3. Materials and methods
3.3 Data collection
3.3.1 Hospital-based study
Outras aulas foram semelhantes à aula 15, a aula considerada típica, como as gravações 1 (de 11/4/2016), 11 (de 20/6/2016), 12 (24/8/2016), 16 (19/10/2016) e 17 (20/10/2016), todas elas apresentando pelo menos quatro dos sete eventos típicos citados. Essa aula típica será descrita e analisada a seguir.
A gravação 15 ocorreu no dia 5 de outubro de 2016, equivalendo à aula número 50, já na fase final do curso Fairy Tales, visto que terminou em novembro. A gravação dessa aula durou 44’30’’ (quarenta e quatro minutos e trinta segundos). Nela foram observados os seguintes eventos: 1. Entrega dos livros; 2. Música de início de aula; 3. Explicação/correção de três tarefas; 4. Reconto da história; 5. Chamada; e 6. Recolhimento dos livros. A história trabalhada na ocasião foi a João e o pé de feijão.
Primeiramente a PP chamou os alunos ajudantes do dia para pegarem os livros no armário e fazerem a distribuição. Após isso, a música Hello teacher foi cantada, por cerca de 30 segundos. Em seguida, a PP explorou seu vocabulário, perguntando quem estava happy, hungry, sick e sleepy. Isso levou mais um minuto. As tarefas feitas nesse dia foram as 5, 6 e 7. Curioso observar que logo depois, um aluno lembrou a PP de que ela não havia perguntado sobre quem estava sad, o que a fez voltar a esse assunto rapidamente. A tarefa 5, reproduzida na Figura 12 (página126), levou do 1’40’’ até 7’30’’ (6 minutos, portanto), sendo que a PP primeiro tentou tirar a instrução das crianças, perguntando-lhes o que elas achavam que era para ser feito. Elas deveriam colocar as imagens da história em ordem cronológica, tratava-se de uma tarefa de ordenação, segundo Willis (1996). Assim que uma das crianças disse “números”, a atividade começou. Então a PP começou a repetir com os alunos os nomes das personagens de cada quadrinho, sem, contudo, ler as frases que estavam ao lado como legenda5. Em seguida,
4 Segundo memórias da PP. 5 Ver trecho de aula na página 14.
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perguntou: “Qual é o number one?”. Isso levou os alunos a se deterem mais no desenho, sem levar em conta a frase-legenda, embora a PP tenha descrito brevemente cada imagem por meio das personagens que apareciam em cada cena. Nessa fase, a docente mostrou uma preocupação em seu diário de pesquisa, como se pode ver a seguir:
(...) eles fizeram muito rápido. Por quê? Por causa dos desenhos somente? Acho que sim. Mas então será que eles não estão aprendendo nada, só vendo qual desenho é primeiro e assinalar? (DIÁRIO, 2016, p. 73)
Esse questionamento surgiu em vários momentos do curso, já que essa atitude causava a impressão de que os alunos respondiam algumas tarefas apenas baseados nas imagens. Isso não era verdade, entretanto, sobretudo porque a PP explorava as figuras, de forma que os alunos utilizavam tanto as imagens quanto as palavras que a professora dizia para completar as tarefas. A SEE/SP afirma que se deve:
possibilitar que os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental da Rede Estadual de São Paulo sejam iniciados na aprendizagem da língua inglesa, pelo desenvolvimento da habilidades de escutar, compreender e falar. (grifo do texto) (SÃO PAULO, 2015, p. 3)
A SEE/SP não cita, em momento nenhum, nada acerca das habilidades de leitura e escrita de aquisição da LE. Assim a PP se viu compelida a não fazer muito uso das referências escritas de seu material, de forma que a oralidade ficasse mais em destaque. Mesmo porque cada criança se encontrava em uma fase do processo de aquisição da escrita, então nem todas estavam preparadas para ler os enunciados das tarefas em inglês. A PP as ajudava, quando necessário, a identificar onde estava escrita uma ou outra palavra na LE, mas de maneira leve e ocasional, para não desrespeitar o desenvolvimento intelectual dos estudantes, nem se sobrepor ao documento oficial citado.
Ainda nessa tarefa, as crianças iam respondendo livremente e anotando os números no lugar apropriado. Após 3 minutos do início da tarefa, um aluno afirmou tê-la terminado, a PP checou e estava tudo correto. Na sequência, outros alunos foram até a professora mostrar a atividade terminada. Ela foi em cada mesa olhando se estava certo. A correção individual acontecia constantemente, uma vez que cada aluno apresentava um ritmo diferente de aprendizagem. Claro que nem sempre a PP conseguia dar essa atenção
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mais individualizada, mas, na medida do possível, isso era feito6. A tarefa 5 se encontra
representada a seguir na Figura 12.
Figura 12: Tarefas 5 e 6 do conto Jack and the beanstalk
Fonte: PÉRICO, 2016, vol. 2, p. 6
Ainda falando sobre a aula típica, a tarefa 6, também na Figura 12, levou cerca de quatro minutos para ser feita (dos 7’30’’ aos 11’30’’). Nela, havia quatro imagens, os alunos deveriam identificar onde a história ocorria: se no campo, na cidade, na praia ou na floresta. A PP primeiro fez a pergunta para todos, lendo o enunciado (Where does the
6 De acordo com memórias da PP.
127 story happen?). A seguir, dirigiu-se às mesas, perguntando individualmente e mostrando
as imagens coloridas do livro7.
