• No results found

“A cidade, como expressão maior da capacidade social de transformar o espaço natural, não deixa, em função disso, de ser parte da natureza e de estar submetida às dinâmicas e processos naturais”. (Maria Encarnação Beltrão Spósito) 299

Inicialmente, convém ressalvar que fixar o conceito de cidade não é

tarefa fácil

300

, sobretudo porque é possível tomar como base uma diversidade de

abordagens, já que a cidade

301

pode ser compreendida com fundamento no conceito da

sociologia urbana (cidade como “situação humana”, “organização geral da sociedade”,

“centro de consumo de massa” ou “fábrica social”), no conceito demográfico e

quantitativo (baseado no número de habitantes do núcleo urbano), no conceito

econômico (conjunto de subsistemas administrativos, comerciais, industriais e

socioculturais no sistema nacional geral), no conceito jurídico-político (a cidade

consiste em um núcleo urbano, sede do governo municipal). De qualquer modo, é certo

que ela não pode ser definida por uma compreensão isolada, já que existe uma estreita

correlação entre microssistema ambiental e urbanístico a serem considerados, no que

tange à proteção e à defesa da qualidade e do bem-estar dos habitantes da cidade.

José Afonso da Silva

302

salienta três concepções: o conceito

demográfico de cidade, pelo qual se considera cidade, o aglomerado urbano com

determinado número de habitantes; a concepção econômica da cidade, como “localidade

299 SPÓSITO, Maria Encarnação Beltrão. “Embate entre as questões ambientais e sociais no urbano”, In:

CARLOS, Ana Fani Alessandri (org.) Dilemas urbanos: novas abordagens sobre a cidade, Op. cit., p. 359.

300 Olivier Dollfus preceitua que, “embora a noção de cidade pareça clara para todos, é difícil defini-la em

termos ao mesmo tempo precisos e que cubram toda a imensa variedade de aglomerações consideradas urbanas. Na maioria das vezes, a cidade implica a noção de aglomeração contínua, de trama fortemente construída e de convergência de redes (estradas de ferro e de rodagem, canalizações, adutoras de água, de eletricidade, esgotos, etc.)” (DOLLFUS, Olivier. O espaço geográfico, Op. cit., p. 79).

301 “Um grupo de pesquisadores do Brasil e EUA observaram que a sociedade xinguana desenvolveu um

tipo de urbanismo pré-histórico, comparável a algumas cidades-estados gregas (polis). Foram identificados conjuntos habitacionais, descritos como aglomerados urbanos “galácticos”, com aldeias que gravitavam em torno de um local que claramente era o centro político e religioso da urbe xinguana. Essa população pré-histórica transformou a paisagem. O que hoje parece uma imensa floresta virgem, afirmam os pesquisadores, abrigou no passado extensas roças, pomares e tanques para a criação de tartarugas” (“Estudo vê ‘cidades` indígenas no Xingu”, Folha de São Paulo, Ciência A18, São Paulo, 29/08/2008).

107

de mercado”, e a cidade como conjunto de subsistemas administrativos, comerciais,

industriais e socioculturais. No Brasil, continua o autor, “cidade é um núcleo urbano

qualificado por um conjunto de sistemas político-administrativo, econômico não-

agrícola, familiar e simbólicos como sede do governo municipal, qualquer que seja a

sua população”.

Cada época possui suas peculiaridades, enfrenta problemas

específicos e as cidades – qualquer que seja o conceito adotado – são o reflexo disto.

As ideias e ações relativas à cidade têm girado em torno de dois

termos clássicos

303

: polis e urbs. O primeiro de origem helênica, polis, significa

assentamento, estilo de vida (em oposição ao rural), organização da sociedade (política,

polícia e cidadania), influência na criação de novos centros (metrópole e

metropolização); o segundo, de origem latina, urbs/orbis, era aplicado com

exclusividade a Roma, centro político do Império e, por extensão, do mundo conhecido,

donde o binômio urbs et orbis.

Segundo De Plácido e Silva

304

:

O vocábulo vem do civitas latino, com significado muito mais

amplo do que aquele em que é tido pela técnica administrativa.

