Entrando na capela, a simplicidade é pungente. O que se experimenta é um sentimento de kenosis, agravado pelo mau estado geral da edificação, e de conservação das obras que ela
652 “Bruno Giorgi (Mococa SP 1905 - Rio de Janeiro RJ 1993). Escultor. Muda-se com a família para Roma, em
1911. No início da década de 20 estuda desenho e escultura. Participa de movimentos antifascistas. É preso e condenado a sete anos de prisão. Após ter cumprido quatro anos da pena é extraditado para o Brasil, por intervenção do embaixador brasileiro na Itália. Em 1937, em Paris, freqüenta as academias La Grande Chaumière e Ranson e conhece, nesta última, Aristide Maillol, que passa a orientá-lo. Convive com Henry Moore, Marino Marini e Charles Despiau. Em 1939, em São Paulo, trabalha com os artistas do Grupo Santa Helena e participa da Família Artística Paulista, FAP. A convite do ministro Gustavo Capanema, em 1943, vai a trabalho para o Rio de Janeiro e instala ateliê na Praia Vermelha, onde dá aulas, entre outros, para Francisco Stockinger (1919). Dos monumentos públicos de sua autoria destacam-se Monumento à Juventude Brasileira, 1947, nos jardins do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio da Cultura, no Rio de Janeiro; Candangos, 1960, na Praça Três Poderes, e Meteoro, 1967, no lago do edifício do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília; Integração, 1989, no Memorial da América Latina, em São Paulo”. Disponível em:
http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia/artesvisuais2003/index.cfm?fuseaction=Detalhe&cd_v erbete=511, acesso em 05.11.2011.
653“Uma delas, Nossa Senhora com o menino Jesus, foi então adquirida por um colaborador da Unilabor, o
empresário Jorge da Cunha Lima, que a mantém até hoje em perfeito estado. Jorge da Cunha Lima conta a história, muito interessante, da aquisição da estátua: [...]Um dia o cardeal dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta visitou a capela. Não julgou adequada a presença de uma Nossa Senhora tão sensual nem de um São João com as pernas deformadas. Frei João Batista informou-me, com dor, que iria vender as imagens. Questão de obediência. Na ocasião meu pai me ofereceu dinheiro, suficiente para eu comprar um “fusca”, que amenizaria minhas idas às aulas do Cristo Operário. Peguei o dinheiro, disse a frei João que era tudo o que tinha e que eu comprava a escultura. Pedi apenas uns trocos para pagar o carreto da Estrada do Vergueiro até a minha casa. E lá cheguei com a Nossa Senhora no colo. Está claro que nunca mais meu pai me financiou um automóvel”. CLARO, Mauro. UNILABOR..., pp. 23-24.
contém. Ali dentro, contemplando o mural do Cristo Operário se experimenta realmente que a divindade do Cristo se rebaixa, que ele se faz um como nós654.
Junto ao tema do Cristo Operário, nessa mesma linha cristológica, ínsito no mural da Sagrada Família, e de maneira mais evidente, é o tema do Cristo Servo. O menino Deus representado em atitude de quem ajuda o seu pai, São José, é figura do Cristo Servo, verdadeira vítima que livremente, humilhou-se por nós, sem abrir a boca, como um cordeiro levado ao matadouro (Cf. Is. 53, 7). Ele é o “agnus dei, qui tollis peccata mundi”, é aquele que leva as nossas culpas e que dá “nobis pacem”.
Outro elemento a ser colhido do mural da Sagrada Família, é a presença silenciosa de Deus em meio aos homens, através de seu Filho. Por mais de trinta anos, Jesus conviveu com os seus, no seio da Sagrada Família de Nazaré, sem se manifestar abertamente e assumindo totalmente a realidade humana.
Esse era, de certo modo, o ideal do projeto de Frei João Batista: estar presente em meio aos operários como um deles, assumindo humildemente a realidade humana dada e vivenciada, apresentando-a como culto espiritual e oferenda agradável ao Pai, para assim transformá-la, exatamente como nas palavras de São Paulo: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos mortais como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rom. 12, 1-2).
Essa é a impressão preponderante que se tem ao observar todo o conjunto da Capela do Cristo Operário. Essa impressão é sublinhada sobremaneira, ao contemplar-se novamente o mural central. Embora haja uma certa expressão de tristeza no rosto do Cristo de Volpi, os seus braços abertos com as palmas das mãos ligeiramente voltadas para cima e a sua posição diante de uma fábrica, diante da realidade do nosso dia-a-dia, transmitem a ideia do mistério Pascal, do Cristo que assumindo a nossa frágil humanidade, morre, desce aos infernos, Ressuscita ao terceiro dia e Ascende aos céus, levando a nossa carne à presença do Pai. O Cristo, a nossa Páscoa, que foi imolado por nós, está ali presente e nos convida a celebrar com ele na pureza e na verdade (cf. 1Cor. 5, 7-8). É o mistério da divinização do homem em Cristo, tema tanto amado e desenvolvido pela Igreja oriental.
654“[...] O Cristo, despiu-se das suas fabulosas auréolas para tornar-se, no interior da igrejinha, um simples
operário, um companheiro e um camarada com quem após um dia de trabalho se pode trocar olhares de compreensão e de ternura. E exclamar, banhado de satisfação: que bom!” ARROYO, Leonardo. Igrejas de São Paulo..., p. 279.
Mais uma vez, aqui há o movimento do Cristo que se abaixa até a nossa realidade, para depois apresentá-la ao Pai redimida. Assim, a capela oferece um ambiente litúrgico que quer dialogar com os mais pobres, dos quais quer se aproximar e atualizar o ideal de uma comunidade de trabalho vivido pela comunidade cristã, que se mostrava assídua ao ensinamento dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações, pois todos os que tinham abraçado a fé, reuniam-se e punham tudo em comum (cf. At 2, 42.44).
Os elementos na Capela que podem ser conduzidos à influência do ML são bastante claros: a nave única decorada com arte modernista pressupunha uma catequese constante dos padres em relação aos fiéis que, até onde se sabe, acolheram com entusiasmo pinturas e decorações que em outras igrejas certamente teriam provocado a ira dos fiéis. O ambiente simples e direto facilitava o acesso visual dos fiéis à celebração litúrgica, que podiam melhor acompanhar os ritos. O Cristo Operário pintado por Volpi na parede do fundo da Capela ajudava a deixar mais claro o ideal de um cristocentrismo aplicado na vida.
Conforme pude apurar pelo testemunho pessoal de alguns fiéis que vivenciaram o período da construção da Capela, as liturgias eram marcadas por uma maior participação dos fiéis nas missas dialogadas, ali celebradas por Frei João Batista.
3.3 A Igreja de São Domingos