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Departementenes styring og innflytelse

O projeto da igreja obedeceu a uma linha teológica pré-estabelecida. Isso fica claro ao se ler uma carta datilografada encontrada no Arquivo da Província, de autoria de frei Domingos. A mesma dá uma explicação geral da igreja e revela a intenção teológica que os dominicanos quiseram imprimir à edificação:

A Igreja de São Domingos

[...] O projeto obedeceu a uma linha teológica previamente estabelecida que julgamos interessante apresentar aos leitores.

Partimos do princípio de que o templo é a casa onde o homem vai ao encontro de Deus. Jesus chama o templo de Jerusalém “a Casa de meu Pai” (Jo. 2, 16), ou, citando Is. 56, 7, “Casa de Oração” (Mt. 21, 13; Mc. 11, 17; Lc. 19, 46). O templo é, pois, a casa onde o homem vai para orar, para ouvir a mensagem de Deus, para louvá-lo. Enfim, para se encontrar com ele deve, portanto, favorecer o recolhimento e ajudar o crente a atingir seu objeto religioso.

No cristianismo, nosso encontro com Deus se faz através do Cristo, o Filho de Deus que se fez Homem para libertar o homem da escravidão do pecado e ser para ele ‘caminho, verdade e vida’ na busca de Deus.

672 Frei Jorge Cid, disse que na época foram feitas essas estruturas para acolher dois altares laterais, de modo que

a igreja pudesse ser dedicada, pois do contrário escandalizaria ainda mais o clero; mas a intenção explícita dos padres era de que a igreja apresentasse um único altar. Comunicação pessoal, 24.10.2004.

Por isso, foi pedido ao arquiteto que esta igreja não tivesse nenhuma coluna e que a parte dos fiéis fosse em plano inclinado de maneira que todos quantos entrassem ali, pudessem seguir facilmente todas as cerimônias que se desenvolvem no altar. Também a iluminação indireta, tanto natural como artificial, ajuda os fiéis a concentrarem toda a atenção no altar674.

No texto, frei Domingos, prossegue dizendo que havia a intenção de se proceder a um programa iconográfico, apresentando um esquema de pinturas na linha da Bíblia dos Pobres:

Pensou-se então em aproveitar os blocos de parede para, numa fase posterior quando se procedesse à decoração, fazer ali um plano de catequese rápida. Assim, os blocos da esquerda de quem entra, serviriam para projetar figuras e textos do Antigo Testamento relacionados com o Messias prometido por Deus a seu Povo. Seriam: Abraão, o pai do povo de Deus; Moisés, o seu libertador e legislador; Davi, o Rei de cuja descendência havia de nascer o Messias; alguns profetas e, por último, João Batista, o precursor675.

O altar em seguida, é apresentado como mensa domini, e como centro da leitura da iconografia, do momento que representa o Cristo Ressuscitado, passando depois para a outra parede, com os temas da Igreja:

No centro, o altar tendo como pano de fundo a parede marcada por uma grande Cruz bem iluminada, mas sem a imagem do Cristo, porque o Cristo que nela morreu, ressuscitou e continua vivo na sua Igreja. O altar, uma simples mesa, onde se realiza a Ceia do Senhor e ao mesmo tempo se comemora todo o mistério de sua vida, morte e ressurreição para a salvação dos homens. O altar é também o lugar do encontro da família de Deus, da refeição comum num testemunho de verdadeira fraternidade, como os primeiros cristãos que se ‘mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações’ (At. 2, 42). Os blocos de parede do lado direito serviriam para focalizar figuras da Igreja, que é a continuação de Cristo. Em primeiro lugar Maria, a Mãe de Jesus, que é também Mãe do Cristão, representado por João, o ‘discípulo amado’ ao pé da Cruz: ‘Eis aí tua mãe’ (Jo. 19, 27). Em seguida, Pedro, o chefe da Igreja; Paulo, o apóstolo dos gentios e os evangelistas.

(Infelizmente esta decoração ficou por se fazer e até hoje não se realizou, apesar dos esforços do Dr. Heep.).

As estátuas

Uma coisa que chama a atenção em nossa igreja é a ausência de imagens de santos, numerosas às vezes em outras igrejas católicas.

Aqui temos apenas duas estátuas: uma da Virgem Maria e outra de S. Domingos, esta na sacada da igreja. Cabe aqui uma palavra de explicação. A maior preocupação foi levar os fiéis ao encontro com Deus através de Cristo. Sendo este objetivo primeiro, procuramos fazer com que a atenção não fosse desviada nem se fixasse em outras figuras que não a de Cristo.

674 Arquivo da Província Dominicana, Texto sem data, datilografado em folhas avulsas de autoria de frei

Domingos da Maia Leite.

675 Idem. Quanto a essa decoração, Frei Carlos Josaphat, disse que havia a intenção de fazê-la em arte abstrata.

A estátua da Virgem:

Esta estátua foi projetada, confeccionada e oferecida à nossa igreja pela escultora Liuba Wolf. A alma artística e Cristã de Liuba, que é ortodoxa, viu na Mãe de Jesus a figura da mulher que ‘conservava cuidadosamente todos os acontecimentos (referentes a seu Filho) e os meditava em seu coração’ (Lc. 2,19) e que foi escolhida por Deus para ser a Mãe por excelência [grifos no original]: Mãe do seu Filho e Mãe dos homens. Demos-lhe então o nome de Nossa Senhora Mãe dos Homens [grifos no original]. Maria é, pois, essencialmente contemplativa e a maior de todas as mães. Para se compreender a estátua nesta dupla dimensão cumpre olhá-la de perfil e a distância.