Nesta, com melhor razão, adotou-se o sentido de urbs, também

com a tradução de cidade. E a compreensão do próprio

perímetro citadino está concentrada na frase latina: Urbem

designat aratro, frase esta atribuída a Virgílio e que se traduz:

ele marca com o arado o círculo da cidade. Desse modo, a

cidade compreende o que, vulgarmente, se diz de perímetro

urbano, não se estendendo, pois, a seus arredores rurais e

términos, melhormente, compreendidos na jurisdição

municipal, não citadina. Daí se infere a distinção da cidade e do

município. Onde termina a zona urbana termina a cidade. O

Município é o todo que compreende a cidade, a zona suburbana

e a zona rural, sob sua jurisdição, ou intendência.

303 “O termo urbano foi resgatado apenas no século XVI em português para se referir à cidade-império, e

particularmente no século XVII à cidade-sede do Império Britânico em construção, segundo o Webster’s Lexicon (1987), sendo que mesmo a palavra city (vinda do francês cité e do Latin civitas) impôs-se na língua inglesa a partir do centro financeiro de Londres, generalizando-se no período vitoriano em contraposição ao campo. Raymond Williams (1973; 1983) mostra que a palavra city apareceu no século XIII de forma paradigmática referindo-se a cidades ideais ou bíblicas (em lugar de borough ou town) e qualificando representações do poder: cidade provincial, cidade catedral, etc. Para uma breve discussão dos conceitos de polis, civitas, e urbs ver Cardoso (1990) e Carpintero (1998)” (HOUAISS, Antônio.

Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 216).

304 DE PLÁCIDO E SILVA. Dicionário vocabulário jurídico, 25. ed., Rio de Janeiro: Forense, 2004, p.

108

Assim, a cidade deve ser observada não só como território que

concentra um importante grupo humano e uma grande diversidade de atividades, mas

também como um espaço simbiótico (poder

305

político/sociedade civil) e simbólico (que

integra culturalmente e confere identidade coletiva a seus habitantes, tendo um valor de

troca com o exterior) que se transforma em campo de respostas possíveis desafios

econômicos, políticos e culturais de nossa época.

Numa interessante abordagem biológica do urbanismo, Henri

Laborit

306

estabelece que a cidade é “uma produção humana”, na qual os grupos

humanos não se diferenciam de um organismo vivo, isto é, de um agrupamento de

células, cuja finalidade é a conservação de sua organização, da sua estrutura complexa

num ambiente que o circunda. Assim, a cidade é somente um “meio” para realizar uma

finalidade: a conservação da estrutura social.

Como Tucídides

307

fez dizer a Péricles: “O poder da cidade não tem

outra razão senão a de proteger o cidadão de qualquer opressão, venha ela de fora ou de

dentro”

.

“A cidade é, pois, o reflexo de uma história e a figuração do espaço

de uma evolução econômica e social”, ressalta Olivier Dollfus

308

. Apesar de suas

vicissitudes, de suas fases de crescimento e de declínio, Atenas e Roma representam

vinte e cinco séculos de história. A cidade é um organismo vivo cujos elementos

transformam-se, decaem, renascem ou deslocam-se.

“Para os romanos o espaço da cidade coincide com o espaço do

mundo”, declama Fasti de Ovídio

309

.

A cidade é, pois, um ecossistema, efetivamente, mas não natural.

Nele sobressai-se o homem, pois por ele construído para suprir suas necessidades. De

acordo com Eugene Odum

310

, “cidade é um ecossistema e, como tal, contém uma

comunidade de organismos vivos, onde predomina o homem, um meio físico que se vai

305 Conforme enfatiza Jacques Le Goff, “a cidade é centro de poder; é o lugar de difusão de ideias; de

reunião. E caminha em direção ao policentrismo” (LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades, São Paulo: Fundação Editora UNESP, 1998, p. 144).

306 LABORIT, Henri. L’uomo e la cittá, tradução de Raffaele Rinaldi, Vicenza: Arnoldo Mondadori

Editor, 1973, p. 19-27.

307 De fato, relata Tucídides no clássico “A Guerra do Peloponeso” que Péricles era a pessoa mais

adequada para quanto se referisse às necessidades de Atenas à época da invasão dos peloponesos e que esse grande estrategista “guiou a cidade em período de paz, a conduziu com moderação e assim a manteve segura, e esta se tornou grande sob seu governo” (TUCÍDIDES. La guerra del peloponeso, Livro II, 65,50).

