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Tamoio é uma palavra tupi que significa os que estavam aqui primeiro (PREZIA e HOORNAERT, 1995).

Antes da chegada dos portugueses, o território onde hoje é o Brasil, estava povoado por diversas nações que depois, receberam dos europeus o nome genérico de índios. Estes povos viviam, segundo relata Holanda (1981), em comunidades tribais nas quais a organização se fundamentava na solidariedade entre os membros do grupo. Citando Jean de Lery, Holanda transcreve:

Mostram os selvagens sua caridade natural presenteando-se diariamente uns aos outros com veações, peixes, frutas e outros bens do país; e prezam de tal forma essa virtude que morreriam de vergonha se vissem o vizinho sofrer falta do que possuem. (HOLANDA, 1981, p. 74).

Continua Holanda explicando que entre os povos indígenas as normas de conduta eram baseadas nas experiências dos antepassados, podendo ser aplicadas com eficiência a qualquer situação, mantendo inalterada a integridade estrutural e funcional da tribo. O pai, a mãe, o filho, a filha, os anciãos, os homens, as mulheres, o jovens, as crianças, todos sabiam, como afirma Holanda (1981) “o que esperar uns dos outros e como se comportar nas mais variadas situações tribais de existência”.

As decisões tomadas estabeleciam como “norma” os ensinamentos inferidos das experiências coletivas anteriores, impondo-se como se elas próprias fizessem parte das tradições seculares da tribo. Os mortos e os modelos de conduta por eles consagrados, governavam literalmente os vivos. (HOLANDA, 1981, p. 79).

Hoje ainda é possível encontrar grupos indígenas que se mantém o mais próximo possível próximos de suas tradições, conservando o método de educação recebido de seus ancestrais. Eduardo Graeff (1983), baseado em depoimentos de um cinegrafista, de uma enfermeira e de um etnólogo que conviveram alguns anos com os índios do Alto Xingu, reconstituiu alguns aspetos do cotidiano indígena. A educação do índio começa bem cedo e é função dos pais. As crianças ficam o tempo todo na companhia do pai, quando menino ou da mãe, quando menina, aprendendo as atividades concernentes à vida na tribo. Para os índios, a relação com a natureza é um aprendizado constante e que pode parecer muito estranho aos não índios. Segundo o autor, “O tempo de trabalho e de lazer pode chegar a um ponto que é difícil distinguir uma coisa da outra.” (GRAEFF, 1983, p. 30). No entanto, afirma ele que um menino com seis ou sete anos já é capaz de auxiliar o pai em uma pescaria, pilotando a canoa como se fosse um adulto, por exemplo, acumulando saberes que possibilitem que aos onze ou doze anos já esteja pronto para ser aceito como um membro completamente independente dentro da tribo. Logo estarão aptos para o casamento. A identidade cultural das comunidades indígenas está em seu modo de viver o seu cotidiano, mas se reafirma em seus rituais mágico-religiosos. A força dos rituais exerce um elo de ligação entre o natural e o sobrenatural, numa relação complexa entre passado e presente, na qual as expressões do corpo adquirem um papel preponderante:

Cada ritual do Alto Xingu é um sistema composto de três elementos interligados: no ponto de partida, o mito, a narrativa referente a uma ordem sobrenatural que o ritual de algum modo procura representar; na chegada, a própria representação, isto é, a dança, a arte plumária e a pintura corporal correspondentes a cada ritual; e no meio, música, que harmoniza o ponto de partida com o de chegada, despertando os sentimentos adequados nos participantes do ritual. A importância dessa viagem no tempo, proporcionada pelos rituais, ressalta-se quando se recorda que não existe um sistema centralizado de poder para assegurar a unidade da comunidade indígena; a unidade depende da adesão de cada membro do grupo ao complexo de valores culturais de que os mitos, precisamente, são o repositório. Por isso mesmo, a dose de prestigio e autoridade detida por cada índio está muito ligada ao seu papel enquanto patrocinador ou oficiante de determinado ritual. (BASTOS apud GRAEFF, 1983, p. 38).

Também o aprendizado sexual dos índios é muito valorizado, a começar pela divisão sexual do trabalho, estendendo-se às relações sociais e às condutas sexuais. Aracy Lopes Silva (1983) explica que as meninas índias casam-se geralmente muito cedo, lá pelos doze ou treze anos, mas seus maridos são escolhidos pela família ainda na infância. A diferença de idade entre

os noivos é sempre grande, podendo chegar até os dez anos. O casamento com o escolhido, embora seja uma preferência da família, não é por sua vez, imperativo. A menina pode, se quiser, escolher outro noivo. Quanto às atividades sexuais, Silva relata:

A atividade sexual feminina começa muito cedo. Isto parece não trazer problemas. Ao contrário, a atitude das mulheres diante do sexo é muito positiva. Fazer amor é uma coisa boa. Também esta é a opinião dos homens par quem a atividade sexual tem inicio mais tardiamente. Quando alcançam de nove a doze anos de idade, os meninos deixam a casa de seus pais e passam a viver numa casa de solteiros (...) as relações sexuais estão completamente proibidas. Isto prolonga por cinco ou seis anos, durante os quais os meninos são formados, desenvolvendo as qualidades que nesta sociedade são prezadas como típicas de um verdadeiro homem: força, resistência física, agilidade, destreza e agressividade. (...) Só depois disso é que são permitidas as relações sexuais. (...) Sua aprendizagem sexual faz-se quase sempre com uma cunhada (a esposa de seu irmão). Com ela e com outras cunhadas terá uma vida sexualmente ativa, até que chegue o momento da consumação de seu próprio casamento. (SILVA, 1983, p. 64).

Embora a atividade sexual seja muito bem vista nas sociedades indígenas, há momentos em que sua suspensão se faz necessária. Esta interdição se dá em ocasiões muito especiais, como por exemplo, durante o resguardo pós-parto, quando ocorrem tragédias envolvendo entes muito próximos e muito queridos ou mesmo durante o período de menstruação. Também, segundo Silva (1983), quando é momento de passagem de uma posição social para outra ou em vésperas de rituais de iniciação ou de lutas rituais. O resguardo é rigorosamente respeitado tanto pelo marido quanto pela esposa.

Chega uma idade em que o menino vira rapaz. Então ele fica um tempo separado. Chega uma idade em que a menina vira moça. Então ela fica um tempo separada. Os mais velhos ensinam para eles todas as coisas da vida, todos os segredos do nosso povo. Essa é a nossa escola mais antiga. Sempre o nosso povo fez assim. Quando acaba o tempo, o rapaz já é homem, a moça já é mulher. (Conselho Indigenista Missionário 1984).

Os índios, também chamados no inicio da colonização de negros da terra, possuíam um vasto conjunto de saberes, códigos e regras sociais bem definidas, inclusive no tocante ao comportamento sexual, e que foram transmitidas de geração a geração, chegando até os dias atuais em muitos grupos que ainda sobrevivem na floresta. Mas todo este conhecimento foi completamente ignorado pelos colonizadores como pode ser percebido no tópico a seguir.