A tarefa 7 foi a mais longa, durou cerca de vinte e sete minutos e também teve o enunciado lido em inglês, visto que era bem curto e continha uma pergunta (What is
going to happen next morning? Draw it.). Nela os alunos teriam que desenhar os
acontecimentos subsequentes à troca da vaca pelos feijões, feita por Jack. Como todos já conheciam a história, não tiveram dificuldades em realizar a tarefa. Durante esse período, diversas ações ocorreram: o desenho em si, a pintura, o reconto da história, a chamada, interações entre os alunos, e até mesmo interações de alguns alunos com a câmera do
tablet usado para gravar as aulas. Eles gostavam de ‘falar’ com a câmera, sendo que
alguns até representavam personagens e dançavam diante dela, enquanto a aula acontecia. O aluno Pedro, em outra aula, ficou tampando a imagem da PP com uma garrafa d’água, posicionando-a estrategicamente na frente da câmera. Sempre havia um ou outro aluno a se distrair em algum momento da aula com a câmera8.
Após cerca de três minutos das diretrizes para essa tarefa, a PP recontou a história com o auxílio de um avental de histórias9, em que personagens e objetos eram
afixados com velcros e podiam ser tirados e recolocados. Isso durou cerca de 4 minutos. Nesse momento, ela chamou alguns alunos para a “ajudarem” a recontar diante da turma. A PP contou a história até o trecho referente à tarefa, ou seja, até a parte em que Jack vai dormir, quando sua mãe fica brava por ele ter trocado a vaca pelos feijões. No restante do tempo, as crianças ficaram desenhando, pintando e se distraindo com os personagens do avental, os quais foram de certa forma disputados por elas, visto que todas queriam segurá-los. Sem dúvida, usar recursos desse tipo para contar histórias é eficaz, pois atrai a atenção dos alunos.
Por fim, os ajudantes começaram a recolher os livros aos quarenta e um minutos de aula. Entendemos que a tarefa 7, porém, ficou um tanto alongada, sendo que algo escrito poderia ter sido explorado nela, como os nomes dos personagens e dos objetos, por exemplo. Nesse dia, os alunos não queriam devolver os livros para os ajudantes guardarem, um deles até chegou a pegar seu material de volta, pois queria
7 Por falta de recursos, a PP precisou imprimir os livros em preto e branco, já que não podia haver cobrança
pelo material. Esse trecho também se refere a memórias da PP.
8 De acordo com memórias da PP.
9 Avental em que são afixados os personagens e objetos da história, com velcro, de modo que podem ser
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terminar a pintura. O gosto infantil pelo desenho e pela pintura já é fato consolidado, a criança se detém por longos períodos, se puder, nessas atividades. Segundo Lowenfeld e Britain (1970), a arte é uma forma de expressão para a criança, e ela tem impulsos criadores que lhe dão muita confiança. Se não fosse o ambiente externo, ela não desanimaria de desenhar. Houve apenas um dia em que um aluno se recusou a desenhar: Giovani não aceitou fazer a ilustração final sobre como era a aula de inglês, a qual foi utilizada nessa pesquisa como corpus também. O Quadro 6 ilustra os eventos da aula típica de 5 de outubro, do curso Fairy Tales.
Quadro 6 – Eventos típicos da aula de 5 de outubro Eventos
1. Entrega dos livros 2. Música de início de aula 3. Explicação/correção de tarefas 4. Reconto da história
5. Chamada
6. Recolhimento dos livros
Fonte: própria autora.
Convém lembrar que nem sempre esses eventos se apresentavam na ordem em que aparecem no quadro; ela podia mudar de uma aula para a outra – com exceção da música de início. A música de início de aula representa um resquício do projeto Early
Bird (SÃO PAULO, 2015), o qual recomendava que houvesse uma canção marcando o
início e o final do momento do “only English”, em que somente o inglês deveria ser usado. Com a descrição da aula típica, concluímos que a PP centralizou todos os seis eventos da aula, e, embora tenha tentado envolver os alunos em todos eles, proporcionando que participassem ativamente, nem sempre ela conseguiu fazer isso, como se pode ver no trecho do evento reconto da história, o qual reproduzimos novamente a seguir:
PP: Manuela is gonna be mommy, ok, não, a Manuela, Manuela is gonna be
mommy ((entrega a ela o boneco)) Mommy, look what I got you, são magic beans! No!! Vai jogando! ((Oto joga os feijões pela sala, eles dão risada e a PP
imita choro)). Oh, então paramos aqui na story. Mommy, ok, thank you,
Manuela.
(Aula de 5/10/2016 – 15’15’’-17’29’’)
.
Nessa parte da aula, a PP chamou a aluna Manuela, mas não a deixou participar de fato do reconto de forma ativa, visto que a própria PP falou o que a aluna deveria ter falado (“No!” e imitou o choro da mãe de Jack). Aqui vemos a PP centralizando o
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momento do reconto nela mesma, ao representar a personagem que deveria ter sido representada pela aluna Manuela. Ainda que a aluna não conseguisse se expressar na língua-alvo, a PP deveria ter lhe explicado. Sua justificativa, entretanto, é de que os alunos eram muito novos e requeriam maior orientação. Mas, ainda assim, entendemos que a professora-pesquisadora centralizou demais a aula, o que não condiz com a filosofia do Planejamento Baseado em Tarefa, considerado um tipo de planejamento analítico. Este, segundo Long e Crookes (1991), permite negociação de sentidos, e o docente não é o centro do processo.
No próximo item, elencamos as quatro categorias de análise desse trabalho: 1. As diferentes visões sobre o curso; 2. O eu e o outro na aula de LE; 3. Ensino de LE durante os processos de letramento e alfabetização; e 4. Os tipos de tarefas do material. Todas elas ajudarão a responder à segunda pergunta de pesquisa: “Como se deu a aprendizagem da língua inglesa para crianças por meio da utilização de material temático baseado em tarefas? A primeira delas será a categoria “As diferentes visões sobre o curso”.