308 DOLLFUS, Olivier. O espaço geográfico, Op. cit., p. 88.

309 BENÉVOLO, Leonardo. História da cidade, 3. ed., São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 76. 310 ODUM. Eugene P. Fundamentos de ecologia, Op. cit., p. 50.

109

transformando, fruto da atividade interna, e um funcionamento à base de trocas de

matérias, energia e informação”.

Isso porque, conforme refere Maria Garcia

311

, “todas as questões,

problemáticas e complexidades da questão urbana refluem, especificamente, a um único

elemento social: o ser-Homem”.

Nisso se concentra o espaço urbano – o espaço da existência humana,

do País, do planeta, enfim. Ratzel

312

compreende a cidade como:

Uma reunião durável de homens e habitações humanas que

cobre uma grande superfície e encontra-se no cruzamento de

grandes vias comerciais. Para Wagner as cidades são pontos de

concentração do comércio humano. Para Pierre George as

cidades são formas de acumulação humana e de atividades

concentradas, próprias a cada sistema econômico e social,

reconhecidos a partir de fatos de massa e arquitetônico.

No dizer de Francisco Capuano Scarlato e Joel Arnaldo Pontin

313

, “a

cidade implica um grande ecossistema, heterotrófico, ou seja, um ecossistema

incompleto, que depende de áreas externas a ele para obtenção de energia, alimentos,

água e outros produtos”.

Como enfatiza Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida

314

, “a cidade,

holisticamente considerada, é também um sistema, um ecossistema complexo, unitário,

indivisível, imaterial”.

É, pois, a formação resultante das relações (atividades) entre

aglomeração de seres humanos (comportamento cultural) e construções (forma de

ocupação do espaço e sistemas de produção).

Observa Celso Antônio Pacheco Fiorillo

315

: “a cidade é entendida

como o espaço territorial

316

onde vivem os seus habitantes”. E ser habitante da cidade

311 GARCIA, Maria. “A cidade e o Estado. Políticas públicas e o espaço urbano”, In: GARCIA, Maria

(coord.). A cidade e seu estatuto, Op. cit., p. 32. Maria Garcia utiliza aqui a expressão adotada por Franco Bartolomei, In: La dignità umana come concetto e valore constituzionale, Torino: G. Giappichelli, 1987, p. 39: “l’essere-Uomo”.

312 ROLNIK, Raquel. O que é cidade, Op. cit., p. 68.

313 SCARLATO, Francisco Capuano; PONTIN, Joel Arnaldo. O ambiente urbano, 2. ed., São Paulo:

Atual, 1999, p. 71.

314 YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. Tutela dos interesses difusos e coletivos, Op. cit., p. 133. 315 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro, Op. cit., p. 200.

316 “A cidade é o lugar geográfico onde se manifestam, de forma concentrada, as realidades sociais,

econômicas, políticas e demográficas de um território; ainda, o espaço contínuo ocupado por um aglomerado humano considerável, denso e permanente, cuja evolução e estrutura (física, social e econômica) são determinadas pelo meio físico, pelo desenvolvimento tecnológico e pelo modo de produção do período histórico e cujos habitantes têm status urbano” (ROCHA, Júlio Cesar de Sá da.

110

significa “participar de alguma forma da vida pública, mesmo que em muitos casos esta

participação seja apenas a submissão a regras e regulamentos”, ressalva Raquel

Rolnik

317

.

Ao fixar um conceito de cidade, Júlio César de Sá Rocha

318

esclarece:

Ela pode ser compreendida como centro populacional

permanente, altamente organizado, com funções urbanas e

políticas próprias; espaço geográfico transformado pelo homem

pela realização de um conjunto de construções com caráter de

continuidade e contiguidade. Espaço ocupado por uma

população relativamente grande, permanente e socialmente

heterogênea, no qual existem atividades residencial, de

governo, industrial e comercial, com um grau de equipamento e

de serviços que assegure as condições da vida humana.

Dessa forma, as cidades não podem ser analisadas separadamente,

como se fossem um aspecto independente do meio ambiente. Ao contrário, dependem

dos demais aspectos e com eles entrelaçam-se harmoniosamente.

Nesse sentido, adverte José Roberto Marques

319

“o conceito de

cidade deve considerar não apenas o aspecto estável, mas também o dinâmico,

constituído pelas transformações socioculturais e econômicas”.

Outline

RELATERTE DOKUMENTER