Após firmar-se como uma poderosa fonte de renda no cinema, o Belzebu expandiu seus negócios apoderando-se do que é considerado como o maior veículo de comunicação do planeta: a televisão. A lista de criadores deste advento é numerosa, já que experimentos eram realizados desde o início do século em diversas partes do mundo. No entanto, registros apontam que a televisão foi apresentada oficialmente ao público na década de 30, em França, precisamente na Torre Eiffel. Fundamental para a história dos medias, não somente por emitir som e imagem simultaneamente, a televisão revolucionou a forma de se comunicar influenciando diretamente o comportamento social, político, econômico e cultural do mundo.
Assim como todo o produto em fase de construção, a televisão no início enfrentava dois problemas, sendo o primeiro o alto custo para a confecção do aparelho influenciando diretamente a sua aquisição. Foram muitas as tentativas de melhoria, que incluíram desde testes de transmissão, já que as primeiras imagens tinham baixa resolução e os próprios aparelhos não mediam mais que 10 polegadas, até chegar a confecção de um aparelho que fosse acessível à massa. Além disso, a fabricação dos televisores e a própria transmissão sofreu uma pausa devido a Segunda Guerra Mundial, realizada entre os anos de 1939 e 1945, impossibilitando os avanços tecnológicos.
“As fábricas de televisores foram utilizadas na produção de material bélico. Na Inglaterra, a guerra praticamente silenciou a BBC, além de ter restringido as transmissões da NBC nos Estados Unidos e as transmissões da televisão de Moscou” (Mattos, 2009, p. 166). Nessa altura, o rádio era o meio de comunicação mais abrangente do planeta. A televisão distinguia-se do veículo radiofônico em vários aspectos, sendo o principal deles a forma como o conteúdo era apresentado à população. A notícia deixava de ser lida, ouvida e passava a ser assistida. O rádio emitia o som, a televisão agregava a si, além do áudio o fascínio da imagem. Porém, deixava a desejar quando o assunto era acesso a toda à população.
48
[...] pelo sistema de ondas, que o rádio e a televisão passaram a ser o meio de integração entre os lares privados e o mundo lá fora. A televisão não requer do espectador uma iniciação como a requerida pela comunicação escrita: basta girar o botão ou contemporaneamente, apertá-lo no controle remoto, para ela “explodir” na casa dos cidadãos, nos termos de René Berger, um estudioso da televisão interessado na sua linguagem. (Figueiredo, 2003, p. 8)
De acordo com Ruivo (2006), somente na metade do século XX, após inúmeros testes tanto da parte de montagem de aparelho, emissão de imagens e da própria programação, que a televisão passa a ser acessível a todos. Entretanto, sua progressão e acessibilidade gerou certo temor por parte dos demais vieses de comunicação. “Produtores de cinema e os responsáveis pelos teatros começam a temer este novo adversário que começa a surgir nos lares de cada vez mais espectadores. A televisão torna-se, assim, em menos de uma década num meio de comunicação de massas” (Ruivo, 2006, p.5).
A outra questão refere-se ao repertório televisivo. Mesmo transformando-se em um veículo para a massa, era necessário que a televisão transmitisse uma programação que correspondesse às expectativas do público e também garantisse a rentabilidade aos investidores. A escassez de uma linguagem e programação própria foi um percalço, pois grande parte da grade televisiva era oriunda dos demais meios de comunicação da época. Machado (2000) desdobra que, a princípio a televisão não tinha característica própria. Toda programação exibida era extraída do rádio ou do impresso, gerando uma enorme dificuldade para selecionar qual produto seria direcionado ao telespectador.
“Muitas vezes, a televisão é utilizada para exibir filmes que foram feitos originalmente para o cinema, ou para transmitir espetáculos musicais, concertos e partidas esportivas não necessariamente concebidos para a tela pequena” (Machado, 2000, p. 26). Mesmo apropriando-se de produtos de outros meios, a televisão tratou logo de construir uma linguagem própria, que fosse compreendida e aceita pelo telespectador. A identificação por parte do público foi imediata e fez com que ela em pouco tempo se transformasse em parte da família, com direito aos melhores lugares da casa. Sentar-se a frente dela era uma diversão, mas também um aprendizado. Lá, o espectador podia conhecer lugares, idiomas, culturas diversas sem sair de casa e diferente dos demais meios, ela não exigia que o espectador fosse letrado, que tivesse formação académica ou mesmo uma classe social elevada.
