O conceito de recuperação tem sido definido pelos estudiosos da problemática como um assunto bastante complexo.
38 Reportagem publicada pela revista Nova Escola, Edição Especial, maio 2008. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/planejamento-e-financiamento/como-nao-deixar- ninguem-425224.shtml#>. Acesso em: 3 mai. 2009.
No dicionário Houaiss (2009, p. 637) encontra-se o verbo recuperar relacionado aos seguintes significados: ―voltar a ter (o que estava perdido); reaver; (...) ter novamente; restabelecer (-se); (...) reabilitar (-se), reintegrar (-se). Esses conceitos confirmam os sentidos atribuídos pelos estudiosos.
Paro (2001) afirma que o próprio termo "recuperação" é impróprio, pois significa recobrar algo que existia e de que se esteve privado. Para o autor, o aprendizado de fato não existiu, por isso o termo recuperação deve ser relacionado a uma correção em processo e a realização de um aprendizado que não houve.
Em Nórcia (2008), a recuperação está associada à avaliação, pois esta caminha junto ao processo ensino/aprendizagem, dando ao aluno a oportunidade de fazer as correções necessárias durante o processo para que possa ter acesso a bens culturais e garantir sua permanência no sistema educacional.
A visão de Paro (2001) não se distância de Nórcia (2008), quanto à necessidade de retificação, atualização de algo que não foi dominado e, portanto, não apropriado, não apreendido.
Na mesma direção situa-se o pensamento de Macedo (1999), quando cita que uma parcela de alunos se perde durante o ano letivo e quando
[...] precisam de conteúdos para preparar um trabalho ou resolver questões de uma prova, não sabem como recuperá-los. [...] Cabe aqui ressaltar que só se busca algo que representa um valor: aquele livro, aquela anotação que será útil de alguma forma, que despertou algum tipo de interesse (MACEDO,1999, p.2).
O pensamento de Macedo (1999) ressalta, portanto, o sentido dado pelo aluno ao que faz, ao que aprende. Se for significativo, é útil, senão, é descartado.
Para Caldas (2010), a recuperação é vista como um apêndice do processo educacional e voltada para alunos rotulados de antemão [...]. A autora defende a ideia de que
[...] a aprendizagem nas salas regulares deve ser objetivada com mais afinco, de modo que a assistência do professor e dos colegas que aprenderam - pares mais hábeis - se dê na própria sala, ou seja, a sala de aula deve ser o espaço de mediação, por excelência, no qual as crianças precisam ser intensamente trabalhadas, considerando-se as zonas de desenvolvimento proximal (CALDAS, 2010, p.225).
recuperação – exposição do aluno pela saída da sala regular.
Na legislação do Estado de São Paulo, o conceito está associado a dificuldades de aprendizagem:
[...] É destinada aos alunos do ensino fundamental que apresentem dificuldades de aprendizagem não superadas no cotidiano escolar e necessitem de um trabalho mais direcionado, paralelo às aulas regulares (Resolução SE 15, de 22 fev. 2005).
Belther (2006) faz referência à recuperação paralela como mecanismo de revisão de conteúdos e superação de dificuldades.
A recuperação paralela constitui um mecanismo colocado à disposição do aluno para superar eventuais dificuldades de aprendizagem, não superadas no cotidiano escolar. No regime de ciclos e sem reprovação, as aulas de recuperação paralela adquiriram uma grande importância porque são elas que possibilitam a revisão dos conteúdos e superação das dificuldades dos alunos (BELTHER, 2006, p.84).
Fica claro no texto de Belther (2006), a necessidade de superar as dificuldades de aprendizagem. Sendo assim, ela demandará ações que levem a esse fim.
Em consonância com o pensamento de Paro (2001), enfatizo que a recuperação deve ser vista como uma correção em processo. Ela demanda: tempo, mediação permanente do professor, além do oferecimento de novas formas de tratamento de conceitos, uso de novos recursos instrucionais e de alternativas de ação que propiciem o envolvimento e participação do aluno, para que ele possa envolver-se nas atividades e atribuir-lhes sentido, construindo assim autonomia para resolver futuros problemas. Esse pensamento encontra similaridade com práticas formativas no sentido de Abrecht (1994), Allal (1986), Perrenoud (1999/2000).
Conforme descrevi anteriormente, os países que vêm obtendo resultados positivos têm organizado os estudantes com dificuldades de aprendizagem em salas que apresentam número reduzido de alunos. Procuram proporcionar atenção individualizada, após ter sido feito o diagnóstico de suas necessidades, e respeitar o ritmo diferenciado e o conhecimento que os alunos trazem. Essas salas funcionam no contraturno e a identificação das dificuldades é feita pelo professor com formação especializada que escolhe os recursos que utilizará.
Vê-se, portanto, que estão presentes, nesses países, elementos comuns: respeito à diversidade, diagnóstico, atendimento às necessidades dos alunos, adaptação do ensino às características dos alunos, formação especializada dos professores.
Logo, um país, que tenha em vista a melhoria da qualidade da educação, deve envidar esforços nessa direção. Ainda que as diferenças existentes entre os países sejam consideradas, elas não devem ser vistas como empecilho para implementação de um processo de recuperação produtivo.
No Brasil, a adoção de ações que visam à recuperação das aprendizagens tem-se revelado uma tentativa criada para minimizar o fracasso visto nas escolas e para ―responder‖, burocraticamente, a determinações da legislação em funcionamento.
Tal afirmação encontra respaldo nas recentes pesquisas sobre recuperação que abordam o fracasso escolar, a avaliação e recuperação de alunos. Há, porém, necessidade de continuar buscando soluções para os problemas existentes na educação. Quando retomei as pesquisas desenvolvidas para construir um referencial a respeito do que os pesquisadores vêm construindo sobre a recuperação da aprendizagem, sua relação com o processo de avaliação e com as práticas efetivadas, pude identificar aspectos importantes sobre o tema que podem indicar possíveis caminhos para melhorar o processo.
É nessa direção que esta pesquisa caminha. Antes, porém, é preciso identificar quais são os elementos relacionados à recuperação da aprendizagem na escola, e considerados essenciais ao estabelecimento, direcionamento e organização da recuperação e de seus encaminhamentos.