A estátua de São Domingos:

Foi projetada e confeccionada pelo escultor italiano Vangi, que passou algum tempo em São Paulo e retornou à Itália. O que caracteriza São Domingos, este grande Santo, foi o seu amor pelo Evangelho e seu zelo em levar a palavra de Deus aos homens. A sua estátua exprime isto mostrando o Santo que parte em pregação. Está colocada à porta da igreja, como que levando ao mundo tudo o que a igreja no plano de conjunto nos fala e nos ensina. É o que parte para pregar, que parte para levar aos homens a mensagem de Deus.

O batistério

O batistério de nossa igreja também merece uma explicação. Duas coisas aí chamam a atenção: a pia batismal e os vitrais.

A pia batismal:

Foi o próprio arquiteto quem a projetou. É um bloco de granito bem trabalhado, com duas cavidades arredondadas, uma grande e uma pequena. A cavidade grande devia receber posteriormente um globo cuja parte inferior, em metal inoxidável, seria o depósito da água batismal. A cavidade pequena é onde se realiza o batismo com água retirada do globo.

Os vitrais

Os vitrais são de autoria de Yolanda Mohaliy e são destinados a uma rápida catequese do batismo. O tema que os inspirou está em íntima conexão com a pia batismal. É o seguinte: o mistério da vida que brota da água pela ação do Espírito de Deus [grifos no original]. Isto em três fases: a) na criação do mundo, quando o espírito de Deus pairava sobre as águas e surgiam os seres vivos (cf. Gen. 1, 2 e 20); b) no batismo de Cristo por João Batista no Jordão, quando o Espírito Santo apareceu sob forma de pomba e o Pai se fez ouvir dizendo: ‘Tu és meu Filho bem-amado; eu hoje te gerei’ (Lc. 3, 5); c) o batismo cristão, que é um novo nascimento ‘Na água e no Espírito’ (Jo. 3, 5) como ensina Jesus a Nicodemos676.

A igreja de São Domingos foi um projeto de vanguarda, protagonizado pelo ML através da ação dos dominicanos. Foi muito provavelmente, a primeira igreja paroquial em São Paulo onde se celebrava costumeiramente a missa versus populum. Toda a modernidade do edifício foi aceita pelos fiéis, que recebiam uma constante formação de cunho teológico e litúrgico através do frades, o que ajudava a promover a participação dos fiéis na liturgia.

Essa forte identificação entre liturgia e vida ajudou a desenvolver um sentido profundo de ação social na paróquia e que se caracterizou pela atuação política de alguns fiéis em

defesa dos direitos dos mais pobres e necessitados. Além disso, a paróquia, a partir também da influência da celebração da liturgia participada pelos fiéis, revelou ser um dos bastiões da defesa dos direitos humanos em plena época de repressão militar, sofrendo não poucas perseguições.

Conclusão

Ao concluir este trabalho, verificamos que a influência do ML na cidade de São Paulo pôde ser sentida em âmbito arquitetônico. As igrejas analisadas revelaram disposições nos seus ambientes, que demonstravam uma preocupação explícita na maior participação dos fiéis na celebração da liturgia. Além disto, foi possível perceber uma abertura maior, de franco diálogo, com o mundo moderno ao se observar que igrejas como, a capela do Cristo Operário e a paróquia de S. Domingos optaram por receber trabalhos de artistas modernistas, que tinham pouquíssima aceitação por parte da Igreja no Brasil. Outro fato positivo é que esses trabalhos de caráter modernista, de difícil aceitação também por parte do povo em geral, foram aceitos pelas comunidades dos fiéis do Cristo Operário e de S. Domingos, graças a todo um trabalho de inserção dos leigos e de formação feito pelos frades dominicanos. Desse modo, a arte modernista deixava de ser um fenômeno elitista das classes intelectuais superiores para se tornar patrimônio dessas comunidades católicas.

Por outro lado, a influência do ML na arquitetura religiosa, no geral, se concentrou a poucas experiências, haja vista as dificuldades que o próprio ML enfrentava em São Paulo em relação às diatribes com os movimentos marianos. Outro fator deste pequeno avanço era a pouca aceitação de uma arquitetura moderna por parte de um clero, pouco formado em matéria de artes, e mais preocupado com a sacralidade do edifício do que com a sua funcionalidade, principalmente em relação à celebração da missa relacionada com a assembleia dos fiéis. A isto podemos somar uma mentalidade saudosista na Igreja, que se concretizava na proliferação dos estilos arquitetônicos históricos em matéria de construção de novas igrejas.

Embora houvesse todas essas dificuldades, as igrejas influenciadas pelo ML continuam sendo um marco para a arte sacra em São Paulo e, o mais importante, as comunidades de fiéis continuam vivas, ativas e participantes da liturgia da Igreja.

ANEXOS