49
A TV é um objeto, produzido em uma fábrica e distribuído fisicamente (através dos meios de transporte) e virtualmente (via propaganda). Neste ponto, ela se metamorfoseia em uma questão de estilo – uma valiosa (ou maldita) peça de decoração (...) A televisão possuí, em síntese, uma existência física, uma história como objeto de produção material e de consumo, além da reputação de ser um local de produção de sentido. (Miller, 2009, p.10)
A forma como conduziu a construção de sua programação fez com que em pouco tempo a relação entre o público e ela se estreitasse, transformando-a num objeto essencial para as relações sociais. De programas informativos, como os noticiários que tinham como principal objetivo atualizar o público com os principais acontecimentos do mundo a uma grade voltada ao entretenimento. A tv passou a concentrar em um único aparelho as diversas mídias existentes, adequando aos poucos a linguagem e estética de cada um ao seu modo. A televisão como afirma McLuhan (1971), consegue envolver e despertar sentimentos no espectador, firmando assim um laço de afinidade sem limites.
Mais do que uma diversidade de programação, a televisão abraçou todos os formatos. Cinema, rádio, impresso e sua mais variada gama de produtos estavam lá, incluindo o Bem e Mal que cada um trazia consigo sem nenhum preconceito. O Demoníaco por sua vez, se fez presente em sua programação quer seja atuando como personagens de filmes horrendos ou ao materializar-se nas mazelas mundanas explícitas nos programas sensacionalistas. Ele estava lá, em direto, a cores e sem nenhum preceito estabelecido. O Maligno que tantos temia e recusavam aceitar, fazia agora parte do convívio diário de milhões de pessoas. Machado (2000) explica que:
Ao longo dos seus mais de cinquenta anos de história, a televisão deu mostras de ser um sistema expressivo suficientemente amplo e denso para dar forma a trabalhos complexos e também abriu espaço para a intervenção de mentalidades pouco convencionais. (Machado, 2000, p. 10)
A capacidade de transmutação do Demo possibilitou a ele apoderar-se dessa nova ótica, se instalando neste veículo e reinando em absoluto em quase toda a programação. Os primeiros programas exibidos pelos ecrãs da tv, limitavam-se as notícias e a algumas transmissões esportivas, mas também havia vez ou outra a apresentação de óperas e filmes. Aos poucos, foram acrescentados à grade televisiva
50
novos programas, a exemplo dos programas de auditório que já faziam sucesso nas rádios pelo mundo a fora, e trouxeram o público para dentro da tv.
A televisão assim como o Mal, era dotada de um hibridismo absoluto, onde as mudanças de gêneros e suas mais variadas representações só faziam com que ela engrandecesse seu repertório e conquistasse cada vez mais admiradores. Machado (2000) explica, que apesar de alguns insistirem que a tv estava a ser banalizada, por inserir em sua programação produtos de cunho popular, a televisão mostrou-se democrática e mais que isso, posicionou-se como um meio que está em constante evolução, aberta sempre a experimentações.
“O gênero sempre é e não é o mesmo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo. O gênero renasce e se renova em cada nova etapa do desenvolvimento da literatura e em cada obra individual de um dado gênero”(Bakhtin, 1981, 91). O Capeta estava inserido na televisão desde o seu surgimento. De acordo com Almeida (2008), a representação do Maligno ocorreu em diversas formas, quer seja nas músicas de heavy metal que embalavam as trilhas sonoras, nos filmes hollywoodianos ou mesmo nas campanhas comerciais que cada vez mais atraiam investidores, que apostavam na televisão como uma vitrine que atingia milhões de pessoas em frações de segundos.
O Diabo é tanto mais eficaz como agente publicitário quanto maior for a folclorização da sua figura e esta acentuar a sua dimensão de pau-mandado inofensivo. Em pano de fundo, invisíveis, como aranhas nos seus buracos, os demônios do capitalismo estão sempre à espreita, tais modernos satanases reinado sobre um mundo submetido à lei do lucro. (Minois, 2003, p. 128)
A televisão foi apenas o trampolim que o levou ao topo, sem exigir em momento algum que ele desocupasse o posto de “Ser Temido”, o Mal era aceito e vangloriado por sua. Nos telejornais, nas músicas ou mesmo como personagens caricatos dos programas de auditório ele se fez presente. Porém, mesmo com toda a fama e dicotomia instalada em vários produtos exibidos na televisão, foi com as narrativas ficcionais seriadas que o Rabudo encontrou seu espaço de Glória, especificamente no Brasil, país conhecido e reverenciado mundialmente por sua produção imbatível de telenovelas.
51