laços de origem entre o PT e as organizações. Nas palavras dos entrevistados, é como se o governo Lula potencializasse uma dificuldade de ação e, portanto, de entendimento e clareza do papel das ONGs e suas funções políticas e sociais. No entanto, observa-se que se há relatos de divergência no campo das organizações da sociedade civil quanto ao posicionamento em relação ao governo Lula é porque há aquelas que colocam o compromisso com o governo acima da própria instituição, como ressaltou o dirigente do Instituto Polis, como também há aquelas organizações que possuem uma postura de respeito a seus valores e princípios. Neste sentido, ao serem apontadas essas divergências pelos representantes das ONGs entrevistadas, pode-se afirmar que apesar da maior dificuldade de interação com o governo Lula há exemplos de ONGs que mantém sua coerência institucional e política.
Pode-se perceber, além disso, que ao mesmo tempo em que o entrevistado da Fase afirma que houve um “declínio do pensamento crítico” e o “esfacelamento de um bloco político”, também afirma que “se inaugurou um novo período político”. Assim, apesar da relação com o governo Lula ser caracterizada pelo dirigente da Fase como um “pisar em ovos”, pode-se dizer que a perspectiva para a relação entre Estado e sociedade civil é positiva, pois, como o próprio entrevistado ressaltou, “tende a haver novos alinhamentos” ainda que isso não aconteça “da noite para o dia”