Em relação à diferenciação entre as entidades no campo das organizações da sociedade civil, muitos entrevistados fizeram referência às denúncias de corrupção ligadas as ONGs. Ao falarem da corrupção, os entrevistados tenderam a se apoiar no reconhecimento e na legitimidade da instituição para se diferenciarem das organizações “da nova geração”, “com novos propósitos”:
Nesse roldão da prestação de serviços aí eu acho que a gente começa a dançar. Essa identidade já começa a ganhar todo o desgaste de relações viciadas, não criteriosas e, no limite, até corrupta na relação do poder público com as chamadas ONGs. Isso fez com que aquelas organizações que seguem dentro de um campo político de direitos, como é o caso do Cfemea, como é o caso de outras organizações, pague o preço do desgaste de uma identidade que serviu de chapéu para quem não tinha a mesma cabeça. (Cfemea).
A ONG era um sinônimo de ético, de pra frente, uma nova cultura política. Com os escândalos, depois do ano 2000, que daí aparece o Garotinho... ele chama tudo de ONG. Os deputados que criam ONG para a sua mulher, prefeitos que criam ONG. Esse nome virou um nome genérico para tudo que não é governamental. (...) No período FH, começou-se a discutir, que é quando surge exatamente esse fenômeno, uma lei mais específica para essas entidades que é a questão da OSCIP. O nome correspondia ao que a gente queria que era nos distinguir de um clube de futebol. Só que a lei ficou capenga. A parte que supunha criar um fundo público o Malan vetou. Daí ela ficou uma camisa de força. Só que a gente não quer ser prestador de serviço para o governo. Porque só tem vantagem se fosse sistematicamente fazer contratos.(...) Vem uma nova leva de organizações que são as OSCIPs e que permitem essas falcatruas como as do Garotinho. Porque não precisa de licitação para passar dinheiro para ele. O garotinho contratava um monte de gente através dessa coisa. E, claro, se financiava, né. Não precisa de licitação, é OSCIP. Só que no jornal aparece como ONG, não são o que politicamente chama ONG, chama ONG porque são não governamental. O Ibase resolveu não entrar nessa porque íamos perder para nada.(...) Nós podemos ser parceiros de alguma forma, podemos ajudar a formular como fazer. Podemos avaliar, podemos monitorar, mas não ser executores. E isso tem uma tendência... não contratar funcionário e dar para uma ONG fazer... Isso a gente não aceita. (Ibase2).
Pode-se observar também nas falas selecionadas que a questão da corrupção resvala para a criação das OSCIPs e toca na questão do financiamento público. O tom e a forma como
abordaram a questão da corrupção e com a emergência do termo terceiro setor não demonstraram, contudo, que há uma preocupação de fato com a imagem da instituição em si. Esta percepção tem seu alicerce no fato de que quando se perguntava sobre a imagem da instituição a resposta invariavelmente positiva vinha seguida de um exemplo de reconhecimento da instituição ou situações que mostravam a audácia da organização frente a governos, empresas ou até a outras organizações da sociedade civil. E quando se perguntava sobre a imagem das ONGs em geral surgiam críticas relacionadas à corrupção. Ao se referirem sobre a corrupção e fazerem a separação entre as organizações da sociedade civil, a questão das OSCIPs apareceu de forma significativa.
No que tange à criação das OSCIPs, surgiram dois tipos de críticas: a primeira relativa ao controle do Estado sobre essas instituições e a segunda sobre essas instituições serem alternativas à criação do fundo público. Assim, apesar do que rege a Constituição brasileira e a ênfase dada à participação, as OSCIPs são encaradas como uma maneira contrária a esta prática e sua criação aliada a não implementação do fundo público uma evidência de que o Estado tem dificuldade de aceitar e estar efetivamente aberto à participação. Ou seja, as OSCIPs são criticadas por serem meios de corrupção e, também, por estarem conectadas de forma excessivas ao Estado. A fala do representante da Fase corrobora a idéia apresentada, “eu já falei várias vezes para parlamentares, CPI das ONGs devia ser CPI do Estado porque
toda CPI das ONGs o foco é sempre desvio de recursos públicos”. (Fase2, entrevistado2).
Dos seis entrevistados, cinco disseram que a organização nunca tinha pensado em virar OSCIP. Uma delas, entretanto, afirmou ser este um tema recorrente na instituição dada a vulnerabilidade financeira. Assim, percebe-se um discurso que tendia para uma auto- afirmação e diferenciação entre as ONGs existentes devido a um contexto de corrupção.
Como se pode ver pelas falas dos dirigentes do Inesc, do Instituto Polis e do Cfemea as redes também foram apontadas com uma forma de classificar as organizações, também sendo um indicador da legitimidade da instituição.
A gente coordena uma rede de informação mundial, tem várias conexões nesse campo... e você pode me dizer assim, me diz com quem andas que te direi quem es. As escolhas de integrar às redes e fazer trabalhos conjuntos também definem a sua identidade. (Instituto Pólis).
Desde o início, a nossa metodologia de trabalho é que a gente não faz as coisas sozinho. Tem que estar sempre articulado, nas redes, nos fóruns, com outras organizações. Então, nunca vai ver o Inesc sozinho num diálogo com o governo. Nós vamos estar sempre no diálogo junto, construindo agenda da sociedade, mas junto com outras organizações, outras redes. (...) A gente nunca vai sozinho. Isso é uma coisa da nossa característica e da nossa metodologia de trabalho. É o que a gente acredita que é a nossa missão institucional. (Inesc).
A gente nunca entra nessas coisas, convênios, conselhos sem dialogar com nossos parceiros de outras ONGs, outros movimentos sociais. Essas coisas são feitas sempre com muita consulta. A gente nunca sai fazendo nada sem sentir junto aos nossos parceiros o que que eles acham. .(Fase2, entrevista1).
As redes ainda foram apontadas como positivas na medida que significam uma unidade ação da sociedade civil:
Obriga a você enquanto instituição a ter outros olhares. A qualidade da tua intervenção, a qualidade do conteúdo da sua intervenção é diferente. Primeiro porque exige uma construção de um consenso mínimo entre as organizações envolvidas. Então obriga a dialogar em termos da agenda política com essas organizações. (...) Qualifica muito a intervenção porque obriga você a ter olhares diferentes. Então, te obriga também a fazer o diálogo das diferentes agendas. Tentar construir um certo consenso.(Inesc). A gente nunca faz nada sozinho, né. A gente só consegue, só imagina a possibilidade de trabalhar coletivamente. A gente entende que nenhuma organização é capaz de enfrentar os desafios que estão colocados na sociedade brasileira de luta contra as desigualdades, as injustiças sociais sozinho. A gente não tem essa capacidade. Nenhum de nós tem. A gente precisa trabalhar conjuntamente. A gente precisa trabalhar em rede.(Fase2, entrevista1).
Assim, as redes foram consideradas importantes pelos entrevistados no sentido de que legitimam a ação das organizações. Isto porque, uma vez inseridos na rede há uma atuação conjunta, um diálogo para se chegar a um consenso, e também, há o respaldo de uma organização nas outras.